Terceiro Período Intermédio do Egito

Era da Invasão Estrangeira
Joshua J. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Tanis (by Brigitte Djajasasmita, CC BY-NC-ND)
Tânis Brigitte Djajasasmita (CC BY-NC-ND)

O Terceiro Período Intermédio (cerca de 1069-525 a.C.) é a era que se segue ao Império Novo (cerca de 1570 a cerca de 1069 a.C.) e precede a Época Baixa do Antigo Egito (525-332 a.C.). A história egípcia foi dividida em eras de impérios e períodos intermédios pelos egiptólogos do século XX, com o intuito de clarificar a história do país; contudo, estas designações não eram utilizadas pelos próprios antigos egípcios.

O termo "império" é utilizado para definir uma era de forte governo centralizado, enquanto "período intermédio" designa um tempo de desunião e de poder repartido. No Primeiro Período Intermédio do Egito (2181-2040 a.C.) e no Segundo Período Intermédio (cerca de 1782-1570 a.C.), esta divisão provocou tensões entre os dois centros de poder. No Primeiro Período Intermédio, as relações foram tensas entre os dois reinos de Heracleópolis e de Tebas, e, durante o Segundo Período Intermédio do Egito, entre Tebas e os soberanos Hicsos de Aváris, a norte, e os Núbios, a sul.

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No Terceiro Período Intermédio, o poder foi detido de forma quase equitativa entre as cidades de Tânis e de Tebas, mas este período diferiu significativamente dos outros, uma vez que assistiu à intrusão dos Líbios e às invasões dos Cuxitas e dos Persas; é, por isso, por vezes referido como a era da invasão estrangeira.

A Divisão do Poder

Tânis constituía a sede do governo secular, enquanto Tebas era uma teocracia.

O equilíbrio de poder entre Tânis e Tebas oscilou, por vezes, num sentido ou noutro, à medida que as duas cidades governavam conjuntamente, ainda que frequentemente possuíssem agendas bastante distintas. Tânis era a sede do poder secular, enquanto Tebas era uma teocracia. Como não existia, no Antigo Egito, uma separação entre a vida religiosa e a quotidiana, o termo "secular" deve ser aqui entendido numa vertente mais "pragmática" ou "empírica". Os governantes de Tânis tomavam as suas decisões com base nas circunstâncias e assumiam a responsabilidade pelas decisões do seu rei, embora os deuses fossem, certamente, consultados. Os sumos sacerdotes de Amon, que governavam em Tebas, consultavam diretamente o deus Amon sobre todos os aspetos da governação e, de facto, Amon poderia ser seguramente considerado o verdadeiro "rei" de Tebas.

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O rei de Tânis e o sumo sacerdote de Tebas eram, frequentemente, parentes, tal como acontecia entre os membros das duas casas governantes. A posição de Esposa do Deus Amon — um lugar de grande poder e riqueza — ilustra isto claramente, uma vez que era ocupada por filhas dos governantes tanto de Tânis como de Tebas. Projetos e políticas conjuntos foram levados a cabo por ambas as cidades, como o comprovam as inscrições deixadas pelos reis e sacerdotes, tendo cada uma compreendido e respeitado a legitimidade da outra.

Tendo isto em conta, é importante notar que o Terceiro Período Intermédio tem sido, durante muito tempo, encarado como uma espécie de epílogo da história egípcia, uma era ainda mais sombria de caos e colapso do que os períodos intermédios anteriores. Contudo, nenhum dos períodos intermédios do Egito foi tão caótico como os primeiros egiptólogos (e até alguns mais recentes) interpretaram. As visões destes primeiros académicos foram fortemente influenciadas pela sua própria época e pela forma de governo que reconheciam como legítima. Um governo central forte era interpretado como bom, enquanto um governo descentralizado — o aspeto que define os períodos intermédios — era visto como perigoso. Na realidade, todos os três períodos intermédios mantiveram a continuidade cultural na ausência de um governo central unificador, e cada um deles deu o seu próprio contributo para a história do Egito.

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Map of the New Kingdom Egypt under Ramesses II
Mapa do Império Novo do Egito cerca de 1250 a.C. Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

A diferença entre os dois primeiros e o último reside no facto de que, após o Terceiro Período Intermédio, o Egito não voltou a erguer-se para atingir patamares mais elevados. Na parte final da XXII Dinastia, o Egito encontrava-se dividido por uma guerra civil e, por altura da XXIII, o país estava fragmentado entre monarcas autoproclamados que governavam a partir de Heracleópolis, Tânis, Hermópolis, Tebas, Mênfis e Saís. Esta divisão tornou impossível uma defesa unificada do país, o que permitiu a invasão dos Núbios a partir do sul.

As XXIV e XXV dinastias viram a unificação sob domínio núbio, mas o país não possuía força suficiente para resistir ao avanço dos Assírios, primeiro sob o comando de Esar-haddon, em 671/670 a.C., e depois de Assurbanípal, em 666 a.C. Embora os Assírios tenham sido expulsos do país, o Egito não dispunha de recursos para repelir outros invasores. A invasão persa de 525 a.C. pôs fim à autonomia egípcia até à ascensão da XXVIII Dinastia de Amirteu (cerca de 404-398 a.C.), na Época Baixa, a qual libertou o Baixo Egito da dominação persa.

Mapa do Império Persa Aqueménida, cerca de 500 a.C.
Mapa do Império Persa Aqueménidas, Cerca de 500 a.C. Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Amirteu, contudo, não unificou o país sob domínio egípcio, e os Persas continuaram a deter o Alto Egito. A XXX Dinastia (cerca de 380-343 a.C.), também inserida na Época Baixa do Egito, logrou alcançar a unidade, mas esta não perdurou, e os Persas regressaram em 343 a.C. para manter o Egito como uma satrapia, até que este fosse conquistado por Alexandre, o Grande, em 331 a.C. Este período, por conseguinte, é geralmente visto como um longo declínio que extinguiu a cultura egípcia e, embora essa interpretação seja compreensível, não é inteiramente rigorosa.

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A Natureza do Terceiro Período Intermédio

Esta diferença entre o Terceiro Período Intermédio e os dois primeiros levou diversos estudiosos, do século XIX ao XX e até ao presente, a caracterizar a era como o fim da história egípcia e o colapso da sua cultura. Os dois períodos intermédios anteriores foram igualmente apresentados como "idades das trevas" de confusão e caos, mas o Terceiro Período Intermédio recebe o tratamento mais severo, uma vez que não foi sucedido por nenhum glorioso Império Médio ou Império Novo, mas apenas pela Época Baixa, que é frequentemente vista como uma mera continuação do declínio do Terceiro Período Intermédio. Estas interpretações prestam um enorme desserviço a uma era que, embora carente da unidade e homogeneidade tradicionais dos impérios ou períodos anteriores, ainda manteve um forte sentido de cultura egípcia.

Os rituais funerários egípcios, que resultaram em algumas das mais impressionantes obras de arte nos túmulos da classe alta e da realeza, continuaram a ser observados. Durante este período, foram produzidas obras de arte de detalhe e inovação notáveis, especialmente em bronze, faiança, prata e ouro, bem como inscrições, pinturas e estatuária complexas. Os projetos de construção foram de âmbito reduzido durante esta época, uma vez que faltavam os recursos e um governo central capaz de organizar projetos de grande escala até ao reinado de Amásis (Amósis II, 570-526 a.C.), da XXVI Dinastia, e, posteriormente, à unificação do país sob a XXX Dinastia.

As práticas religiosas parecem ter-se centrado no conceito do faraó como filho de um deus, o que conduziu ao desenvolvimento do mammisi (casa do nascimento), um templo local dedicado ao culto do deus-criança nascido da união de duas divindades poderosas, uma das quais geralmente associada ao sol. O conceito de tríades divinas (pai, mãe, filho) possuía uma longa tradição no Egito e continuou durante este período com a popularidade do culto de Ísis e da tríade composta por Osíris, Ísis e o deus-criança Hórus. O culto de Amon, especialmente em Tebas, manteve-se, mas o culto de Ísis acabaria por perdurar para além do culto de Amon e, mais tarde, chegaria a Roma para influenciar o Cristianismo primitivo.

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Amun
Amon Joanna Penn (CC BY)

O Terceiro Período Intermédio teve início com o fim do reinado de Ramessés XI (1107-1077 a.C.), o último faraó do Império Novo. O poder dos grandes faraós do Império Novo fora declinando ao longo da XX Dinastia (cerca de 1190-1077 a.C.), ao passo que o dos sumos sacerdotes de Amon tinha crescido. Pelo final do Império Novo, o deus Amon era, efetivamente, o governante do Egito, uma vez que o faraó já não era considerado um intermediário necessário entre o povo e os seus deuses.

O culto de Amon, sediado no seu vasto e constantemente expandido Templo de Karnak, em Tebas, possuía mais terras e riqueza do que a coroa, e a sua influência tornara-se considerável. Em vez de ser o faraó a interpretar a vontade dos deuses, os sacerdotes consultavam o próprio Amon, e o deus respondia-lhes. Casos civis e criminais, questões de política e assuntos domésticos eram todos decididos pelo deus. O académico Marc van de Mieroop escreve:

O deus tomava decisões de Estado na prática. Um Festival da Audiência Divina ocorria regularmente em Karnak, quando a estátua do deus comunicava através de oráculos, assentindo com a cabeça quando concordava. Os oráculos divinos tornaram-se importantes na XVIII Dinastia; no Terceiro Período Intermédio, formaram a base da prática governativa.

(pág. 266)

Longe de ser uma era dilacerada por conflitos, a fase inicial do Terceiro Período Intermédio foi um tempo de notável tolerância e cooperação.

Quando Ramessés XI faleceu, foi sepultado por Smendes (cerca de 1077-1051 a.C.), um governador do Baixo Egito que governava a partir de Tânis e que poderá ter sido casado com um membro da família real. De acordo com a tradição egípcia, um rei era sepultado pelo seu sucessor; Smendes reivindicou o direito legítimo a governar e mudou a capital da cidade de Per-Ramessés para Tânis.

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Por esta altura, contudo, os sacerdotes em Tebas eram suficientemente poderosos para poderem reclamar a sua própria legitimidade para governar, e o país ficou dividido entre o domínio do Baixo Egito, a partir de Tânis, e o do Alto Egito, a partir de Tebas. Contrariamente a interpretações anteriores do período, porém, esta divisão não resultou em guerra civil ou lutas internas. O egiptólogo John Taylor nota:

É verdade que o período foi marcado por tensões sobre o controlo do território e dos recursos, conduzindo ocasionalmente a conflitos, mas a violência não era endémica; o período, como um todo, foi estável e representa muito mais do que um hiato temporário ao governo faraónico tradicional.

(Shaw, pág. 324)

Smendes fundou a XXI Dinastia e, embora nunca tenha sido tão poderosa como períodos anteriores, manteve a cultura e, eventualmente, alargou-a e aprofundou-a à medida que os Líbios (conhecidos como Meshwesh ou os Ma) passaram a governar e os costumes estrangeiros foram integrados na cultura egípcia. Na XXI Dinastia, encontram-se vários governantes com nomes egípcios que eram, muito provavelmente, líbios e, nas dinastias posteriores, líbios reinaram tanto a partir de Tânis como de Tebas sob nomes líbios, atestando a aceitação de não-egípcios em posições de poder — uma situação que teria sido intolerável na história egípcia anterior. Longe de ser uma era dilacerada por conflitos, a fase inicial do Terceiro Período Intermédio foi um tempo de notável tolerância e cooperação. Mieroop escreve:

Os reis de Tânis e os sumos sacerdotes em Tebas reconheciam a existência um do outro sem rancor. Ajudavam-se regularmente e agiam conjuntamente. Por exemplo, o Rei Smendes enviou assistência a Tebas quando uma cheia ameaçou o templo de Luxor, e o Sumo Sacerdote Pinudjem I ajudou o Rei Psusennes I quando este construiu o templo de Amon em Tânis. Ambos deixaram inscrições conjuntas. O relacionamento entre as duas casas era muito pessoal. O fundador da dinastia, Smendes, poderá ter sido filho do Sumo Sacerdote Herihor, e a sua filha casou com o Sumo Sacerdote Pinudjem I... Coexistiram sob um acordo que pode ser comparado à concordata entre a igreja e o estado na história europeia: os poderes secular e religioso aceitaram as áreas de influência um do outro. No Egito da XXI Dinastia, a casa real do norte governava nominalmente todo o país, mas, na realidade, permitia que outro ramo da família administrasse o sul com base no seu cargo sacerdotal.

(pág. 270)

Esta divisão de poder funcionou bem, na medida em que os reis de Tânis conseguiram governar o Baixo Egito, e os sacerdotes de Tebas o Alto Egito, com maior atenção ao detalhe do que um governo central em Mênfis, Per-Ramessés ou Tebas a administrar o bem-estar de todo o país. Ainda assim, sem um governo central forte que estabelecesse um padrão ao qual todas as regiões do Egito aderissem, os diferentes distritos administrativos do país assumiram o poder que puderam e prosperaram ou sofreram necessidades em conformidade. Embora Smendes fosse o rei legítimo do Egito, o seu alcance real nunca se estendeu muito para lá de Tânis.

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Tânis e Tebas

Tânis terá sido uma pequena aldeia ou cidade durante o Império Novo, que se desenvolveu como um centro comercial e ponto de acesso ao Nilo durante os últimos anos dessa era. Embora Smendes tenha governado a partir desta cidade, a sua história primitiva permanece incerta, uma vez que não foi encontrada qualquer evidência arqueológica anterior ao reinado de Psusennes I (cerca de 1047-1001 a.C.), o terceiro rei da XXI Dinastia. Foi, muito provavelmente, construída por Smendes a partir das ruínas de Per-Ramessés. Os primeiros egiptólogos que descobriram a cidade pensaram ter sido construída por Ramessés II (1279-1213 a.C.), devido à quantidade das suas inscrições nas pedras dos alicerces. Estudos mais recentes demonstraram que estas pedras faziam originalmente parte da metrópole de Per-Ramessés e foram reutilizadas em Tânis.

Como cidade nova, Tânis modelou-se por uma das maiores da história do Egito: Tebas. Do Templo de Amon às ruas e aos bairros, a nova cidade no Baixo Egito espelhava a muito mais antiga, situada a sul. Os reis de Tânis fizeram o mesmo, assumindo os títulos, as modas e as responsabilidades tradicionais dos faraós de eras anteriores, quando Tebas fora a capital.

The Great Sphinx of Tanis
A Grande Esfinge de Tânis fmpgoh (CC BY-NC-ND)

Tebas era já uma cidade estabelecida e populosa por volta de 3200 a.C., fora a capital do país durante o Império Novo e era o local do mais vasto e importante centro religioso do país: o Templo de Amon, em Karnak. Os sacerdotes de Amon em Tebas tinham, certamente, o poder e o precedente para se declararem os "verdadeiros reis" do Egito e esmagarem os "pretendentes" em Tânis, mas nunca o fizeram. Mais ainda, não existe qualquer prova de que considerassem os reis tanitas como algo que não legítimos soberanos. As inscrições tornam claro que os oficiais em Tebas consideravam os reis de Tânis os monarcas legítimos do Egito, ao mesmo tempo que reconheciam também os seus sumos sacerdotes.

As dinastias do Terceiro Período Intermédio refletem esta divisão de poder na medida em que, à exceção da do historiador Manetão, do século III a.C., não existem listas reais oficiais como as que existem para outros períodos da história egípcia. Taylor nota:

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Uma estrutura histórica sólida para estes séculos revelou-se mais difícil de estabelecer do que para qualquer outro período importante da história egípcia [devido à falta de uma lista real ou de qualquer outra documentação significativa na qual os egiptólogos habitualmente se baseiam].

(Shaw, pág. 324)

A lista real de Manetão é também mais confusa para este período do que para os outros, resultando numa cronologia de governo obscura, com fluxos e refluxos de poder a oscilar entre os sumos sacerdotes de Amon em Tebas e os reis de Tânis e, mais tarde, outros centros de poder. Mieroop escreve:

Comparativamente ao Império Novo, e especialmente ao Período Raméssida, o material de fontes para o Terceiro Período Intermédio é limitado. Isto é verdade para todos os níveis da sociedade. A aldeia de Deir el-Medina deixou de produzir os abundantes documentos da vida quotidiana, e apenas achados dispersos ilustram como as pessoas fora dos templos e palácios viviam durante este tempo.

(pág. 261)

Mieroop nota, contudo, que a escassez de registos deste período poderá dever-se, pelo menos em parte, ao facto de terem sido armazenados em Tânis e noutras cidades na região pantanosa do Delta do Egito, "onde condições mais húmidas causaram a degradação de muitos vestígios" (Idem). Isto é, naturalmente, especulativo, mas ainda assim poucos registos foram encontrados na região do Delta. Os registos oficiais teriam sido, tradicionalmente, guardados na capital da nação, mas como existiam, essencialmente, duas capitais, não é claro porque teriam sido mantidos em Tânis e não em Tebas, que já possuía edifícios que serviram esse propósito no passado e onde o clima era mais seco.

Seja qual for o raciocínio, o resultado é a perda de uma enorme quantidade de informação sobre a era e a consequente dificuldade em reconstruí-la tão completamente como outras. Alguns reis notáveis emergem da obscuridade, e algumas mulheres impressionantes também se destacam na posição de Esposa do Deus Amon, mas a cronologia estável de períodos passados não é possível para este.

A XXI Dinastia

Smendes fundou a XXI Dinastia, mas era claramente importante o suficiente, ainda antes da morte de Ramessés XI, para merecer destaque. N' O Conto de Wenamun (também conhecido como O Relato de Wenamun), que poderá datar do final do Império Novo, um funcionário governamental de Tebas chamado Wenamun visita Smendes em Tânis a caminho de Biblos, enquanto não é feita qualquer menção a Ramessés XI ou à corte em Per-Ramessés.

Tanto Tânis como Tebas falharam em exercer qualquer influência significativa sobre o país como um todo.

O Conto de Wenamun foi outrora considerado um documento histórico real, mas a investigação recente interpreta-o como ficção histórica. Seja como for, a história apresenta vários aspetos interessantes sobre o Egito no final do Império Novo e início do Terceiro Período Intermédio: nomarcas como Smendes eram mais importantes do que o faraó; uma simples expedição para obter madeira para a construção naval era um empreendimento de grande monta, quando, no Império Novo, teria sido tão fácil que nem mereceria menção; e o prestígio que o Egito outrora desfrutou entre os seus vizinhos tinha caído consideravelmente.

Smendes pode ter sido poderoso o suficiente para ser notado, mas detinha apenas o controlo do Baixo Egito, e mesmo esse de forma limitada. Governou aproximadamente na mesma altura que o Sumo Sacerdote Herihor em Tebas, que reinou cerca de 1080-1074 a.C. Herihor tinha sido general do exército — tal como todos os sumos sacerdotes de Amon eram — mas também tinha pouca influência para lá da cidade de Tebas.

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Este seria o paradigma para a maior parte do Terceiro Período Intermédio. Tal como no Primeiro Período Intermédio, os nomarcas individuais viram o seu poder reforçado em detrimento do governo central, e tanto Tânis como Tebas não conseguiram exercer qualquer influência significativa sobre o conjunto do país.

Stela of Herihor
Estela de Herihor Rob Koopman (CC BY-SA)

Os reis da XXI Dinastia eram, muito provavelmente, líbios que governavam sob nomes egípcios, tal como os sacerdotes em Tebas. Talvez devido ao paradigma líbio de pequenos reinos centralizados, contentavam-se com as suas esferas de influência, ou talvez acreditassem, efetivamente, que governavam conjuntamente um Egito unido. Na realidade, porém, o Egito vinha a dividir-se de forma constante em governos regionais ao longo da última parte do Período Raméssida do Império Novo. Ao longo do curso desta era, o país unificar-se-ia sob um líder forte, apenas para se fragmentar novamente.

Shoshenq I e a XXII Dinastia

A XXII Dinastia foi igualmente líbia, cujos reis governavam agora abertamente sob nomes líbios. Foi fundada por Shoshenq I (943-922 a.C.), que unificou o Egito e empreendeu campanhas militares que faziam recordar os tempos do império egípcio. Pensa-se que ele seja o Shishak da Bíblia que saqueou Jerusalém e levou o tesouro do Templo de Salomão, conforme descrito em 1 Reis 11:40, 1 Reis 14:25-26 e 2 Crónicas 12:2-9, embora esta afirmação tenha sido contestada. Shoshenq I deixou uma inscrição da sua campanha em Judá e Israel em Karnak, o que sustenta a ligação bíblica, mas não menciona Jerusalém entre as cidades saqueadas. Para alguns estudiosos, esta omissão sugere que Shoshenq I não é o Shishak bíblico, embora todos os outros aspetos da inscrição suportem a alegação de que o seja.

Shoshenq I reformou o governo em Tânis e o sacerdócio em Tebas. O sacerdócio deixaria de ser um cargo hereditário, passando a ser de nomeação real, algo que se aplicaria também à seleção da Esposa do Deus Amon. As suas campanhas militares revitalizaram a economia do Egito e, sob o seu reinado, o país começou a assemelhar-se, de certo modo, ao Egito do Império Novo. Os seus sucessos, contudo, não perduraram muito tempo após a sua morte. Entre 922 e 872 a.C., os governantes que o seguiram procuraram apenas capitalizar as suas realizações, acrescentando-lhes pouco. Devido aos registos perdidos e confusos da época, é difícil saber com certeza até a ordem de sucessão, mas a evidência arqueológica sustenta a visão de que pouco de relevante foi alcançado.

Em 872 a.C., Osorkon II (872-837 a.C.) subiu ao trono e manteve o país unido, mas, após o seu reinado, o Egito fragmentou-se em reinos separados que governavam a partir de Heracleópolis, Tânis, Saís, Mênfis e Hermópolis, no Baixo Egito, e de Tebas, no Alto Egito.

As XXIV e XXV Dinastias Cuxitas

A sul, o rei cuxita Kashta (cerca de 750 a.C.) reconheceu a fraqueza do Egito e moveu-se para a capitalizar. Kashta admirava profundamente a cultura egípcia e tinha "egipcianizado" a sua capital, Napata, e, por extensão, o seu reino. Mantinha fortes laços comerciais com Tebas e estava a par do processo de nomeação de sacerdotes e outros altos funcionários. Sem um governo central no Baixo Egito capaz de exercer qualquer autoridade no Alto Egito, Kashta conseguiu que a sua filha, Amenirdis I, fosse nomeada Esposa do Deus Amon. A importância deste cargo era imensa, como nota Mieroop:

A importância política destas mulheres era muito grande e publicamente reconhecida. Atuavam frequentemente como regentes dos seus pais ou irmãos na região tebana, adotando ali atributos reais.

(pág. 275)

Amenirdis I assumiu efetivamente o controlo de Tebas e, com ela, do Alto Egito. Com o Baixo Egito dividido, Kashta tomou pacificamente o controlo do país e declarou-se Rei do Alto e Baixo Egito.

O seu filho, Piye (747-721 a.C.), reforçou o domínio cuxita sobre o Alto Egito e, quando os reis do Baixo Egito se opuseram, conduziu o seu considerável exército contra eles. Piye conquistou o Baixo Egito, tomando e subjugando todas as cidades principais, e depois regressou a casa, para Napata. O Egito estava, tecnicamente, sob o seu reinado, mas deixou que os reis do Baixo Egito se reagrupassem e restabelecessem a sua autoridade.

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Shabaka (721-707 a.C.), irmão de Piye, sucedeu-lhe e conquistou o Baixo Egito até à cidade de Saís. O Egito estava agora sob domínio cuxita, mas, contrariamente a interpretações anteriores deste período, a cultura e as tradições egípcias continuaram a ser observadas. Shabaka, tal como Kashta e Piye antes dele, admirava a longa civilização do Egito e procurou preservá-la. O seu filho, com o nome bastante egípcio de Haremakhet, foi nomeado sumo sacerdote de Amon em Tebas, e o seu reinado é caracterizado por projetos de construção por todo o Egito, pela preservação de documentos históricos e pela segurança das fronteiras contra invasões.

Taharqa
Taharqa Rita Wallaert (CC BY-NC-SA)

A Shabaka sucedeu-lhe Shebitku (707-690 a.C.), irmão mais novo ou sobrinho, que escolheu o nome de trono egípcio Djedkare. Shebitku herdou um país forte, mas também um adversário formidável sob a forma dos Assírios. Quando Shoshenq I conquistou Judá e Israel, tal foi considerado um grande feito pelos Egípcios, mas, a longo prazo, enfraqueceu o país ao remover uma importante zona tampão.

Após o Segundo Período Intermédio, os faraós do Império Novo iniciaram uma política de expansão para prevenir quaisquer incursões futuras, como a dos Hicsos. Durante o Terceiro Período Intermédio, estas zonas tampão encolheram e o Egito perdeu o seu antigo poder, mas ainda existiam nações nas suas fronteiras, como Judá e Israel, que serviriam o mesmo propósito. A conquista destas regiões por parte de Shoshenq I colocou a fronteira do Egito face à dos Assírios, sem qualquer proteção intermédia.

Durante o reinado de Shabaka, foi dado santuário ao rebelde Asdode, que se tinha revoltado contra o rei assírio Sargão II (722-705 a.C.), e sob o reinado de Shebitku, o Egito apoiou Judá contra o sucessor de Sargão II, Senaqueribe (705-681 a.C.). Senaqueribe foi assassinado antes de poder montar uma campanha contra o Egito, mas esta foi levada a cabo pelo seu filho Esar-haddon, que invadiu o território em 671 a.C., durante o reinado do rei cuxita Taharqa (c. 690-671 a.C.), equiparado ao rei bíblico Tiraca de 2 Reis 19:9 (embora esta afirmação seja contestada). Esar-haddon capturou a família de Taharqa e diversos outros nobres, enviando-os acorrentados para a sua capital em Nínive, embora Taharqa tenha conseguido escapar. Sucedeu-lhe Tantamani (cerca de 669-666 a.C.), que retomou o Egito aos Assírios e atraiu a ira do filho e sucessor de Esar-haddon, Assurbanípal, que conquistou o Egito em 666 a.C.

A XXVI Dinastia (Período Saíta)

Os Assírios, contudo, não estavam interessados em ocupar o Egito e deixaram-no sob o reinado de Necao I (cerca de 666 a.C.), que se tinha tornado o seu rei fantoche. Necao I foi morto na campanha de Tantamani para libertar o Egito dos Assírios, e o governo passou para o filho de Necao, Psamético I (também conhecido como Psamtik I, cerca de 665-610 a.C.). Psamético I é considerado o fundador da XXVI Dinastia e iniciou o chamado Período Saíta da história egípcia, durante o qual os reis governaram a partir da cidade de Saís, no Delta setentrional.

Psamético I aparentemente cumpriu as políticas assírias, mas estava, na verdade, a planear cuidadosamente a sua queda. Por volta de 656 a.C., lançou um ataque naval a Tebas e forçou a Esposa do Deus Amon em funções a favorecer a sua filha, Nitócris I, como sucessora. Nitócris I assumiu o cargo de Esposa do Deus Amon e controlou Tebas enquanto Psamético I fazia campanha contra os funcionários locais e governadores que mantinham as políticas assírias.

Após libertar o Egito do domínio assírio, Psamético reformou o governo egípcio em Saís e iniciou projetos de construção em conformidade com a tradição real. Segundo alguns estudiosos, o Terceiro Período Intermédio termina aqui com a unificação do Egito por Psamético I, mas esta interpretação não faz sentido. A XXVI Dinastia seguiria o exemplo de Psamético e manteria as suas políticas e visão, e uma visão mais abrangente da era coloca o final do período onde este pertence: no fecho do período saíta.

Psamético I foi um líder forte que incutiu nos seus súbditos a glória do passado do Egito, restaurando-a através dos seus projetos monumentais, renovações, restauros e feitos militares. O seu filho, Necao II (610-595 a.C.), deu continuidade às realizações do pai ao liderar campanhas militares, encomendar projetos de construção e expandir o exército.

Os Egípcios nunca foram um povo de grandes navegadores e, reconhecendo isso, Necao II criou uma marinha utilizando mercenários gregos, que se revelou bastante eficaz. Necao II é habitualmente retratado como um grande guerreiro e líder militar que fortaleceu o país que herdou. Na Bíblia, é conhecido como o rei egípcio que mata Josias de Judá na Batalha de Megido (2 Reis 23:29, 2 Crónicas 35:20-22) e, aí também, é visto como um líder impressionante.

Battle of Megiddo Relief
Relevo da Batalha de Megido Olaf Tausch (GNU FDL)

A Psamético II (Psamtik II, 595-589 a.C.) sucedeu o seu filho, Psamético II, que deu continuidade às políticas do pai. Foi também um grande líder militar, responsável pela deslocação da capital dos Cuxitas de Napata para Meroé, mais a sul, por volta de 592 a.C., para se distanciarem da fronteira do Egito. Psamético II liderou uma força contra o Reino de Cuxe, na Núbia, destruindo tudo o que encontrava no seu caminho, mas, após ter vencido todos os confrontos, parece ter perdido o interesse na campanha e regressou ao Egito.

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Grande parte do seu sucesso nesta campanha deveu-se ao seu general, o futuro Amásis II, que poderá ter encarado com ressentimento o esforço incompleto e, em última análise, fútil. Psamético II parece ter estado mais interessado em apagar os nomes dos governantes cuxitas dos monumentos no sul, destruindo outros edifícios e, possivelmente, tentando até apagar o nome do seu próprio pai da história. As razões para tais atos continuam a ser debatidas, sem que exista uma resposta clara.

Quando Psamético II faleceu, foi sucedido pelo seu filho Wahibre Haaibre (mais conhecido como Apries, 589-570 a.C.), cujo reinado se resumiu a uma série de desafios à sua autoridade. Bateu-se, primeiro sem sucesso, contra os Babilónios e depois, quando o general Amásis orquestrou um golpe de Estado, procurou a ajuda deles para recuperar o trono. Pensa-se que tenha sido morto por Amásis em combate. Amásis II (também conhecido como Amósis II) tornou-se então faraó e elevou o país a um patamar que não conhecia há séculos.

Amásis II foi um líder militar e burocrata brilhante, capaz de reformar a despesa pública, estimulando simultaneamente a economia e orquestrando campanhas militares. O Egito uniu-se sob o seu governo e prosperou novamente com uma economia em expansão, fronteiras seguras e um comércio próspero. Foram concluídos projetos de construção, monumentos e outras obras de arte, e o nome do Egito recuperou parte do prestígio perdido. Foi sucedido pelo seu filho Psamético III (Psamtik III, 526-525 a.C.), que era um homem jovem e inexperiente quando subiu ao trono, estando mal preparado para os desafios que teve de enfrentar.

A Invasão Persa

Segundo Heródoto, o rei persa Cambises II enviou um pedido a Amásis solicitando uma das suas filhas como esposa, mas Amásis, não desejando cumprir o pedido, mas esperando também evitar um conflito, enviou a filha de Apries em vez disso. Esta antiga princesa do Egito sentiu-se profundamente insultada pela decisão de Amásis, especialmente porque era uma política egípcia de longa data recusar o envio de mulheres nobres para reis estrangeiros como esposas. Quando chegou à corte de Cambises II, revelou-lhe quem era na realidade, e Cambises II jurou vingar o insulto de Amásis por lhe ter enviado uma "falsa esposa".

O exército persa mobilizou-se e marchou sobre o Egito em 525 a.C. O ponto de entrada seria a cidade de Pelúsio, no Delta, e as muralhas foram rapidamente fortificadas. As forças de Cambises II atacaram e foram repelidas até ele formular um novo plano. Conhecedor do amor egípcio pelos animais — gatos em particular —, Cambises II ordenou que os seus soldados reunissem todos os animais vadios e selvagens que conseguissem encontrar e que pintassem a imagem de Bastet, a popular deusa egípcia dos gatos, nos seus escudos. Os Persas conduziram então os animais à sua frente contra as muralhas de Pelúsio e os Egípcios, com receio de ferir os animais ou enfurecer a sua deusa, renderam-se.

Cambyses II of Persia
Cambises II da Pérsia Wikipedia (CC BY-SA)

Conclusão

Diz-se que Cambises II ordenou uma marcha triunfal no local, durante a qual atirou gatos de um saco para as caras dos egípcios com desprezo. Levou Psamético III, a família real e milhares de outros para a sua capital em Susa, onde a maioria foi depois morta. Psamético III viveu como membro da comitiva do rei persa até ser descoberto a fomentar uma revolta, altura em que foi executado. Com a sua morte, a XXVI Dinastia — e o Terceiro Período Intermédio — chegou ao fim.

Os Persas governariam o Egito na XXVII e na XXXI dinastia e seriam uma ameaça constante nos períodos dinásticos da XXVIII à XXX. Após a Batalha de Pelúsio, à exceção de breves períodos, o Egito deixou de ser uma nação autónoma. Os Persas detiveram-no esporadicamente até à chegada de Alexandre, o Grande, em 331 a.C., e, após a sua morte, o país foi governado pela dinastia grega ptolemaica até ser anexado por Roma em 30 a.C.

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Perguntas & Respostas

O que é o Terceiro Período Intermédio do Egito?

O Terceiro Período Intermédio do Egito é a era que se segue ao Império Novo e precede a Época Baixa, caracterizada por um governo descentralizado, incursões ou invasões estrangeiras e um lento declínio.

O Terceiro Período Intermédio do Egito foi realmente uma idade das trevas?

Não. O Terceiro Período Intermédio do Egito manteve a cultura e as tradições do antigo Egito, mas, por carecer de um governo coeso, ficou aberto a incursões dos Cuxitas e a invasões por parte dos Assírios e dos Persas.

Quem foram os governantes durante o Terceiro Período Intermédio do Egito?

Durante o Terceiro Período Intermédio do Egito, o país foi governado por egípcios, líbios e cuxitas em diferentes momentos.

Como terminou o Terceiro Período Intermédio do Egito?

O Terceiro Período Intermédio do Egito terminou com a vitória persa sobre os egípcios na Batalha de Pelúsio, em 525 a.C. A era entrou então na Época Baixa, que deu continuidade ao declínio da cultura egípcia.

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Mark, J. J. (2026, julho 23). Terceiro Período Intermédio do Egito: Era da Invasão Estrangeira. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15278/terceiro-periodo-intermedio-do-egito/

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Mark, Joshua J.. "Terceiro Período Intermédio do Egito: Era da Invasão Estrangeira." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, julho 23, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15278/terceiro-periodo-intermedio-do-egito/.

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Mark, Joshua J.. "Terceiro Período Intermédio do Egito: Era da Invasão Estrangeira." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 23 jul 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15278/terceiro-periodo-intermedio-do-egito/.

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