Fenícia

Joshua J. Mark
por , traduzido por Lucas Woytuski
publicado em
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Phoenician Small Ship (by Marie-Lan Nguyen, Public Domain)
Pequeno Navio Fenício Marie-Lan Nguyen (Public Domain)

A Fenícia foi uma antiga civilização composta por cidades-estado independentes, localizadas ao longo da costa do Mar Mediterrâneo, que se estendia pela região correspondente à atual Síria, ao Líbano e ao norte de Israel. Os fenícios eram um grande povo marítimo, conhecido por seus poderosos navios, adornados com cabeças de cavalos em homenagem ao seu deus do mar, Yam, irmão de Mot, o deus da morte.

A cidade insular de Tiro e a cidade de Sídon eram os estados mais poderosos da Fenícia, com Gebal/Bíblos e Baalbek como os centros espirituais/religiosos mais importantes. As cidades-estado fenícias começaram a se formar por volta de 3200 a.C. e estavam firmemente estabelecidas por volta de 2750 a.C. A Fenícia prosperou como centro marítimo de comércio e manufatura entre aproximadamente 1500 e 332 a.C., sendo amplamente reconhecida por sua habilidade na construção de navios, na fabricação de vidro, na produção de tinturas e pelo notável nível de destreza na confecção de bens de luxo e mercadorias.

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O Povo Roxo

A tintura púrpura fabricada e usada em Tiro para as vestes da realeza mesopotâmica deu à Fenícia o nome pelo qual a conhecemos hoje (do grego Phoinikes, que signfica púrpura tíria), o que explica também os fenícios serem conhecidos como 'povo roxo' pelos gregos (como nos conta o historiador grego Heródoto), já que a tinta manchava a pele dos trabalhadores.

Em seu tempo, a Fenícia era conhecida como Canaã e é a terra referenciada nas Escrituras Hebraicas.

Heródoto cita a Fenícia como o berço do alfabeto, afirmando que ele foi levado à Grécia pelo fenício Cadmo (em algum momento antes do século VIII a.C.) e que, antes disso, os gregos não possuíam um alfabeto. O alfabeto fenício é a base da maioria das línguas ocidentais escritas atualmente, e sua cidade de Gebal (chamada pelos gregos de 'Biblos') deu à Bíblia seu nome (do grego Ta Biblia, os livros), pois Gebal era o grande exportador de papiro (bublos, para os gregos), material usado para a escrita no Antigo Egito e na Grécia.

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Acredita-se também que muitos dos deuses da Grécia Antiga tenham sido importados da Fenícia, uma vez que existem certas semelhanças indiscutíveis entre algumas histórias envolvendo os deuses fenícios Baal e Yam e as divindades gregas Zeus e Poseidon. É notável também que a batalha entre o Deus cristão e Satanás, relatada no Livro do Apocalipse, parece ser uma versão posterior do mesmo conflito, com muitos dos mesmos detalhes presentes no mito fenício de Baal e Yam.

Map of Phoenicia
Mapa da Fenícia Wikipedia user Kordas, based on Alvaro's work (CC BY-SA)

Em seu período, a Fenícia era conhecida como Canaã e é a terra mencionada nas Escrituras Hebraicas para a qual Moisés conduziu os israelitas saindo do Egito e que Josué posteriormente conquistou (conforme os livros bíblicos de Êxodo e Josué, embora tal relato não seja corroborado por outros textos e sem apoio nas evidências físicas até agora escavadas). Segundo o estudioso Richard Miles:

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[O povo da terra] compartilhava uma identidade étnica como cananeus, habitantes da terra de Canaã; contudo, apesar de uma herança linguística, cultural e religiosa comum, a região raramente esteve politicamente unida, com cada cidade funcionando como um estado soberano governado por um rei (26).

As cidades-estado da Fenícia prosperaram por meio do comércio marítimo entre aproximadamente 1500 e 322 a.C., até que as principais cidades foram conquistadas por Alexandre, o Grande e, após sua morte, a região se tornou um campo de batalha na disputa entre seus generais pelo império e pela sucessão. Artefatos da região foram encontrados desde a Grã-Bretanha até o Egito, e não há dúvidas de que os bens de luxo fenícios eram altamente valorizados pelas culturas com as quais comerciavam.

Intermediários Comerciais

Os fenícios eram conhecidos principalmente como navegadores que desenvolveram um alto nível de habilidade na construção de barcos e eram capazes de navegar pelas frequentemente turbulentas águas do Mar Mediterrâneo. A construção naval parece ter sido aperfeiçoada em Biblos, onde o design do casco curvado foi criado pela primeira vez. Richard Miles observa que:

... ao longo dos séculos seguintes, Biblos e outros estados fenícios, como Sídon, Tiro, Arruade e Beirute, criaram um nicho importante para si ao transportar mercadorias de luxo e matérias-primas, em grande volume de mercados estrangeiros para o Oriente Próximo. Essas novas rotas comerciais abrangeram grande parte do Mediterrâneo Oriental, incluindo Chipre, Rodes, Cíclades, Grécia continental, Creta, costa da Líbia e Egito. (28)

No entanto, sabe-se também que os navegadores fenícios viajaram até à Grã-Bretanha e aos portos da Mesopotâmia.

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Phoenician-Punic Ship
Navio Fenício-Púnico NMB (CC BY-SA)

Evidências coletadas de naufrágios fenícios fornecem aos arqueólogos modernos provas diretas de algumas das cargas que esses navios transportavam

Foram encontrados lingotes de cobre e de estanho, além de recipientes de armazenamento que se acredita terem contido unguentos, vinho e óleo; vidro, joias de ouro e prata, objetos preciosos de faiança (cerâmica vitrificada), ferramentas de cerâmica pintada e até sucata. (Miles, 28)

Como suas mercadorias eram altamente valorizadas, a Fenícia era frequentemente poupada dos tipos de incursões militares sofridas por outras regiões do Oriente Próximo. Em geral, as grandes potências militares preferiam deixar que os fenícios se dedicassem ao comércio, mas isso não significava que não houvesse inveja por parte de seus vizinhos. A Bíblia refere-se aos fenícios como os "príncipes do mar" em uma passagem de Ezequiel 26:16, na qual o Profeta parece prever a destruição da cidade de Tiro e demonstra certa satisfação diante da queda daqueles que antes haviam sido tão renomados.

De qualquer forma, não há dúvidas quanto à popularidade das mercadorias produzidas na Fenícia. Tão extraordinária era a habilidade dos artesãos de Sídon na fabricação de vidro que se acreditava terem sido os sidônios os inventores desse material. Eles serviram de modelo para a fabricação egípcia de faiança e estabeleceram o padrão para o trabalho em bronze e prata. Além disso, os fenícios parecem ter desenvolvido a arte da produção em massa, uma vez que artefatos semelhantes, confeccionados de maneira idêntica e em grandes quantidades, foram encontrados em diferentes regiões com as quais os fenícios comerciavam. Miles observa:

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Os temas preferidos incluíam símbolos mágicos egípcios, como o olho de Hórus, o escaravelho e o crescente solar, que se acreditava protegerem quem os usava dos espíritos malignos que rondavam o mundo dos vivos (30).

A tintura púrpura fenícia, já mencionada anteriormente, tornou-se o adorno característico da realeza na Mesopotâmia, no Egito e também no Império Romano. Tudo isso foi alcançado através da competição entre as cidades-estados da região, da habilidade dos navegadores que transportavam as mercadorias e do alto nível artístico alcançado pelos artesãos na fabricação desses produtos.

A competição era especialmente acirrada entre as cidades de Sídon e Tiro, possivelmente as mais famosas das cidades-estado da Fenícia, que, juntamente com os mercadores de Biblos, difundiam e transmitiam entre si as crenças culturais e as normas sociais dos povos com os quais faziam comércio. Os fenícios são, de fato, chamados de “intermediários culturais da Antiguidade” por muitos estudiosos e historiadores, devido ao seu papel na transferência cultural.

A cidade de Sídon foi inicialmente a mais próspera, mas aos poucos perdeu terreno para sua cidade-irmã Tiro.

Tiro & Sídon

A cidade de Sídon (atual Sídonia (Saída), Líbano) foi inicialmente a mais próspera, mas aos poucos perdeu terreno para sua cidade-irmã Tiro. Tiro formou uma aliança com o recém-formado reino de Israel, que se mostrou muito lucrativo e expandiu ainda mais sua riqueza, diminuindo o poder do clero e distribuindo de forma mais eficiente a riqueza entre seus cidadãos.

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Sídon, na esperança de estabelecer um comércio igualmente próspero com Israel, tentou consolidar a aliança e o intercâmbio comercial por meio de um casamento. Sídon foi o local de nascimento da princesa Jezabel, casada com o rei de Israel, Acabe, conforme narrado nos livros bíblicos I e II de Reis. A recusa de Jezabel em renunciar à sua religião, dignidade e identidade cultural em favor da cultura de seu marido, não agradou a muitos de seus súditos, principalmente o profeta hebreu Elias, que regularmente a denunciava. O governo de Acabe e Jezabel chegou ao fim por meio de um golpe, inspirado por Elias, no qual o general Jeú assumiu o controle do exército e usurpou o trono. Após isso, as relações comerciais entre Sídon e Israel cessaram. Tiro, no entanto, continuou a florescer.

Phoenician Bronze Bowl from Nimrud
Tigela de Bronze Fenícia de Nínrude Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

Alexandre Conquista a Fenícia

Em 332 a.C., Alexandre, o Grande, conquistou Baalbek (renomeando-a Heliópolis) e no mesmo ano marchou para subjugar as cidades de Biblos e Sídon. Ao chegar a Tiro, os cidadãos seguiram o exemplo dado por Sídon e se submeteram pacificamente à exigência de rendição de Alexandre. Alexandre então desejou oferecer um sacrifício no templo sagrado de Melcarte, em Tiro, e isso os tírios não poderiam permitir.

As crenças religiosas dos tírios proibiam os estrangeiros de realizar sacrifícios ou mesmo de participar das cerimônias no templo, e assim eles ofereceram a Alexandre um acordo, onde ele poderia fazer seu sacrifício na antiga cidade, no continente, mas não no templo situado no complexo insular de Tiro. Alexandre achou essa proposta inaceitável e enviou mensageiros a Tiro, exigindo sua rendição. Os tírios mataram os mensageiros e jogaram seus corpos por cima dos muros.

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Neste ponto, Alexandre ordenou o cerco de Tiro e estava tão determinado a tomar a cidade que construiu uma ponte entre as ruínas da cidade velha, escombros e árvores derrubadas do continente para a ilha (que, devido ao acúmulo de sedimentos ao longo dos séculos, explica por que Tiro hoje não é mais uma ilha), e após sete meses rompeu as muralhas e massacrou a maioria da população.

Map of the Phoenician Expansion c. 11 - 6 centuries BCE
A Expansão Fenícia Séculos cerca de 11 a 6 a.C. Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Estima-se que mais de 30.000 cidadãos de Tiro foram massacrados ou vendidos como escravos e apenas aqueles suficientemente ricos para subornar Alexandre conseguiram escapar com vida (além daqueles que encontraram uma maneira de escapar furtivamente). Após a queda de Tiro, as demais cidades-estado seguiram o exemplo de Sídon e se renderam ao domínio de Alexandre, encerrando assim a civilização fenícia e inaugurando a Era Helenística.

A Fenícia Romana

Em 64 a.C., as partes fragmentadas da Fenícia foram anexadas por Roma e por volta de 15 d.C. eram colônias do Império Romano, com Heliópolis permanecendo um importante local de peregrinação, abrigando o mais grandioso edifício religioso de todo o Império (o Templo de Júpiter), cujas ruínas permanecem bem preservadas até hoje. O legado mais famoso da Fenícia é sem dúvida o alfabeto; mas sua contribuição para as artes e seu papel na disseminação das culturas do mundo antigo são igualmente impressionantes.

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Sobre o Tradutor

Lucas Woytuski
Lucas Woytuski is a Brazilian translator with a degree in English Language from Universidade Federal de Santa Catarina. A former History undergraduate, he has experience in translation and English teaching and is passionate about history and languages

Sobre o Autor

Joshua J. Mark
Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Mark, J. J. (2025, novembro 29). Fenícia. (L. Woytuski, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-183/fenicia/

Estilo Chicago

Mark, Joshua J.. "Fenícia." Traduzido por Lucas Woytuski. World History Encyclopedia, novembro 29, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-183/fenicia/.

Estilo MLA

Mark, Joshua J.. "Fenícia." Traduzido por Lucas Woytuski. World History Encyclopedia, 29 nov 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-183/fenicia/.

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