Dólmens da Sicília

Salvatore Piccolo
por , traduzido por Filipa Oliveira
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É um facto bem conhecido que a Sicília, a maior ilha do mar Mediterrâneo, passou por um período pré-histórico bastante complexo. A tal ponto que é difícil orientar-se na confusão de povos que se sucederam ao longo dos séculos. Contudo, permance claro o impacto de duas influências: uma proveniente da Europa, que chegou do noroeste, e outra do Mediterrâneo, que apresentava uma clara matriz do Médio Oriente.

Monte Bubbonia Dolmen, Sicily
Dólmen de Monte Bubbonia, Sicília Salvatore Piccolo (CC BY-NC-SA)

O Contexto Mediterrânico

Nos últimos anos, esta ilha revelou, à semelhança de outras áreas mediterrânicas, a presença de pequenos monumentos do tipo dólmen, que se encontram em quase todo o lado, tanto no interior como ao longo da sua costa. Tais monumentos, já conhecidos no norte da Europa com dimensões maiores, têm intrigado os estudiosos há séculos e, com os avanços científicos e técnicos da arqueologia moderna, estamos finalmente a começar a compreender algo sobre a sua finalidade e os significados que tinham para as pessoas que os construíram. Trata-se de um tipo de túmulo, geralmente constituído por dois ou mais megálitos verticais que suportam uma laje horizontal plana (mesa), formando uma construção em que os elementos estruturais delimitam um espaço quadrangular. Na realidade, a configuração típica dos dólmenes é trilítica, embora alguns deles tenham evoluído para construções bastante complexas, como é o caso dos dólmenes em falsa cúpula, em que o estreitamento do telhado era obtido através da diminuição gradual da distância entre as lajes da construção, ou em construções compostas por uma série de câmaras em torno da câmara central.

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As evidências arqueológicas revelam que pelo menos um dos dólmens sicilianos, nomeadamente o de Cava dei Servi, foi utilizado como local de sepultamento.

Em cada região, no entanto, surgiram problemas imprevistos no que diz respeito à recolha e ao transporte dos materiais de construção. Nas áreas onde a pedra era extremamente dura e difícil de lascar, ergueram-se monumentos enormes; por outro lado, noutros locais onde a pedra era fácil de lascar, construíram-se estruturas pelo método da pedra seca, em vez de se recorrer à verdadeira técnica megalítica. É o caso da Sicília, onde existem atualmente cinco ou mais desses monumentos. As evidências arqueológicas mostram que pelo menos um destes monumentos, nomeadamente o de Cava dei Servi, foi utilizado como local de sepultamento, revelando a verdadeira finalidade para a qual foram construídos neste local.

Os dólmenes mediterrânicos datam de uma época mais recente do que os atlânticos (entre o final do III e a primeira metade do II milénio a.C.) e estão presentes nas Ilhas Baleares (Espanha), na ilha da Sardenha (Itália), na Apúlia (sul de Itália) e em Malta. Malta alberga os sítios pré-históricos mais extraordinários do Mediterrâneo, os «templos megalíticos»: foram construídos entre cerca de 4000 e 2500 a.C. e estão dedicados a um culto que venerava uma deusa da fertilidade. Os dólmenes locais, no entanto, datam de um período posterior (a segunda metade do 3.º milénio a.C.). Na maioria dos casos, trata-se de pequenas câmaras, com a cobertura constituída por uma grande laje assente sobre pedras verticais, pertencentes a uma população que é definitivamente diferente daquela que construiu os templos megalíticos anteriores, que presumivelmente chegou da Apúlia devido à semelhança das construções também aí encontradas.

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Map of Sicilian Dolmens
Mara dos Dólmens na Sicília Salvatore Piccolo (CC BY-NC-SA)

Monte Bubbonia

Na Sicília podem encontrar-se dólmens semelhantes aos dos locais acima mencionados. É o caso do de Monte Bubbonia, uma colina majestosa com 595 metros de altura, a 20 km da cidade de Gela. O monumento é constituído por lajes colossais de rocha, sem alterações significativas e de forma retangular. Uma laje de giz funciona como tampa e assenta sobre dois megálitos paralelos, formando uma câmara com cerca de 2,60 metros quadrados. A parte posterior está encastrada na inclinação natural do terreno, enquanto a parede traseira foi criada através da união de duas lajes poligonais. Os frequentes deslizamentos de terra resultaram numa inclinação visível para a direita, causando um estreitamento da parte inicial da câmara. A entrada, que se abre para nordeste, segue a mesma orientação astronómica de todos os dólmens sicilianos. A ideia arquitetónica original era, sem dúvida, uma pequena câmara funerária, tal como se encontra na Sardenha e na Apúlia, com a parede traseira encostada à encosta íngreme da colina para facilitar o enterro, como era habitual neste tipo de arquitetura.

Cava dei Servi

Mais a nordeste, no Planalto de Iblea, um local denominado Cava dei Servi foi palco de povoamentos humanos desde a Idade do Bronze (c. 2200 a.C.) até ao primeiro período da Cultura de Pantalica (cerca de 1270 a.C.), época à qual pertencem muitos enterros em pequenas cavernas artificiais escavadas ao longo das paredes rochosas. Esta área, que não fica longe da elevação do Monte Lauro, garantia excelentes oportunidades comerciais graças à extração de sílex, uma vez que era fácil de transportar ao longo dos cursos dos rios Tellaro e Anapo. Na parte mais alta da elevação, uma construção de lajes de tamanho médio domina uma paisagem que não pode deixar de suscitar sensações místicas.

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O monumento tem uma forma semi-oval, composto por quatro lajes retangulares fixadas no solo, com outras três lajes no topo, que se inclinam de tal forma que reduzem a área da superfície e formam uma espécie de «falsa cúpula». Duas grandes rochas paralelas, em forma de tubo, completam a construção. As quatro pedras verticais que formam a curva têm dimensões mais ou menos uniformes, o que demonstra a capacidade construtiva necessária para criar a aderência adequada entre os elementos individuais. As três lajes inclinadas que foram colocadas no topo, no entanto, têm dimensões irregulares, devido ao facto de não terem sido concebidas para garantir estabilidade, pelo que a precisão teria sido supérflua.

The Dolmen of Cava dei Servi
O Dólmen de Cava Servi Salvatore Piccolo (CC BY-NC-SA)

No interior da câmara, encontra-se uma grande laje calcária que se fraturou em quatro pontos. Parece que se tratava da pedra da abóbada do monumento e que caiu ao chão devido a inúmeros deslizamentos de terra que afetaram a estrutura. Todas as peças, de facto, teriam feito parte de um grande monólito, com a face frontal esquadriada para se ajustar à porta de fecho. A disposição das pedras deu forma a um edifício com cerca de 3,00 metros quadrados, situado na encosta do monte para facilitar o enterro no interior do edifício.

Os numerosos fragmentos de ossos humanos (as únicas pistas orgânicas encontradas até agora no interior de um dólmen mediterrânico) e algumas lascas de cerâmica castelluciana (uma cultura siciliana da Idade do Bronze Inicial) determinaram a função e a cronologia desta construção única. Os vestígios antropogénicos confirmaram a natureza funerária do local, enquanto os fragmentos de terracota, embora poucos, permitiram datar o dólmen da Idade do Bronze. A localização em torno de um cemitério rochoso confirma a convicção de que não se trata de uma tentativa de superar uma estrutura arquitetónica particularmente exigente e perigosa, como a pequena caverna artificial. Estamos, na verdade, perante algumas elaborações absolutamente únicas. Este local, portanto, terá também albergado uma necrópole de dólmens. Estruturas semelhantes foram encontradas na Península Ibérica, na Sardenha, na Apúlia e na vizinha ilha de Malta, onde poderão ter uma origem comum com este fenómeno siciliano. O mistério que paira sobre os construtores de dólmens malteses e sicilianos poderá ser desvendado aqui mesmo, na Sicília.

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O mistério que paira sobre os construtores de dólmens malteses e sicilianos poderá ser desvendado aqui mesmo, na Sicília.

Por volta de 2500 a.C., a avançada Civilização de Tarxien (que dá nome à localidade maltesa homónima) do pequeno arquipélago a sul da Sicília, com o seu vasto complexo de quatro templos megalíticos, desapareceu repentinamente. O arqueólogo maltês Themistocles Zammit, no início do século XX, formulou a hipótese de que esse acontecimento excepcional se deveu provavelmente a uma praga devastadora que exterminou os habitantes dessas pequenas ilhas. Outro grupo étnico mudou-se para lá alguns séculos mais tarde; os vestígios desta nova população, no entanto, foram imediatamente encontrados no cemitério de cremação de Tarxien. Daí o nome «Cultura do Cemitério de Tarxien» (c. 2500-1500 a.C.). Portanto, deve ter havido uma invasão em grande escala, perpetrada por povos que, inicialmente, se pensava terem vindo das Ilhas Eólias, devido à semelhança da sua cerâmica com a da «Cultura da Ilha de Lipari», em Capo Graziano. No entanto, em Lipari não só faltam as formas mais elaboradas do «Cemitério de Tarxien», como as decorações também são diferentes. Isto excluiria os invasores daquela ilha. A descoberta de algumas cerâmicas ao estilo do «Cemitério de Tarxien», no interior de dois dólmens malteses (estruturas arquitetónicas fora das Ilhas Eólias), sugere que os pequenos megálitos de Gozo e Malta devem ser atribuídos ao povo desta nova «Cultura». O facto de estes monumentos terem sido utilizados como túmulos, no entanto, permaneceu uma hipótese, talvez confirmada após a descoberta de restos antropogénicos no dólmen «Cava dei Servi», cuja forma se assemelha a estruturas semelhantes numa vasta área do Mediterrâneo.

Avola

Outro dólmen siciliano situa-se em Avola, uma grande cidade costeira situada entre os rios Assinaro e Cassibile. Aqui, o lento processo de erosão causado pelas águas delineou um vale, denominado Cava L'Unica, na Contrada Borgellusa, onde, junto a uma parede rochosa, ao lado do leito de um ribeiro, se encontra um monumento megalítico.

A construção, rodeada por vegetação densa e selvagem, parece, à primeira vista, consistir numa enorme «laje de calcário» de espessura variável, assente essencialmente em dois «pilares». A pedra é maciça, com uma superfície ondulada. Mede 8 metros de comprimento e 5,5 de largura. A parte norte, que parece assentar num pilar isolado e informal, é mais consistente, tendendo para uma espessura de cerca de meio metro na parte oriental, que, por sua vez, assenta no que constitui uma elevação do solo com uma base muito ampla. Aqui encontra-se a parede rochosa traseira, da qual a enorme laje está objetivamente separada devido a uma linha de fratura e a uma barra semicircular, que constitui a parte posterior. O «pilar» esquerdo está ligado a esta parede.

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The Pseudo Dolmen of Avola
O Pseudo-Dólmen de Avola Salvatore Piccolo (CC BY-NC-SA)

Na superfície da laje, esta está dividida em dois pontos; existem dez pequenas incisões retangulares. Foram feitas na parte mais espessa da laje, orientadas de forma a não enfraquecer o calcário. As cavidades têm comprimentos diferentes e variam entre 60 cm e 1,2 m, sendo a última cavidade interrompida pela fratura da extremidade sul. A profundidade não excede os 40 cm. Trata-se talvez de alguns túmulos para crianças, utilizados na época grega ou paleocristã. Duas ranhuras percorrem o lado oriental mais exterior da laje e cruzam-se em ângulo reto. Certos textos «literários» fantásticos chegaram à conclusão de que estas duas incisões poderiam ser definidas como linhas de drenagem para o sangue escorrer das vítimas sacrificadas. No entanto, trata-se de entalhes resultantes da extração de um bloco de calcário, com cerca de um metro cúbico, retirado do ponto onde a espessura o permitia.

Segundo os geólogos, a formação da cavidade resulta da erosão seletiva da rocha. A ação contínua dos processos de erosão, fissuras, eventos sísmicos e bradissismo, que afetam a área em questão, provocou o desprendimento da cavidade da parede rochosa. Não há dúvida de que se trata de uma forma natural de erosão, bastante frequente ao longo das falésias costeiras e das margens dos vales fluviais. É igualmente evidente que, na pré-história, a forma natural original foi remodelada por mãos humanas, seguindo as linhas naturais do bloco, com o intuito de ampliar e refinar geometricamente a cavidade até à sua aparência atual. Sinais dessa intervenção são visíveis tanto em torno dos pilares extraídos das paredes laterais da caverna, conferindo-lhes uma forma pseudo-paralelepípeda, como na superfície plana da abóbada de calcarenito. A base da abóbada foi desobstruída de materiais arenitosos subjacentes, seguindo a superfície da estratificação inferior.

Por conseguinte, não se exclui a intervenção humana numa estrutura natural que possa ter sido adaptada a elaborações arquitetónicas experimentadas. Talvez a intervenção tenha sido para fins habitacionais, mas a abertura lateral é incompatível com a lógica de um refúgio doméstico. Se tivesse sido um abrigo, o trabalho realizado pelo homem teria tornado a estrutura tão vulnerável que a possibilidade de se tratar de um «abrigo» é completamente ilógica. A abordagem, por outro lado, parece ser um esforço para «monumentalizar» uma estrutura proporcionada pela Natureza, poupando ao homem a maior parte do trabalho. Pode ser comparada a qualquer construção megalítica bem concebida na Europa Atlântica.

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Plan of the Pseudo Dolmen of Avola
Plano do Pseudo-Dólmen de Avola Salvatore Piccolo (CC BY-NC-SA)

A falta de provas materiais concretas não nos permite emitir juízos; por isso, sentimo-nos obrigados a classificá-lo como um pseudo-dólmen, na esperança de que novas investigações arqueológicas esclareçam uma dúvida que perdura há muitos anos.

O Centro do Mundo Antigo

O megalitismo, como já referimos, concentra-se principalmente na zona atlântica europeia, seguindo um percurso que parece descer pelo continente, do norte (Inglaterra, Bretanha) para o sul (Portugal, Espanha). Por volta do final do III milénio a.C., a costa ocidental da Sicília foi abrangida por uma onda cultural (que trouxe a cultura dos copos em forma de sino) proveniente da costa da Sardenha. Os efeitos desta onda levaram à criação de um segundo centro comercial, também no sudoeste da ilha, com o objetivo de regular o comércio entre a Sicília central-meridional, a Sardenha e a Península Ibérica, por um lado, e o Mediterrâneo oriental, por outro. Isto explica a difusão de aspetos culturais de estilo ocidental por toda a Sicília, o que atesta a centralidade estratégica e comercial desta terra.

Quando, em 1959, J. D. Evans, na sua obra intitulada Malta, atribuiu a construção de pequenos megálitos malteses a um povo da Apúlia, ainda não conhecia o contexto dos dólmens sicilianos. Pareceria ridículo reiterar a hipótese do estudioso inglês com base na aparência formal dos monumentos das duas regiões, especialmente se, entretanto, se interpusesse uma terceira região que reivindicasse experiências semelhantes. Além disso, a datação dos artefactos da Apúlia (que não foram validados por qualquer elemento cronológico, absoluto ou relativo) é mais recente do que a dos de Malta.

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A Sicília, devido à sua posição geográfica no meio do Mediterrâneo, atraiu todo o tipo de experiências culturais, projetando os seus efeitos nas suas áreas de influência, tanto a norte como a sul. As antigas relações com a ilha de Malta devem ser entendidas desta forma, afirmando assim uma parceria privilegiada com a sua irmã muito mais antiga e com uma vizinhança que ainda era perigosa.

O progresso da metalurgia abriu o Oriente ao Ocidente. O arsénico provinha da Sardenha e, pela mesma rota, o estanho vinha de Espanha e da Cornualha. O «povo dos dólmens» terá participado neste vaivém. Ao desembarcar no oeste da ilha, teria alcançado gradualmente a costa jónica a leste, acabando por usufruir do circuito virtuoso que esta parte da Sicília há muito tinha desencadeado com o arquipélago maltês. Talvez tenha sido aqui que a civilização megalítica de Tarxien encontrou o seu triste fim.

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Bibliografia

  • Chapman, R. "The Emergence of Formal Disposal Areas and the “Problem” of Megalithic Areas in Prehistoric Europe." The Archaeology of Death, edited by Chapman, R., Kinnes, I. & Randsborg, K. Cambridge University Press, 1981, 71-81.
  • Evans, J.D. "The "Dolmens” of Malta and the Origins of the Tarxien Cemetery Culture." Proceedings of the Prehistoric Society, 22 (1956), pp. 85-102.
  • Piccolo, S. Ancient Stones: The Prehistoric Dolmens of Sicily. Brazen Head Publishing, 2013

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Piccolo, S. (2026, setembro 22). Dólmens da Sicília. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1148/dolmens-da-sicilia/

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Piccolo, Salvatore. "Dólmens da Sicília." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, setembro 22, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1148/dolmens-da-sicilia/.

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Piccolo, Salvatore. "Dólmens da Sicília." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 22 set 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1148/dolmens-da-sicilia/.

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