A 18 de abril de 1942, o Ataque Doolittle consistiu no ataque de 16 bombardeiros B-25 norte-americanos que atingiram Tóquio e outros alvos no Japão, tendo sido a primeira vez que as ilhas principais do Japão foram bombardeadas desde o infame ataque japonês a Pearl Harbor em dezembro do ano anterior, um ato de agressão que resultou na entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial (1939-45). Embora os danos do Ataque Doolittle tenham sido reduzidos no panorama geral da Guerra do Pacífico, o ataque demonstrou uma caraterística comum à maioria dos teatros de operações de um conflito que já durava há três anos: que nenhuma cidade e nenhum civil, fosse onde fosse, estava a salvo de ataques aéreos.
A Vingança por Pearl Harbor
O Japão lançou um ataque surpresa devastador contra a Frota do Pacífico dos EUA em Pearl Harbor a 7 de dezembro de 1941. Poucas horas depois, o Japão declarou guerra aos EUA. No dia seguinte, outro ataque japonês destruiu a maioria dos 35 aparelhos B-17 Flying Fortress pertencentes à Força Aérea do Exército dos EUA (USAAF - United States Army Air Forces) na ilha de Luzon, nas Filipinas. Em resposta, os EUA declararam guerra ao Japão, mas com a sua Frota do Pacífico em ruínas, lançar um contra-ataque estava fora de questão naquele momento. No entanto, o presidente Franklin D. Roosevelt (1882-1945) pressionou no sentido de haver algum tipo de reação militar. Os Chefes de Estado-Maior das Forças Armadas dos EUA conceberam um plano para atacar o Japão diretamente. Embora mais tarde o mérito da ideia tenha sido atribuído a Roosevelt, o Ataque Doolittle foi, segundo o almirante Ernest J. King (1878-1956), Comandante-em-Chefe da Marinha dos EUA, idealizado por um dos seus oficiais de operações, o capitão Francis S. 'Frog' Low.
A ideia do Ataque Doolittle consistia num ataque surpresa ao Japão: utilizava-se apenas um porta-aviões e, graças ao emprego de bombardeiros especialmente adaptados, o navio não teria de se aproximar tanto do território inimigo ao ponto de poder ser ameaçado por patrulhas contrárias. O Ataque Doolittle — mais tarde batizado com o nome do seu líder, o tenente-coronel James H. Doolittle (1896-1993), mas inicialmente designado apenas como Projeto Especial de Aviação N.º 1 — envolveria 16 bombardeiros médios North American B-25 Mitchell, que descolariam do porta-aviões Hornet para atacar Tóquio, então a terceira maior cidade do mundo, bem como determinados outros alvos. O valor estratégico do ataque seria muito limitado, tendo em conta o pequeno número de aeronaves envolvidas, mas demonstraria tanto ao Japão como ao público norte-americano que as forças armadas dos EUA eram capazes de atingir o próprio coração do inimigo. Tal como no ataque a Pearl Harbor, o fator de choque superaria largamente os eventuais danos materiais.
Os Bombardeiros
A 1 de abril de 1942, o Hornet zarpou de São Francisco, juntando-se mais tarde a uma força-tarefa de proteção vinda de Pearl Harbor e comandada pelo almirante William 'Bull' Halsey (1882-1959). Esta força-tarefa incluía o porta-aviões Enterprise. O grupo de navios norte-americanos dirigiu-se para o Japão, mas a 18 de abril os radares detetaram barcos de patrulha japoneses. Halsey mudou primeiro de rumo numa tentativa de evitar a deteção, mas um dos barcos transmitiu a avistamento para Tóquio. Os navios japoneses foram atacados e afundados, mas já era tarde demais. Os bombardeiros teriam de descolar imediatamente se o ataque quisesse manter o seu segredo. O Hornet ainda se encontrava a 700 milhas náuticas (1.100 km) de Tóquio, cerca de 170 milhas náuticas (273 km) mais longe do que o planeado para a descolagem dos B-25.5. Os aviões teriam de descolar à luz do dia, quando o plano original consistia em partir ao abrigo da escuridão e sobrevoar o Japão durante a noite.
Todos os pilotos dos bombardeiros eram voluntários e pertenciam ao 17.º Grupo de Bombardeamento, em Pendleton Field, no Oregon. Doolittle tinha passado meses a treinar os pilotos para descolarem a partir de uma pista com o tamanho exato da ponte de voo do Hornet — menos de 91,4 m (300 pés) — e a descolar com a técnica pouco familiar de manter a cauda da aeronave em baixo. As tripulações também treinaram o voo noturno e a navegação sem auxílios visuais ou referências por rádio. Não houve oportunidade para praticar descolagens a partir de um porta-aviões real no mar. Os porta-aviões foram concebidos para transportar caças de curto alcance, e não bombardeiros. Consequentemente, era impossível para as aeronaves tão grandes aterrar novamente num porta-aviões, pelo que os bombardeiros B-25, após atingirem Tóquio, teriam de aterrar no aeródromo de Chuchow, na China aliada, a uma distância de cerca de 1.600 km (1.000 milhas) da capital japonesa.
O B-25 Mitchell era um bombardeiro bimotor com metralhadoras defensivas no nariz, na cauda, na parte dorsal e na parte inferior da aeronave. Os B-25 do Ataque Doolittle sofreram várias adaptações. Adicionou-se um piloto automático e removeram-se a torreta de metralhadora ventral e o habitual aparelho de pontaria de bombas Norden, visto que este não era fiável a baixa altitude. Em vez disso, foi instalado um aparelho de pontaria feito à medida que permitia ao bombardeiro enviar sinais luminosos ao piloto, mantendo assim o silêncio rádio.
Os B-25 estavam invulgarmente pesados, uma vez que cada um transportava 4319 litros (1141 galões) de combustível, cerca de 60% mais do que a capacidade habitual. Cada bombardeiro transportava quatro bombas de 225 kg (500 libras) ou três bombas destas e um cacho de bombas incendiárias mais pequenas. O desejo de vingança por Pearl Harbor ficou evidente no facto de muitos militares norte-americanos terem enviado as suas medalhas de guerra à equipa de Doolittle para que pudessem ser atadas às bombas que seriam largadas sobre os japoneses.
Conseguir sair da ponte de voo do Hornet foi o primeiro e talvez o maior desafio da operação. Felizmente, as condições meteorológicas ajudaram, conforme explicado por Doolittle:
Tínhamos apenas uma verdadeira preocupação e essa teria sido uma calmaria absoluta. O porta-aviões teria conseguido fazer talvez trinta nós; nessas condições, descolar da ponte do porta-aviões teria sido, na melhor das hipóteses, precário. No entanto, havia um vento de trinta nós, o porta-aviões conseguiu avançar a vinte nós contra este vento, pelo que tivemos um vento efetivo de cinquenta nós através da ponte.
(Holmes, pág. 208)
Os bombardeiros descolaram do Hornet a partir das 08:24, com Doolittle no bombardeiro de liderança e cada aeronave a seguir com um intervalo de quatro minutos. O treino tinha dado frutos e todos os bombardeiros conseguiram realizar a descolagem de arrepiar. Os aviões agruparam-se por volta das 09:20 e voaram em formação até se separarem para se dirigirem aos respetivos alvos. Um bombardeiro dirigiu-se para Kobe, outro para Nagoya e um foi para Osaka. 13 bombardeiros dirigiram-se para Tóquio. Os bombardeiros tinham recebido alvos importantes para o esforço de guerra do Japão, tais como uma refinaria de petróleo, siderurgias, um estaleiro naval e fábricas, contudo eram proibidos os locais culturais, como, por exemplo, o Palácio Imperial.
O Ataque
Nagoya e Kobe foram atingidos, mas o bombardeiro destinado a Osaka atingiu em vez disso o estaleiro naval de Yokosuka e depois Yokohama, o porto mais importante do Japão. Os restantes 13 bombardeiros, não tendo encontrado resistência de caças ou apenas resistência ligeira, chegaram a cima de Tóquio pouco depois do meio-dia de 18 de abril. Acontece que, apenas uma hora antes, a cidade tinha concluído um simulacro de ataque aéreo que incluiu aeronaves reais. Este facto "atenuou o impacto psicológico do ataque na população local, mas ajudou os bombardeiros a escapar" (Dear, pág. 240). Todos os 13 bombardeiros largaram as suas cargas e escaparam ilesos, apesar do fogo hostil das defesas antiaéreas terrestres e dos ataques de caças.
No geral, os ataques fizeram cerca de 50 vítimas mortais (incluindo mulheres e crianças), danificaram 100 edifícios e causaram danos graves a um navio de apoio a submarinos, o Taigei. Na verdade, isto foi mais do que o esperado, uma vez que os bombardeamentos efetuados por todas as forças aéreas nesta fase da guerra continuavam a ser frustrantemente imprecisos e, mesmo com impactos diretos, uma ou duas bombas de 225 kg (500 libras) não teriam obliterado uma fábrica. Esperava-se que as bombas incendiárias pudessem ter iniciado um incêndio que se descontrolasse, mas aqui o simulacro de ataque aéreo veio em socorro, uma vez que a maior parte do Departamento de Bombeiros de Tóquio ainda se encontrava em alerta e pôde assim extinguir rapidamente os incêndios que deflagraram.
Quatro dos bombardeiros aterraram (na verdade, fizeram uma aterragem forçada) na China. Uma aeronave sofreu problemas técnicos e viu-se obrigada a aterrar no porto russo de Vladivostok. As restantes tripulações foram obrigadas a abandonar as suas aeronaves à medida que o combustível se esgotava.
Três militares foram capturados após aterragem de emergência do seu avião perto de Ningpo e outros cinco foram capturados após saltarem de paraquedas perto de Nanchang. Estes homens foram submetidos a tortura e a um julgamento de fachada por crimes de guerra, porque o ataque tinha atingido (embora de forma involuntária) alvos civis. Três aviadores foram executados pelas autoridades japonesas: Dean E. Hallmark, William G. Farrow e Harold A. Spatz. Um quarto aviador, Robert J. Meder, morreu em condições prisionais terríveis, onde as doenças grassavam. Os restantes quatro aviadores, internados em Xangai, só foram libertados no final da guerra, em agosto de 1945.
A tripulação que se tinha visto obrigada a aterrar em Vladivostok também foi internada (uma vez que a URSS não estava formalmente em guerra com o Japão e não tinha qualquer intenção de o estar), mas conseguiu escapar 13 meses mais tarde e seguir rumo à Pérsia (Irão). Ao todo, 71 dos 80 militares norte-americanos envolvidos, incluindo Doolittle, sobreviveram ao ataque. A frota dos EUA, com o Hornet e o Enterprise, chegou ilesa a Pearl Harbor a 25 de abril.
As Consequências
O ataque representou indubitavelmente um impulso para a moral nos Estados Unidos. Outro efeito significativo do ataque foi o facto de o governo militar japonês já não poder afirmar que o Japão estava imune a ataques. Como observou Toshikazu Kase, secretário principal do Ministro dos Negócios Estrangeiros:
Quando o Ataque Doolittle foi levado a cabo, provocou consternação porque os militares tinham assegurado repetidamente ao público que o céu japonês era impenetrável. Quando esta alegada impenetrabilidade falhou, produziu naturalmente uma reação de descredibilização da capacidade do comando militar.
(Holmes, pág. 208)
Doolittle aponta outra consequência do seu ataque:
O mais importante de tudo foi o facto de ter provocado a retenção de aeronaves para a proteção das ilhas principais que teriam sido muito mais eficazes se tivessem podido ir para o sul, onde os combates decorriam.
(Idem, pág. 209)
Outra consequência do ataque foi o facto da oposição à ideia de que a Marinha Japonesa devia travar uma batalha direta contra a Frota do Pacífico dos EUA ter desaparecido quase por completo. Para minimizar a possibilidade de futuros ataques, as forças japonesas atacaram e ocuparam primeiro o aeródromo de Chuchow e outros na China. Além disso, foi feita uma tentativa infrutífera de capturar as ilhas Aleutas, de modo a evitar que quaisquer porta-aviões norte-americanos se aproximações demasiado do Japão e pudessem repetir o Ataque Doolittle. As duas marinhas viriam efetivamente a confrontar-se no mês seguinte na Batalha do Mar do Coral e, depois, em junho de 1942, na muito mais significativa Batalha de Midway, um confronto que infligiu ao Japão a sua primeira grande derrota no Pacífico e destruiu quatro dos seus porta-aviões.
O Ataque Doolittle tinha sido um choque, mesmo que, para o povo de Tóquio, os bombardeiros norte-americanos só voltassem a escurecer os seus céus 31 meses mais tarde. Quando os bombardeiros dos EUA finalmente regressaram, a campanha intensiva contra a cidade provocaria uma destruição maciça e perda de vidas. Os ataques diretos ao Japão tornaram-se possíveis assim que as forças armadas dos EUA capturaram as ilhas Marianas em junho de 1944, embora, mesmo nessa altura, a única aeronave capaz de atingir o Japão fosse o bombardeiro B-29 Superfortress de longo alcance e grande altitude.
Doolittle recebeu a Medalha de Honra e foi promovido ao posto de brigadeiro-general. A história do ataque, escrita por um dos pilotos envolvidos, Ted W. Lawson, foi publicada no livro Trinta Segundos sobre Tóquio (Ed. O Cruzeiro; tít. original: Thirty Seconds over Tokyo, em 1943. Este livro serviu de base para o filme homónimo de 1944, protagonizado por Spencer Tracy. O ataque também ocupa um lugar de destaque no filme de 2001 Pearl Harbor, protagonizado por Ben Affleck.
