A antiga Armênia (Arménia), localizada na região sul do Cáucaso, na Eurásia, foi povoada no período Neolítico, mas o seu primeiro Estado propriamente dito registrado foi o reino de Urartu, do século IX a.C. Incorporada no Império Persa de Ciro, O Grande, no século VI a.C., a dinastia Orôntida governou como sátrapa persa, função que desempenhou para os próximos senhores, os Macedônios e o Império Selêucida, até o século III a.C. Sob as dinastias Artaxíada e Arsácida, o país floresceu, mas frequentemente se viu dividido entre as ambições da Pártia e de Roma, e posteriormente dos Impérios Sassânida e Bizantino. As fronteiras do Estado variaram consideravelmente ao longo dos séculos, mas fatores comuns como religião e idioma foram unidos por clãs dinásticos de longa duração, o que conferiu à Armênia a sua própria identidade única ao longo da Antiguidade.
Hayasa-Azzi (1500-1200 a.C.)
A primeira cultura identificável na região é a Cultura Hayasa-Azzi, uma confederação tribal indígena que floresceu no fértil planalto da antiga Armênia, ao redor do Monte Ararat e em partes da atual Turquia oriental, entre cerca de 1500 e 1200 a.C. Os Hayasa-Azzi são o epônimo do povo Hay, termo usado pelos armênios para se descreverem e ao seu estado, Hayastan. Com o tempo, os Hayasa-Azzi se misturaram com os outros grupos étnicos e tribos locais, como os hurritas, armênios-shupria e nairi, provavelmente motivados pela necessidade de defesa contra vizinhos mais agressivos e poderosos, como os hititas e os assírios. Eles provavelmente foram infiltrados pelos trácios-frígios após o colapso do Império Hitita, por volta de 1200 a.C. Eventualmente, esses diversos povos e reinos se fundiriam no primeiro estado reconhecível e documentado da região, o reino de Urartu, a partir do século IX a.C.
Urartu (século IX a.C. - cerca de 590 a.C.)
Nomes
Urartu, também conhecido como Reino de Van, em referência ao lago de mesmo nome na região, desenvolveu-se como uma federação de reinos menores e mais antigos na Armênia, no leste da Turquia e no noroeste do Irão. 'Urartu' vem de urashtu, a palavra assíria para reino, e significa "lugar alto", possivelmente referindo-se à região montanhosa ou à prática comum da cultura de construir fortificações em promontórios rochosos. Os urartianos autodenominavam-se Biaina.
Geografia e Expansão
Urartu prosperou graças ao assentamento no extenso e fértil planalto, bem abastecido por rios. A viticultura era importante, sendo a produção de vinho na região talvez a mais antiga do mundo. A pecuária prosperou graças às excelentes pastagens de montanha, e os cavalos, em particular, foram criados com sucesso. Os depósitos minerais da região incluíam ouro, prata, cobre, chumbo, ferro e estanho, todos utilizados na produção de trabalhos em metal de grande qualidade, especialmente caldeirões de bronze. A localização nas rotas comerciais entre as antigas culturas do Mediterrâneo, da Ásia e da Anatólia foi outra fonte de prosperidade.
A capital da fortaleza era Tushpa (mais tarde chamada Van), construída em um promontório de calcário na margem leste do Lago Van, nas terras altas. Governadores regionais representavam o rei e canalizavam os impostos para a capital. Em 776 a.C., Argishti I (reinou cerca de 785-760 a.C.) fundou uma nova cidade, Argishtihinili, na Planície de Ararat, que mais tarde se tornaria a segunda cidade do reino e seria renomeada Armavir. Então, por volta de 685 a.C., o rei Rusa II (reinou cerca de 685-645 a.C.) fundou a importante cidade do norte de Teishebaini (atual Yerevan - Erevan), também na planície de Ararat. Um importante sítio de fortaleza com vestígios substanciais hoje é Erebuni, perto da atual capital da Armênia, Yerevan.
O panteão da religião Urartu contém mistura de deuses únicos e hurritas, como o deus das tempestades e do trovão Teisheba, do hurrita Teshub. Em meados do século IX a.C., o rei Ishpuini promoveu Haldi (Khaldi) à chefia dos deuses, uma divindade de origem estrangeira e associada à guerra. Tão importante era esse deus que os urartianos às vezes eram chamados de haldianos ou “filhos de Haldi”. Aos vários deuses eram oferecidas libações e sacrifícios de animais, bem como dedicações de armas e bens preciosos.
A escrita urartiana primitiva usava pictogramas simples, mas a escrita cuneiforme foi adotada e adaptada das culturas mesopotâmicas vizinhas contemporâneas. Inscrições cuneiformes sobreviventes do reino mostram que a língua urartiana era relacionada ao Hurrita.
No século VII a.C., Urartu controlava um território que se estendia do Mar Cáspio ao Alto Eufrates (de leste a oeste) e das montanhas do Cáucaso, a norte, à Cordilheira do Tauro, a sul. O principal adversário de Urartu era o Império Neoassírio, embora também haja evidências de relações comerciais entre os dois estados. O governante assírio Tiglate-Pileser III (reinou 745-727 a.C.) foi particularmente agressivo e sitiou Tushpa. Outro conflito significativo entre os dois estados ocorreu durante a campanha de Sargão II (722-705 a.C.), em 714 a.C.
Declínio
O reino de Urartu chegou a um fim violento quando, em algum momento entre cerca de 640 e 590 a.C., suas cidades foram destruídas. Enfraquecido por décadas de batalhas com os assírios, pode ter ficado demasiado sobrecarregado para controlar seu próprio império. Os perpetradores são desconhecidos, mas os Citas são um candidato, os Cimérios outro, e até mesmo possivelmente forças dos territórios administrados pelos reis de Urartu. O reino foi conquistado pelos Medos a partir de cerca de 585 a.C. e, em seguida, incorporado ao Império Aquemênida (Aqueménida) de Ciro, o Grande, em meados do século VI a.C.
Dinastia Orôntida (cerca de 570 - cerca de 200 a.C.)
Sátrapas persas
A dinastia Orôntida sucedeu ao Reino de Urartu na antiga Armênia e governou do século VI ao III a.C. O fundador da dinastia real dos Orôntidas foi Orontes (Yervand) Sakavakyats (cerca de 570-560 a.C., embora as datas de reinado da maioria dos Orôntidas sejam contestadas). Inicialmente, os Orôntidas governaram como sátrapas persas, enquanto os Aquemênidas dividiam o seu novo território em duas partes, e foi na província oriental que a dinastia Orôntida, conhecida localmente como Yervand (da palavra iraniana arvand, que significa "poderoso"), governou como sátrapa em nome dos senhores persas. Assim, a cultura, a língua e as práticas políticas persas foram introduzidas na antiga Armênia, que ainda mantinha suas próprias tradições urartianas.
A primeira menção conhecida do estado cliente persa de Armena ou Armênia está registrada em uma inscrição de cerca de 520 a.C. de Dário I (reinou 522-486 a.C.) em uma rocha em Behistun, Pérsia, que lista as posses reais em persa antigo. A antiga capital urartiana de Van foi também a primeira capital dos Orôntidas. Tentativa de secessão do Império Persa em 522 a.C. foi de curta duração, pois a Armênia era fonte valiosa demais de soldados e tributos, especialmente cavalos. A vida sob o domínio persa parece ter sido, no mínimo, tolerável, e a cultura armênia seguiu, em grande parte, seu próprio caminho. Em meados do século IV a.C., as duas regiões divididas sob controle persa haviam sido politicamente unificadas, suas populações se misturaram e o idioma se tornou um só: o armênio (arménio).
Império Macedônio
Após a ascensão de Alexandre, o Grande, a Armênia foi formalmente anexada pela Macedônia (Macedónia) e, em 330 a.C., Armavir tornou-se a capital (a antiga cidade urartiana de Argishtihinili). Parece provável que o domínio político da Armênia tenha permanecido muito semelhante ao dos persas, com os Orôntidas governando como reis semi-independentes dentro do agora vasto Império Macedônio (Macedónio). De fato, mesmo os governantes armênios lutavam para controlar os poderosos senhores locais, conhecidos como nakharars, que formavam uma nobreza hereditária, tal era a natureza "feudal" da região naquela época.
Império Selêucida
A partir de 321 a.C., os Selêucidas governaram a porção asiática do império de Alexandre, o Grande, após a morte do jovem líder, o que levou a uma certa helenização e criou rica mistura cultural de elementos armênios, persas e gregos. O Império Selêucida era tão extenso que os governantes Orôntidas, mais uma vez, desfrutaram de grande autonomia em região que agora era dividida em três áreas distintas: a Armênia Menor (a noroeste, perto do Mar Negro), a Armênia Maior (o coração tradicional do povo armênio) e Sofena (também conhecida como Dsopk, a sudoeste). A independência dos reis Orôntidas é ilustrada pela cunhagem de suas próprias moedas.
Antíoco III e Declínio
Por volta de 260 a.C., o reino unificado de Comagene e Sofena surgiu na Armênia Ocidental, governado por Sames (também conhecido como Samos), governante de ascendência Orôntida. Foi Sames (reinou cerca de 260-240 a.C.) quem fundou a importante cidade de Samosata (Shamshat). O período também testemunhou o ressurgimento dos persas e o crescimento do Império Parta (247 a.C. - 224 d.C.), que agora reivindicava soberania sobre a Armênia. No entanto, o rei selêucida Antíoco III (reinou 222-187 a.C.) reafirmou o controle sobre a Armênia e, notavelmente, extraiu 300 talentos de prata e 1.000 cavalos para os seus exércitos enquanto passavam pela região a caminho de suprimir os Partos.
O último da dinastia Orôntida a governar a Armênia oriental foi o rei Orontes IV (também conhecido como Yervand, o Último, reinou cerca de 212-200 a.C.). Yervand mudou a capital de Armavir para a recém-fundada Yervandashat. Seu sucessor, após o assassinato do rei, foi o fundador da próxima dinastia a dominar a Armênia nos séculos seguintes, o rei Artaxias I (Artashes), que foi apoiado e nomeado sátrapa diretamente por Antíoco III, provavelmente em tentativa de conter a tendência de independência armênia nas últimas décadas.
Dinastia Artaxíada (cerca de 200 a.C. - 12 d.C.)
Artaxias I
Antíoco III não apenas mudou a casa reinante da Armênia, como também criou dois sátrapas: Artaxias I (reinou cerca de 200 - cerca de 160 a.C.) na Armênia e Zariadris no pequeno reino de Sofena, a sudoeste. Quando Antíoco foi derrotado pelos romanos na Batalha de Magnésia, em 190 a.C., Artaxias declarou-se rei e começou a expandir o reino, que consolidou por meio de centralização administrativa e inovações como as estelas de fronteira para proclamar os direitos de propriedade e a autoridade da coroa. Uma nova capital foi fundada em Artaxata (Artashat), em 176 a.C. Diz-se que Aníbal, o grande general cartaginês, projetou as fortificações da cidade quando serviu a Artáxias após sua derrota para os romanos.
Quando Artáxias I morreu, foi sucedido por seus filhos e a dinastia Artaxíada (também conhecida como dinastia Artashesiana) foi estabelecida. A Armênia então desfrutou de período prolongado de prosperidade e importância regional, mas também ficaria perpetuamente pressionada entre as duas superpotências da região: Pártia e Roma. Ambas se revezavam na apresentação de seus próprios candidatos para governar a Armênia, que se tornou zona tampão entre os dois impérios.
Um dos maiores reis artaxíadas, ou de fato de qualquer rei armênio, foi Tigranes II (Tigran II) ou Tigranes, o Grande (reinou cerca de 95 - cerca de 56 a.C.). Ele expandiu consideravelmente o reino armênio; primeiro, anexou o reino de Sofena, em 94 a.C. Depois, com formidáveis máquinas de cerco e unidades de cavalaria fortemente blindada, conquistou a Capadócia, Adiabene, Gordiene, Fenícia e partes da Síria, incluindo Antioquia. O rei armênio chegou a saquear Ecbátana, a residência de verão real parta, em 87 a.C., enquanto os partos lutavam para lidar com a invasão de nômades do norte. Em seu auge, o Império Armênio de Tigranes, o Grande, estendia-se do Mar Negro ao Mediterrâneo. Nunca antes ou depois os armênios controlariam extensão tão vasta da Ásia.
Tigranes autodenominou-se o "rei dos reis" a partir de 85 a.C. e fundou a nova capital, em 83 a.C., Tigranocerta (também conhecida como Tigranakert, e de localização incerta), famosa por sua arquitetura helenística. O grego provavelmente era usado, juntamente com o persa e o aramaico, como língua da nobreza e da administração, enquanto os plebeus falavam armênio. Elementos persas continuaram a ser parte importante da mistura cultural armênia, especialmente na área da religião.
Guerras Romano-Partas e Declínio
Tigranes aliou-se a Mitrídates VI, rei do Ponto (reinou 120-63 a.C.), cuja filha desposou. A República Romana, percebendo o perigo de tal aliança entre as duas potências regionais, respondeu atacando o Ponto, e quando Mitrídates fugiu para a corte de Tigranes, em 70 a.C., os romanos invadiram a Armênia. Tigranocerta foi conquistada, em 69 a.C., e o rei armênio foi forçado a abandonar suas conquistas. Após outro ataque romano por volta de 66 a.C., desta vez liderado por Pompeu Magno, a Armênia tornou-se um protetorado romano. Os Artaxíadas continuaram a governar, mas foram obrigados a se envolver nas guerras romano-partas, fornecendo tropas tanto para Marco Licínio Crasso, em 53 a.C., quanto para Marco Antônio, em 36 a.C. Este último general, insatisfeito com o apoio armênio, atacou o reino em 34 a.C. e levou o rei, Artavasdes II (reinou cerca de 56-34 a.C.), para Alexandria, onde seria posteriormente executado pela rainha Cleópatra. Seguiu-se verdadeira dança das cadeiras, com um rei apoiado pelos romanos na Armênia, seguido por candidato apoiado pelos partos, até que nova família assumiu o trono, em 12 d.C.: a dinastia Arsácida (Arshakuni).
Dinastia Arsácida (12 d.C. - 428)
Tirídates I
O fundador da dinastia Arsácida foi Vonon (Vonones), mas como ele foi sucedido por vários reis de reinado curto, alguns historiadores consideram o fundador propriamente dito da dinastia Tirídates I da Armênia (reinou 63-75 ou 88 d.C.). Ele era irmão do rei parto Vologases I (reinou ccerca de 51-78 d.C.), que invadiu a Armênia, no ano de 52, com o propósito específico de colocar Tirídates no trono. Os romanos não se contentaram em permitir a entrada da Pártia em sua zona tampão e, em 54, o imperador Nero (reinou 54-68) enviou o exército sob o comando de seu melhor general, Cneu Domício Córbulo. Uma década de guerras intermitentes, que resultou na captura de importantes cidades armênias como Artaxata e Tigranocerta, terminou com o Tratado de Randeia, em 63. Ficou, então, acordado que a Pártia teria o direito de indicar reis armênios, mas Roma teria o direito de coroá-los. Nero recebeu, portanto, o privilégio de coroar Tirídates em Roma em espetáculo luxuoso.
Intervenções Romanas
Vespasiano (reinou 69-79) assegurou que nenhum outro território caísse sob o domínio da dinastia parta, anexando os reinos vizinhos de Comagene e da Armênia Menor, em 72. Seguiu-se um período de paz até que o Imperador Trajano (reinou 98-117), usando a desculpa de não ter sido consultado sobre a mudança de monarca, aproveitou a oportunidade e anexou a Armênia para Roma. Ele então declarou guerra à Pártia, em 114. Por fim, a Armênia tornou-se província do Império Romano e foi administrada juntamente com a Capadócia.
O Imperador Adriano (reinou 117-138) mostrou-se bem menos entusiasmado em manter a problemática província e permitiu que ela se tornasse independente. Diversas incursões partas e romanas ocorreram ao longo do século seguinte, mas Artaxata, pelo menos, prosperou após se tornar um dos pontos comerciais oficiais entre os dois impérios.
Após a ascensão da dinastia Sassânida, a partir de 224, houve uma política externa persa mais agressiva em relação à Armênia, que culminou em invasão em grande escala pelos Sassânidas, em 252. Os reis arsácidas armênios, com laços sanguíneos tão estreitos com os arsácidas derrotados na Pérsia, representavam ameaça à legitimidade da nova ordem sassânida. Os Sassânidas obtiveram várias vitórias importantes contra Roma nesse período, mas os romanos ressurgiram no século IV. Quando a poeira finalmente baixou, o reino da Armênia se viu dividido entre Roma e a Pérsia, com os arsácidas continuando a governar apenas a Armênia ocidental. Em 298, sob os auspícios de Diocleciano (reinou 284-305), a Armênia foi unificada com Tirídates IV (Trdat III ou IV) como rei (reinou cerca de 298 - cerca de 330) - um dos grandes governantes da dinastia arsácida.
Tiridates, o Grande, e o Cristianismo
Tirídates, o Grande, dedicou-se a centralizar seu reino e reorganizar as províncias e seus governadores. Levantamentos de terras também foram realizados para melhor identificar as obrigações tributárias; o rei estava determinado a tornar a Armênia grande novamente. De longe, o evento mais duradouro desse período foi a adoção oficial do cristianismo pela Armênia por volta de 314, senão antes. A tradição registra que o próprio Tiridates foi convertido, em 301 d.C., por São Gregório, o Iluminador. Consequência dessa mudança foi que a perseguição à religião pela Pérsia ajudou a criar um estado mais ferozmente independente. São Gregório, então conhecido como Grigor Lusavorich, foi nomeado o primeiro bispo da Armênia, em 314. Tiridates IV também pode ter adotado o cristianismo por razões políticas internas - o fim da religião pagã era boa desculpa para confiscar os antigos tesouros dos templos e uma religião monoteísta com o monarca como representante de Deus na Terra poderia muito bem incutir maior lealdade de seus nobres, os nakharars, e do povo em geral.
Teodósio I e Sapor III concordaram em dividir formalmente a Armênia entre o Império Romano do Oriente (Bizantino) e a Pérsia Sassânida.
Divisão e Declínio
Havia, porém, uma ameaça maior vinda de fora da Armênia, à medida que os Sassânidas se tornavam mais ambiciosos em governar diretamente a Armênia e atacavam cidades armênias. Foi então que o imperador Teodósio I (reinou 379-395) e Sapor III (reinou 383-388) concordaram em dividir formalmente a Armênia entre o Império Romano do Oriente (Bizantino) e a Pérsia Sassânida.
Em 405, o alfabeto armênio foi inventado por Mesrop Mashtots e a Bíblia foi traduzida para esse idioma, ajudando a disseminar e consolidar ainda mais o cristianismo na Armênia. Politicamente, porém, era hora de mudança. O último governante arsácida foi Artashes IV (reinou 422-428), após a coroa armênia, incapaz de reprimir as facções pró-persas e anticristãs na corte, ter sido abolida pela Pérsia e governantes vice-reis, os marzpans, terem sido instalados.
Dinastia Mamikonian (428-652)
Os Mamiconios
A última grande dinastia a governar a antiga Armênia foi a dos Mamiconios, que constituíram força poderosa no exército armênio desde o século I a.C. No final do século IV, o cargo hereditário de grão-marechal (sparapet), que liderava as forças armadas da Armênia, geralmente era ocupado por um senhor mamiconio. Entre as outras famílias nobres, os mamiconios só perdiam em importância para a própria família real arsácida; de fato, dois de seus membros chegaram a servir como regentes: Mushegh e Manuel Mamiconios. Com a queda da dinastia arsácida, os mamiconios ficaram responsáveis por dominar os assuntos de Estado dentro das limitações impostas por seus senhores persas.
Pérsia e Avarayr
A Pérsia instalou governantes marzpans (marzepãs) na sua metade do país (Persarmenia) a partir de 428. Representando o rei sassânida, os marzpans detinham plena autoridade civil e militar. Havia murmúrios de descontentamento entre a nobreza e o clero armênios após o imperialismo cultural persa, mas a situação chegou ao auge com a ascensão do rei persa Yazdgird (Yazdagerd) II, por volta de 439. Os governantes sassânidas há muito suspeitavam que os cristãos armênios fossem simplesmente espiões de Bizâncio, mas Yazdgird era fervoroso defensor do Zoroastrismo e a faca de dois gumes política e religiosa estava prestes a reduzir a Armênia ao seu devido lugar.
Em maio ou junho de 451, na Batalha de Avarayr (Avarair), no atual Irão, os armênios se rebelaram contra a opressão e enfrentaram um enorme exército persa. Os cerca de 6.000 armênios eram liderados por Vardan Mamicónio, mas, infelizmente para eles, a ajuda do Império Bizantino cristão não veio, apesar da embaixada ter sido enviada para esse fim. Talvez não seja surpreendente que o marzpan apoiado pelos persas, Vasak Siuni, também não tenha sido visto na batalha. Os persas, em grande superioridade numérica e com o corpo de elite de "Imortais" e uma horda de elefantes de guerra, venceram a batalha com relativa facilidade e massacraram seus oponentes; "martirizados" seria o termo usado pela Igreja Armênia, a partir de então. De fato, a batalha tornou-se símbolo de resistência, com Vardan, que morreu no campo de batalha, sendo inclusive canonizado.
Rebeliões menores continuaram nas décadas seguintes, e os mamicónios mantiveram uma política de resistência cautelosa. A estratégia deu certo, pois em 484, o Tratado de Nvarsak foi assinado entre os dois estados, concedendo à Armênia maior autonomia política e liberdade de pensamento religioso. Em reviravolta completa, Vahan, sobrinho de Vardan, foi nomeado marzpan, em 485. A paz trouxe prosperidade e o comércio floresceu, com Artashat se tornando importante ponto comercial entre os impérios Bizantino e Persa. A Armênia estava se consolidando como nação unificada, auxiliada pela língua, pela fé cristã e por figuras como Movses Khorenatsi (Moisés de Khoren), que escreveu sua “História dos Armênios”, a primeira história abrangente do país, no final do século V.
Os Califados Árabes
A posição geográfica da Armênia, mais uma vez, causaria sua queda. No final do século VI, a Pérsia e o Império Bizantino criaram mais uma divisão, na qual Bizâncio anexou dois terços da Armênia. O pior ainda estava por vir, após a ascensão dramática de novo poder na região, o Califado Rashudin árabe, que conquistou a capital sassânida, Ctesifonte, em 637, e a Armênia, entre 640 e 650. O país foi formalmente anexado como província do Califado Omíada, em 701.
This article was made possible with generous support from the National Association for Armenian Studies and Research and the Knights of Vartan Fund for Armenian Studies.
