Náucratis

Adriana Dunn
por , traduzido por Filipa Oliveira
publicado em
Translations
bookmark_addbookmark_addedGuardar Artigo headphonesVersão Áudio printImprimir picture_as_pdfPDF
Pottery Plate with a Seated Sphinx (by The Trustees of the British Museum, CC BY-NC-SA)
Prato de Cerâmica com uma Esfinge Sentada The Trustees of the British Museum (CC BY-NC-SA)

Náucratis (também grafada Naucratis, e conhecida como Nokraji pelos antigos egípcios) foi uma cidade no Baixo Egito, situada no braço canópico (ou ocidental) do delta do Nilo, que se tornou um poderoso porto comercial entre os egípcios e o resto do mundo mediterrânico. Foi o primeiro estabelecimento grego permanente no Egito, e o seu nome traduz-se do grego como "comando naval".

Durante a Época Baixa do Antigo Egito (525-332 a.C.), influências estrangeiras, especificamente da Grécia, entraram no país, como evidenciado nos registos históricos e arqueológicos. Isto é visível, predominantemente, na antiga cidade de Náucratis. Hoje, o local encontra-se em más condições de conservação e abrange as aldeias de Kom Ge'if, el-Niveria e el-Nigrash, aproximadamente 72 quilómetros a sudeste da cidade de Alexandria.

Remover Publicidades
Publicidade

A História do Local

O local foi pela primeira vez objeto de escrita pelo antigo historiador grego Heródoto (cerca de 484 a 425/413 a.C.), que viajou até ao Egito durante meados do século V a.C. Passou o seu tempo a registar a história e as tradições do Egito num dos seus livros, conhecido como Histórias. Segundo o seu relato, o local de Náucratis tornou-se um estabelecimento grego durante o século VI a.C. O faraó Apries (reinou de 589-570 a.C.) liderou um exército de mercenários gregos contra o antigo general Amásis. Contudo, Apries foi derrotado por Amásis e pelas suas forças rebeldes, e Amásis II (também conhecido como Amósis II) tornou-se rapidamente faraó do Egito e reinou de 570 a 526 a.C.

Náucratis era o único porto naval no Egito que os gregos tinham permissão para utilizar até à conquista persa do Egito.

Náucratis foi cedida aos soldados gregos sobreviventes para ser utilizada como colónia comercial por Amásis II em 570 a.C., tornando-a um assentamento predominantemente grego. Heródoto afirmou: "Amásis era parcial aos gregos e, entre outros favores que lhes concedeu, deu àqueles que desejassem estabelecer-se no Egito a cidade de Náucratis para sua residência" (Histórias, II. 178). Outros gregos antigos que visitaram Náucratis incluem o estadista ateniense Sólon (cerca de 640 a cerca de 560 a.C.), o geógrafo e historiador Hecateu (cerca de 550-476 a.C.), o matemático Tales de Mileto (cerca de 585 a.C.) e, alegadamente, o filósofo Platão (428/427 a 348/347 a.C.).

Remover Publicidades
Publicidade

Náucratis tornou-se um importante entreporto comercial tanto para os gregos como para os egípcios. Os gregos sempre cobiçaram uma oportunidade de comércio exclusivo no Egito. Para os antigos egípcios, Náucratis representava uma ligação do delta do Nilo ao mundo mediterrânico e consolidava uma forte aliança política com a Grécia. Náucratis era o único porto naval no Egito que os gregos tinham permissão para utilizar até à conquista persa do Egito em 525 a.C. Heródoto nomeia doze cidades marítimas e comerciais gregas que estavam afiliadas a Náucratis através do comércio: Jónios de Samos, Mileto, Quios, Teos, Foceia e Clazómenas; Dórios de Rodes, Cnido, Halicarnasso e Fasélide; e Eólios de Mitilene, em Lesbos, e o povo de Egina, a ilha próxima de Atenas. Com base no registo arqueológico, o influente poder comercial de Náucratis estendia-se até à Itália, Cirenaica, Fenícia, Chipre e ao Levante.

Mapa do Comércio no Mediterrâneo Antigo
Mapa do Comércio do Mediterrâneo Antigo Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Náucratis sobreviveu durante a Época Baixa e permaneceu como uma importante estação comercial. O local possui uma história única de ter sido habitado, inicialmente, por mercenários e mercadores gregos. Os mercenários serviram os faraós e os governadores persas durante as suas campanhas militares, quando o Egito estava sob domínio persa. Mais tarde, mais gregos imigraram para o Egito na esperança de enriquecer através do comércio. Muitos dos gregos que chegaram a Náucratis eram marinheiros e mercadores que permaneciam apenas por um curto período de tempo. Outros imigraram para a cidade portuária e permaneceram lá permanentemente. Embora estes gregos mantivessem a sua identidade cultural, casaram-se com egípcios e tornaram-se aculturados na sociedade egípcia. Gerações de gregos coexistiram com Cários, Fenícios e Egípcios em Náucratis na altura em que Alexandre, o Grande (reinou de 336-323 a.C.), conquistou o Egito em 332 a.C. O local continuou a ser utilizado como porto comercial no Egito Romano (cerca de 30 a.C. a 641 d.C.) e manteve a sua importância durante o Período Bizantino, pelo menos até ao século VII.

Remover Publicidades
Publicidade

As Descobertas Arqueológicas

Náucratis foi descoberta pelo egiptólogo inglês Flinders Petrie durante as suas escavações no local entre 1884 e 1885. Embora Heródoto tenha datado originalmente Náucratis de 570 a.C., as escavações e a investigação arqueológica de Petrie sugerem uma data anterior, entre meados e finais do século VII a.C., mais aceite pela investigação contemporânea. Estima-se que cerca de 15 000 pessoas tenham vivido em Náucratis. As escavações revelaram uma enorme quantidade de descobertas arqueológicas de diversas culturas e períodos: a Época Baixa, os Períodos Arcaico e Clássico (700-323 a.C.), o Período Ptolemaico (305-30 a.C.) e os Períodos Romano e Bizantino inicial.

Escavações recentes foram conduzidas por W. Coulson e A. Leonard em 1977, que fundaram o Naukratis Project. Realizaram escavações arqueológicas a partir de 1977-1978 e estudos e escavações adicionais a sul do local de 1980 a 1982, sob o patrocínio do American Research Center in Egypt. No geral, a maioria dos achados foram vasos (alguns inteiros, a maioria fragmentados) utilizados como ex-votos nos templos; foram também descobertas pequenas estatuetas de pedra, selos de escaravelho em faiança e amuletos. Outras expedições arqueológicas demonstraram que os gregos trocavam prata, madeira, azeite e vinho com os habitantes de Náucratis.

Greek-style Jug from Naukratis
Jarro de Estilo Grego de Náucratis The Trustees of the British Museum (CC BY-NC-SA)

As escavações arqueológicas realizadas entre os séculos XIX e XX desenterraram muitas características arquitetónicas. Por exemplo, Náucratis foi outrora densamente povoada por "casas-torre" de estilo egípcio, que são casas altas de tijolos de lama, frequentemente encontradas em cidades situadas ao longo do delta do Nilo durante e após o Período Saíta. O Santuário do Helenion é um dos maiores edifícios descobertos no local e está situado na parte norte do povoado. Até hoje, contudo, sabe-se muito pouco sobre ele. Existem vários restos de santuários dedicados aos deuses gregos Hera, Apolo, os Dióscuros e Afrodite, que se estendem ao longo do rio Nilo. Uma pequena fábrica que outrora produzia selos de escaravelho em faiança e amuletos foi descoberta a leste dos templos. Um santuário muito grande, dedicado a Amon-Rá, Nut e Khonsu, construído c. 600 a.C., ocupa a porção sul de Náucratis. Por fim, um grande armazém egípcio foi descoberto na porção mais a sul do local.

Remover Publicidades
Publicidade
A circulação de moeda exibe algumas das provas mais antigas de distribuição monetária no Antigo Egito.

Foram também descobertos numerosos recipientes e figuras de cerâmica. Grandes quantidades de figuras de terracota foram encontradas dentro e ao redor de casas e ao longo do Nilo. Estas figuras representam deuses egípcios, como Harpócrates e Bes, e mulheres nuas associadas à fertilidade, à proteção e às cheias do rio Nilo. A cerâmica de estilo grego de Náucratis era criada principalmente para uso local. Alguns dos achados arqueológicos mais importantes são os restos encontrados de recipientes decorados com pintura de figuras negras. Estes recipientes emanam a difusão de elementos gregos na cultura egípcia em Náucratis durante a Época Baixa. Fornecem também provas precoces de escrita grega encontrada nas inscrições em cerâmica descoberta no antigo local. As inscrições presentes nos fragmentos de cerâmica exibem alguns dos exemplos mais antigos do alfabeto grego, bem como dos alfabetos coríntio, meliano, lésbio e fenício antigo.

Por fim, moedas gregas foram descobertas em múltiplos tesouros grandes em Náucratis. As descobertas de moedas mais antigas datam do final do século VI a.C. e variam na sua origem e valor. Contudo, a maioria das moedas descobertas em Náucratis são tetradracmas de prata atenienses e datam de meados do século V a.C. Durante este período, a prata era uma mercadoria rara e muito cobiçada pelos antigos egípcios. A introdução da cunhagem grega antiga em Náucratis é prova da forte ligação comercial do local com Atenas. A circulação de moeda exibe também algumas das provas mais antigas de distribuição monetária no Antigo Egito. Antes disto, o Egito não cunhava a sua própria moeda; pelo contrário, a sua infraestrutura económica baseava-se num sistema de troca direta.

O Impacto Comercial no Mundo Mediterrânico

Náucratis desempenhou um papel importante na exportação de bens do antigo Egito para o resto do mundo mediterrânico. Isto é evidente tanto no registo arqueológico como nas fontes literárias. Uma das suas principais exportações era o natrão, que é um produto químico à base de sódio utilizado na mumificação no antigo Egito. Outros bens exportados incluíam lã, linho, têxteis, papiro, perfumes e amuletos. Os artefactos egípcios circulavam através das rotas comerciais gregas e encontravam o seu caminho até às casas e oficinas da Grécia Jónica e das cidades-estado da Grécia continental através do mar Egeu.

Remover Publicidades
Publicidade
Marble Relief of Dionysos from Naukratis
Relevo de Mármore de Dioniso de Náucratis The Trustees of the British Museum (CC BY-NC-SA)

Náucratis começou como um forte militar para mercenários gregos deslocados; contudo, transformou-se num poderoso centro comercial, cobiçado pela sua riqueza e admirado pelos seus contemporâneos gregos, como Heródoto. A cidade desempenhou um papel importante na economia como porta de entrada comercial entre o Egito e o Egeu, Anatólia, Levante, Pérsia, Etrúria, Sul de Itália e Cirenaica, e representa uma fusão de tradições gregas e egípcias através da existência de templos dedicados tanto a divindades gregas como egípcias. A abundância de artefactos egípcios e gregos descobertos no local sugere que Náucratis era um porto comercial próspero, cuja influência económica sobre o Mediterrâneo foi extraordinária na sua época.

Remover Publicidades
Publicidade

Bibliografia

A World History Encyclopedia é uma Associada da Amazon e recebe uma contribuição na venda de livros elegíveis

Sobre o Tradutor

Sobre o Autor

Cite Este Artigo

Estilo APA

Dunn, A. (2026, julho 24). Náucratis. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-20442/naucratis/

Estilo Chicago

Dunn, Adriana. "Náucratis." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, julho 24, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-20442/naucratis/.

Estilo MLA

Dunn, Adriana. "Náucratis." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 24 jul 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-20442/naucratis/.

Remover Publicidades