O nascimento de Jesus de Nazaré é narrado nos Evangelhos de São Mateus e São Lucas. Na teologia cristã, a existência de duas histórias do nascimento, escritas por dois autores diferentes, serviu como prova da historicidade do evento. No entanto, as duas versões diferem em detalhes. Mateus menciona a estrela e os magos, enquanto Lucas menciona o estábulo e os anjos no campo. A história do nascimento de Jesus Cristo é celebrada pelos cristãos no feriado do Natal.
As diferentes narrativas reflectem dois retratos e funções distintos de Jesus. As histórias da natividade no início continuam a influenciar a actividade de Jesus e o seu propósito no ministério de cada um. No Antigo Evangelho não há a história da natividade, Marcos (cerca do ano de 70) começou in medias res, com Jesus já adulto a iniciar o seu ministério en Nazaré:
Chegado o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Os numerosos ouvintes enchiam-se de assombro e diziam: «De onde é que isto Lhe vem e que sabedoria é esta que Lhe foi dada? Como se operam tão grandes milagres por Suas mãos? Não é Ele o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e Simão? E as Suas irmãs não estão aqui entre nós?». E ficaram preplexos a Seu respeito.
(Marcos 6:2-3, Villapadierna, Carlos (✝) et al. Bíblia Sagrada. 3.ª Ed. Lx: Dif. Bíblica (MC), 1968, pág. 1712)
O cristianismo primitivo entendia que os irmãos nasceram depois do nascimento de Jesus.
Os profetas de Israel tinham predito que Deus suscitaria um messias ("ungido") da família do rei David, que então inauguraria o reino de Deus na terra. Jesus tinha anunciado a iminência do reino de Deus no seu ministério, mas as décadas passaram-se e o reino não se manifestou. A razão mais provável para as histórias da natividade era convencer os outros de que, apesar do atraso do reino, Jesus era, no entanto, o messias prometido pelos profetas. Tanto Mateus como Lucas incluíram referências consistentes aos profetas.
Nazaré ou Belém?
Um problema inicial nas fontes antigas era a ausência de detalhes específicos nos livros dos profetas sobre o anunciado messias. Devido à abundância de nomes comuns, os indivíduos eram frequentemente descritos com o nome da sua cidade ou vila. Marcos foi o primeiro a escrever: "Jesus veio de Nazaré da Galileia" (Marcos 1:9). Ele não era conhecido como "Jesus de Belém".
Embora tenha sido encontrado um antigo assentamento, Nazaré só se tornou grande ou importante no período helenístico tardio e após, e por isso não foi mencionada pelos profetas. Mas um profeta, Miqueias, escreveu:
Mas tu, Belém de Efrata,
Tão pequena para seres contada entre as famílias de Judá,
É de ti que Me há-de sair
Aquele que governará em Isreal.
As suas origens remontam aos tempos antigos,
Aos dias do longínquo passado.
Por isso (Deus) abandonará (o seu Povo) até ao tempo
Em que der à luz aquela que há-de dar à luz,
E em que o resto dos seus irmãos voltará
Para junto dos filhos de Israel
(Miqueias 5:1-2 - Idem, pág. 1596)
Por causa da sua unção pelo profeta Samuel (1 Samuel 16) e da sua atividade posterior, Belém era conhecida como "a cidade de David" (Lucas 2:11). É por isso que tanto Mateus quanto Lucas situam o nascimento de Jesus em Belém.
Mateus começou com a genealogia de Jesus (espelhando Génesis), começando com o ancestral fundador Abraão. Lucas inverteu a ordem, começando com Jesus e remontando até Adão. O objectivo das genealogias era demonstrar que Jesus tinha a tradição ancestral necessária (como membro pleno da etnia israelita), bem como a descendência directo do rei David. Ambos incluem José na genealogia.
Ao mesmo tempo, uma convicção comum no mundo antigo era a assunção de que o nascimento de grandes vultos seria acompanhado por presságios e sonhos, bem como por alguma forma de intervenção ou participação divina. Uma maneira comum de descrever isto era um deus tendo relações sexuais literais com uma mulher humana ou uma analogia de ser possuído por um deus. Existiam narrativas contemporâneas que relatavam, por exemplo, que a mãe de Augusto teria recebido a visita do deus Apolo, que a engravidara.
O Novo Moisés do Evangelho de São Mateus
Quando Moisés proferiu o discurso de despedida ao povo, disse que, no futuro, "O Senhor, teu Deus, suscitará em teu favor um profeta saído das tuas fileiras, um dos teus irmãos, como eu: e a ele que escutarás." (Deuteronómio 18:15, Idib., pág. 311). Mateus apresentou Jesus como esse "novo Moisés", fazendo alusões consistentes às tradições de Moisés na história do Êxodo. As informações proferidas pelo anjo a José são todas dadas em sonhos, lembrando o José do Êxodo, que era um intérprete de sonhos. Estruturalmente, o evangelho tem uma série de cinco painéis de ensino; torá significava "ensino" (o ensino de Moisés), refletindo a tradição de que os cinco primeiros livros das Escrituras foram escritos por Moisés. Muitos dos ensinamentos de Jesus acontecem no topo de uma montanha, onde o assunto é a Lei de Moisés (alusão simbólica ao Monte Sinai).
A história do nascimento em Mateus ocorre fora do palco, com poucos detalhes:
Nascimento de Jesus — Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Estando Maria, Sua Mãe, desposada com José, antes de coabitarem, achou-se que tinha concebido por virtude do Espírito Santo. José, seu marido, que era um homem justo e não queria difamá-la, resolveu deixá-la secretamente. Andando ele a pensar nisto, eis que um anjo do Senhor lhe aparaceu em sonhos, e lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo. (...)»
(Mateus 1:18-20, Ibid., pág. 1642-3)
Os leitores às vezes ficam confusos com a referência ao divórcio, pois eles ainda não eram casados. Tanto o noivado quanto o casamento eram feitos por meio de um contrato legal. Para desfazer um contrato original, era necessário outro contrato, o de divórcio.
O "Espírito Santo" neste nível não era a terceira entidade do que se tornou a Trindade após o Primeiro Concílio de Nicéia no ano de 325. Era uma referência ao "espírito de Deus", que animou Adão quando "insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida, e o homem transformou-se num ser vivo." (Génesis 2:7).
Mateus continua a história da natividade:
Tudo isto sucedeu para que se cumprisse o que foi dito pelo Senhor e anunciado pelo profeta:
Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um filho; e chamá-Lo-ão Emmanuel, que que dizer: «Deus connosco». Despertando José do sono, fez como lhe ordenou o anjo do Senhor e recebeu sua mulher. E, sem que a tivesse conhecido, ela deu à luz um filho, ao qual ele pôs o nome de Jesus.
(Mateus 1:22-25, Idib., pág. 1643)
Esta passagem é famosa pelas questões de tradução entre o hebraico e o grego, que estabeleceram a virgindade de Maria, mãe de Jesus. Por volta do ano 200 a.C., as Escrituras Hebraicas foram traduzidas para o grego em Alexandria, no Egipto. Conhecida como Septuaginta, esta é a versão das Escrituras que os evangelistas usaram. No entanto, ela contém várias traduções imprecisas.
Mateus recorreu a Isaías 7. Isaías foi o profeta durante a conquista assíria em 722 a.C., enquanto Acaz era um rei malvado de Judá (reinou 732-716 a.C.). Deus disse-lhe para pedir um sinal, mas ele recusou: «Por isso, o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a 'jovem' concebeu e dá à luz um filho, e o chama Emanuel» (Isaías 7:14). A palavra hebraica almah, aqui traduzida como «jovem», referia-se a uma rapariga que tinha passado a puberdade e estava pronta para procriar. Ao traduzir esta palavra para grego, almah tornou-se parthenos, «virgem».
"Virgem" não se referia necessariamente a um hímen intacto, mas era um termo geral para uma mulher solteira. "Virgem" era uma metáfora comum para inocência e pureza, o estado dos jovens antes da puberdade e da idade adulta. Temos várias "deusas virgens", como Atena, que optam por governar sozinhas, sem um consorte.
Os Magos
2 ADORAÇÃO DOS MAGOS - Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do Rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do Oriente. «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? —perguntavam. Vimos a Sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo». (Mateus 2:1-2, Ibid., pág. 1643).
Os conselheiros de Herodes responderam com a mesma citação de Miqueias. Herodes disse-lhes para que o informassem se encontrassem a criança. Os magos eram astrónomos da corte (não reis, apesar da canção de Natal) em todo o Oriente, mas magos era o nome persa (que significa "poderosos"). Como astrólogos experientes, eram vistos como conhecedores de aspectos da natureza que podiam ser manipulados. Daí o termo posterior "magia", derivado da palavra, usando esse conhecimento para o bem ou para o mal.
Ao ver a estrela, sentiram grande alegria, 11e, entrando na casa viram o Menino com Maria, Sua mãe. Prostrando-se, adoraram-n'O, e, abrindo os cofres, ofereceram-Lhe presentes: Ouro, incenso e mirra. Avisados em sonho a não voltarem para junto de Herodes, regressaram à sua terra por outro caminho.
(Mateus 2:10-12, Ibid., pág. 1644)
O simbolismo da "estrela" vem de uma passagem do livro de Números: "pois de Jacob surgirá um cetro [estrela]" (24:17). Os presentes de ouro, incenso e mirra eram oferecidos apenas a reis, antecipando assim a realeza de Jesus no reino de Deus. Eles foram avisados em sonho para não o reportarem a Herodes. A função narrativa dos magos era demonstrar que os gentios foram os primeiros a reconhecer que "Deus está connosco" nesta criança (Emanuel, de Isaías 7) e, portanto, digna de adoração. Na época do evangelho de Mateus, provavelmente havia mais gentios no movimento do que judeus. A história dos magos confirmou a inclusão dos gentios na salvação por Deus.
O Massacre dos Inocentes
De acordo com Mateus, Herodes ordenou o assassinato em massa de todos os meninos com dois anos de idade ou menos na cidade de Belém. Isto alinhou deliberadamente a história com o Faraó no Egipto e a sua ordem de matar bebés do sexo masculino. Herodes fez isso? Como o rei mais odiado da história judaica, certamente alguém teria feito uma anotação sobre o massacre. Sabemos mais sobre Herodes, o Grande (reinou 37-4 a.C.), do que sobre qualquer outra figura antiga, graças a um escriba da corte que escreveu sobre o seu reinado em 20 volumes. Não encontramos nenhum vestígio contemporâneo de que Herodes, o Grande, soubesse algo sobre Jesus ou que ele tivesse ordenado um massacre. Mas, 85 anos após a morte de Herodes, Mateus pôde promover essa ideia porque Herodes era famoso por matar os seus próprios filhos, que participaram de rebeliões contra ele.
José foi avisado num sonho para agarrar na família e ir para o Egipto. Enquanto estava no Egipto, soube por outro sonho que Herodes tinha morrido. No entanto, José temia viver sob o domínio de "um filho de Herodes", que agora governava a Judeia. A família mudou-se para Nazaré, cumprindo o que Mateus alegou ter sido das Escrituras Judaicas: "Ele será chamado Nazareno" (Mateus 2:23). Não existe tal previsão dos profetas. Mateus simplesmente ignorou o fato de que Nazaré era governada por outro filho de Herodes, Antipas.
Os astrónomos modernos identificaram uma conjunção de planetas que poderia ter produzido uma "estrela brilhante" no ano 6 a.C. A data tradicional para o nascimento de Mateus está, portanto, no intervalo de 6 a.C. a 4 a.C., supondo que Jesus tinha dois anos na época do suposto édito herodiano, emitido pouco antes da morte de Herodes.
A Natividade no Evangelho de São Lucas
As Escrituras Judaicas continham muitas histórias de Deus ou de um anjo "anunciando" o nascimento de um filho a uma mulher (é sempre um filho) que se tornaria uma grande figura de Israel e um instrumento da vontade de Deus:
Anúncio do nascimento de Jesus — Ao sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de David, e o nome da virgem era Maria. Ao entrar em casa dela, o anjo disse-lhe: «Salvé, ó cheia de graça, o Senhor está contigo. Ao ouvir esta palavras, ela perturbou-se e inquiria de si própria o que significava tal saudação. Disse-lhe o anjo: «Não tenhas receio, Maria, pois achaste graça diante de Deus. Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo. O Senhor Deus dar-Lhe-á o trono de Seu pai David, reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o Seu reinado não terá fim». (...) Maria disse então: «Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra». E o anjo retirou-se de junto dela.
(Lucas 1:26-33; 38, Ibid., pág. 1739)
Enquanto Mateus afirmou que a família vivia originalmente em Belém, numa casa comum, e mais tarde em Nazaré, Lucas usou o artifício do recenseamento romano para levar José e Maria a Belém:
2 Nascimento de Jesus —Por aqueles dias, saiu um édito da parte de César Augusto, para ser recenseada toda a terra. Este recenseamento foi o primeiro que se fez, sendo Quirínio governador da Síria. E iam todos recensear-se, cada qual à sua própria cidade. Também José, deixando a cidade de Nazaré, na Galileia, subiu até à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e linhagem de David, a fim de recensear-se com Maria, sua mulher, que se encontrava grávida. E quando eles ali se encontravam, completaram-se os dias de ela dar à luz e teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoira, por não haver para eles lugar na hospedaria.
(Lucas 2:1-7, Ibid., pág. 1742)
O termo grego traduzido aqui como "hospedaria" poderia significar "alojamento" ou "sala superior" ("pousada" na versão King James). As estações de paragem por todo o Império Romano tinham dormitórios compartilhados, no segundo andar. Os animais eram confinados durante a noite no primeiro andar. Como aparentemente não havia mais espaço no andar superior, o consenso para esta passagem é que José e Maria dormiram com os animais. Daí a afirmação de que Jesus "nasceu num estábulo". A "manjedoura" era simplesmente um comedouro. Após o nascimento, a família simplesmente voltou para Nazaré.
O censo referido por Lucas tem sido objecto de muito debate. Não temos nenhuma evidência contemporânea de que Augusto (reinou 27 a.C. a 14 d.C.) tenha ordenado tal decreto "para que fosse efectuado um registo da população". E se todos no Império tivessem que abandonar as terras e trabalho e voltar para a cidade onde nasceram, a turbulência económica teria sido incrível.
Mas há uma certa credibilidade na menção de Lucas ao governador da Síria, Quirínio. Quando o Senado romano nomeava um novo magistrado nas províncias, era feito um censo local para determinar o estatuto da cidadania romana e prever com precisão a renda para os registos fiscais. Por fontes judaicas e romanas, sabemos que Quirínio foi nomeado no ano 6 d.C. Seu censo resultou numa revolta fiscal mal sucedida por parte de alguns judeus, liderada por Judá, o galileu. Um dos objetivos de Lucas nesta história pode ter sido destacar a família de Jesus, não apenas como judeus piedosos, mas como bons cidadãos de Roma.
Considerando Mateus e Lucas juntos, a data mais próxima a que podemos chegar para o nascimento de Jesus varia entre 6 a.C. (dois anos antes da morte de Herodes) e 6 d.C.
Lucas também retratou Jesus com elementos do "novo Moisés", onde ele tem ensinamentos semelhantes aos de Mateus no ministério. Mas o retrato geral de Lucas de Jesus e a função era como o humilde servo de Deus, nascido em humildade. Em Lucas, um anjo anunciou primeiro o nascimento de Jesus aos pastores nos campos. Os pastores estavam apenas um degrau acima dos escravos, verdadeiramente os humildes. Não há nenhuma história sobre os magos e os presentes reais. Ao longo do evangelho de Lucas e dos Atos dos Apóstolos, Lucas argumentou consistentemente que a realeza de Jesus não era política, não era um desafio a Roma.
O evangelho de Lucas é notável por apresentar um Jesus que tem mais discursos para os pobres, os marginalizados da sociedade e os deficientes do que qualquer outro evangelho. Lucas forneceu de forma única parábolas adicionais como exemplos quotidianos que levam à redenção: a ovelha perdida, a moeda perdida e o filho pródigo.
Nos primeiros séculos do cristianismo, a reconstituição da ressurreição (que se tornou o feriado da Páscoa) era a celebração mais importante. Com a conversão de Constantino ao cristianismo em 312., ele é creditado por celebrar o Natal em 25 de dezembro em 326. Isso coincidiu com uma celebração do deus do sol, Sol Invictus, e o colocou dentro do feriado de uma semana da Saturnália. Os historiadores apontam consistentemente que dezembro era a estação chuvosa do inverno na Judeia. Havia pouca possibilidade de observar uma estrela ou haver pastores ao ar livre à noite na chuva.
No ano de 326, a mãe de Constantino, Helena de Constantinopla, fez uma peregrinação à Judeia. Ela alegou ter tido visões que lhe revelaram onde encontrar os locais da crucificação e do nascimento de Jesus. Constantino construiu grandes basílicas nesses locais, que continuam sendo objeto de peregrinação cristã. Os edifícios encontrados hoje, no entanto, foram construídos sobre os locais anteriores durante o período das Cruzadas. A partir das escavações na década de 1880, os peregrinos podem visitar o que foi identificado como uma casa do século I, agora conhecida como a Casa de Maria e José, na cidade de Nazaré.

