Os Marfins de Ninrude constituem uma vasta coleção de figuras, painéis e placas, esculpidos em marfim, datados dos séculos IX a VII a.C., descobertos nas ruínas da antiga cidade de Ninrude. Hoje, são considerados uma das joias arqueológicas mais refinadas da antiga Mesopotâmia — e a sua história é fascinante.
Em 1845, o arqueólogo Austen Henry Layard iniciou escavações nas ruínas da cidade de Ninrude, na região que constitui o atual norte do Iraque. A expedição de Layard fazia parte de um movimento maior da época para desenterrar sítios antigos na Mesopotâmia que pudessem corroborar histórias da Bíblia, especificamente em livros do Antigo Testamento, tais como o Génesis e o Jonas. Os arqueólogos que escavaram os locais em toda a Mesopotâmia em meados do século XIX procuravam provas físicas para apoiar relatos do Dilúvio Universal, da Torre de Babel e de cidades como Nínive e Calú, entre outras referências bíblicas. O seu trabalho, ironicamente, teria o efeito totalmente oposto ao pretendido: descobriram uma civilização que existira muito antes de os primeiros livros bíblicos terem sido escritos, uma que tinha, de facto, produzido as primeiras histórias relativas a um dilúvio global e a uma arca, e que era muito mais avançada do que se pensava anteriormente.
Estas descobertas revolucionariam a compreensão humana da história mundial, a qual, anteriormente, tinha sido fortemente influenciada pela versão dos acontecimentos da Bíblia. Antes destas expedições, pouco se sabia sobre a história mesopotâmica fora dos assírios e babilónios, porque estes eram os povos mais bem documentados pelos historiadores gregos antigos e mencionados na Bíblia. As grandes cidades mesopotâmicas do passado jaziam sepultadas sob as areias após a queda do Império Assírio em 612 a.C., e as suas histórias jaziam sepultadas com elas.
A História da Cidade e a Descoberta dos Marfins
Quando Layard começou o seu trabalho em Ninrude, nem sequer sabia que cidade estava a escavar. Acreditava ter descoberto Nínive e, de facto, publicou o seu livro de grande sucesso sobre a escavação, Nineveh and its Remains (Nínive e os Seus Vestígios), em 1849, ainda convencido dessa crença. O seu livro foi tão popular, e os artefactos que desenterrou tão intrigantes, que novas expedições à região foram rapidamente financiadas.
Trabalhos posteriores na região determinaram que as ruínas que Layard tinha descoberto não eram as de Nínive, mas sim as de outra cidade, que passou então a ser designada por Ninrude. O arqueólogo William K. Loftus sucedeu a Layard em 1854 e escavou Ninrude mais a fundo, descobrindo, entre outros tesouros, as magníficas obras de arte conhecidas hoje como os Marfins de Ninrude (também conhecidos como os Marfins de Loftus).
Ninrude foi uma cidade importante na antiga Mesopotâmia conhecida como Calú (também Caleh, Calah), que se tornou a capital do Império Assírio sob Assurnasirpal II (reinou 884–859 a.C.), o qual transferiu para lá o governo central a partir da capital tradicional de Assur. A cidade existiu como um importante centro comercial desde, pelo menos, o primeiro milénio a.C. Estava localizada diretamente numa rota próspera, logo a norte de Assur e a sul de Nínive. O Império Assírio foi governado a partir de Calú de 879 a 706 a.C., altura em que Sargão II (reinou de 722–705 a.C.) mudou a capital para a sua nova cidade de Dur-Sharrukin (Khorsabad).
Após a morte de Sargão II, o seu filho Senaqueribe (reinado de 705–681 a.C.) abandonou Dur-Sharrukin e mudou a capital para Nínive. Contudo, Calú continuou a ser uma cidade importante para os assírios, e os palácios e residências foram ricamente adornados e ornamentados com ouro, prata, pedras preciosas e as obras de arte complexas que ficaram conhecidas como os Marfins de Ninrude.
A Importância dos Marfins de Ninrude
A historiadora e curadora Joan Lines, do Metropolitan Museum of Art, descreve estas peças:
Os objetos mais impressionantes de Ninrude são os marfins — cabeças esculpidas com primor que outrora decoravam mobiliário nos palácios reais; caixas embutidas com ouro e decoradas com procissões de pequenas figuras; placas decorativas; pequenos animais esculpidos com delicadeza. (pág. 234)
A expedição de Layard tinha descoberto os primeiros marfins, enquanto Loftus descobriu muitos mais. Enquanto Loftus trabalhava em Ninrude, a cidade de Nínive foi identificada com certeza, e a atenção internacional e o financiamento foram direcionados para essa escavação, bem como para os trabalhos na recentemente descoberta cidade de Khorsabad. Ninrude foi negligenciada até 1949, ano em que o arqueólogo Max E. Mallowan, da Universidade de Londres (marido da escritora de mistério Agatha Christie), iniciou aí escavações que se prolongaram até 1963.
Mallowan descobriu o maior número de marfins na estrutura conhecida como o Palácio Noroeste (também chamado de Palácio Queimado). Estes incluíam algumas das peças mais famosas em exibição no mundo atualmente, tal como a cabeça da "Mona Lisa", que foi encontrada num poço do palácio. O estudioso Christopher E. Allen descreve os usos destes marfins pelos assírios, bem como a sua origem:
A maioria dos marfins formava decoração em partes de mobiliário, tais como cadeiras, mesas, possivelmente camas, ou em caixas. Eram também decorados com ouro, que foi arrancado. O marfim era facilmente acessível a partir dos rebanhos de elefantes que eram caçados na Síria até ao século IX, altura em que se extinguiram. As presas de marfim também eram tomadas como tributo em tempo de guerra. A maioria dos marfins era recebida [em Ninrude] já esculpida, como espólio ou como presentes.
(pág. 3)
Quando o Império Assírio caiu em 612 a.C., Calú e as outras grandes cidades foram saqueadas pelos exércitos dos babilónios, medos e persas. Os palácios foram incendiados após tudo o que tinha valor ter sido retirado deles. Aparentemente, o ouro foi arrancado dos marfins nessa altura, e as próprias peças de marfim foram descartadas ou atiradas para o poço do palácio por serem consideradas sem valor pelos invasores.
Isto parece um pouco estranho à primeira vista, uma vez que, como nota Lines, o marfim tinha uma longa história na região como uma mercadoria valiosa:
O marfim, como sabemos tanto pelas escavações como pelos registos históricos, era altamente apreciado e de uso extensivo na época do império assírio. A referência bíblica clássica é, naturalmente, a casa de marfim de Acab em Samaria, onde escavações modernas revelaram marfins relacionados com os de Ninrude. Inscrições contemporâneas fornecem muitos registos de marfins enviados como tributo aos reis assírios e do uso de marfim por eles.
Lemos sobre Assurnasirpal a tomar "leitos de marfim revestidos a ouro" de uma cidade no Tigre ocidental e a receber o tributo de "presas de elefante e tronos de marfim revestidos a ouro e prata". "Toda a Fenícia" lhe enviou presentes, incluindo marfim e elefantes.
No inventário do saque retirado de Damasco por Adad-Nirari III constam camas e bancos de marfim do palácio real. Diz-se que Sargão II tinha um palácio de marfim, e incluídos no tributo pago por Ezequias de Judá a Senaqueribe em 701 a.C. estavam leitos de marfim, além das presas e peles de elefantes.
(pág. 235)
É provável que, uma vez que os ornamentos de marfim estariam associados ao império odiado que os invasores estavam a derrubar, estes tenham descartado os marfins como símbolos desse império, após os despojarem do seu ouro. Ao atirarem os marfins para o poço do palácio, os invasores ajudaram inadvertidamente a preservá-los, uma vez que a lama do poço selou as peças e manteve-as perfeitamente intactas.
Mais marfins foram descobertos por Mallowan num arsenal do palácio onde, ao que parece, se encontravam armazenados como espólio e foram ou negligenciados pelos invasores de 612 a.C. ou simplesmente ignorados. Estes também foram bem preservados pelas forças invasoras, uma vez que as paredes e o telhado do palácio em chamas os sepultaram e protegeram.
Os Diferentes Estilos dos Marfins
Quando foram descobertos, foram inicialmente limpos com o creme facial de Agatha Christie. Uma vez limpos os marfins, o tipo de detalhe e mestria evidente na obra maravilhou Mallowan e a sua equipa.
Como escreve Lines, "O trabalho dos escultores de marfim sobressaía entre o dos antigos artesãos" (pág. 235). Mais marfins foram descobertos em Ninrude numa casa particular, tendo-se verificado que estes eram mais antigos do que os outros e acreditando-se que tenham sido guardados como relíquias de família. A precisão do fabrico e a beleza dos marfins teriam feito deles, sem dúvida, bens preciosos de qualquer família.
À medida que os marfins foram limpos, catalogados e examinados mais a fundo, tornou-se evidente que pertenciam a estilos diferentes e provinham de vários locais de origem. Allen explica estas diferenças, citando o trabalho original de Max Mallowan:
Os marfins de Ninrude foram identificados como representando três estilos distintos: assírio, fenício e sírio.
O estilo assírio caracteriza-se principalmente pela sua técnica, ou seja, as imagens são incisas com um instrumento afiado sobre uma superfície plana de marfim. Apresentam também um conteúdo particular, isto é, com temas que também se encontram nas esculturas em relevo [do palácio em Ninrude]: cenas de guerra, procissões, deuses protetores, etc...
O estilo fenício distingue-se pelo uso de iconografia egípcia, incluindo deuses, discos solares, animais míticos e até hieróglifos, embora estes últimos geralmente careçam de sentido...
Por fim, o estilo sírio é, argumentativamente, mais artístico e tridimensional, ou escultural, nas suas imagens. Muitas destas peças são cabeças e figuras de corpo inteiro de mulheres que podem ter funcionado como pegas para outros artefactos, incluindo a "Mona Lisa". Touros e vitelos esculpidos, usados em tampas de caixas, também se enquadram neste estilo...
O estilo fenício é atribuído às cidades-estado ao longo da costa mediterrânica; e os do estilo sírio subdividem-se, de acordo com os temas, por várias cidades através da Síria. [O estilo assírio foi criado] em Ninrude por artesãos vindos de outros locais.
(págs. 3-5)
Os marfins fenícios são os mais antigos e estabelecem a base da técnica que foi utilizada por artesãos posteriores. Lines explica:
Os fenícios forneceram não só o marfim, mas também a técnica para trabalhar com ele, que provavelmente tinham aprendido com os egípcios, o primeiro povo do mundo antigo a utilizá-lo em grande escala. Os marfins fenícios, que mostram uma forte influência egípcia, são os mais antigos dos encontrados no Próximo Oriente, e nessa região os fenícios permaneceram durante séculos como os escultores de marfim mais habilidosos.
(pág. 235)
As técnicas dos fenícios foram depois desenvolvidas por outros, como os sírios, dando origem à imagética tridimensional referida acima por Allen, mas o estilo fenício continua a ser geralmente considerado o mais talentoso.
Conclusão
Entre 1988 e 1989, os Serviços de Antiguidades e Património do Iraque escavaram novamente em Ninrude e desenterraram novos tesouros e descobertas valiosas, tais como o túmulo da Rainha Yaba, mulher de Tiglate-Pileser III, e o da Rainha Atalia, mulher de Sargão II, juntamente com grandes quantidades de ouro e joias; no entanto, não foram encontrados mais marfins. Os marfins descobertos por Layard, Loftus, Mallowan e outros foram levados para Inglaterra e mantidos principalmente pelo Instituto Britânico.
Em 2011, 6.000 destes marfins foram vendidos ao Museu Britânico por 1,17 milhões de libras, o preço mais alto pago por uma aquisição desde que o museu comprou a placa da Rainha da Noite por 1,15 milhões de libras em 2003. Os marfins encontram-se agora em exibição em vários museus por todo o mundo, incluindo o Museu de Sulaymaniya, em Sulaymaniya, no Iraque; o Museu Nacional em Bagdade, no Iraque; o Museu Britânico, em Londres; e o Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque, nos EUA.
Permanescem entre os artefactos mais fascinantes e belos provenientes da região do Próximo Oriente, uma vez que não só dão a conhecer os gostos e o quotidiano da realeza e nobreza assírias, como também testemunham a perícia, a visão e a mestria dos antigos escultores de marfim.
