O astuto deus sumério da sabedoria, Enki (também conhecido como Ea, Enkig, Dis, Nagbu, Nissiku e Nudimmud), era o deus sumério da sabedoria, da água doce, da inteligência, da astúcia e da malícia, dos ofícios, da magia, do exorcismo, da cura, da criação, da virilidade, da fertilidade e da arte. A iconografia representa-o como um homem barbudo, usando um gorro com chifres e vestes longas, enquanto ascende à Montanha do Nascer do Sol.
Nesta imagem, correntes fluídas brotam dos seus ombros, enfatizando a sua associação com a água que dá a vida, enquanto árvores que representam os princípios masculino e feminino permanecem em segundo plano. As correntes são interpretadas como os rios Tigre e Eufrates, que, segundo um mito, foram formados a partir do sémen de Enki. O seu nome significa "Senhor da Terra" e os seus símbolos são o peixe e a cabra, ambos representações de fertilidade, enquanto se acredita que os seus epítetos Nagbu, Nissiku e Nudimmud signifiquem "príncipe".
Originalmente, Enki (então conhecido como Enkig) era uma divindade suméria da água doce e patrono da cidade de Eridu, considerada pelos mesopotâmicos como a primeira cidade estabelecida no início do mundo, onde os deuses estabeleceram a lei. O deus aparece pela primeira vez em obras escritas durante o período Dinástico Antigo III (2600–2334 a.C.) e foi estabelecido como um importante deus dos Acádios por volta de 2400 a.C., que o conheciam como Ea.
Contudo, as escavações em Eridu revelaram evidências de uma tradição de santuários a Enki que remonta à fundação da cidade, cerca de 5400 a.C. Em Eridu, era conhecido como Enki e, mais tarde, em Akkad, como Ea; os dois nomes são usados de forma intercambiável para a mesma divindade, tal como o nome babilónico Nudimmud. Enki era conhecido como Ninsiku apenas no seu aspeto de patrono dos ofícios e da arte, especialmente de objetos dedicados a temas divinos.
A Genealogia e a Descendência
Enki era filho de Anu, o deus do céu, na mitologia suméria e acádia, e filho de Apsu, o pai primordial, nos textos babilónicos. É também referido como filho da deusa Nammu, uma deusa-mãe primordial que deu à luz a terra e os céus.
Enki era casado com Ninhursag (também conhecida, entre muitos outros nomes, como Ninmah e, originalmente, como Damgalnuna, a Damkina assíria), e os seus filhos foram Asarluhi (deus do conhecimento mágico), Enbilulu (deus dos canais e diques), o sábio humano Adapa e o rei dos deuses, Marduk (que mais tarde absorveria as qualidades de Asarluhi).
Tiveram também oito filhos nascidos dos esforços de Ninhursag para curar Enki no mito Enki e Ninhursag:
- Abu – deus das plantas e do crescimento
- Nintulla – Senhor de Magan e dos metais preciosos
- Ninsitu – deusa da cura, esposa do deus da cura Ninazu
- Ninkasi – deusa da cerveja
- Nanshe – (também Nanse, justiça social, fertilidade, adivinhação e interpretação de sonhos)
- Azimua – deusa da cura, esposa da divindade do submundo Ningishida
- Emshag – Senhor de Dilmun, deus da fertilidade
- Ninti – deusa da costela, dadora da vida
Enki é também frequentemente representado como o pai (ou tio) de uma das mais populares e duradouras divindades, Inanna, deusa da guerra, sexualidade, paixão, fertilidade, amor e prostitutas. Tinha um irmão gémeo, Adad (também conhecido como Ishkur), deus do clima e das tempestades.
A Aparição na Literatura
Existem inúmeras histórias, lendas, orações e inscrições reais mesopotâmicas nas quais Enki desempenha um papel fundamental. É famosamente retratado nas obras que envolvem Ninhursag (Ninmah), tais como Enki e Ninhursag e Enki e Ninmah, ambas relacionadas com a criação do mundo e da humanidade. A Viagem de Enki a Nipur é outro mito de origem que explica como o deus criou Eridu e ordenou certos instrumentos musicais utilizados nos festivais da antiga Mesopotâmia.
No Enuma Elish, a epopeia babilónica da criação, Enki é o pai do campeão Marduk, que derrota as forças do caos, sendo co-criador do mundo com o seu filho. Enki aparece também nas obras O Atrahasis, O Casamento de Ereshkigal e Nergal, Inanna e o Deus da Sabedoria, A Descida de Inanna, Enki e a Ordem Mundial, Enmerkar e o Senhor de Aratta, A Epopeia de Gilgamesh, entre outras.
Enki era uma das divindades mais importantes do panteão mesopotâmico, juntamente com Anu (Senhor do Céu), Enlil (Senhor Supremo do Ar) e Inanna. Com Anu e Enlil, Enki formava uma tríade mesopotâmica arcaica que governava os altos céus, a atmosfera e a terra. É também incluído entre as sete divindades sumérias mais antigas como um dos Sete Poderes Divinos: Anu, Enki, Enlil, Inanna, Nanna, Ninhursag e Utu-Shamash.
A Origem Mitológica no Enuma Elish
De acordo com o Enuma Elish babilónico, Enki era o filho mais velho dos primeiros deuses, Apsu e Tiamat. No início dos tempos, o mundo era um caos rodopiante indiferenciado de onde se separaram Apsu, o princípio masculino personificado pela água doce, e Tiamat, o princípio feminino definido pela água salgada. Apsu e Tiamat deram à luz os deuses mais jovens, mas estas divindades não tinham tarefas e, por isso, divertiam-se da melhor maneira que podiam. O seu barulho constante distraía Apsu e interrompia o seu sono, razão pela qual, após consultar o seu vizir, decidiu matá-los.
Tiamat ouviu a discussão e ficou horrorizada com o plano, pelo que o sussurrou ao seu filho. Enki considerou várias ações e as suas consequências e procedeu com aquela que julgou ser a melhor: mergulhou o seu pai num sono profundo e, depois, matou-o. Tiamat nunca considerou tal possibilidade e renegou os seus filhos. De seguida, levantou um exército de demónios e monstros, liderado pelo seu consorte e campeão, Quingu (por vezes grafado como Kingu). Este exército dos deuses mais velhos derrotou Enki e os deuses mais jovens em batalha sempre que se encontravam, até que o grupo mais jovem foi repelido e começou a perder a esperança.
Nesta altura, o filho de Enki, Marduk, apresentou-se com uma proposta: se os deuses o fizessem seu rei, ele conduzi-los-ia à vitória. Antes disso, não existia um general a supervisionar as operações; cada deus assumia o comando por turnos. Uma vez eleito rei, Marduk enfrentou Quingu em combate singular e derrotou-o, disparando depois uma flecha contra Tiamat, tão grande que a dividiu em dois.
Dos seus olhos correram as lágrimas que se tornariam os rios Tigre e Eufrates, e o seu corpo foi usado por Marduk para moldar a terra. Quingu e outros deuses que tinham encorajado a guerra de Tiamat foram executados, e o corpo de Quingu foi usado para criar os seres humanos. Marduk consultou Enki sobre todas estas decisões, motivo pelo qual Enki é frequentemente creditado como co-criador do mundo e da vida.
Enki no Atrahasis
A história acádia/babilónica do Atrahasis apresenta uma versão diferente da criação, mas na qual Enki continua a desempenhar um papel fundamental. Nesta história, os deuses mais velhos levam uma vida de lazer e prazer enquanto obrigam os deuses mais jovens a realizar todo o trabalho de manutenção da criação. Os deuses mais jovens não têm tempo para descansar porque há sempre muito por fazer, pelo que Enki propõe a criação de seres inferiores que trabalhem em conjunto com eles.
Porém não têm ideia de que materiais usar para fazer estas novas criaturas até que um dos deuses, We-llu (também grafado como Ilawela), se oferece como voluntário para o sacrifício e é morto. A sua carne, o seu sangue e a sua inteligência são amassados em barro pela deusa-mãe Ninhursag, a partir do qual ela cria sete seres humanos masculinos e sete femininos. Estas catorze novas criaturas são excecionalmente férteis e, em breve, existem centenas e, depois, milhares de pessoas na Terra, todas a realizar o trabalho que antes ocupava os deuses mais jovens.
Inicialmente, estas pessoas são exatamente o que os deuses esperavam, mas à medida que o seu número aumenta, tornam-se mais ruidosas e um problema crescente. O seu barulho constante e as dificuldades perturbam o sono de Enlil, o rei dos deuses, distraindo-o tanto das suas tarefas diárias como do seu lazer, pelo que ele decide reduzir a população através de uma série de pragas. Enlil envia uma seca, depois a pestilência e, finalmente, a fome; de cada vez que o povo apela ao seu deus-pai, Enki, aquele que os concebeu pela primeira vez, ele ajuda-os, indicando-lhes o que devem fazer para devolver o equilíbrio e a produtividade à Terra e restaurar a saúde plena das suas comunidades.
Enlil sente-se frustrado, pois agora parece haver ainda mais pessoas do que quando tentou livrar-se delas pela primeira vez. Ele convence os outros deuses a permitirem-lhe desencadear um grande dilúvio, que destruirá a humanidade, e é suficientemente poderoso para fazer com que todos concordem. Enki reconhece a crueldade e a injustiça deste plano, mas não consegue dissuadir Enlil, pelo que vai até à Terra e encontra um homem honesto, Atrahasis, alguém que sempre foi sábio e bondoso e que se dedicou piedosamente a Enki. Enki sussurra-lhe que construa uma arca e que entre nela com um par de cada espécie de animal.
Atrahasis completa a sua missão precisamente quando o dilúvio começa. O povo clama por ajuda aos deuses, mas nenhuma ajuda é oferecida. Ninhursag chora pelo povo e é inconsolável, e os outros deuses também lamentam, mas ninguém consegue deter a inundação. Enlil reconhece que este dilúvio talvez não tivesse sido a melhor ideia, mas já é demasiado tarde; todos na Terra morreram.
As águas do dilúvio baixam, a arca repousa e Enki sussurra a Atrahasis que chegou a altura de abrir a embarcação e fazer sacrifícios aos deuses. Atrahasis assim o faz, e o doce aroma do seu sacrifício sobe até aos céus, de onde Enlil olha para baixo e vê que alguém sobreviveu. Ele sabe instantaneamente que Enki está por trás disto e, embora apenas momentos antes estivesse a arrepender-se do que tinha feito, concentra toda a sua fúria sobre ele.
Todavia, Enki explica-se e demonstra o quão bom e bondoso é o homem Atrahasis, direcionando todos eles para o doce sacrifício. Os deuses ficam agradados e descem à Terra para comer o sacrifício, após o que Enki propõe um novo plano: os deuses criarão seres menos férteis; os bebés serão levados por demónios, as mulheres sofrerão abortos espontâneos ou serão inférteis, e outras mulheres serão consagradas aos deuses e permanecerão virgens perpétuas.
Além disso, não será concedido aos humanos um tempo de vida muito longo e, no tempo que viverem, haverá oportunidades diárias para a sua morte por muitas causas diferentes. Os deuses concordam com esta proposta; Atrahasis, o último da sua espécie, é levado para as terras dos bem-aventurados, e Ninhursag cria as novas criaturas.
Enki como o Deus Bincalhão
Em ambas as histórias, Enki age no melhor interesse da comunidade, mesmo que essa comunidade não o saiba apreciar. No Enuma Elish, ele desafia as esperanças da sua mãe ao matar Apsu, mas tem de o fazer para um bem maior; e no Atrahasis, ele salva um homem bom para inspirar Enlil a dar à humanidade uma segunda oportunidade de viver. Na maioria das outras histórias, ele é mostrado da mesma forma. N’O Casamento de Ereshkigal e Nergal, por exemplo, ele organiza os acontecimentos de modo a que Nergal, deus da guerra, seja retido no submundo durante seis meses do ano, prevenindo assim a guerra e os conflitos durante esse período.
N’A Descida de Inanna, ele arquiteta o resgate da sua filha (ou sobrinha) do submundo, após ela ter sido morta pela sua irmã Ereshkigal, enviando dois demónios astutos para enganar a Rainha dos Mortos e levá-la a entregar-lhes o cadáver de Inanna. Ele é mostrado na história Inanna e o Deus da Sabedoria como o possuidor dos meh, as leis e poderes relacionados com toda a vida e os dons da civilização — as posses exclusivas dos deuses — os quais ele permite que Inanna lhe retire durante uma festa regada a álcool.
Embora envie várias forças atrás dela para recuperar os meh e devolvê-los a si próprio, parece que Inanna consegue escapar com os seus tesouros roubados com relativa facilidade. Nisto, Enki é visto como aparece noutras obras relacionadas com Inanna: como o pai de uma filha por quem faria qualquer coisa, mesmo que possa não parecer a escolha mais sábia ou até a mais justa dadas as circunstâncias.
N’A Descida de Inanna, afinal, Inanna causa os seus próprios problemas, e é, na verdade, Ereshkigal quem é injustiçada e deveria ser auxiliada. Ao ajudar Inanna, contudo, Enki restaura o equilíbrio no mundo e, novamente, toma a sua decisão com base no bem de muitos. Quando permite que Inanna leve os meh, ele sabe que ela dará os dons da civilização à humanidade, tal como sabe que os outros deuses esperam que ele os mantenha fora do alcance dos humanos.
Como um deus brincalhão, Enki revela a sua sabedoria e, assim, ilumina os outros através de ações que podem não fazer sentido à primeira vista. Este é o caso quando se deixa embebedar e permite que Inanna fique com os meh, mas também n’A Epopeia de Gilgamesh, quando consente na morte de Enkidu, o melhor amigo do herói Gilgamesh. Enkidu e Gilgamesh acabaram de regressar de outro triunfo quando Inanna (conhecida como Ishtar na história) tenta seduzir o herói, e Gilgamesh, enumerando os muitos outros amantes que ela teve e que tiveram um fim trágico, recusa-a.
Inanna envia o marido da sua irmã Ereshkigal, Gugalanna (o Touro do Céu), para destruir o reino de Gilgamesh, e Enkidu mata-o. Por ter levantado a mão contra um deus, Enkidu deve morrer. Enki consente nisto, embora reconheça que Inanna causou o problema, porque os seres humanos não devem pensar tão bem de si próprios a ponto de desafiarem os deuses. Mais importante, contudo, Enki percebe que a morte de Enkidu apresentará Gilgamesh à perda, e isto levá-lo-á a uma exploração do significado da vida, o que o tornará um indivíduo mais profundo e completo.
Mesmo em Enki e Ninhursag, onde ele seduz as suas filhas adultas porque elas o fazem lembrar da sua esposa, Enki é retratado de forma empática. Ele é punido pelas suas transgressões, das quais, como fica claro, só foi culpado devido ao seu grande amor por Ninhursag e a um tipo de encantamento sob o qual caiu por sentir a sua falta. O seu papel como deus brincalhão é evidente nisto, já que os seus vários passos em falso e pecados resultam no nascimento de divindades favoráveis à humanidade.
O mesmo é verdade em Enki e Ninmah, no qual Ninmah o desafia para um jogo enquanto bebem cerveja, e Enki consegue superá-la criando um ser que ela não consegue melhorar. A sua malícia em todos estes contos é prova da sua sabedoria e do seu desejo de fazer o melhor pela humanidade.
O Patrono de Eridu e a Adoração
Enki, como patrono da cidade de Eridu, é significativo no seu papel como deus da sabedoria. Eridu era considerada a primeira cidade criada pelos deuses, sobre a qual a ordem e a lei foram conferidas no início dos tempos, sendo mais tarde conhecida como a "cidade dos primeiros reis". Fundada cerca de 5400 a.C., Eridu permaneceria um importante centro religioso durante milhares de anos e serviria em histórias e lendas sobre uma "idade de ouro", da mesma forma que escritores hebreus posteriores citariam um Jardim do Éden.
As escavações na cidade revelaram santuários a Enki construídos e reconstruídos no mesmo local ao longo de milénios. Mesmo depois de o deus ser amplamente adorado noutros locais, continuou a ser associado a Eridu e ao abzu (também absu), as águas subterrâneas ali existentes. Enki era adorado principalmente no seu templo conhecido como E-abzu (Casa do Abzu) e E-engur-ra (Casa das Águas Subterrâneas), descrito e louvado em A Viagem de Enki a Nipur, no qual ele recebe as bênçãos de Enlil para a cidade após a sua criação.
Como acontecia com todos os outros importantes deuses e deusas mesopotâmicos, os sacerdotes cuidavam da estátua do deus, do zigurate do templo e do complexo do templo, que serviam o povo de muitas formas diferentes. Os templos dos deuses eram casas de cura, centros de aconselhamento, centros de distribuição e locais sagrados. Não existiam serviços religiosos nos templos como os reconheceríamos hoje em dia, e as pessoas interagiam principalmente com os deuses durante festivais, através da comunhão com os sacerdotes de escalão inferior ou em casa, através de rituais privados.
Conclusão
Em Eridu, Enki presidia ao abzu, mas também aos aspetos místicos deste pântano primordial do qual se pensava que a cidade — e a vida — tinha surgido. Acompanhado pelo seu ministro Isimud, Enki tinha também várias criaturas ao seu serviço, tais como gigantes, demónios (tanto protetores como destrutivos) e outros seres místicos. Acreditava-se que tritões e sereias habitavam as profundezas aquáticas do abzu sob a cidade, enquanto os Sete Sábios (os abgal) viviam com Enki no seu palácio.
Em cada história ou lenda, Enki está associado às alturas e profundezas da compreensão universal e é sempre visto como um amigo da humanidade. Quando confrontado com a escolha entre servir a vontade dos deuses ou as necessidades do povo, Enki escolhia sempre os interesses humanos e sempre o caminho da compaixão, do perdão e da sabedoria.
