Marfim e a Colonização de África

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Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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A partir do século XV, as potências colonizadoras europeias procuraram explorar os recursos de África. Os mercadores árabes já faziam o mesmo no Norte de África e na África Oriental ao longo da Idade Média, mas foi a partir do século XVII que os comerciantes europeus começaram a penetrar profundamente no interior do continente em busca de mercadorias de elevado valor. Os comerciantes, frequentemente alertados pelo trabalho de exploradores e missionários, interessavam-se por tudo o que pudesse ser vendido, como ouro, óleo de palma, borracha e escravos. Uma das mercadorias mais valiosas era o marfim, com grande procura na Índia para joalharia e na Europa, no século XVIII, para tudo, desde caixas decorativas a teclas de piano e bolas de bilhar. As consequências deste comércio lucrativo incluíram convulsões culturais, a construção de sistemas de transportes, guerras, a colonização e a morte de dezenas de milhares de elefantes todos os anos.

19th-Century Ivory Traders, East Africa,
Comerciantes de Marfim do Século XIX, África Oriental Unknown Photographer (Public Domain)

As Fontes de Marfim

O marfim era comercializado entre a África e a Europa na antiguidade; os Romanos, por exemplo, importavam marfim do Norte de África e da África Central através das caravanas de caminhos do antigo Saara. Na Idade Média, os mercadores árabes fundaram entrepostos comerciais especificamente para lucrar com o marfim, como na ilha de Zanzibar e ao longo da Costa Swahili da África Oriental, embora não tenham estabelecido qualquer tipo de controlo político para lá da costa. Os comerciantes portugueses procuraram o marfim ao longo dos séculos XV e XVI, estabelecendo feitorias na costa ocidental de África, que se estendiam desde a Alta Guiné até à Angola Portuguesa. Os comerciantes portugueses também adquiriram marfim na Costa Swahili, em Moçambique Português. Os portugueses recorriam frequentemente a africanos para esculpir o marfim em produtos acabados adequados ao mercado europeu, tais como saleiros, bengalas e cabos de talheres, sendo os escultores do Benim considerados os melhores nas obras de arte em marfim.

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A competição entre comerciantes europeus, árabes e africanos levou frequentemente a uma guerra aberta e à conquista territorial.

Por volta do século XVII, os escravos e o ouro dominavam as exportações africanas, mas o marfim continuava a ser o terceiro artigo comercial mais cobiçado. Na Idade Moderna, as potências imperiais europeias, como a França e a Grã-Bretanha, procuraram novas fontes de marfim e estabeleceram postos comerciais não apenas na costa do continente, mas, pela primeira vez, nas profundezas do interior de África. Os comerciantes foram inicialmente alertados para o potencial do interior africano por exploradores e missionários. David Livingstone (1813-1873), por exemplo, registou nas suas viagens, na década de 1850, que:

…Se é lucrativo para aqueles que se dedicam ao comércio costeiro passar nos seus navios e recolher marfim, cera de abelhas, etc., aqueles que tiverem a audácia suficiente para avançar pelo interior adentro e receber as mercadorias em primeira mão acharão seguramente que é ainda mais lucrativo…

(Chamberlain, pág. 99)

Benin Ivory Hip Pendant Mask
Máscara-Pendente de Anca em Marfim do Benim The British Museum (Copyright)

O facto de haver riquezas no interior de África por uma fração do custo dos preços praticados na costa foi confirmado por outros exploradores. O tenente Verney Lovett Cameron (1844-1894), escrevendo na década de 1870, descreve o marfim na região de Catanga, no que é hoje a República Democrática do Congo:

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…A leste de Lovalé, o marfim é maravilhosamente abundante. O preço entre os mercadores árabes em Nyangwé era de 7,5 libras de missangas, ou 5 libras de búzios, por 35 libras de marfim; e as caravanas que partiam dali em busca de marfim obtinham presas, independentemente do peso, em troca de uma faca velha, de uma pulseira de cobre ou de qualquer outro objeto sem utilidade que agradasse ao capricho dos nativos.

(Chamberlain, págs. 99-100)

Tais histórias de riquezas em marfim inspiraram governantes como Leopoldo II, Rei dos Belgas (reinou 1865-1909), a estabelecer um controlo permanente sobre certas regiões. Leopoldo fundou o Estado Livre do Congo (que mais tarde se tornaria o Congo Belga) em 1885, embora, no fim, tenha sido a borracha a fazer a fortuna do rei. Da mesma forma, a presença de marfim convenceu a Alemanha imperial a criar as colónias do Sudoeste Africano Alemão em 1884 e da África Oriental Alemã no ano seguinte. A atração pelo marfim foi também um fator decisivo para incitar os britânicos a expandirem-se mais profundamente para o interior da África Austral ao longo das décadas de 1880 e 1890.

Map of the Scramble for Africa after the Berlin Conference
Mapa da Partilha da África Após a Conferência de Berlim Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

As regiões onde o comércio de marfim se encontrava particularmente desenvolvido incluíam a África Oriental, a Bacia do Congo, a África Austral e a região costeira da África Ocidental batizada em honra desta preciosa mercadoria: a Costa do Marfim (Côte d'Ivoire). Os caçadores africanos comercializavam o marfim com outras tribos, que por sua vez o negociavam com árabes ou europeus. A cadeia comercial podia ser bastante complexa. Na Bacia do Congo, por exemplo, o povo Bonjo caçava os elefantes e depois trocava o marfim com o povo Loi. Os Loi, por sua vez, negociaviavam o marfim com o povo Bobangi, que depois o comercializava com árabes e europeus, encarregues de o transportar para fora de África. Os comerciantes de marfim podiam também estar envolvidos num comércio mais localizado, utilizando as canoas e as rotas terrestres da rede para negociar adicionalmente bens como a mandioca e o óleo de palma entre tribos africanas.

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A riqueza gerada pelo comércio de marfim (e de outras mercadorias) aumentou a competição entre as tribos africanas e incentivou a formação de reinos poderosos para melhor o monopolizarem, sendo exemplos disso o Reino de Maravi, perto do Lago Malawi (ou Niassa), e o Reino de Mutapa, no Rio Zambeze. Como observa o historiador A. E. Atmore:

…A busca do marfim era geralmente destrutiva e frequentemente violenta. Envolvia a organização de bandos de caçadores que, mesmo quando formados localmente, desestruturavam os grupos sociais mais antigos. Com demasiada frequência, envolvia incursões e pilhagens pelo campo fora por parte de bandos estrangeiros.

(Fage, pág. 24)

Ivory Trading Station, French Congo
Feitoria de Marfim, Congo Francês Jean Audema (Public Domain)

A competição entre comerciantes europeus, árabes e africanos levou frequentemente a uma guerra aberta e à conquista territorial, com os africanos e os árabes a saírem habitualmente mais prejudicados face ao armamento superior dos europeus. Mesmo os africanos que beneficiaram diretamente do comércio de marfim só o fizeram a curto prazo visto que, sendo a caça conduzida à escala a que era e utilizando armas modernas fornecidas pelos europeus, o marfim tornou-se, na prática, um recurso não renovável, à medida que os animais eram sistematicamente exterminados numa região após outra.

Os escravos eram utilizados para transportar o marfim até à costa, em vez de carregadores pagos.

As Caravanas de Marfim e os Navios a Vapor

À medida que as fontes de marfim se esgotavam, os comerciantes viam-se obrigados a aventurar-se cada vez mais pelo interior de África adentro, à medida que a fronteira comercial se deslocava para áreas mais remotas. Mesmo no século XVI, antes de os caçadores utilizarem armas de fogo, cerca de 4 a 5 mil elefantes eram mortos todos os anos no Reino de Mutapa, por exemplo. Quando as armas de fogo passaram a ser usadas de forma mais generalizada, os números dispararam: na segunda metade do século XIX, quando o comércio de marfim estava no seu auge, eram mortos anualmente 65 mil elefantes na África tropical (Fage, pág. 24). A procura insaciável, particularmente pelo marfim da África Oriental — onde a oferta não conseguia satisfazer as quantidades desejadas —, levou a uma subida abrupta do preço do marfim ao longo do século XIX, que quadruplicou entre 1823 e 1873.

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Grandes caravanas de camelos ou de burros foram formadas, por exemplo, na África Oriental a partir da década de 1810 para encontrar marfim nas profundezas do interior africano. Estas caravanas, que frequentemente também comercializavam escravos, viajavam até 1600 km (1000 milhas) para alcançar os Grandes Lagos de África. Nas passagens mais difíceis através de áreas florestais, os carregadores deslocavam-se a pé, transportando cada homem uma presa. O comércio de escravos e o de marfim complementavam-se perfeitamente. Os caçadores de elefantes africanos eram facilmente convertidos em caçadores de homens, encurralando escravos para que os árabes e os europeus os reunissem em massa. Outra vantagem deste duplo comércio era o facto de os escravos serem utilizados para transportar o marfim até à costa em vez de carregadores pagos, reduzindo drasticamente os custos de transporte.

Transporting Ivory, French Congo
Transporte de Marfim, Congo Francês Albert Courboin (Public Domain)

Os povos africanos há muito que utilizavam o marfim para joalharia, esculturas (como estatuária) e objetos de importância cerimonial (como máscaras), mas viram-se tentados a abdicar do material para obter artigos que não conseguiam produzir por si próprios. Os europeus trocavam bens de baixo valor (para eles) — tais como tecidos de algodão, seda, facas, missangas e varas de latão — pelas presas de marfim. No entanto, nem sempre era uma questão simples trocar mercadorias para receber o marfim dos caçadores locais de elefantes. As negociações podiam ser complexas e utilizavam-se todo o tipo de estratagemas para extrair o valor máximo do marfim. No Quénia, os caçadores Embu tinham a tradição de levar toda a sua família consigo quando negociavam a venda do seu marfim:

…Os caçadores de elefantes faziam-se acompanhar pelos seus familiares para negociar com os comerciantes de marfim da costa. Nas fases finais da negociação, cada familiar sentava-se em cima do marfim em sinal de tristeza pela sua perda. O comerciante só podia levar o marfim depois de pagar a cada um deles para que consentisse na troca. Os familiares mais importantes do caçador recebiam mais, os de menor relevância recebiam menos.

(Curtin, pág. 365)

Algumas das caravanas eram seguidas por exploradores europeus — Richard Francis Burton (1821-1890) fez um relato notável de uma dessas viagens em 1857 —, mas uma consequência inesperada disso foi a propagação de doenças novas em certas regiões, como a varíola. Outra consequência do avanço da fronteira comercial foi o desastre económico para as áreas outrora prósperas que, subitamente, já não tinham marfim com que negociar. A única forma de os chefes africanos deixados para trás por esta fronteira em mutação conseguirem ainda uma fatia do comércio de marfim era exigir portagens às caravanas que passavam pelo seu território.

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Bell Piano with Ivory Keys
Piano Bell com Teclas de Marfim Lx 121 (Public Domain)

À medida que a África Central se abria ao comércio global, em grande parte através de gigantescas vias navegáveis interiores como os rios Nilo, Níger, Zambeze e Congo, formaram-se companhias comerciais europeias que estabeleceram postos comerciais permanentes por todo o continente. Tais postos eram ligados por pequenos navios a vapor, que navegavam subindo e descendo os grandes rios. O passo seguinte foi o investimento por parte dos governos europeus para financiar projetos como caminhos de ferro, que pudessem reduzir drasticamente o custo do transporte de mercadorias como o marfim até à costa. Também se construíram melhores portos para permitir que navios maiores recebessem cargas mais volumosas. Seguiram-se os soldados profissionais e a construção de fortes para defender estes ativos e, assim, começou o processo de colonização, retirando os povos indígenas das suas terras através de guerras de expansão territorial. Houve, também, conflitos entre comerciantes europeus e árabes, e entre os próprios europeus, à medida que a Partilha de África se tornava cada vez mais frenética a partir de meados da década de 1880.

Os Usos do Marfim

O marfim africano era transportado para o Mediterrâneo e para a Europa, mas também para a Índia, China e Estados Unidos. O marfim das presas da África Oriental era particularmente valorizado pela sua suavidade, o que o tornava mais fácil de esculpir do que outras variedades. A Índia, em particular, representava um mercado lucrativo, conforme explicado aqui pelo historiador P. Curtin: «Era utilizado nas pulseiras usadas pelas noivas indianas. Quando a mulher ou o seu marido faleciam, as pulseiras eram destruídas, assegurando assim uma procura contínua» (pág. 126).

Na Europa, o marfim era utilizado em objetos decorativos, como estatuetas e caixas de arrumação, mas também em artigos mais mundanos aos quais se dava um toque de luxo, tais como pentes, ganchos de cabelo e talheres. Houve, também, uma moda no século XIX de utilizar o marfim como material de embutido em peças decorativas, armários e pequenos móveis. Os Romanos tinham usado o marfim para fazer dados de jogo, e esta tendência lúdica continuou nos tempos modernos, visto que foi o boom do bilhar e da execução de piano na Europa que criou uma procura cada vez maior pelo marfim mais macio da África Oriental. Na verdade, as bolas de bilhar e as teclas de piano tornaram-se os produtos mais importantes fabricados com marfim africano. O marfim mais duro da África Ocidental continuou a ser um material popular para cabos de facas na Europa e nos Estados Unidos.

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Por volta da década de 1880, o comércio de marfim estava em declínio e tinha sido substituído em importância, no que toca às exportações de África, por mercadorias como o ouro, diamantes, borracha e cera de abelhas, bem como por produtos alimentares cultivados em plantações criadas para o efeito, tais como o café e o açúcar. O comércio de marfim continuou numa escala mais reduzida, não raramente abastecido por caçadores furtivos que matavam ilegalmente elefantes em reservas de caça. O comércio de marfim foi finalmente proibido pela Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies de Fauna e Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção (CITES - Convention on International Trade in Endangered Species of Wild Fauna and Flora), um tratado multilateral assinado em 1989.

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Cartwright, M. (2026, junho 24). Marfim e a Colonização de África. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2941/marfim-e-a-colonizacao-de-africa/

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Cartwright, Mark. "Marfim e a Colonização de África." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, junho 24, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2941/marfim-e-a-colonizacao-de-africa/.

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Cartwright, Mark. "Marfim e a Colonização de África." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 24 jun 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2941/marfim-e-a-colonizacao-de-africa/.

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