A Batalha de Saipan decorreu entre junho e julho de 1944. As forças norte-americanas travaram uma luta titânica de três semanas contra as forças defensivas japonesas para, finalmente, conquistarem a ilha, que faz parte das Ilhas Marianas, durante a Guerra do Pacífico da Segunda Guerra Mundial (1939-45). A batalha de Saipan causou um total de mais de 45 000 baixas. O controlo da ilha e de outras do arquipélago permitiu aos EUA operar aeródromos com bombardeiros B-29, que estavam agora suficientemente próximos para bombardear qualquer cidade do Japão.
A Guerra do Pacífico até ao Momento
Com o objetivo de fazer recuar o Império Japonês no Pacífico e vingar-se do ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro de 1941, as forças navais dos EUA (United States Naval Forces) alcançaram uma espécie de empate na Batalha do Mar de Coral, em maio de 1942. Uma vitória clara foi então alcançada na Batalha de Midway, no mês seguinte, tendo a frota dos EUA afundado quatro porta-aviões japoneses, com a perda de apenas um dos seus. A Marinha Imperial Japonesa (大日本帝国海軍; transliterado: Dai-Nippon Teikoku Kaigun) viu-se agora, pela primeira vez, obrigada a assumir uma postura defensiva. Os EUA alcançaram outra importante vitória na Campanha de Guadalcanal, nas Ilhas Salomão, travada entre agosto de 1942 e fevereiro de 1943.
O poderio industrial dos EUA permitiu a chegada de novas armas, aeronaves, porta-aviões e veículos anfíbios a este teatro de guerra. A derrota do Japão na Campanha das Ilhas Gilbert e Marshall (novembro de 1943 a fevereiro de 1944) permitiu aos EUA garantir as suas linhas de abastecimento vitais de regresso à Austrália e avançar, «saltando de ilha em ilha», para o interior da região do Pacífico Central. Cada novo grupo de ilhas conquistado aos japoneses permitiu às forças norte-americanas construir uma nova base a partir da qual se pudesse lançar um novo ataque mais a norte.
A principal base naval e aérea japonesa no Pacífico situava-se no Atol de Truk (nome atual: Lagoa de Chuuk, parte do arquipélago das Carolinas). As forças norte-americanas lançaram um poderoso ataque contra Truk a 17 de fevereiro de 1944, no âmbito da Campanha das Ilhas Gilbert e Marshall. A Operação Hailstone, como ficou conhecida, destruiu a base, mas os principais navios da Frota Combinada do Japão já tinham abandonado a lagoa. O governo militar japonês estava ciente de que Truk já não era um refúgio defensável para os seus porta-aviões e navios de guerra e tinha-os retirado para águas mais seguras, mais a norte.
Em meados de 1944, o resto das Ilhas Carolinas tinha sido conquistado ou simplesmente contornado durante a guerra. O próximo objetivo dos EUA eram as Ilhas Marianas, especificamente Saipan e Guam. Embora Guam fosse a ilha mais a sul do arquipélago, contudo, foi Saipan que seria atacada em primeiro lugar.
A Fortaleza de Saipan
As Ilhas Marianas estavam sob controlo do Japão desde que este as adquiriu após a Primeira Guerra Mundial (1914-18) como território sob mandato da Sociedade das Nações; anteriormente, faziam parte do Império Alemão. As ilhas eram vitais para a rede de comunicações do Japão no Pacífico e tinham sido constantemente reforçadas nos últimos meses, embora os submarinos norte-americanos tivessem causado estragos nesta operação e afundado muitos navios com destino ao arquipélago. No entanto, no verão de 1944, as Marianas estavam repletas de cerca de 60 000 soldados japoneses.
Em termos de terreno, as ilhas eram bastante diferentes das conquistadas em operações anfíbias anteriores dos EUA. Ao contrário dos atóis de coral de baixa altitude das Ilhas Gilbert e Marshall, as Ilhas Marianas eram ilhas vulcânicas acidentadas, com interiores montanhosos e densamente cobertos de vegetação. Eliminar defensores bem posicionados seria uma tarefa muito mais difícil aqui.
Saipan foi o primeiro alvo dos EUA, mas não era uma ilha fácil de invadir, uma vez que era a mais fortemente defendida do arquipélago das Marianas. Tem 22 km (14 milhas) de comprimento e 10,4 km (6,5 milhas) de largura, com terrenos elevados a partir dos quais os defensores japoneses podiam bombardear as praias. Possuía também a sua própria pista de aterragem na extremidade sul da ilha, o aeródromo de Aslito, e um aeródromo secundário na extremidade norte. A aproximação às praias estava protegida por um recife contínuo, pelo que os especialistas em demolição subaquática dos EUA tiveram primeiro de abrir canais através do coral para permitir a passagem dos veículos de desembarque anfíbios.
Uma tarefa difícil aguardava-os, mas as tropas dos EUA sentiram-se decerto encorajadas com a notícia de que o Dia D tinha começado na Europa, ou seja, os Desembarques na Normandia a 6 de junho. As duas potências do Eixo restantes, a Alemanha e o Japão, estavam em retirada. Os comandantes norte-americanos estavam otimistas quanto à conquista de Saipan em três dias. Na realidade, a batalha prolongou-se por três semanas.
O ataque teve início a 11 de junho de 1944 com um bombardeamento naval e aéreo, mas isto foi insuficiente para abalar seriamente as capacidades defensivas da força japonesa de 32 000 homens que defendia Saipan. 8 000 homens provenientes de duas divisões dos Fuzileiros Navais dos EUA foram transportados em 600 LVT (Landing Vehicles Tracked - veículos anfíbios de lagartas) para desembarcar nas praias ocidentais de Saipan a 15 de junho. Eram liderados pelo Tenente-General Holland 'Howlin’ Mad' Smith (1882-1967), que ganhou a sua alcunha pelas proezas heróicas na Primeira Guerra Mundial, quando recebeu a medalha da Croix de Guerre. Mais útil para esta campanha foi o facto de Smith ter sido um dos pioneiros da guerra anfíbia e o arquiteto do que significava ser um fuzileiro naval dos EUA no final da década de 1930. Smith era certamente uma figura marcante na praia, com a sua estatura atarracada, os óculos e o charuto sempre presente.
Nos dois dias seguintes, chegaram mais fuzileiros navais — o total de efetivos que desembarcaram em Saipan atingiu cerca de 20 000 —, mas as baixas foram elevadas, com cerca de 4 000 mortos e feridos. O comandante japonês no terreno, o Tenente-General Saito Yoshitsugu (1890-1944), tinha, de facto, conseguido reorganizar bem as suas forças, tendo em conta que o desembarque não tinha ocorrido na praia que ele tinha previsto. Esperava também que, ao manter as forças norte-americanas confinadas à praia, um bombardeamento naval japonês pudesse acabar rapidamente com elas. Tal não veio a acontecer, uma vez que a frota japonesa se encontrava ocupada noutro frente, mais a oeste, no Mar das Filipinas. A chegada de uma unidade de tanques norte-americanos ajudou a assegurar a cabeça de praia e a repelir os contra-ataques japoneses.
O Avanço para o Interior
Outra divisão norte-americana desembarcou em Saipan, desta vez a 27.ª Divisão de Infantaria (27th Infantry Division) do Exército. As forças norte-americanas capturaram a pista de aterragem do sul de Saipan a 18 de junho e, em seguida, avançaram gradualmente para norte. Entretanto, os japoneses recuaram para uma série sucessiva de linhas defensivas, de onde podiam lançar contra-ataques utilizando os seus próprios tanques. 'Howlin’ Mad' Smith fez jus ao seu apelido mais uma vez quando demitiu o seu homónimo, o Major-General Ralph C. Smith, que comandava a 27.ª Divisão de Infantaria, por ser demasiado lento no avanço e, assim, expor as duas divisões dos Fuzileiros Navais a um contra-ataque de flanco. O Exército dos EUA ficou indignado com o facto de um general dos Fuzileiros Navais dos EUA ditar quem comandava uma divisão do Exército, mas tudo isto fazia parte de uma curva de aprendizagem íngreme para as forças armadas dos EUA. Os melhores comandantes estavam rapidamente a perceber que a vitória contra um inimigo tenaz só viria de um esforço totalmente coordenado, utilizando os serviços combinados da Marinha, da Força Aérea Naval, dos Fuzileiros Navais, da infantaria do Exército, da Força Aérea do Exército e dos serviços de informações militares.
Os defensores japoneses, confrontados com o desembarque de cada vez mais fuzileiros navais, acabaram por ser obrigados a recuar para o centro da ilha. Aqui, o terreno em redor do Monte Tapotchau (com cerca de 457 metros ou 1 500 pés de altura) e a crença arraigada dos japoneses de que a rendição era desonrosa combinaram-se para tornar a tomada de controlo de toda a ilha uma tarefa sangrenta para os fuzileiros navais. Uma área arborizada ficou conhecida como "Purple Heart Ridge" (em referência à medalha norte-americana concedida a militares feridos ou mortos em combate) devido ao elevado número de baixas sofridas naquele local. De facto, a primeira tentativa de tomar esta crista falhou, e foi nomeado um novo comandante para tentar pela segunda vez. As tropas terrestres beneficiaram do fogo da Marinha dos EUA, que atingiu as concentrações de defensores espalhadas pelos vales profundos do interior. No entanto, todas as cavernas e possíveis esconderijos tiveram de ser limpos utilizando uma combinação de lança-chamas, granadas, torpedos Bangalore e explosivos TNT.
A Derrota Desesperada
Quando os japoneses perceberam que já não podiam defender as suas posições, foi lançada uma carga banzai — a maior da Guerra do Pacífico — na noite de 6 de julho. Assim chamada porque os soldados gritavam Tenno heika banzai (Viva o Imperador), esta carga foi uma missão suicida destinada a causar o maior número possível de baixas entre o inimigo antes de morrerem no que era considerado uma morte honrosa. Mesmo após esta ação, vários bolsões isolados de soldados japoneses continuaram a lutar. A batalha só terminou oficialmente a 9 de julho, quando os poucos soldados japoneses que restavam e um punhado de civis solidários optaram por saltar do penhasco em Marpi Point em vez de se renderem. Saito Yoshitsugu também se suicidou.
No total, as forças norte-americanas sofreram cerca de 16 500 baixas, enquanto o número japonês se situou em cerca de 29 000 (Smurthwaite). Os EUA tinham conquistado mais um avanço na corrida para Tóquio na Guerra do Pacífico. O almirante de frota Osami Nagano, conselheiro naval do imperador, exclamou ao ouvir a notícia da queda de Saipan: «O inferno está sobre nós!» (Leckie, pág. 210)
Outra derrota esmagadora para os japoneses ocorreu na contemporânea Batalha do Mar das Filipinas (19-20 de junho), onde, na maior batalha de porta-aviões da guerra, foram perdidas cerca de 400 aeronaves japonesas, 17 submarinos e três porta-aviões. A Marinha Imperial Japonesa esperava derrotar a força-tarefa norte-americana que tinha sido designada para proteger os desembarques dos fuzileiros navais dos EUA em Saipan (e, posteriormente, em Guam), mas, não pela primeira vez, um plano excessivamente complexo correu mal logo no início. A frota norte-americana, muito maior, e as aeronaves que a acompanhavam não se deixaram dividir por ataques de diversão. A batalha aérea unilateral contra os aviões japoneses tecnologicamente inferiores e os seus pilotos insuficientemente treinados foi apelidada pelos pilotos e artilheiros antiaéreos norte-americanos de The Great Marianas Turkey Shoot (A Grande Caçada às Perus das Marianas), tal era a facilidade da vitória. A Batalha do Mar das Filipinas destruiu efetivamente a capacidade da Marinha Imperial Japonesa de conduzir uma guerra ofensiva.
As Consequências
Ao mesmo tempo que a Batalha de Saipan, os EUA iniciaram a sua campanha de bombardeamentos estratégicos contra o próprio Japão, utilizando bases na China. A posse de Saipan significava agora que os bombardeiros de longo alcance dos EUA, na forma do Boeing B-29 Superfortress, podiam utilizar a ilha como base e atacar qualquer cidade japonesa. Isto era preferível às bases na China, porque as Marianas eram muito mais fáceis de reabastecer.
Após a perda de Saipan, o primeiro-ministro japonês, o general Hideki Tojo (1884-1948), já sem o apoio do imperador japonês, foi destituído do poder em Tóquio a 18 de julho. Tojo foi substituído por Kuniaki Koiso (1880-1950), mas a guerra continuou.
O próximo grande confronto na Guerra do Pacífico seria as batalhas de Guam e Tinian, também nas Ilhas Marianas, em julho de 1944. A vitória nestas batalhas seria seguida pelas conquistas alcançadas na Batalha de Iwo Jima e na Batalha de Okinawa, na primavera de 1945. As forças japonesas lutaram com enorme tenacidade e, mesmo na derrota, infligiram pesadas baixas às forças norte-americanas. Por fim, a terrível destruição de Hiroshima e Nagasaki com o uso de bombas nucleares levou à rendição do Japão em agosto de 1945.
