No século V a.C., o explorador cartaginês Hanno navegou para além dos Pilares de Hércules, saindo do Mediterrâneo e entrando em território até então desconhecido, ao longo da costa atlântica de África. Na sua senda por novos recursos e oportunidades comerciais, deparou-se com paisagens tão exóticas e desconhecidas quanto nativos inquietos, pigmeus de passos ágeis, gorilas e vulcões em erupção. A expedição tornou-se, já na Antiguidade, uma das viagens de descoberta mais célebres de sempre.
As Fontes
O relato em primeira mão da viagem de Hanno sobreviveu desde a Antiguidade até à era moderna através de um manuscrito medieval, que por sua vez é uma cópia de uma tradução grega (Περίπλους τοῦ Ἄννωνος; transliterado: Períplous toû Ánnōnos) feita a partir do original púnico, gravado numa estela dedicatória por volta de 400 a.C. Os estudiosos consideram que faltam pelo menos duas partes do texto que sobreviveu, incluindo a conclusão. A obra, intitulada simplesmente O Périplo de Hanno (Viagem Costeira; ou O Périplo de Hanno, Rei dos Cartagineses), é curta, mas tal é a escassez de literatura púnica que sobreviveu que se revela inestimável muito para além do seu tema de navegação e exploração. O manuscrito original que sobreviveu faz parte do Codex Palatines Graecus 398 e encontra-se na biblioteca da Universidade de Heidelberg.
Hanno
Hanno é referido no texto pelo termo grego basileus, que é quase certamente uma tradução do púnico suffete, o cargo administrativo mais elevado no governo cartaginês, frequentemente traduzido como «magistrado». O nome é comum no poderoso clã cartaginês dos Magonidas, o que sugere que ele fosse um membro do mesmo. Para além disso, não dispomos de mais informações sobre o líder da expedição. O historiador romano Justino menciona de passagem um Hanno que travou uma guerra contra os nativos da Mauritânia em meados do século V a.C. Tendo em conta que a expedição de Hanno fundou colónias nesta região (Marrocos) e provavelmente teria suscitado rivalidade com as tribos locais, poderá muito bem tratar-se da mesma pessoa. Outras fontes antigas que se referem à expedição incluem Heródoto, no século V a.C., Palaefato, no século IV a.C., a obra aristotélica Sobre as Coisas Maravilhosas Ouvidas (tít. original: Mirabilium auscultationes) e vários escritores romanos posteriores, como Plínio, o Velho, e Ariano, que provavelmente consultaram uma obra do século I d.C. de Juba II da Mauritânia intitulada (grego) Περὶ Ἄννωνος (Perí Ánnōnos — Sobre Hanno) ou Τὰ τοῦ Ἄννωνος (Ta toû Ánnōnos — A Respeito de Hanno), designação académica tradicional (latim) De Hannonis Navigatione (Sobre a Navegação de Hanno) ou Hannonis Periplus (Périplo de Hanno).
A data exata da viagem não é indicada, mas terá provavelmente ocorrido algures entre o final do século VI a.C. e cerca de 425 a.C. As embarcações cartagineses eram de madeira e possuíam uma única vela, podendo ser propulsadas a remos, se necessário. Não dispondo de bússola, orientavam-se pelas estrelas, especialmente pela Ursa Menor, para a navegação. Estas considerações levam alguns estudiosos a defender um destino final específico para a expedição, com base no tempo disponível, como veremos mais adiante.
Segue-se o texto completo de Hanno (os nomes modernos, quando identificáveis, são acrescentados entre parênteses pelo presente autor):
Esta é a história da longa viagem de Hanno, rei dos cartagineses, às terras líbias para além dos Pilares de Hércules [Estreito de Gibraltar], que ele dedicou numa tábua no templo de Cronos [Baal Hammon]:
I Os cartagineses decidiram que Hanno deveria navegar para além dos Pilares de Hércules e fundar cidades de libifenícios [cartagineses]. Partiu com sessenta pentecontéridas e cerca de trinta mil homens e mulheres, além de provisões e outros bens de primeira necessidade.
II Depois de navegarmos para além dos Pilares durante dois dias, fundámos a primeira cidade, à qual chamámos Thymiaterion [Tânger]. Abaixo dela estendia-se uma grande planície.
III Navegando daí para oeste, chegámos a Soloeis, um promontório líbio coberto de árvores. Ali fundámos um templo dedicado a Poseidon.
IV Viajando para leste durante meio dia, chegámos a um lago não muito longe do mar, coberto por uma densa vegetação de canas altas, onde se alimentavam elefantes e muitos outros animais selvagens.
V A um dia de viagem para além deste lago, fundámos cidades na costa chamadas Karikon Teichos, Gytte, Akra, Melitta e Arambys.
VI Seguindo em frente a partir daí, chegámos ao grande rio Lixos [o Draa, em Marrocos], que nasce na Líbia, junto ao qual os nómadas chamados Lixitae [berberes] pastavam os seus rebanhos. Ficámos algum tempo com eles e tornámo-nos amigos.
VII No interior, a partir daí, habitavam etíopes inóspitos [negros] numa terra infestada de feras e cercada por grandes montanhas. Dizem que o Lixos desce dali e que, entre estas montanhas, habitam trogloditas de aparência estranha, que, segundo os Lixitae, conseguem correr mais depressa do que os cavalos.
VIII Levando intérpretes dos Lixitae, navegámos para sul ao longo da costa do deserto [Saara] durante dois dias e, depois, durante um dia para leste, e encontrámos uma pequena ilha com cinco estádios [c. 1 km] de circunferência no extremo mais distante de um golfo. Estabelecemos ali um povoado e chamámo-lo de Cerne. Concluímos, com base na nossa viagem, que ficava diretamente em frente a Cartago, pois a viagem de Cartago até aos Pilares e, daí, até Cerne parecia ser semelhante.
IX A partir daqui, navegando rio acima por um grande rio chamado Chretes [Senegal], chegámos a um lago, no qual havia três ilhas maiores do que Cerne. Após um dia de navegação a partir daí, chegámos ao fim do lago, dominado por montanhas muito altas repletas de selvagens vestidos com peles de animais selvagens, que nos apedrejaram, nos expulsaram e nos impediram de desembarcar.
X Navegando a partir daí, chegámos a outro grande rio largo, repleto de crocodilos e hipopótamos. Virámos novamente a partir daí e regressámos a Cerne.
XI Navegámos para sul durante doze dias a partir daí, mantendo-nos junto à costa, que estava ocupada ao longo de todo o seu percurso por etíopes que não se mantiveram no local, mas fugiram de nós. A sua língua era ininteligível, mesmo para os nossos Lixitae.
XII No último dia, ancorámos junto a algumas montanhas altas cobertas de árvores cuja madeira era perfumada e manchada.
XIII Navegando à volta destas durante dois dias, chegámos a um imenso golfo, em cujas margens se estendia uma planície onde, à noite, vimos fogos grandes e pequenos a arder em intervalos por todo o lado [Fogos de erva?].
XIV Depois de abastecermos de água ali, navegámos durante cinco dias ao longo da costa até chegarmos a uma grande baía a que os nossos intérpretes chamaram o Corno do Oeste. Nela havia uma grande ilha e, nessa ilha, um lago de água salgada, no interior do qual se encontrava outra ilha onde desembarcámos. Durante o dia, não víamos nada além de uma floresta, mas à noite víamos muitas fogueiras acesas e ouvíamos o som de flautas, o bater de címbalos e tambores e um grande alvoroço de vozes. O medo apoderou-se de nós e os adivinhos aconselharam-nos a abandonar a ilha.
XV Partimos dali apressadamente e contornámos uma costa ardente, repleta de incenso a queimar. Grandes torrentes de fogo e lava derramavam-se no mar e a terra era inacessível devido ao calor.
XVI Partimos dali apressadamente, tomados pelo medo, e, após quatro dias de navegação, avistámos a terra à noite, cheia de chamas. No meio havia uma chama alta, mais alta do que as restantes, que parecia alcançar as estrelas. Durante o dia, percebeu-se que se tratava de uma montanha muito alta chamada «Carruagem dos Deuses» [Monte Camarões?].
XVII Daí, navegando durante três dias por entre fluxos de lava incandescente, chegámos a um golfo chamado «Corno do Sul».
XVIII No extremo mais distante desta baía havia uma ilha, semelhante à primeira, com um lago, no interior do qual se encontrava outra ilha repleta de selvagens. De longe, a maioria eram mulheres com corpos peludos, a quem os nossos intérpretes chamavam Gorilas [Pigmeus?]. Ao persegui-las, não conseguimos apanhar nenhum dos homens, os quais, habituados a escalar precipícios, conseguiram fugir, defendendo-se atirando pedras. Mas capturámos três mulheres, que morderam e mutilaram aqueles que as levavam, recusando-se a segui-los. Matámo-las, no entanto, esfolámo-las e trouxemos as suas peles de volta a Cartago. Pois não navegámos mais longe, uma vez que os nossos mantimentos se esgotaram.
(Citado em Moscati, pág. 182-3)
A Avaliação
A tradução grega do texto de Hanno tomou algumas liberdades com os nomes e contém imprecisões geográficas. O historiador S. Moscati sugere, de forma plausível, que estas possam ter sido incluídas deliberadamente para impedir que concorrentes indesejados se intrometessem nas relações comerciais cartaginesas. A parte final da viagem é objeto de debate entre os historiadores. Alguns sugerem que Hanno chegou apenas à Serra Leoa, outros que foi tão a sul quanto aos Camarões ou ao Gabão. Mesmo a viagem mais curta, que alguns preferem porque Hanno teria tido dificuldade em chegar mais a sul no tempo disponível, teria ainda assim envolvido uma etapa de ida de quase 5 000 quilómetros (3 000 milhas).
O facto de os cartagineses terem navegado ao longo da costa ocidental de África é corroborado por Heródoto (que, claro, poderia ter-se limitado a parafrasear o Periplo) no Livro IV:196 das suas Histórias (tít. original: Ἱστορίαι; transliterado: Historíai) e pelo facto de toda a expedição ter como objetivo a fundação de colónias, o que sugere fortemente que os cartagineses já tinham visitado a costa anteriormente, a fim de se certificarem de que valia a pena enviar a grande frota de Hanno. Plinio, o Velho, menciona que a viagem partiu de Gades (Cádis) e que, ao regressar, as peles de «gorilas» foram guardadas no templo de Juno (Tanit ou Astarte) em Cartago. Os «gorilas» do texto constituem, na verdade, o legado mais significativo da viagem, uma vez que esse termo — de significado incerto no texto de Hanno, mas provavelmente não se referindo a animais (sugere-se frequentemente que se trate de chimpanzés) — foi aplicado por Thomas Savage, um naturalista do século XIX, aos agora familiares grandes símios africanos.
Outros viajantes cartagineses seguiram-se rapidamente e exploraram as novas fontes de ouro, cuja troca é descrita por Heródoto. Depois, outro viajante famoso, o grego Políbio, seguiu as pegadas de Hanno e navegou ao longo da mesma costa atlântica no século II a.C. Por alguma razão, porém, uma exploração mais significativa da costa e do interior africanos teria de esperar mais 1 000 anos.
