As cinco estatuetas conhecidas como "Os Cães de Nimrud", descobertas na antiga metrópole mesopotâmica, inserem-se num vasto conjunto de achados do século XIX. Curiosamente, embora as expedições da época pretendessem validar as narrativas bíblicas com evidências materiais, os resultados acabaram por oferecer uma perspetiva histórica que as contradizia.
Em 612 a.C., o Império Neo-Assírio caiu perante as forças invasoras dos babilónios, persas, medos e citas. Este império esteve em expansão contínua desde o reinado de Adad-Nirari II (cerca de 912-891 a.C.) e tornou-se mais poderoso sob grandes reis como Tiglate-Pileser III (745-727 a.C.), Salmanasar V (727-722 a.C.), Sargão II (722-705 a.C.), Senaqueribe (705-681 a.C.) e Esar-Hadom (681-669 a.C.), até que, na época de Assurbanípal (668-627 a.C.), se tornou demasiado vasto para ser gerido eficazmente.
Assurbanípal foi o último dos reis assírios a possuir o poder pessoal e a habilidade necessários para governar um império e, após a sua morte, os estados vassalos viram a oportunidade de se libertarem. As muitas regiões que tinham sido mantidas sob um controlo assírio tão rigoroso aproveitaram a fraqueza do império em fragmentação e, unindo-se, marcharam para o destruir.
Todas as grandes cidades assírias, muitas das quais tinham resistido durante milénios, foram saqueadas e os seus tesouros levados, destruídos ou abandonados nos vários locais. Os assírios tinham mantido a região sob um controlo tão apertado que, assim que este afrouxou, os antigos estados vassalos não conheceram limites para descarregar as suas frustrações e procurar vingança pelas injustiças do passado. Grandes cidades como Nínive, Kalhu e Assur foram saqueadas, tendo Nínive sido tão devastadamente destruída que as gerações futuras nem sequer conseguiram identificar onde se situava.
As Escavações e as Descobertas
Em Kalhu, local de uma das antigas capitais do império, as areias da Mesopotâmia cobriram gradualmente as ruínas; a cidade teria sido, provavelmente, votada ao esquecimento, não fosse a menção proeminente de metrópoles mesopotâmicas, como a Babilónia (Babilônia) e Nínive, no texto bíblico. No século XIX, exploradores europeus, em busca de evidências históricas para as narrativas bíblicas, dirigiram-se à Mesopotâmia e redescobriram estas cidades perdidas. Entre eles estava Austen Henry Layard (1817-1894), que foi o primeiro a escavar sistematicamente Kalhu, posteriormente conhecida como Nimrud.
Layard e os outros foram patrocinados por organizações e museus europeus que esperavam que os seus esforços revelassem provas físicas que comprovassem a exatidão histórica da Bíblia, especificamente dos livros do Antigo Testamento. Contudo, estas expedições tiveram um efeito completamente diferente do que se pretendia. Antes de meados do século XIX, a Bíblia era considerada o livro mais antigo do mundo e as narrativas eram vistas como obras originais; os arqueólogos descobriram que, contrariamente à crença, a Mesopotâmia tinha criado narrativas do Grande Dilúvio e da Queda do Homem séculos antes de qualquer um dos livros bíblicos ter sido escrito.
Estas descobertas aumentaram o interesse europeu na região, e enviaram-se mais arqueólogos e estudiosos. Quando Layard iniciou o seu trabalho em Kalhu, nem sequer sabia qual era a cidade que estava a escavar, acreditando ter descoberto Nínive publicou o seu livro best-seller sobre a escavação, Nineveh and Its Remains (Nínive e os seus Vestígios), em 1849, ainda confiante nas suas conclusões. O livro foi tão popular e os artefactos que descobriu tão intrigantes que rapidamente foram financiadas novas expedições à região, e o strabalhos posteriores na região estabeleceram que as ruínas que Layard tinha descoberto não eram as de Nínive, mas sim as de Kalhu, que os estudiosos da época associaram à Nimrud bíblica, nome pelo qual o local é conhecido desde então.
Os Marfins de Nimrud
O trabalho de Layard foi continuado por William K. Loftus (1820-1858), que descobriu os famosos marfins de Nimrud (também conhecidos como marfins de Loftus). Estas incríveis obras de arte tinham sido atiradas para um poço pelas forças invasoras e ficaram perfeitamente preservadas pela lama e terra que as cobriram. A historiadora e curadora Joan Lines, do Metropolitan Museum of Art, descreve estas peças:
Os objetos mais impressionantes de Nimrud são os marfins — cabeças esculpidas com requinte que outrora devem ter ornamentado o mobiliário dos palácios reais; caixas incrustadas com ouro e decoradas com procissões de pequenas figuras; placas decorativas; pequenos animais delicadamente esculpidos.
(pág. 234)
A descoberta dos marfins sugeriu que poderia haver artigos ainda mais importantes enterrados nos antigos poços, criptas e edifícios em ruínas das cidades, e foram financiadas novas expedições à Mesopotâmia. Ao longo do resto do século XIX e no início do século XX, os arqueólogos de todo o mundo trabalharam nos sítios da região a desenterrar as antigas cidades e a recuperar os artefactos das areias.
Em 1951-1952, o arqueólogo (e marido da escritora de livros policiais Agatha Christie) Max Mallowan (1904-1978) chegou a Nimrud e descobriu ainda mais peças de marfim do que Loftus. As descobertas de Mallowan, na verdade, estão entre as mais reconhecíveis em exposições de museus e fotografias. Clato que os marfins são frequentemente citados como a maior descoberta de Mallowan em Nimrud, mas uma descoberta menos conhecida tem igual importância: os Cães de Nimrud.
Os Cães e a Magia
Os cães ocupavam um lugar de destaque na vida quotidiana dos mesopotâmios. O historiador Wolfram Von Soden refere-o, escrevendo:
O cão (nome sumério ur-gi; nome semítico Kalbu) foi um dos primeiros animais domésticos e servia principalmente para proteger rebanhos e habitações contra os inimigos. Apesar dos cães vaguearem livremente pelas cidades, no antigo Oriente o cão estava sempre, em geral, ligado a um dono e era por ele cuidado.
(pág. 91)
Os cães eram mantidos como animais de estimação, mas também como protetores, e eram frequentemente retratados na companhia de divindades. Inanna (mais tarde Ishtar), uma das deusas mais populares da história da Mesopotâmia, era frequentemente retratada com os seus cães, e deusa da cura Gula estava intimamente associada aos cães devido ao efeito curativo da sua saliva. As pessoas repararam que, quando um cão se feria, lambia-se a si próprio para sarar; a saliva do cão era considerada uma importante substância medicinal e o cão, um presente dos deuses. De facto, o cão tornou-se um símbolo de Gula a partir do Período da Antiga Babilónia (cerca de 2000-1600 a.C.) em diante.
Contudo, o cão como protetor era tão importante quanto o seu papel de curador. Durante o reinado de Hamurabi (1792-1750 a.C.), as estatuetas caninas eram regularmente moldadas em argila ou bronze e colocadas sob os limiares como entidades protetoras. O académico E. A. Wallis Budge, ao escrever sobre as descobertas na cidade de Quis (Kish), observa como «numa sala foram encontradas duas figuras de barro de Papsukhal, mensageiro dos deuses, e três figuras caninas: os nomes de dois dos cães estão inscritos nelas, a saber, “Mordedor do seu inimigo” e “Devorador da sua vida”» (pág. 209). Após uma cerimónia de «despertar» do seu espírito, estes cães eram postos nos edifícios para defender contra as forças sobrenaturais. Joan Lines descreve mais detalhadamente o propósito destas figuras:
Estas estatuetas, feitas de argila ou bronze, eram símbolos de Gula-Ninkarrak, deusa da cura e defensora dos lares. Eram enterradas no chão, geralmente debaixo do limiar da porta, para afugentar espíritos malignos e demónios, e recitava-se um encantamento chamado «Cães Ferozes» durante a cerimónia. Muitas das efígies de cães tinham os seus nomes inscritos nelas.
(págs. 242-243)
Estas estatuetas de cães são significativas para compreender o conceito mesopotâmico de magia e proteção mágica. Os mesopotâmios acreditavam que as pessoas eram colaboradoras dos deuses para manter a ordem contra as forças do caos e encarregavam-se das tarefas para as quais os deuses não tinham tempo. Em troca, os deuses davam-lhes tudo o que precisavam na vida. Havia muitos deuses no panteão mesopotâmico, no entanto, e mesmo que alguém tivesse apenas as melhores intenções para com uma pessoa, outro poderia ter-se ofendido com os seus pensamentos ou ações. Além disso, era necessário ter em conta os fantasmas, os espíritos malignos e os demónios. Desta forma, os mesopotâmios desenvolveram amuletos, feitiços e rituais de proteção, e entre estes estavam as estatuetas caninas.
Os mesopotâmicos acreditavam que os seus atos, por mais ínfimos que fossem, eram reconhecidos, recompensados ou punidos pelas divindades, e que a conduta terrena ecoava nos céus. A criação das estatuetas caninas fundamentava-se no poder protetor do espírito do cão (visto como uma entidade eterna e vigorosa) sendo que, através dos ritos observados na sua génese, as figuras eram investidas dessa mesma força espiritual. A académica Carolyn Nakamura comenta sobre isto:
Através da produção destas estatuetas, os rituais apotropaicos [de afastamento do mal] neo-assírios delineiam relações complexas, e até desorientadoras, entre humanos, divindades e diversos seres sobrenaturais no espaço e no tempo... a criação de poderosos entes sobrenaturais em formas diminutas de argila mimetiza a criação divina do ser a partir do barro primordial.
(pág. 33)
Tal como os deuses tinham criado a humanidade, os humanos podiam agora criar os seus próprios ajudantes. Uma vez criados, os cães desempenhavam a sua importante função de proteção em conjunto com os outros artefactos mágicos. Em Nimrud, Mallowan descobriu caixas mágicas nos quartos das casas que também serviam para proteger os habitantes. As caixas eram colocadas nos quatro cantos de uma divisão e, frequentemente, nos quatro pontos onde uma cama teria sido colocada, e eram esculpidas com amuletos para proteger contra os espíritos malignos e os demónios. Os cães, enterrados sob as soleiras das entradas da casa, constituíam a primeira linha de defesa contra os perigos sobrenaturais e as caixas amuletárias no interior da casa proporcionavam um grau adicional de conforto e segurança.
Os Cães de Nimrud
Os rituais em torno das estatuetas caninas são exemplificados pela localização de um conjunto de cinco destas figuras descobertas por Layard no século XIX em Nínive. Todas foram encontradas sob uma porta do Palácio Norte, o que está de acordo com a prática supra descrita. Para garantir a máxima proteção, recomendava-se enterrar dois conjuntos de cinco destas figuras em cada lado de uma porta ou sob a soleira da entrada.
Em Nimrud, Mallowan encontrou as estatuetas de cães num poço no canto de uma sala do Palácio Noroeste. A descoberta é descrita pela académica Ruth A. Horry:
A equipa de Mallowan deparou-se com um poço profundo no canto da Sala NN, que estava cheio de lodo que Mallowan descreveu como tendo «a consistência de gesso». Não havia bombas elétricas disponíveis para escavar o poço, pelo que os trabalhadores tiveram de retirar a água e o lodo à mão, auxiliados apenas pelo equipamento de guincho de alta resistência emprestado pela Iraq Petroleum Company. Era um trabalho difícil e perigoso, uma vez que o fundo do poço se enchia repetidamente de água... [no entanto] o lodo tinha proporcionado condições ideais para a preservação de materiais que, de outra forma, teriam sido destruídos, tais como fragmentos de corda assíria e equipamento de madeira do poço que ali tinham caído acidentalmente.
(págs. 1-2)
Entre estes outros objetos encontravam-se aqueles que tinham sido propositadamente atirados para o poço durante o saque da cidade, incluindo os marfins e as estatuetas caninas. Mallowan interpretou estas peças como tendo sido descartadas durante a destruição de Nimrud — em vez de simplesmente atiradas para o poço pelos seus donos — com base noutros artigos, tais como arreios de cavalo estrangeiros, encontrados juntamente com elas.
Cinco das figuras de cães eram claramente caninas e algumas tinham os seus nomes inscritos (tal como as encontradas em Nínive), mas a sexta não tinha nome e, além disso, parecia-se mais com um gato. No entanto, o gato nunca foi considerado uma entidade protetora na Mesopotâmia e não são representados por quaisquer amuletos ou estatuas. Horry escreve:
Os presságios retratam [os gatos] como animais selvagens ou, quando muito, indomáveis que entravam e saíam das casas conforme a sua vontade. Humanos e gatos coexistiam, mas não interagiam diretamente... por outras palavras, os habitantes de Kalhu, inclusivamente o rei no seu palácio, não podiam confiar nos gatos para guardar um edifício, fosse de ratos ou de forças mais sobrenaturais.
(págs. 2-3)
Mallowan teve dificuldade em interpretar a peça por esta razão: embora parecesse um gato, não havia qualquer precedente para figuras de gatos ou para gatos representados em imagens amuletárias. Nos seus relatórios iniciais, cita a descoberta de cinco estatuetas caninas e outra que era «de caráter felino» (Horry, pág. 5). A preponderância das evidências, no entanto, argumentava contra a interpretação da figura como um gato, e Mallowan parece ter acreditado mais tarde que se tratava de um cão com uma «aparência felina» (Idem). Mallowan entregou as suas descobertas às autoridades iraquianas e, em conformidade com o seu contrato, algumas foram para o Museu Iraquiano e outras para outras instituições. A figura do «gato» foi reinterpretada pelos estudiosos britânicos de Cambridge como um gato e assim permaneceu até 2013, quando as estatuetas foram estudadas em conjunto e se reconheceu que a figura do gato era, na verdade, outro cão.
Os Cães hoje e o seu Significado
As figuras de cães encontradas em Nínive encontram-se hoje no Museu Britânico, enquanto os Cães de Nimrud podem ser encontrados em museus em Bagdade, no Iraque; em Cambridge, na Inglaterra; em Nova Iorque, nos Estados Unidos, e em Melbourne, na Austrália. As figuras do Museu do Iraque não foram afetadas pela pilhagem de 2003 e continuam a fazer parte da coleção permanente.
Os visitantes destes museus maravilham-se, com toda a razão, com as exposições de arte mesopotâmica, como os famosos marfins de Nimrud, mas muitas vezes ignoram as estatuetas de cães. Mesmo nas exposições em que a sua história é contada, o foco recai principalmente na sua descoberta, com apenas uma breve menção ao que significavam para as pessoas que as criaram. Muitas vezes, ao que parece, os cães pequenos são interpretados pelos visitantes como representações de animais de estimação antigos. As estatuetas de cães não representavam animais de estimação queridos mas sim proteção divina. Foram criadas para manter em segurança as pessoas de quem se cuidava. Há séculos, as pessoas esculpiam as figuras de cães, davam-lhes vida através de rituais e enterravam-nas debaixo da soleira da porta para terem paz de espírito.
Da mesma forma, que uma pessoa hoje em dia pode instalar um sistema de segurança em casa, certificar-se de que as portas e fechaduras estão seguras, talvez até pendurar um símbolo religioso ou um talismã totémico perto da porta. Os Cães de Nimrud são artefactos significativos porque são muito pessoais. Nakamura comenta a sua criação e utilização, observando como «uma expressão de proteção surge na encenação material da memória» (pág. 33). A «representação da memória» no passado tinha a ver com o despertar do espírito do cão na estatueta. Contudo, nos dias de hoje os Cães de Nimrud evocam o espírito do passado e a memória daqueles que criaram as figuras para se protegerem do mal a si próprios e aos seus entes queridos.
