A Batalha do Mar do Coral, a primeira batalha naval da história entre porta-aviões, ocorreu entre 4 e 8 de maio de 1942, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-45). A marinha japonesa esperava ocupar a parte oriental de Papua e as Ilhas Salomão, mas a Marinha dos EUA estava determinada a impedir uma maior expansão japonesa na região. Na batalha, os japoneses perderam o porta-aviões ligeiro Shōhō, enquanto a Marinha dos EUA perdeu o porta-aviões Lexington, um de apenas quatro porta-aviões que possuía no Pacífico. A batalha constituiu uma vitória tática japonesa, tendo em conta a tonelagem afundada, mas uma vitória estratégica Aliada, uma vez que a expansão japonesa tinha sido travada. Além disso, dois porta-aviões japoneses ficaram tão danificados que não puderam participar na crucial Batalha de Midway no mês seguinte, uma ausência que ajudou a garantir a vitória dos EUA, invertendo finalmente o rumo da Guerra do Pacífico.
A Expansão do Japão no Pacífico
Em busca de prestígio, territórios, novos mercados e recursos vitais como o petróleo, o exército japonês expandiu de forma constante o Império Japonês ao longo da década de 1930. No final de 1941, o Japão ocupava a Manchúria, Formosa (Taiwan), a Coreia, partes da China costeira e a Indochina Francesa (que incluía o que hoje é o Laos, o Camboja e partes da Tailândia).
Em dezembro de 1941, o Japão lançou o seu infame ataque a Pearl Harbor, no Havai, base da Frota do Pacífico dos EUA. No mesmo mês, o Japão lançou ataques contra as Filipinas, controladas pelos EUA, e contra a Malásia, a Birmânia (Mianmar) e Hong Kong, controladas pelos britânicos. Com a Marinha dos EUA temporariamente incapacitada e os britânicos distraídos por acontecimentos noutros teatros da Segunda Guerra Mundial, o Império Japonês expandiu-se drasticamente. Singapura foi capturada em fevereiro de 1942. Entre março e abril, as forças japonesas arrasaram as ilhas principais das Índias Orientais Neerlandesas (Sumatra, Java, Bornéu, Celebes e Nova Guiné). Parecia que o Japão iria controlar em breve todo o Pacífico ocidental, desde o norte da China até à Austrália. Tudo o que restava conquistar era a Papua e as Ilhas Salomão. Uma vez estas ilhas em mãos japonesas, a Austrália ficaria perigosamente exposta a ataques aéreos nipónicos. Se o Japão conseguisse depois tomar as ilhas Fiji, Samoa e Nova Caledónia, mais a leste no Pacífico, a Marinha dos EUA ficaria completamente cortada da sua cadeia de abastecimento que tinha início em Brisbane e Sidney.
No Mar do Coral
O Vice-Almirante japonês Inoue Shigeyoshi (1889-1975), comandante da 4.ª Frota japonesa, organizou três grupos de ataque que se reuniram à volta das ilhas do Atol de Truk (atual Lagoa Chuuk), na Micronésia — a principal base naval do Japão na região —, e de Rabaul, em Papua, em preparação para uma expansão tripla do território japonês no último reduto do sudoeste do Pacífico que ainda não estava sob controlo nipónico. Os três objetivos eram Port Moresby, o principal porto na Papua e a localização de uma pista de aterragem; a Ilha Tulagi, nas Salomões; e as Ilhas Louisiade, na extremidade oriental de Papua. A maior força de invasão dirigiu-se para Port Moresby. As outras duas forças encarregaram-se de estabelecer bases que pudessem ser utilizadas por hidroaviões japoneses. Os três destinos situam-se no Mar do Coral, daí o nome da futura batalha contra as forças navais dos EUA.
As frotas de invasão japonesas estavam protegidas por uma força naval comandada pelo Contra-Almirante Gotō Aritomo (1888-1942). Esta força era composta por um porta-aviões ligeiro, o Shōhō, quatro cruzadores pesados e um contratorpedeiro. Além disso, uma força de ataque naval ainda maior, comandada pelo Vice-Almirante Takagi Takeo, encabeçou a invasão. Esta força era composta por dois porta-aviões de esquadra, o Shōkaku e o Zuikaku, dois cruzadores pesados e seis contratorpedeiros. No total, a Operação MO envolveria 60 navios japoneses.
A Resposta dos EUA
Os planeadores navais japoneses tinham antecipado uma resposta por parte dos EUA à sua mais recente expansão, razão pela qual tinham dividido a força de ataque em duas frentes, na esperança de apanhar os navios dos EUA no meio para que, enquanto a batalha decorria, a força principal de invasão pudesse prosseguir sem perturbações em direção a Port Moresby.
A Marinha dos EUA respondeu de facto, mas fê-lo muito mais depressa do que os japoneses tinham antecipado, graças às informações recolhidas através de mensagens descodificadas logo a 9 de abril. O comandante da Frota do Pacífico dos EUA, o Almirante Chester W. Nimitz (1885-1966), também foi informado sobre a estratégia de abordagem em duas frentes da força japonesa. Consequentemente, Nimitz criou dois grupos próprios, cada um com o seu próprio porta-aviões. Os dois porta-aviões mobilizados foram o Lexington e o Yorktown. Nimitz tinha apenas quatro porta-aviões em todo o Pacífico, pelo que empenhar dois deles constituiu um certo risco. Os outros dois porta-aviões de Nimitz, o Hornet e o Enterprise, encontravam-se, de qualquer modo, indisponíveis, por terem participado no ousado Ataque Doolittle a Tóquio em abril. Cada porta-aviões tinha a sua escolta: o Lexington com dois cruzadores e cinco contratorpedeiros, e o Yorktown com três cruzadores e quatro contratorpedeiros.
Foi destacada uma terceira força; esta, comandada pelo Contra-Almirante John G. Crace, da Marinha Real, era composta pelo cruzador americano Chicago, por dois cruzadores australianos, o Australia e o Hobart, e por um contratorpedeiro americano, o Perkins. Esta força tinha a missão de defender Port Moresby. Quatro submarinos americanos e 12 hidroaviões Catalina também se juntaram aos navios americanos que se concentravam nos Mares do Sul; a sua missão consistia principalmente em assegurar o reconhecimento. Nimitz ordenou ainda que os dois porta-aviões, Hornet e Enterprise, navegassem para o Mar do Coral assim que possível, mesmo que a sua chegada fosse provavelmente (e de facto foi) demasiado tardia para participarem na batalha que se avizinhava.
Uma Batalha Confusa
A força japonesa que visava Tulagi e a vizinha Gavutu, nas Salomões, conseguiu desembarcar sem dificuldades a 3 de maio, mas, 24 horas mais tarde, o Contra-Almirante Frank Jack Fletcher (1885-1973), comandante do grupo do Yorktown, respondeu enviando caças, bombardeiros torpedeiros e bombardeiros de picado para atacar os invasores. Crucialmente, a força terrestre japonesa não tinha recebido, conforme planeado, um contingente de caças Mitsubishi A6M Zero devido ao mau tempo. A ausência de proteção aérea revelou-se significativa. Um contratorpedeiro japonês, o Kikuzuki, dispunha de pouquíssimas defesas antiaéreas e ficou tão danificado no ataque que o seu capitão foi obrigado a encalhar o navio. Vários outros navios de apoio mais pequenos foram afundados: três caça-minas e quatro barcaças de desembarque. Cinco hidroaviões japoneses também foram destruídos. Entretanto, em alto mar, o mau tempo dificultou as tentativas de ambas as partes para se localizarem mutuamente ao longo do dia 5 de maio.
A 6 de maio, os três grupos aliados separados juntaram-se, ficando Fletcher com o comando geral. O Almirante Nimitz tinha dado a Fletcher ordens claras para o confronto que se avizinhava:
A vossa missão é ajudar a travar o avanço posterior do inimigo nas áreas acima mencionadas [Nova Guiné-Salomões], aproveitando oportunidades favoráveis para destruir navios e aviões.
(Stille, pág. 42)
A frota de navios norte-americanos dirigiu-se para a força japonesa destinada a Port Moresby e para os porta-aviões comandados por Takagi Takeo. A 7 de maio, Crace separou-se com o seu grupo para atacar os transportes de invasão, enquanto Fletcher rumou a norte para enfrentar os porta-aviões japoneses. Esta seria a primeira vez na história naval que porta-aviões se enfrentavam numa batalha direta. Seria também a primeira batalha em que os intervenientes operavam sem se verem efetivamente uns aos outros, uma vez que o combate decorria entre aeronaves e navios, e não navio contra navio.
Um avistamento teria sido útil, uma vez que informações incorretas levaram Fletcher a confundir a escolta de invasão com o grupo de porta-aviões. Consequentemente, a 7 de maio, as aeronaves do Yorktown foram enviadas apenas contra um alvo secundário. Com a sua escolta sob ataque, os transportes de invasão japoneses mantiveram a posição e depois recuaram. O grupo do Lexington conseguiu localizar o porta-aviões inimigo Shōhō e avisou Fletcher, que redirecionou as suas aeronaves para se juntarem à batalha. O Shōhō, atingido por pelo menos 13 bombas (incluindo dois impactos diretos com bombas de 453 kg/1 000 libras) e sete torpedos, afundou-se em minutos. Apenas 203 dos 834 tripulantes sobreviveram. Este ataque custou a perda de apenas três aeronaves norte-americanas. Foi a primeira vez na guerra que o Japão perdeu um porta-aviões.
Enquanto isso, os dois porta-aviões japoneses desaparecidos, o Shōkaku e o Zuikaku, atacaram o grupo de Fletcher a partir do sul mas, acreditando erradamente que tinham encontrado o porta-aviões norte-americano, afundaram apenas um contratorpedeiro, o Sims, e um petroleiro, ambos enviados para a retaguarda do grupo por Fletcher. Um ataque noturno ao Yorktown terminou em fracasso, e apenas seis das 27 aeronaves japonesas envolvidas na missão regressaram ao seu navio.
O Ataque dos Porta-aviões
A 8 de maio, os principais grupos de batalha de ambos os lados enviaram um elevado número de aeronaves de reconhecimento e acabaram por localizar-se mutuamente. Todas as aeronaves, bombardeiros e caças, foram então lançadas para o ataque. Os Aliados conseguiram colocar 122 aeronaves no ar e os japoneses 121. Os caças-bombardeiros norte-americanos do Yorktown e do Lexington conseguiram atacar e danificar gravemente o Shōkaku, graças a três impactos diretos com bombas de 453 kg (1 000 libras). O porta-aviões japonês tinha evitado com sucesso pelo menos 11 torpedos através de manobras de ziguezague, mas estava agora incapaz de lançar aeronaves a partir da ponte de voo danificada. O Shōkaku foi obrigado a retirar-se da batalha, escoltado por dois contratorpedeiros.
Com o agravamento do estado do tempo e o aumento da nebulosidade, as aeronaves norte-americanas não conseguiram encontrar o Zuikaku, que estava oculto por uma tempestade de chuva local. Os aviões japoneses localizaram e atacaram os porta-aviões norte-americanos, atingindo o Lexington com duas bombas perfurantes. Nenhuma das bombas comprometeu a operação do navio, mas causaram baixas entre a tripulação. Os primeiros sete torpedos japoneses apontados ao navio falharam o alvo, mas os dois seguintes atingiram o bombordo. Com múltiplos incêndios internos fora de controlo e explosões esporádicas provocadas por vapores de combustível de aviação que fugiam do depósito fendido a bombordo, o Lexington, visivelmente afundado pela proa, encontrava-se em situação desesperada. Foi tomada a decisão de abandonar o navio e de afundar o porta-aviões, ordenando a um contratorpedeiro que disparasse cinco torpedos contra o casco. 216 membros da tripulação perderam a vida na batalha.
O Yorktown também foi atacado, mas os bombardeiros japoneses foram muito menos precisos neste caso. Uma bomba de 250 kg (550 libras) abriu caminho diretamente através de quatro conveses antes de detonar num paiol. Outra bomba atingiu a meia-nau. Os danos combinados exigiram a redução da velocidade do navio. O Yorktown viu-se obrigado a retirar-se e a procurar as reparações de que tanto necessitava em Pearl Harbor.
Acreditando erradamente que tinham causado danos irreparáveis a ambos os porta-aviões norte-americanos, os caças japoneses regressaram aos seus navios, que depois se retiraram para norte. Apesar de ter infligido um golpe mais pesado às forças navais inimigas, Inoue tomou a decisão de abandonar a invasão planeada de Papua. O almirante foi criticado no seu país e pelos seus superiores por não ter tirado partido da sua posição vantajosa na batalha. No entanto, a Batalha do Mar do Coral tinha sido extremamente dispendiosa em termos de perdas de aeronaves, e Inoue não podia agora apoiar o desembarque anfíbio proposto ou atacar novamente o único porta-aviões norte-americano restante. Fletcher também decidiu retirar a sua força, tendo feito com que os caças do Lexington, agora sem base, aterrassem no Yorktown. A continuação da ação teria colocado em perigo a capacidade de proteger a frota aliada a partir do ar.
O Balanço
Os japoneses perderam 77 aeronaves e sofreram 1 074 baixas na batalha. Os EUA perderam 66 aeronaves. As forças aliadas sofreram 543 baixas no combate. A Batalha do Mar do Coral foi uma vitória tática japonesa — tinham destruído um porta-aviões mais pesado do que o que haviam perdido —, mas foi uma vitória estratégica aliada, uma vez que a invasão de Port Moresby foi repelida, permitindo que esta zona crucial do Pacífico continuasse a apoiar o esforço de guerra aliado. Os japoneses tinham sofrido o seu primeiro fracasso operacional da guerra no Pacífico. De forma igualmente significativa, os danos sofridos pelo Shōkaku e as pesadas perdas de aeronaves sustentadas pelo Zuikaku na Batalha do Mar do Coral significaram que nenhum dos navios pôde desempenhar um papel na Batalha de Midway, em junho de 1942 — um confronto renhido, mas vencido pela Marinha dos EUA. Midway é considerada o ponto de viragem da Guerra do Pacífico e o início do recuo japonês até às suas próprias ilhas metropolitanas.
