A Batalha de Pelúsio: Uma Vitória Decidida por Gatos

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por , traduzido por Filipa Oliveira
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Os antigos egípcios tinham uma profunda reverência pela vida em todas as suas formas. A vida fora concedida pelos deuses e essa reverência estendia-se para além dos seres humanos, abrangendo todos os seres vivos. Embora os egípcios comessem carne ocasionalmente, e a sua realeza certamente se dedicasse à caça, a dieta egípcia era predominantemente vegetariana ou pescetariana, o que refletia a compreensão da natureza sagrada de toda a existência. Mesmo quando se consumiam animais, agradecia-se o sacrifício; os animais de estimação eram bem tratados e a vida selvagem na natureza era respeitada.

Este valor é visível em toda a cultura, desde a arte à religião egípcia, mas é sintetizado pela Batalha de Pelúsio, em 525 a.C. Este confronto foi o embate decisivo entre o Faraó Psamético III (526-525 a.C.) e o rei persa Cambises II (525-522 a.C.), resultando na primeira conquista persa do Egipto.

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The Battle of Pelusium
A Batalha de Pelúsio Simon Seitz (CC BY-NC-SA)

Sugere-se que a batalha teria sido ganha pelos persas independentemente das táticas utilizadas, uma vez que Cambises II era muito mais experiente na guerra do que o jovem Faraó Psamético III. No entanto, a vitória deveu-se muito mais ao conhecimento de Cambises II sobre a cultura egípcia do que ao seu historial como comandante de campo. A batalha foi vencida através de uma estratégia muito invulgar por parte de Cambises II: a utilização de animais como reféns e, especialmente, de gatos.

Bastet e os seus Gatos

Os gatos eram animais de estimação populares no antigo Egipto e estavam estreitamente associados à deusa Bastet (também conhecida como Bast), que surge na arte egípcia com o corpo de uma mulher e a cabeça de um gato, ou como um gato sentado numa pose majestosa. Era a deusa do lar, da domesticidade, dos segredos das mulheres, dos gatos, da fertilidade e do parto. Protegia as habitações contra os espíritos malignos e doenças, especialmente as que afetavam as mulheres e as crianças, e desempenhava também um papel na vida após a morte.

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Bastet era extremamente popular em todo o Egipto, tanto entre homens como mulheres, desde a II Dinastia (cerca de 2890 – cerca de 2670 a.C.) em diante, com o seu culto centrado na cidade de Bubastis, pelo menos a partir do século V a.C. Inicialmente, foi representada como uma mulher com cabeça de leoa e estava intimamente associada à deusa vingativa Sekhmet; contudo, as duas divergiram ao longo do tempo até que Bastet passou a ser imaginada mais como uma companheira próxima, enquanto Sekhmet permaneceu uma força de vingança divina. Ainda assim, isto não significava que Bastet não pudesse aplicar a justiça ou corrigir erros sempre que visse necessidade. A egiptóloga Geraldine Pinch escreve:

A partir dos Textos das Pirâmides, Bastet possui um duplo aspeto de mãe zelosa e vingadora terrível. É o aspeto demoníaco que figura principalmente nos Textos dos Sarcófagos, no Livro dos Mortos e em feitiços médicos. Dizia-se que os "carniceiros de Bastet" infligiam a peste e outros desastres à humanidade.

(pág. 115)

Entre as muitas formas de ofender a deusa estava o ato de magoar um dos seus gatos. Os gatos eram tão estimados no antigo Egipto que a punição por matar um era a morte e, tal como relata Heródoto, os egípcios encurralados num edifício em chamas salvavam os gatos antes de se salvarem a si próprios ou de tentarem apagar o fogo. Heródoto afirma, ainda, que "todos os habitantes de uma casa onde um gato tenha morrido de morte natural rapam as sobrancelhas" como sinal de luto, e os gatos eram mumificados com joias, tal como as pessoas (Nardo, pág. 96). Sugeriu-se que os gatos eram sacrificados a Bastet da mesma forma que os cães o eram a Anúbis, mas esta afirmação tem sido contestada. É possível que os gatos mumificados encontrados em Bubastis fossem animais de estimação que morreram naturalmente e foram levados para serem enterrados num local sagrado. Este precedente é estabelecido por túmulos de humanos e animais sepultados em Abidos de modo a estarem perto de Osíris.

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Cat Mummy
Múmia de Gato Mary Harrsch (Photographed at the Rosicrucian Egyptian Museum, Calif.) (CC BY-NC-SA)

O respeito que os egípcios tinham pelos animais estendia-se, contudo, para além do gato e do cão. Foram encontrados animais de estimação mumificados de diferentes espécies, incluindo gazelas, babuínos, aves e até peixes. Certos animais, como o gato e o cão, pareciam ter uma importância especial devido à sua associação com divindades, e foi este conhecimento da cultura e dos valores egípcios que deu a Cambises II a vitória em Pelúsio, independentemente da juventude do seu oponente ou do declínio do Egipto como potência mundial após o Império Novo.

O Egipto no Terceiro Período Intermédio

O Império Novo do Egipto (cerca de 1570 – cerca de 1069 a.C.) foi uma época de prosperidade e crescimento em todas as áreas da civilização. Esta foi a era do Império Egípcio, durante a qual as suas fronteiras se expandiram e o tesouro se encheu. Os governantes mais conhecidos da história egípcia pertencem a esta era: Amósis I, Hatshepsut, Tutemósis III, Amenófis III, Akhenaton, Nefertiti, Tutankhamon, Horemheb, Seti I, Ramsés o Grande, Nefertari e Ramsés III fazem todos parte da nobreza do Império Novo. No entanto, a opulência e o sucesso desta era não poderiam durar para sempre e, por volta de 1069 a.C., o império estava a desmoronar-se, entrando naquilo a que estudiosos posteriores chamaram o Terceiro Período Intermédio do Egipto (cerca de 1069 – 525 a.C.).

Este período caracteriza-se pela ausência de um governo central forte, por guerras civis e instabilidade social, embora não tenha sido tão sombrio ou lúgubre como os primeiros egiptólogos afirmariam. Ainda assim, o país não estava nem perto do vigor ou poderio militar do Império Novo. Na última parte da XXII Dinastia, o Egipto estava dividido pela guerra civil e, na altura da XXIII, o país encontrava-se repartido entre monarcas autoproclamados que governavam a partir de Heracleópolis, Tânis, Hermópolis, Tebas, Mênfis e Saís. Esta divisão impossibilitou uma defesa unida do território e permitiu a invasão núbia vinda do sul.

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Map of the Third Intermediate Period
Mapa do Terceiro Período Intermediário Jeff Dahl (CC BY-SA)

As XXIV e XXV dinastias foram então unificadas sob o domínio núbio, que foi bastante bem-sucedido, mas o país não era forte o suficiente para resistir ao avanço dos assírios, primeiro sob o comando de Assaradão (681-669 a.C.) em 671/670 a.C. e, depois, por Assurbanípal (668-627 a.C.) em 666 a.C. Embora os assírios tenham sido expulsos do país, o Egipto não teria os recursos necessários para suportar a chegada dos persas.

Cambises II e Amásis

O Faraó Amásis da XXVI Dinastia (também conhecido como Amósis II, 570-526 a.C.) esteve entre os maiores governantes deste período, tendo restaurado parte da antiga glória e prestígio militar do Egipto. Seria, contudo, um dos últimos reis eficazes da história egípcia e, a dar crédito a Heródoto nesta matéria, terá dado início ao problema que levou à invasão persa.

Os persas teriam conhecimento da incapacidade de o Egipto se defender e, por conseguinte, dificilmente teriam hesitado em lançar uma invasão.

De acordo com Heródoto, Cambises II invadiu o Egipto após ter sido insultado por Amásis. Cambises II escreveu a Amásis pedindo uma das suas filhas em casamento, mas Amásis, não desejando aceder ao pedido, enviou a filha do seu predecessor, Apries. A jovem sentiu-se insultada por esta decisão — especialmente porque era tradição que as mulheres egípcias não fossem entregues a reis estrangeiros — e, ao chegar à corte de Cambises II, revelou a sua verdadeira identidade. Cambises II acusou Amásis de lhe ter enviado uma "esposa falsa" e mobilizou as suas tropas para a guerra.

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Independentemente da veracidade desta história, os persas teriam acabado por atacar o Egipto de qualquer forma. Os assírios já tinham conquistado o país no final do século VII a.C., e o exército egípcio provara não estar à altura das armas e táticas superiores das forças mesopotâmicas. Os persas, que estavam a expandir o seu império, teriam tido conhecimento da conquista anterior e da incapacidade do Egipto em se defender como fizera no Império Novo, pelo que teriam tido pouca hesitação em lançar uma invasão.

A Preparação para a Batalha

Assumindo que Heródoto está correto, entre o insulto e a batalha, Amásis morreu e deixou o país nas mãos do seu filho Psamético III, que era um jovem que vivera largamente à sombra das grandes realizações do pai e dificilmente estava preparado para repelir uma força hostil. No entanto, quando lhe chegou a notícia da mobilização persa, fez o seu melhor para organizar uma defesa e preparar-se para o combate. Contava com a assistência de aliados gregos, que o abandonaram, e viu-se privado do aconselhamento militar de Fanes de Halicarnasso (conselheiro do seu pai), que já se passara para o lado persa. Psamético III ficou, portanto, entregue a si próprio para lidar com a crise.

Psamético III fortificou a sua posição em Pelúsio, perto da foz do Nilo, e aguardou o ataque persa enquanto, simultaneamente, preparava a sua capital, Mênfis, para resistir a um cerco. A fortaleza de Pelúsio era forte e estava bem abastecida, tal como a capital. O jovem faraó, que governava há apenas seis meses, devia estar confiante de que conseguiria repelir qualquer ataque. O que Psamético III não previu, contudo, foi a astúcia de Cambises II.

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A Batalha e as suas Consequências

O escritor do século II d.C., Polieno, descreve a abordagem de Cambises II na sua obra Estratagemas (tít. original Strategemata), que escreveu com a esperança de ajudar Marco Aurélio e Vero nas suas campanhas. Polieno relata como os egípcios estavam a conter com sucesso o avanço persa quando Cambises II mudou subitamente de tática. O rei persa, conhecendo a veneração que os egípcios tinham pelos gatos, mandou pintar a imagem de Bastet nos escudos dos seus soldados e, mais ainda, "colocou diante da sua linha da frente cães, ovelhas, gatos, íbis e quaisquer outros animais que os egípcios prezam" (Polieno VII.9). Os egípcios sob o comando de Psamético III, ao verem a sua própria deusa amada nos escudos dos inimigos e temendo lutar para não ferir os animais que eram conduzidos à frente do adversário, abandonaram a sua posição e fugiram em debandada.

Muitos foram massacrados no campo de batalha e Heródoto relata ter visto os seus ossos ainda na areia muitos anos depois; comentou até a diferença entre os crânios persas e os egípcios. Os egípcios que não foram mortos em Pelúsio fugiram para a segurança de Mênfis, com o exército persa no seu encalço. Mênfis foi sitiada e caiu após um intervalo relativamente curto. Psamético III foi feito prisioneiro e foi tratado razoavelmente bem por Cambises II, até tentar fomentar uma revolta, acabando por ser executado.

Cambyses II of Persia
Cambises II da Pérsia Wikipedia (CC BY-SA)

Assim terminou a soberania do Egipto, que foi anexado pela Pérsia e, doravante, mudou de mãos várias vezes antes de acabar por se tornar uma província de Roma. Diz-se que Cambises II, após a batalha, arremessou gatos contra os rostos dos egípcios derrotados, em sinal de desprezo por terem entregado o seu país e a sua liberdade por temerem a segurança de animais comuns.

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Deve notar-se, contudo, que a descrição de Cambises II feita por Heródoto tem sido contestada. Cambises II é frequentemente retratado como um monarca brutal e negligente pelos escritores gregos, que não nutriam qualquer simpatia pelos persas. Diz-se também que Cambises II terá matado o touro sagrado Ápis, lançando a sua carcaça para a rua, e que terá profanado e proibido ritos e tradições sagradas em todo o Egipto.

Esta afirmação é contradita por relatos de outros escritores, inscrições e obras de arte que demonstram o grande apreço de Cambises II pela cultura e religião egípcias, incluindo a reconstrução de Mênfis e a sua continuidade como capital da satrapia persa. O próprio facto de ele ter utilizado os valores dos egípcios contra eles em batalha atesta essa admiração; ele sabia que os egípcios responderiam exatamente como fizeram porque não poderiam agir de outra forma. Eles teriam considerado melhor renderem-se do que traírem as suas crenças.

Após a Batalha de Pelúsio, os persas governariam o Egipto durante as XXVII e XXXI Dinastias e representariam uma ameaça constante, mesmo quando foram expulsos, entre a XXVIII e a XXX Dinastia. À exceção de curtos períodos, o Egipto deixou de ser uma nação autónoma após a vitória persa. Alexandre, o Grande, chegou com os seus exércitos em 331 a.C. e conquistou a região, que foi então governada por uma monarquia grega até ser anexada por Roma em 30 a.C.

Polieno observa como, através deste estratagema, Cambises II abriu a rota para o Egipto e o caminho para a vitória. Observa ainda que nunca se deve confiar na própria força ou bondade em batalha, mas sim preparar-se para qualquer eventualidade. Embora este possa ser um conselho sensato, a recusa dos egípcios em comprometer as suas crenças — independentemente do custo — é um detalhe revelador para compreender o que tornou a sua cultura tão admirável e a sua civilização uma das mais impressionantes.

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Mark, J. J. (2026, maio 31). A Batalha de Pelúsio: Uma Vitória Decidida por Gatos. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-43/a-batalha-de-pelusio-uma-vitoria-decidida-por-gato/

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Mark, Joshua J.. "A Batalha de Pelúsio: Uma Vitória Decidida por Gatos." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, maio 31, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-43/a-batalha-de-pelusio-uma-vitoria-decidida-por-gato/.

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Mark, Joshua J.. "A Batalha de Pelúsio: Uma Vitória Decidida por Gatos." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 31 mai 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-43/a-batalha-de-pelusio-uma-vitoria-decidida-por-gato/.

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