O bombardeamento sistemático de Tóquio por aviões norte-americanos, em repetidos ataques durante a Segunda Guerra Mundial (1939-45), tinha como objetivo forçar a rendição do Japão. O lançamento de milhares de bombas incendiárias, em março de 1945, provocou uma tempestade de fogo que causou a morte de, pelo menos, 87 000 pessoas. Tóquio, com a sua miríade de instalações industriais, foi alvo de repetidos ataques nos meses seguintes, tal como muitas outras cidades japonesas. Apesar da enorme destruição e das perdas de vidas, só quando estes ataques foram combinados com um bloqueio naval e com o uso chocante da nova bomba atómica é que o Japão se rendeu finalmente.
O Primeiro Ataque
A capital japonesa era um alvo óbvio para os bombardeiros norte-americanos, com as suas enormes fábricas de indústria pesada e dezenas de milhares de microfábricas, todas a produzir materiais essenciais para o esforço de guerra. Tóquio foi atingida pela primeira vez por bombardeiros B-25 norte-americanos no Ataque de Doolittle, a 18 de abril de 1942. O ataque, lançado a partir de um porta-aviões em retaliação ao ataque a Pearl Harbor, a base naval norte-americana no Havai, foi muito limitado em escala e consequências. Os bombardeiros norte-americanos só voltariam a escurecer os céus da capital japonesa 31 meses depois, mas, quando o fizeram, causaram mais destruição do que qualquer ataque aéreo comparável na Alemanha, na Grã-Bretanha ou em qualquer outro lugar.
Os B-29 e as Ilhas Marianas
Os ataques diretos e sustentados ao Japão só se tornaram possíveis depois das forças armadas dos EUA terem capturado as Ilhas Marianas em meados de 1944. A vitória na Batalha de Saipan e na Batalha de Guam, em junho, julho e agosto, garantiu que as forças norte-americanas pudessem utilizar estas duas ilhas, bem como a vizinha Tinian, como bases aéreas permanentes. Os bombardeiros Boeing B-29 Superfortress, de longo alcance, podiam agora atacar qualquer cidade japonesa. Os EUA já tinham iniciado uma campanha de bombardeamentos estratégicos contra o Japão utilizando bases na China, mas as Marianas eram uma base muito mais fácil de defender e reabastecer. Os bombardeamentos podiam agora ser ampliados para incluir centenas de aeronaves, e os ataques podiam ser realizados ao longo de várias noites consecutivas para aumentar o seu efeito devastador.
O primeiro ataque com B-29 a partir das Marianas ocorreu a 24 de novembro de 1944, quando 80 bombardeiros Superfortresses bombardearam uma fábrica de aeronaves em Tóquio. Apesar de terem sido especificamente concebidos para bombardeamentos de precisão a grande altitude, a realidade foi que apenas um quarto dos bombardeiros atingiu a área-alvo e aqueles que o fizeram não foram tão eficazes como se esperava na destruição de fábricas e instalações industriais. O bombardeamento a alta altitude revelou-se problemático devido aos ventos muito fortes da corrente de jato, que afetavam a precisão, e à necessidade de luz do dia para os mirantes de bombardeamento, o que expunha as aeronaves aos ataques dos caças japoneses. Tendo em conta as consequências de tais ataques com bombas incendiárias em cidades alemãs, como a Operação Gomorra contra Hamburgo, em agosto de 1943, durante o bombardeamento aliado da Alemanha, a Força Aérea dos EUA decidiu aplicar as mesmas táticas no Japão. Consequentemente, a maioria dos B-29 seria utilizada para lançar toneladas de bombas incendiárias sobre Tóquio e outras cidades japonesas à noite e a baixa altitude. Isso significava que milhares de civis seriam mortos numa tentativa rudimentar de destruir alvos industriais.
O Major-General Curtis LeMay (1906-1990) esteve à frente das operações de bombardeamento dos EUA sobre o Japão a partir de janeiro de 1945 e, aqui, descreve a razão pela qual foram utilizadas as bombas incendiárias:
Sempre tínhamos planeado utilizar bombas incendiárias na campanha contra o Japão, porque a construção das suas cidades tornava-as muito eficazes. Mas, para as utilizar corretamente, é necessário ter uma concentração mínima de bombas incendiárias para provocar um incêndio de grandes proporções — um número mínimo de aviões… Os japoneses pareciam carecer de defesas a baixa altitude e, por essa razão, decidi voar mais baixo, porque assim poderíamos transportar uma carga maior… e o bombardeamento seria mais eficaz… 17 milhas quadradas da zona industrial de Tóquio foram queimadas...
(Holmes, pág. 566)
Março de 1945: o Ataque «Firestorm»
A 25 de fevereiro de 1945, ocorreu o primeiro grande ataque levado a cabo sobre Tóquio quando foram lançadas 450 toneladas de bombas incendiárias por cerca de 150 bombardeiros B-29, destruindo quase 30 000 casas.
O ataque acima descrito por LeMay, a Operação Meetinghouse, ocorreu na noite de 9 de março de 1945. Partiram das Marianas 334 aeronaves (200 bombardeiros e os seus caças de escolta). Todas as aeronaves, com exceção de 14, regressariam da missão, uma vez que as armas antiaéreas japonesas não eram muito eficazes e apenas 40 caças noturnos entraram efetivamente em combate com os atacantes. As bombas foram lançadas a uma altitude relativamente baixa de 1 830 m (6 000 pés) e incluíam os dispositivos incendiários M-69 cheios de napalm, que espalhavam fogo à medida que explodiam. O historiador J. Vader descreve esta nova arma:
As bombas incendiárias M-69 pesavam 6 libras cada e eram lançadas num conjunto de 38 dentro de um contentor. Um fusível temporizado estava programado para libertar as pequenas bombas do conjunto a 5 000 pés, e estas explodiam ao entrar em contacto, espalhando um composto de gelatina e gasolina. Os B-29 transportavam normalmente 37 unidades deste conjunto de 500 libras.
(Liddell Hart, pág. 434)
As bombas começaram a cair por volta da meia-noite e só pararam às 3h45 da manhã. No total, foram lançadas 1 700 toneladas de bombas incendiárias naquela noite. Tal como previsto por LeMay, o bombardeamento incendiário causou devastação entre a arquitetura de madeira altamente combustível que predominava nas cidades japonesas. Até mesmo edifícios de betão armado, concebidos para resistir a incêndios, foram destruídos. As nuvens de fumo negro subiram tão alto que escureceram a parte inferior das ondas posteriores de bombardeiros.
À medida que os ventos fortes daquele dia propagavam os incêndios, a tremenda concentração de calor gerou então o seu próprio microclima, onde ventos térmicos a cerca de 80 km/h (50 mph) sugavam o ar circundante, propagando ainda mais os incêndios. Foi, no sentido literal, uma tempestade de fogo que só terminou quando já não havia mais nada para arder.
Foram destruídos 41,5 km² (16 milhas²) de Tóquio, sendo a maior parte áreas comerciais e industriais, incluindo vinte alvos industriais importantes, mas também muitas zonas residenciais. Mais de um milhão de pessoas ficaram sem casa da noite para o dia. O corpo de bombeiros da cidade também sofreu perdas, tendo perdido 15 quartéis, 95 viaturas de bombeiros e 125 bombeiros. Pelo menos 87 000 pessoas morreram e quase 41 000 ficaram feridas no ataque e na consequente tempestade de fogo (Neillands, pág. 378). Esta foi, até então, a maior perda de vidas civis numa só noite na história.
Os efeitos deste ataque no terreno são aqui descritos por uma dona de casa de Tóquio, Tsuyako Kii:
No dia 9 de março, senti um clima um tanto tenso naquela noite e soou o alarme; um homem apareceu a gritar através de um megafone que devíamos refugiar-nos na escola, mas desobedeci porque achei que a escola era muito perigosa — havia muitas casas à volta daquela escola —, por isso corri para a grande ponte sobre o rio Sumida e passei a noite toda junto àquela ponte. No início, não havia fogo do meu lado, mas o outro lado estava a arder e, na madrugada de 10 de março, o fogo começou do meu lado; por isso, atravessei para o outro lado da ponte e, lá, já estava tudo queimado, pelo que me mantive relativamente segura naquele local. Pensei que poderia saltar para o rio como último recurso, tal como as pessoas tinham feito durante o terramoto de 1923.
(Holmes, págs. 566-7)
O bombardeamento incendiário de Tóquio permaneceu relativamente desconhecido, ofuscado na altura pelo bombardeamento de Dresden em 1945. Este último ataque, envolvendo novamente aeronaves norte-americanas (mas também vários bombardeiros Lancaster da RAF - Royal Air Force, a Força Aérea Real britânica), tinha ocorrido apenas algumas semanas antes. O ataque a Dresden matou cerca de 30 000 pessoas e arrasou a cidade. O bombardeamento de Dresden foi alvo de controvérsia, pois, para alguns, parecia que a Alemanha já tinha perdido a guerra e, por isso, era estrategicamente desnecessário. O mesmo se aplicava ao Japão, mas o sentimento era, de alguma forma, diferente entre muitos americanos. Uma opinião generalizada era a de que o povo japonês merecia retaliação pelo ataque surpresa a Pearl Harbor, pelas enormes baixas sofridas até então pelos Aliados na Guerra do Pacífico e pelas histórias de tortura e execução de prisioneiros de guerra aliados pelas forças armadas japonesas.
Os Ataques Subsequentes
LeMay deu imediatamente seguimento ao ataque de março com um segundo, de modo a que as autoridades japonesas e os serviços de emergência tivessem dificuldade em responder. Seguiram-se muitos mais ataques, tanto a Tóquio como a outras grandes cidades. A capacidade do Japão de se defender no ar tornou-se muito limitada, uma vez que as aeronaves tinham de ser poupadas para uma possível invasão futura. LeMay observou: «os B-29 voavam à vontade sobre o Japão e eles não podiam fazer nada a esse respeito» (Holmes, pág. 567).
A menor altitude não só permitia que os B-29 transportassem uma maior carga de bombas, como essa capacidade aumentou ainda mais quando se decidiu retirar as guarnições de artilharia nestas missões (à exceção dos artilheiros de cauda). Esta redução de peso permitiu que cada bombardeiro transportasse mais seis toneladas de engenhos explosivos. Os artilheiros dispensavam-se uma vez que o Japão não dispunha, na altura, de caças noturnos eficazes. De facto, as aeronaves norte-americanas sofreram perdas de apenas 1,5 a 2% (em comparação com 5 a 7% nos ataques diurnos), uma estatística que levou os comandantes a pensar que o Japão poderia ser subjugado através de ataques intensos. Havia motivações adicionais para demonstrar que o poder aéreo podia vencer guerras. Dado que a Força Aérea dos EUA fazia ainda oficialmente parte do Exército, uma demonstração cabal dessa capacidade seria determinante para a criação de um ramo militar totalmente autónomo.
Os B-29 combinavam bombardeamentos de precisão, que visavam alvos industriais ou militares específicos, com bombardeamentos incendiários indiscriminados, embora os primeiros, dada a tecnologia da época, continuassem a ser muito mais difíceis e, na maioria das vezes, não conseguissem atingir os alvos pretendidos. A destruição generalizada das refinarias de petróleo foi mais bem-sucedida e atingiu tal grau que as forças armadas japonesas tiveram dificuldades em abastecer os aviões e tanques restantes. Uma vasta gama de cidades continuou a ser alvo de ataques, nomeadamente Yokohama, Kawasaki, Nagoya, Osaka e Kobe.
Tóquio sofreu muitos mais ataques ao longo de março e abril, num total de 20 incursões de B-29 e cinco de bombardeiros de porta-aviões. Em abril, três ataques distintos ao longo de cinco noites (de 12 a 16) envolveram mais de 700 bombardeiros, o que provocou incêndios ainda mais devastadores. Na última semana de maio, foram realizadas mais duas incursões sobre Tóquio, envolvendo 562 e 464 B-29, respetivamente. Estes ataques e outros destruíram, no total, 145 km² (56 milhas²) da capital e provocaram um êxodo de civis para o campo. A população de Tóquio tinha desçido drasticamente dos 6,6 milhões antes dos ataques para 2,3 milhões. Mais de 100 000 pessoas tinham sido mortas e 2,8 milhões ficaram sem casa. Os bombardeamentos continuaram por todo o Japão durante os meses de maio, junho e julho.
A Rendição do Japão
O bombardeamento de Tóquio e de outras cidades japonesas, tal como tinha acontecido com as cidades da Grã-Bretanha e da Alemanha, não levou, por si só, a qualquer forma de rendição nem sequer abalou de forma evidente o moral da população civil. No entanto, o impacto foi dramático: mais de metade das 64 cidades japonesas foram destruídas, oito milhões de pessoas perderam as suas casas, e os bombardeiros B-29 estavam quase sem alvos. Mas foi o bloqueio do Japão — imposto com recurso a navios de guerra, submarinos e aviões de ataque — que se revelou mais eficaz para privar o Japão dos recursos essenciais de que necessitava para conduzir a guerra. Este facto, juntamente com a longa lista de derrotas militares na Guerra do Pacífico e a destruição da sua marinha, foram fatores significativos que, combinados com os bombardeamentos, levaram o Japão à beira da rendição.
O capítulo final e decisivo na história da Guerra do Pacífico foi a concretização do Projeto Manhattan e o lançamento de uma bomba atómica sobre Hiroshima e de outra sobre Nagasaki, em agosto. Estas duas cidades foram escolhidas precisamente porque tinham sido relativamente poupadas pelas campanhas de bombardeamento convencionais. Tóquio poderia ter parecido uma escolha óbvia para ser atacada, mas a cidade já tinha sido tão gravemente destruída que o seu bombardeamento, mais uma vez, não teria tido grande impacto. O impacto psicológico de destruir uma cidade relativamente poupada com uma única bomba foi tremendo. A terrível tragédia das armas nucleares em ação acabou por trazer a resposta desejada: a rendição do Japão e a vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial.
