Índia Antiga

Joshua J. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
publicado em
Translations
Imprimir PDF
Map of the Indo-Saka Kingdoms (by World Imaging, GNU FDL)
Mapa dos Reinos Indo-Citas World Imaging (GNU FDL)

A Índia é um país do sul da Ásia cujo nome deriva do rio Indo. O nome «Bharata» é usado como designação para o país na sua constituição, em referência ao antigo imperador mitológico Bharata, cuja história é contada, em parte, no épico indiano Mahabharata.

De acordo com os escritos conhecidos como Puranas (textos religiosos/históricos redigidos no século V), Bharata conquistou todo o subcontinente indiano e governou a terra em paz e harmonia. A terra era, portanto, conhecida como Bharatavarsha («o subcontinente de Bharata»). A atividade hominídea no subcontinente indiano remonta a mais de 250 000 anos, sendo, portanto, uma das regiões habitadas mais antigas do planeta.

Remover publicidades
Publicidade

Escavações arqueológicas descobriram artefactos usados pelos primeiros humanos, incluindo ferramentas de pedra, o que sugere uma data extremamente antiga para a habitação humana e a tecnologia na área. Embora as civilizações da Mesopotâmia e do Egito sejam há muito reconhecidas pelas suas célebres contribuições para a civilização, a Índia tem sido frequentemente negligenciada, especialmente no Ocidente, apesar da sua história e cultura sejam igualmente ricas. A Civilização do Vale do Indo (cerca de 7000-c. 600 a.C.) estava entre as maiores do mundo antigo, cobrindo mais território do que o Egito ou a Mesopotâmia e produzindo uma cultura igualmente vibrante e progressista.

É o berço de quatro grandes religiões mundiais — hinduísmo, jainismo, budismo e siquismo —, bem como da escola filosófica de Charvaka, que influenciou o desenvolvimento do pensamento e da investigação científica. As invenções e inovações do povo da Índia antiga incluem muitos aspetos da vida moderna que hoje são dados como certos, incluindo o autoclismo, os sistemas de drenagem e esgotos, as piscinas públicas, a matemática, a ciência veterinária, a cirurgia plástica, os jogos de tabuleiro, a ioga e meditação, entre muitos outros.

Remover publicidades
Publicidade

Pré-história da Índia

As áreas da atual Índia, Paquistão e Nepal proporcionaram aos arqueólogos e estudiosos os sítios mais ricos da linhagem mais antiga. A espécie Homo heidelbergensis (um proto-humano que foi antepassado do Homo sapiens moderno) habitou o subcontinente indiano séculos antes dos humanos migrarem para a região conhecida como Europa. As evidências da existência do Homo heidelbergensis foram descobertas pela primeira vez na Alemanha em 1907 e, desde então, outras descobertas estabeleceram padrões de migração bastante claros desta espécie para fora de África.

O reconhecimento da antiguidade da sua presença na Índia deveu-se em grande parte ao interesse arqueológico relativamente tardio na área, uma vez que, ao contrário do trabalho na Mesopotâmia e no Egito, as escavações ocidentais na Índia só começaram a sério na década de 1920. Embora, desde 1829, fosse conhecida a existência da antiga cidade de Harappa a sua importância arqueológica foi ignorada e as escavações posteriores corresponderam a um interesse em localizar os locais prováveis referidos nos grandes épicos indianos Mahabharata e Ramayana (ambos do século V ou IV a.C.), ignorando a possibilidade de um passado muito mais antigo para a região.

Remover publicidades
Publicidade

A aldeia de Balathal (perto de Udaipur, no Rajastão), para citar apenas um exemplo, ilustra a antiguidade da história da Índia, uma vez que remonta a 4000 a.C. Balathal só foi descoberta em 1962 e as escavações só começaram na década de 1990. Ainda mais antigo é o sítio neolítico de Mehrgarh, datado de cerca de 7000 a.C., mas que apresenta evidências de habitação ainda mais antiga, que só foi descoberto em 1974.

As escavações arqueológicas nos últimos 50 anos mudaram drasticamente a compreensão do passado da Índia e, por extensão, da história mundial.

As escavações arqueológicas nos últimos 50 anos mudaram drasticamente a compreensão do passado da Índia e, por extensão, da história mundial. Um esqueleto com 4000 anos descoberto em Balathal em 2009 fornece a evidência mais antiga de lepra na Índia. Antes desta descoberta, a lepra era considerada uma doença muito mais recente, que se acreditava ter sido trazida da África para a Índia em algum momento e, em seguida, da Índia para a Europa pelo exército de Alexandre, o Grande, após a sua morte em 323 a.C.

Agora sabe-se que havia uma atividade humana significativa na Índia no período Holoceno (há 10.000 anos) e que muitas suposições históricas, baseadas em trabalhos anteriores no Egito e na Mesopotâmia, precisam ser revistas e corrigidas. Os primórdios da tradição védica na Índia, ainda praticada hoje, podem agora ser datados, pelo menos em parte, dos povos indígenas de sítios antigos como Balathal e sua interação e mistura com a cultura dos migrantes arianos que chegaram à região por volta entre 2000 e 1500 a.C., dando início ao chamado Período Védico (cerca de 1500-c.500 a.C.), durante o qual se escreveram as escrituras hindus conhecidas como Vedas.

Remover publicidades
Publicidade

Civilização de Mohenjo-daro e Harappa

A civilização do Vale do Indo data de cerca de 7000 a.C. e cresceu de forma constante ao longo da região do vale inferior do Ganges, para sul e para norte, até Malwa. As cidades deste período eram maiores do que os assentamentos contemporâneos noutros países, estavam situadas de acordo com os pontos cardeais e eram construídas com tijolos de barro, muitas vezes cozidos no forno. As casas eram construídas com um grande pátio que se abria pela porta da frente, uma cozinha/sala de trabalho para a preparação de alimentos e quartos menores.

As atividades familiares parecem ter-se concentrado na parte da frente da casa, particularmente no pátio, e, neste aspeto, são semelhantes ao que foi inferido a partir de sítios em Roma, no Egito, na Grécia e na Mesopotâmia. No entanto, os edifícios e as casas dos povos do Vale do Indo eram muito mais avançados tecnologicamente, com muitos deles a apresentarem sanitas com autoclismo e «apanhadores de vento» (possivelmente desenvolvidos pela primeira vez na antiga Pérsia) nos telhados, que proporcionavam ar condicionado. Os sistemas de esgoto e drenagem das cidades escavadas até agora são mais avançados do que os de Roma no seu auge.

Excavation Site at Mohenjo-daro
Local de escavação em Mohenjo-daro Grjatoi (CC BY-NC-SA)

Os sítios mais famosos deste período são as grandes cidades de Mohenjo-Daro e Harappa, ambas localizadas no atual Paquistão (Mohenjo-daro na província de Sindh e Harappa em Punjab), que fazia parte da Índia até a partição do país em 1947, que criou a nação separada. Harappa deu o seu nome à Civilização Harappan (outro nome para a Civilização do Vale do Indo), que é geralmente dividida em períodos Inicial, Médio e Maduro, correspondendo aproximadamente a 5000-4000 a.C. (Inicial), 4000-2900 a.C. (Médio) e 2900-1900 a.C. (Maduro). Harappa data do período Médio (cerca de 3000 a.C.), enquanto Mohenjo-Daro foi construída no período Maduro (cerca de 2600 a.C.).

Remover publicidades
Publicidade

Os edifícios de Harappa foram severamente danificados e o local comprometido no século XIX, quando trabalhadores britânicos levaram uma quantidade significativa de material para usar como lastro na construção da ferrovia. Antes disso, muitos edifícios já tinham sido desmontados pelos cidadãos da aldeia local de Harappa (que dá nome ao local) para uso nos seus próprios projetos. Portanto, agora, é difícil determinar a importância histórica de Harappa, exceto que é claro que já foi uma comunidade importante da Idade do Bronze, com uma população de até 30.000 pessoas.

Mohenjo-Daro, por outro lado, está muito melhor preservada, pois permaneceu praticamente enterrada até 1922. O nome Mohenjo-Daro significa «monte dos mortos» em sindi e foi dado ao local pelos habitantes locais que encontraram ossos humanos e de animais, bem como cerâmicas antigas e outros artefactos, que emergiam periodicamente do solo. Desconhece-se o nome original da cidade, embora várias possibilidades tenham sido sugeridas por achados na região, entre elas, o nome dravidiano «Kukkutarma», a cidade do galo, uma possível alusão ao local agora conhecido como Mohenjo-Daro como um centro de rituais de luta de galos ou, talvez, como um centro de criação de galos.

Mohenjo-Daro era uma cidade elaboradamente construída, com ruas dispostas uniformemente em ângulos retos e um sofisticado sistema de drenagem. O Grande Banho, uma estrutura central no local, era aquecido e parece ter sido um local importante para a comunidade. Os cidadãos eram hábeis no uso de metais como cobre, bronze, chumbo e estanho (como evidenciado por obras de arte como a estátua de bronze da Dançarina e por selos individuais) e cultivavam cevada, trigo, ervilhas, gergelim e algodão. O comércio era uma importante fonte de renda e acredita-se que os textos mesopotâmicos antigos que mencionam Magan e Meluhha se referem à Índia em geral ou, talvez, especificamente a Mohenjo-Daro. Foram encontrados em sítios arqueológicos na Mesopotâmia artefactos da região do Vale do Indo, embora a sua origem precisa na Índia nem sempre seja clara.

Remover publicidades
Publicidade
Harappa Ruins
Ruínas de Harappa Hassan Nasir (CC BY-SA)

Declínio da Civilização de Harappa

O povo da civilização de Harappa adorava muitos deuses e praticava rituais de adoração. Estátuas de várias divindades (como Indra, o deus da tempestade e da guerra) foram encontradas em muitos locais e, entre elas, peças de terracota representando Shakti (a Deusa Mãe), sugerindo uma adoração popular e comum do princípio feminino. Entre 2000 e 1500 a.C., acredita-se que outra raça, conhecida como ariana, tenha migrado para a Índia através da Passagem de Khyber e se tenha assimilado à cultura existente, trazendo consigo os seus deuses e a língua sânscrita, que então introduziram no sistema de crenças existente na região. Quem eram os arianos e que efeito tiveram sobre os povos indígenas continua a ser debatido, mas é geralmente reconhecido que, aproximadamente na mesma altura em que chegaram iniciou o declínio da cultura harappana.

Os estudiosos citam as alterações climáticas como uma possível razão, apontando evidências de secas e inundações na região. Acredita-se que o rio Indo tenha começado a inundar a região com mais regularidade (como evidenciado por aproximadamente 30 pés ou 9 metros de sedimentos em Mohenjo-Daro), o que destruiu as colheitas e provocou a fome. Acredita-se também que a trajetória das monções, das quais dependiam para regar as colheitas, possa ter mudado e que as pessoas tenham deixado as cidades do norte para se mudarem para terras no sul. Outra possibilidade é a perda das relações comerciais com a Mesopotâmia e o Egito, os dois parceiros comerciais mais importantes, já que ambas as regiões passavam por conflitos internos na mesma época.

Escritores racistas e filósofos políticos do início do século XX, seguindo o exemplo do filólogo alemão Max Muller (1823-1900), afirmaram que a civilização do Vale do Indo caiu devido a uma invasão de arianos de pele clara, mas esta teoria foi desacreditada há muito. Igualmente insustentável é a teoria de que o povo foi levado para o sul por extraterrestres. Entre os aspetos mais misteriosos de Mohenjo-daro está a vitrificação de partes do local, como se tivesse sido exposto a um calor intenso que derreteu os tijolos e as pedras. Este mesmo fenómeno foi observado em locais como Traprain Law, na Escócia, e atribuído aos resultados de uma guerra. No entanto, as especulações sobre a destruição da cidade por algum tipo de explosão atómica antiga (obra de alienígenas de outros planetas) não são geralmente consideradas credíveis.

Remover publicidades
Publicidade

O Período Védico

Qualquer que seja a razão para o abandono das cidades, o período que se seguiu ao declínio da Civilização do Vale do Indo é conhecido como o Período Védico, caracterizado por um estilo de vida pastoral e pela adesão aos textos religiosos conhecidos como Os Vedas. A sociedade ficou dividida em quatro classes (os Varnas), popularmente conhecidas como «o sistema de castas», que eram compostas pelos Brahmana no topo (sacerdotes e estudiosos), os Kshatriya em seguida (os guerreiros), os Vaishya (agricultores e comerciantes) e os Shudra (trabalhadores). A casta mais baixa era a dos Dalits, os intocáveis, que lidavam com carne e resíduos, embora haja algum debate sobre se esta classe existia na antiguidade.

A princípio, parece que este sistema de castas era apenas um reflexo da ocupação de cada um, mas, com o tempo, passou a ser interpretado de forma mais rígida, sendo determinado pelo nascimento, e não era permitido mudar de casta nem casar-se com alguém de outra casta que não a sua; isto era um reflexo da crença numa ordem eterna para a vida humana ditada por uma divindade suprema.

O Sanatan Dharma defende que existe um único deus, Brahma, que não pode ser totalmente compreendido, exceto através dos muitos aspetos que são revelados como os diferentes deuses do panteão hindu.

Embora as crenças religiosas que caracterizaram o Período Védico sejam consideradas muito mais antigas, foi durante este período que se sistematizaram como a religião do Sanatan Dharma («Ordem Eterna»), conhecida hoje como hinduísmo (nome derivado do rio Indo (ou Sindus), onde os fiéis se reuniam, daí «Sindus» e, posteriormente, «Hindus»). O princípio subjacente ao Sanatan Dharma é que existe uma ordem e um propósito para o universo e a vida humana e, ao aceitar a ordem e viver-se de acordo com ela, a pessoa experimentará a vida como deve ser vivida corretamente.

Embora o Sanatan Dharma seja considerado por muitos uma religião politeísta composta por muitos deuses, na verdade é monoteísta, pois acredita que existe um único deus, Brahman (o Eu, mas também o Universo e criador do universo observável), que, devido à sua grandeza, não pode ser totalmente compreendido, exceto através dos muitos aspetos que são revelados como os diferentes deuses do panteão hindu.

Remover publicidades
Publicidade

É Brahman que decreta a ordem eterna e mantém o universo através dela, esta crença numa ordem para o universo reflete a estabilidade da sociedade em que cresceu e floresceu, uma vez que, durante o período védico, os governos tornaram-se centralizados e os costumes sociais integraram-se totalmente na vida quotidiana por toda a região. Além dos Vedas, as grandes obras religiosas e literárias dos Puranas, do Mahabharata, do Bhagavad-Gita e do Ramayana são todas provenientes deste período.

Map of India, 600 BCE
Mapa da Índia, 600 a.C. Kmusser (CC BY-SA)

No século VI a.C., os reformadores religiosos Vardhamana Mahavira (cerca de 599-527 a.C.) e Siddhartha Gautama (cerca de 563 a cerca de 483 a.C.) desenvolveram os seus próprios sistemas de crenças e romperam com o Sanatan Dharma dominante para, eventualmente, criarem as suas próprias religiões, o jainismo e o budismo, respetivamente. Estas mudanças na religião fizeram parte de um padrão mais amplo de agitação social e cultural que resultou na formação de cidades-estado e na ascensão de reinos poderosos (como o Reino de Magadha, sob o governante Bimbisara) e na proliferação de escolas filosóficas de pensamento que desafiaram o hinduísmo ortodoxo.

Mahavira rejeitou os Vedas e colocou a responsabilidade da salvação e iluminação diretamente no indivíduo, e Buda mais tarde faria o mesmo. A escola filosófica de Charvaka rejeitou todos os elementos sobrenaturais da crença religiosa e sustentou que apenas os sentidos podiam ser confiáveis para apreender a verdade e, além disso, que o maior objetivo na vida era o prazer e o próprio gozo. Embora Charvaka não tenha perdurado como escola de pensamento, influenciou o desenvolvimento de uma nova forma de pensar que era mais fundamentada, pragmática e, eventualmente, encorajou a adoção da observação e do método empíricos e científicos.

As cidades também se expandiram durante este período, e o aumento da urbanização e da riqueza atraiu a atenção de Ciro II (o Grande, reinou cerca de 550-530 a.C.) do Império Aqueménida persa (cerca de 550-330 a.C.), que invadiu a Índia em 530 a.C. e iniciou uma campanha de conquista na região. Dez anos mais tarde, sob o reinado do seu filho, Dario I (o Grande, reinou 522-486 a.C.), o norte da Índia estava firmemente sob o controlo persa (as regiões correspondentes ao Afeganistão e Paquistão atuais) e os habitantes desta área estavam sujeitos às leis e costumes persas. Uma consequência disso, possivelmente, foi a assimilação das crenças religiosas persas e indianas, que alguns estudiosos apontam como uma explicação para novas reformas religiosas e culturais.

Map of the Rise and Expansion of the Gupta Empire
Dinastia Gupta, Índia (320 – cerca de 550 d.C.) Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Os Grandes Impérios da Índia Antiga

A Pérsia manteve o domínio sobre o norte da Índia até à conquista de Alexandre, o Grande, em 330 a.C., que marchou sobre a Índia após a queda da Pérsia. Mais uma vez, as influências estrangeiras foram exercidas sobre a região, dando origem à cultura greco-budista, que influenciou todas as áreas da cultura no norte da Índia, desde a arte até à religião e ao vestuário. As estátuas e os relevos deste período retratam Buda e outras figuras com vestimentas e poses distintamente helénicas (conhecidas como Escola de Arte Gandhara). Após a partida de Alexandre da Índia, o Império Mauryan (322-185 a.C.) ascendeu sob o reinado de Chandragupta Máuria (reinou cerca de 321-297 a.C.) até que, no final do século III a.C., governava quase todo o norte da Índia.

O filho de Chandragupta, Bindusara (reinou 298-272 a.C.), expandiu o império por quase toda a Índia. O seu filho foi Ashoka, o Grande (reinou 268-232 a.C.), sob cujo governo o império atingiu o apogeu. Oito anos após o início do reinado, Ashoka conquistou a cidade-estado oriental de Calinga, o que resultou em mais de 100 000 mortos. Chocado com a destruição e a morte, Ashoka abraçou os ensinamentos de Buda e embarcou num programa sistemático de defesa do pensamento e dos princípios budistas.

Remover publicidades
Publicidade

Fundou muitos mosteiros, fez generosas doações às comunidades budistas e, segundo se diz, ergueu 84 000 estupas por todo o país para honrar o Buda. Em 249 a.C., numa peregrinação a locais associados à vida do Buda, estabeleceu formalmente a aldeia de Lumbini como o local de nascimento do Buda, erguendo ali um pilar, e encomendou a criação dos seus famosos Editos de Ashoka para incentivar o pensamento e os valores budistas. Antes do reinado de Ashoka, o budismo era uma pequena seita que lutava para ganhar adeptos. Depois que Ashoka enviou missionários a países estrangeiros levando a visão budista, a pequena seita começou a crescer e se tornou a grande religião que é hoje.

Ashoka
Ashoka Dharma (CC BY)

O Império Máuria entrou em declínio e caiu após a morte de Ashoka, e o país fragmentou-se em muitos pequenos reinos e impérios (como o Império Cuchana) no que veio a ser chamado de Período Médio. Esta era viu o aumento do comércio com Roma (que havia começado por volta de 130 a.C.) após a incorporação do Egito ao recém-estabelecido Império Romano por Augusto César em 30 a.C. Roma tornou-se então o principal parceiro comercial da Índia, uma vez que os romanos já tinham anexado grande parte da Mesopotâmia. Este foi um período de desenvolvimento individual e cultural nos vários reinos, que finalmente floresceu naquilo que é considerado a Idade de Ouro da Índia, sob o reinado do Império Gupta (320-550).

Acredita-se que o Império Gupta tenha sido fundado por um tal Sri Gupta (Sri significa Senhor), que provavelmente governou entre os anos 240 e 280. Como se acredita que Sri Gupta fosse da classe Vaishya (comerciantes), a ascensão ao poder, desafiando o sistema de castas, não tem precedentes; lançou as bases para um governo que estabilizou a Índia de tal forma que praticamente todos os aspetos da cultura atingiram o seu auge sob o reinado dos Guptas: filosofia, literatura, ciência, matemática, arquitetura, astronomia, tecnologia, arte, engenharia, religião e astronomia, entre outros campos, floresceram durante este período, resultando em algumas das maiores conquistas humanas.

Bodhisattva Head, Gandhara
Cabeça de Bodhisattva, Gandhara Mary Harrsch (Photographed at The Art Institute of Chicago) (CC BY-NC-SA)

Os Puranas de Vyasa foram compilados durante este período e, também, foram iniciadas as famosas cavernas de Ajanta e Ellora, com as suas esculturas elaboradas e salas abobadadas. O poeta e dramaturgo Kalidasa escreveu a sua obra-prima Shakuntala, bem como o Kamasutra, ou compilado a partir de obras anteriores, por Vatsyayana. Varahamihira explorou a astronomia ao mesmo tempo que Aryabhatta, o matemático, fez as suas próprias descobertas no campo e também reconheceu a importância do conceito de zero, cuja invenção lhe é atribuída. Como o fundador do Império Gupta desafiou o pensamento ortodoxo hindu, não é surpreendente que os governantes Gupta defendessem e propagassem o budismo como crença nacional, e esta é a razão para a abundância de obras de arte budistas, em oposição às hindus, em locais como Ajanta e Ellora.

O Declínio do Império e a Chegada do Islão

O império entrou em declínio lento sob uma sucessão de governantes fracos, até entrar em colapso por volta de 550. O Império Gupta foi então substituído pelo governo de Harshavardhan (590-647), que governou a região por 42 anos. Homem de letras com realizações consideráveis (foi autor de três peças de teatro, além de outras obras), Harsha era um patrono das artes e um budista devoto que proibia a matança de animais no seu reino, mas reconhecia a necessidade de, por vezes, matar seres humanos em batalha.

Era um estratega militar altamente habilidoso, que só foi derrotado em campo uma vez na vida. Sob o seu reinado, o norte da Índia floresceu, mas o seu reino entrou em colapso após a sua morte. A invasão dos hunos foi repetidamente repelida pelos Guptas e depois por Harshavardhan, mas, com a queda do seu reino, a Índia mergulhou no caos e fragmentou-se em pequenos reinos, sem a unidade necessária para combater as forças invasoras.

Ruins of Nalanda, Bihar
Ruínas de Nalanda, Bihar Tushar Dayal (CC BY-NC-SA)

Em 712, o general muçulmano Muhammed bin Quasim conquistou o norte da Índia, estabelecendo-se na região do atual Paquistão. A invasão muçulmana pôs fim aos impérios indígenas da Índia e, a partir de então, cidades-estado independentes ou comunidades sob o controlo de uma cidade passaram a ser o modelo padrão de governo. Os sultanatos islâmicos surgiram na região do atual Paquistão e espalharam-se para o noroeste.

As visões de mundo díspares das religiões que agora disputavam entre si a aceitação na região e a diversidade de línguas faladas tornaram difícil reproduzir a unidade e os avanços culturais, como os observados na época dos Guptas. Consequentemente, a região foi facilmente conquistada pelo Império Mogol islâmico. A Índia permaneceria então sujeita a várias influências e a potências estrangeiras (entre elas os portugueses, os franceses e os britânicos) até finalmente conquistar a independência em 1947.

Remover publicidades
Publicidade

Remover publicidades
Publicidade

Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
A tradução faz parte do meu ser, desde interpretar o mundo até dominar a arte da transferência linguística. Cursos em turismo, literatura e história culminaram no meu papel como autora independente e coautora de coleções de contos literários.

Sobre o Autor

Joshua J. Mark
Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Mark, J. J. (2025, November 01). Índia Antiga. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/PT/1-328/india-antiga/

Estilo Chicago

Mark, Joshua J.. "Índia Antiga." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, November 01, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/PT/1-328/india-antiga/.

Estilo MLA

Mark, Joshua J.. "Índia Antiga." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 01 Nov 2025, https://www.worldhistory.org/trans/PT/1-328/india-antiga/.

Remover publicidades