A Batalha de Guam, nas Ilhas Marianas, ocorreu em julho e agosto de 1944, durante a Guerra do Pacífico da Segunda Guerra Mundial (1939-45). Território dos EUA antes do conflito, Guam foi ocupada pelas forças armadas japonesas em 1941. Um bombardeamento naval massivo e um assalto anfíbio dos EUA acabaram por libertar a ilha dos ocupantes japoneses, mas ao custo de cerca de 1 700 vidas americanas. Guam tornou-se uma importante base naval e aérea durante o resto da guerra, ajudando significativamente as forças americanas a avançarem mais profundamente no império japonês no Pacífico e a atacarem o próprio Japão.
A Guerra do Pacífico até ao Momento
Com o objetivo de fazer recuar o Império Japonês no Pacífico e vingar-se do ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro de 1941, as forças navais dos EUA (United States Naval Forces) alcançaram uma espécie de empate na Batalha do Mar de Coral, em maio de 1942, e, no mês seguinte, uma vitória decisiva na Batalha de Midway. Outras vitórias surgiram na Campanha de Guadalcanal, nas Ilhas Salomão (agosto de 1942 a fevereiro de 1943), e na Campanha das Ilhas Gilbert e Marshall (novembro de 1943 a fevereiro de 1944). A principal base naval e aérea japonesa no Pacífico situava-se no Atol de Truk (nome atual: Lagoa de Chuuk, parte do arquipélago das Carolinas), tendo sido destruída em fevereiro de 1944.
À medida que as forças norte-americanas avançavam «de ilha em ilha» pelo Pacífico, utilizando sempre um grupo de ilhas capturadas para construir uma nova base a partir da qual pudessem prosseguir o avanço, o Japão passou à defensiva. As forças norte-americanas passaram então a visar as Ilhas Marianas na Batalha de Saipan, em junho-julho de 1944. Na contemporânea Batalha do Mar das Filipinas (19-20 de junho), a frota da Marinha dos EUA, muito maior, e os aviões que a acompanhavam não foram separados em ataques de diversão, tendo assim vencido uma batalha unilateral. Os japoneses perderam três porta-aviões, 17 submarinos e, naquilo a que os militares norte-americanos chamaram «A Grande Caçada às Marianas», mais de 400 aeronaves. A batalha destruiu efetivamente a capacidade da Marinha Imperial Japonesa (大日本帝国海軍; transliterado: Dai-Nippon Teikoku Kaigun) de conduzir uma guerra ofensiva.
Guam
As Ilhas Marianas (exceto Guam) tinham estado sob controlo do Japão desde que este as conquistou após a Primeira Guerra Mundial, mas se as forças norte-americanas conseguissem controlá-las, os seus aeródromos poderiam ser utilizados por bombardeiros de longo alcance para atacar Tóquio e outras cidades japonesas. Assim que Saipan foi assegurada, foi lançado um assalto anfíbio contra Guam, a ilha mais a sul do arquipélago, e também contra Tinian, outra ilha do grupo. Estes assaltos contaram com um apoio naval maciço de grupos de porta-aviões, cujos aviões e navios de guerra podiam bombardear as posições defensivas das ilhas.
Guam, a maior ilha do arquipélago, tem 55 km (34 milhas) de comprimento e apresentou às forças norte-americanas um dos terrenos mais difíceis para combater até então na guerra. Guam possuía o melhor porto das Marianas e, ao contrário de outras ilhas do arquipélago, dispunha do seu próprio abastecimento de água. A ilha estava sob controlo dos EUA desde 1898, mas tinha sido bombardeada e posteriormente ocupada pelas forças militares japonesas no início da Guerra do Pacífico, em 1941. A guarnição norte-americana de 300 homens tinha sido rapidamente dominada por 5 000 japoneses. Ao contrário do que tinha acontecido em muitos outros assaltos a ilhas do Pacífico até então na Guerra do Pacífico, esta batalha consistiria em reconquistar território norte-americano perdido. Ao assalto a Guam foi atribuído o nome de código Operação Stevedore.
Bombardeamento e Assalto Anfíbio
O facto de a tomada de Saipan ter exigido três semanas de combates intensos, em vez dos três dias previstos, significou que os desembarques em Guam foram adiados. Os japoneses aproveitaram bem este respiro e construíram as melhores defesas costeiras com que os fuzileiros navais dos EUA se tinham deparado até então. Por outro lado, o atraso também ajudou a Marinha dos EUA a preparar-se melhor para um bombardeamento pré-invasão verdadeiramente devastador da ilha; na verdade, o mais longo e intenso da Guerra do Pacífico. Com a duração de duas semanas, o bombardeamento foi levado a cabo pelos canhões de grande calibre de navios de guerra, cruzadores pesados e contratorpedeiros, que, no total, dispararam mais de 27 000 projéteis contra Guam.
O assalto anfíbio envolveu 55 000 fuzileiros navais dos EUA da 3.ª Divisão de Fuzileiros Navais (3rd Marine Division) e da 1.ª Brigada de Fuzileiros Navais (1st Marine Brigade). A 77.ª Divisão de Infantaria (77th Infantry Division) deveria ser mantida como reserva na operação, com um regimento a desembarcar assim que as praias fossem asseguradas. Vários chamorros, o povo indígena de Guam, também estiveram diretamente envolvidos na operação militar.
O ataque foi planeado e liderado pelo Major-General Roy Geiger (1885-1947). As tropas foram transportadas em LVT (Landing Vehicles, Tracked - veículos anfíbios de lagartas) para as praias a 21 de julho, mas só depois de mergulhadores da Marinha terem conseguido abrir caminho através dos obstáculos colocados pelos japoneses. As duas praias-alvo situavam-se no lado ocidental da ilha, uma a sul e outra no centro.
As defesas japonesas em terra tinham sido gravemente comprometidas pelo bombardeamento naval e aéreo, tal como a sua capacidade de coordenar um contra-ataque em massa eficaz contra os fuzileiros navais. Os combates foram, por isso, esporádicos, embora um bloco de betão que sobreviveu, equipado com um canhão de 74 mm (2,9 pol.) e um canhão de 37 mm (1,4 pol.) no Ponto de Ga’an, tenha causado estragos na praia de desembarque sul até ser capturado. O conhecimento ténico dos EUA em matéria de assaltos anfíbios ia melhorando cada vez mais com a experiência. Os chefes de praia (beach masters) eram utilizados para organizar as tropas na praia, manter o pessoal a avançar para o interior, orientar as equipas médicas e evacuar os feridos para os navios que aguardavam. Eram agora utilizadas grandes jangadas para ajudar os veículos de desembarque a colocar suprimentos essenciais em terra, tais como munições, água potável, baterias de rádio, plasma sanguíneo e sacos de areia.
Defesa até ao Último Homem
Muitos soldados japoneses tinham sobrevivido ao bombardeamento inicial, escondendo-se em cavernas. O comandante japonês, tal como tinha acontecido em Saipan, cumpriu as suas ordens de prolongar a defesa da ilha o máximo possível e de infligir o maior número possível de baixas (na esperança de que isso dissuadisse futuros assaltos a outras ilhas controladas pelos japoneses). Para alcançar estes objetivos, os japoneses recuaram para sucessivas linhas defensivas à medida que as forças norte-americanas avançavam cada vez mais para norte pelo interior da ilha; o objetivo final era limpar a ilha e capturar a sua pista de aterragem vital, o Aeródromo de Orote, na ponta norte. O avanço foi lento, dada a miríade de posições defensivas de bunkers e trincheiras, e o terreno difícil de mangais e selva densa.
Tal como noutras batalhas, os soldados japoneses consideravam a rendição altamente desonrosa e, por isso, lutaram até à morte. Foram necessárias três semanas, até 10 de agosto, para libertar completamente a ilha dos últimos atiradores furtivos remanescentes, utilizando tanques, lança-chamas, granadas, morteiros e explosivos. Os fuzileiros navais avançavam de forma constante, de caverna em caverna, de vale em vale. Além disso, 60 cães especialmente treinados, na sua maioria pastores alemães e dobermans, ganharam a alcunha de «Devil Dogs» (Cães do Diabo) ao farejarem defensores escondidos, atiradores furtivos e minas terrestres. Os animais também atuavam como guardas dos acampamentos durante a noite. Os cães salvaram certamente centenas de vidas americanas, mas 25 deles não sobreviveram à batalha.
Apesar do ataque avassalador dos EUA, um soldado japonês, Shōichi Yokoi, escapou à deteção nas montanhas acidentadas do interior e, por incrível que pareça, permaneceu sem contacto com o mundo exterior até janeiro de 1972. Ainda disposto a continuar a lutar, Yokoi foi informado de que o seu país se tinha rendido 27 anos antes.
O número de mortos japoneses foi de 10 646, dez vezes superior às perdas sofridas pelos atacantes (Dear, pág. 407). Alguns historiadores estimam que o número de mortos japoneses seja muito superior, com valores que variam entre 16 000 e 26 000. Para além dos militares norte-americanos mortos, cerca de 6 000 ficaram feridos na batalha.
As Consequências
Os EUA já tinham iniciado a campanha de bombardeamentos estratégicos contra o próprio Japão, utilizando bases na China e em Saipan. A estas bases, podia agora acrescentar-se Guam. Tinian, também nas Ilhas Marianas, foi atacada a partir de 24 de julho de 1944. A ilha foi capturada a 1 de agosto, após aeronaves norte-americanas terem lançado bombas de napalm, a primeira vez que este produto químico altamente inflamável foi utilizado na guerra. O controlo das Marianas significava que os bombardeiros de longo alcance Boeing B-29 Superfortress podiam atacar qualquer cidade japonesa. Guam tornou-se também um importante depósito de combustível, apoiando futuras operações no Pacífico ao abastecer e enviar navios-tanque, por vezes até três por dia.
Após a perda das Marianas, o primeiro-ministro japonês, o general Hideki Tojo (1884-1948), já sem o apoio do imperador japonês, foi destituído do poder em Tóquio. Tojo foi substituído por Kuniaki Koiso (1880-1950), mas a guerra continuou. Entretanto, o almirante Chester W. Nimitz (1885-1966), comandante-chefe da Frota do Pacífico dos EUA, estabeleceu o seu quartel-general em Guam e, a partir daí, iria dirigir o resto da campanha no Pacífico.
Foram lançados com sucesso mais desembarques anfíbios à medida que as forças norte-americanas se aproximavam cada vez mais do território japonês. Houve vitórias notáveis, embora árduas, na Batalha de Iwo Jima e na Batalha de Okinawa, na primavera de 1945. As forças japonesas lutaram com enorme tenacidade e, mesmo na derrota, continuaram a infligir pesadas baixas às forças norte-americanas. Por fim, a terrível destruição de Hiroshima e Nagasaki com o uso de bombas nucleares levou à rendição do Japão em agosto de 1945.
Guam continua a albergar uma base militar norte-americana até hoje, e o dia 21 de julho, data em que as tropas norte-americanas desembarcaram pela primeira vez nas praias em 1944, é celebrado como o Dia da Libertação de Guam.
