Comércio e Guerra na Rus de Kiev

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James Hancock
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Os escandinavos da ilha de Gotland começaram a espalhar-se por toda a região do Báltico, ao longo dos rios russos, durante os anos de 700. Embora os vikings da Noruega e da Dinamarca, entre os séculos VIII e XI, sejam amplamente reconhecidos como temíveis saqueadores e colonos, os mercadores de Gotland eram tanto guerreiros como homens de negócios, avançando para novas áreas através de entrepostos fortificados.

Guests from Overseas
Convidados de Além-Mar Nicholas Roerich (Public Domain)

Assim que as populações locais eram pacificadas, recrutavam-se novos colonos para fundar vilas e cidades comerciais, um processo que se repetiu sucessivamente à medida que os gotlandeses avançavam para leste, até que a sua esfera de influência alcançou os mundos bizantino e islâmico.

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Os gotlandeses passaram a ser chamados varangues, um nome provavelmente derivado da palavra do nórdico antigo var, que significa «união por promessa». Os mercadores de Gotland mantinham-se unidos através de juramentos mútuos de defesa e de partilha de lucros. Os varangues tornaram-se abastados ao comercializarem escravos, peles (de castor e de raposa-preta) e espadas, tendo os dirhams árabes passado a ser o seu meio de troca predileto.

O Comércio com os Muçulmanos e os Bizantinos

Com o tempo, os Rus assimilaram-se com os eslavos nativos e perderam a sua identidade distinta de Gotland.

Os mercadores de Gotland que se estabeleceram na área eslava oriental da atual Rússia setentrional eram chamados al-Rus pelos árabes. Rhos (Rus) derivava da palavra do nórdico antigo ruotsi, que significava «expedição de barcos a remos». Com o tempo, estes Rus assimilaram-se com os eslavos nativos ao longo dos rios e perderam a sua identidade distinta de Gotland.

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Na segunda metade dos anos 700, os mercadores Rus começaram a deslocar-se para sul, descendo pelas vias navegáveis do norte da Europa Central, e estabeleceram duas grandes rotas comerciais:

  1. pelo Volga abaixo e através do Mar Cáspio até às terras sob domínio muçulmano, chegando mesmo a Bagdade;
  2. e através do Mar Negro até ao Império Bizantino cristão.

Ambas as rotas passavam pelo Reino Judeu dos Cazares, onde lhes era cobrado um dízimo.

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A cidade de Bagdade deve ter sido uma visão deslumbrante para os Rus. Entre os anos de 903 e 913, o escritor árabe Ibn Rustah escreveu um relato de testemunha ocular onde registou que os Rus não tinham «nenhuma aldeia, nenhuns campos cultivados» e que a sua «única ocupação é o comércio de peles de zibelina, de esquilo e de outros tipos, que vendem a quem as queira comprar» (Gabriel, pág. 3). Bagdade era, por esta altura, a joia da coroa dos califados islâmicos, uma cidade sumptuosamente adornada com extensos parques verdes e jardins, palácios de mármore, passeios e mesquitas de construção refinada.

Varangian Trade Routes
Rotas Comerciais Varangues Briangotts (CC BY-SA)

Os Rus percorriam as suas rotas comerciais à procura de moedas de prata árabes e de seda, especiarias, vinho, joalharia, vidro e livros do Império Bizantino. Em troca, comercializavam eslavos capturados na Estepe Eurasiática e ofereciam peles, mel, cera e madeira. O comércio da seda pode ser rastreado desde Constantinopla, ou Rayy no Irão, até Kiev e Novogrado, seguindo depois para o Báltico e a Escandinávia e, finalmente, para Inglaterra. Gotland foi identificada como a origem desta rede comercial da Europa de Leste devido à extraordinária quantidade de moedas de prata islâmicas que ali foram descobertas. A prata utilizada para cunhar estas moedas provinha de minas situadas nas províncias controladas pelos muçulmanos na Ásia Central.

A Formação da Rus de Kiev

No final do século IX, o Príncipe Olegue (879-912), da Dinastia Rurique de origem varegue, formou uma federação descentralizada na Europa Oriental e Setentrional que viria a chamar-se Rus de Kiev. Olegue estabeleceu a Rus em 862, começando por Novgorod como sua capital (situada a 160 km a sul de São Petersburgo), e estendeu o seu controlo para sul, ao longo do vale do rio Dniepre, acabando por transferir a capital para a mais estratégica Kiev (Kyiv, na atual Ucrânia).

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No seu apogeu, a Rus de Kiev governou uma área que se estendia desde o Mar Branco, a norte, até ao Mar Negro, a sul; e das nascentes do Vístula, a oeste, até à Península de Taman, a leste. As nações modernas da Bielorrússia, Rússia e Ucrânia têm todas a Rus de Kiev como o seu antepassado cultural. A Rus de Kiev governou durante cerca de 700 anos, até ser derrotada pelos Mongóis entre 1237 e 1242.

11th century CE Kievan Rus Territories
Territórios da Rússia de Kiev no século 11 SeikoEn (CC BY-SA)

Sabe-se muito sobre a Rus de Kiev devido a um manuscrito chamado Crónica de Nestor: Conto dos Anos Passados (1.ª Ed.ª de 1994; tít. original em eslavo eclesiástico antigo: Povest' Vremennykh Let, 1113), que oferece um relato detalhado da história eslava primitiva de cerca de 850 a 1110. Acredita-se que um monge chamado Nestor o tenha compilado na corte do Grão-Príncipe Sviatopolk II de Kiev, em 1113, utilizando materiais retirados de outras crónicas bizantinas, fontes literárias eslavas, documentos oficiais diversos e sagas orais. O manuscrito original desapareceu há muito, mas ainda existem várias revisões escritas séculos mais tarde; a mais antiga, chamada Códice Laurentiano (tít. original em russo: Lavrent'evskaya letopis), de 1377, e uma posterior conhecida como Códice de Ipátiev (ou Códice Hipatiano; tít. original em russo: Ipat'evskaya letopis) de 1500.

Os Ataques da Rus aos Mundos Islâmico e Bizantino

Embora a maioria das interações entre a Rus e Bagdade, os cazares e as outras terras muçulmanas tenham sido pacíficas, houve algumas exceções notáveis. Os Rus eram tão destemidos que realizavam ataques periódicos a redutos bizantinos e muçulmanos. Os registos destes confrontos chegaram até nós através da Crónica de Nestor: Conto dos Anos Passados e de vários cronistas árabes medievais, incluindo Ibn al-Athir, que escreveu uma história universal abrangente em 11 volumes por volta de 1231.

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No primeiro grande confronto em 860, uma frota de cerca de 200 embarcações Rus navegou pelo Bósforo e atacou os subúrbios de Constantinopla. O ataque apanhou os gregos completamente de surpresa, naquilo que São Fócio, o Grande, de Constantinopla, descreveu como um relâmpago caído do céu. A cidade estava praticamente indefesa na altura, uma vez que o imperador bizantino, Miguel III (reinou 842-867), se encontrava ausente a combater o Califado Abássida e a sua marinha confrontava piratas árabes no Mar Mediterrâneo. Após o desembarque, os Rus lançaram-se num massacre, incendiando casas e igrejas, além de afogarem e esfaquearem os residentes. Posteriormente, retiraram-se por uma razão desconhecida, após pilharem os subúrbios.

Rus Attack on Constantinople
Ataque da Rus a Constantinopla Unknown Artist (Public Domain)

Os Rus lançaram outro ataque contra Constantinopla em 941, desta vez com consequências desastrosas para eles. Enviaram uma frota massiva de 1000 navios para a cidade, mas foram derrotados por uma pequena esquadra de 15 antigos navios de guerra bizantinos, equipados com projetores de fogo grego que lançavam químicos em chamas contra os invasores. Um grande número de navios e soldados Rus ardeu e os soldados que saltaram para a água para escapar às chamas acabaram por se afogar, puxados para o fundo pelo peso das armaduras.

Os Rus também lançaram várias incursões através do Mar Cáspio em terras muçulmanas. Na maior delas, em 913, uma frota de 500 navios Rus atacou a região de Gorgan, no território que é hoje o Irão, onde pilharam bens e levaram mulheres e crianças como escravos. Um exército de cazares enfurecidos e alguns cristãos acabaram por atacá-los e derrotá-los, deixando poucos sobreviventes.

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Durante outra campanha em 943, uma grande armada Rus atacou a próspera cidade comercial de Barda, na margem sul do Mar Cáspio, cujas populações locais os combateram vigorosamente, atirando pedras e lançando insultos, mas os Rus cercaram-nos e massacraram 5000 deles. Conforme descrito pelo cronista árabe Ibn al-Athīr:

Depois de isto se prolongar por muito tempo, eles ordenaram que os habitantes da cidade partissem e [disseram que] não atacariam os cidadãos por um intervalo de três dias, sendo que cada indivíduo era livre de sair com todos os bens que conseguisse carregar. A maioria dos cidadãos permaneceu [em Barda] após o tempo estipulado, e os Rus mataram então muitas pessoas e fizeram cerca de dez mil cativos. Reuniram os que restavam na Mesquita de Sexta-feira e disseram aos restantes cidadãos: «Podem pagar o vosso resgate ou matamos-vos.» Um cristão apresentou-se e acordou o pagamento de vinte dirhams por cada homem. Mas os Rus não cumpriram o acordo, exceto no caso dos mais sensatos, após perceberem que não receberiam nada por alguns dos cidadãos. Massacraram todos aqueles [pelos quais não conseguiram obter resgate] e apenas alguns fugiram do massacre. Os Rus levaram então os objetos de valor do povo, escravizando os prisioneiros restantes, e levaram as mulheres para seu usufruto.

(Watson, pág. 434)

Os Rus utilizaram Barda durante vários meses como base para pilharem as áreas adjacentes mas, por fim, foram forçados a partir quando se viram consideravelmente enfraquecidos por um surto de disenteria provocado por fruta contaminada e ficaram isolados, para defesa, na cidadela de Barda. Abandonaram a fortaleza durante a noite, carregando às costas o que conseguiram dos seus tesouros pilhados, pedras preciosas e adornos.

A Guarda Varangue e a Ascensão de Moscovo

A Rus de Kiev formaria um vínculo estreito com os bizantinos em 988, quando o seu governante, Vladimir, o Grande (reinou 980-1015), decidiu abandonar os seus costumes pagãos e tornar-se um cristão ortodoxo. Ele ponderou cuidadosamente a sua decisão, escolhendo o cristianismo ortodoxo dos bizantinos em detrimento do judaísmo dos cazares, do cristianismo ocidental de Roma e do islão dos árabes, provavelmente por lhe proporcionar a aliança mais poderosa.

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Vladimir I Converting to Christianity
Vladimir I em sua Conversão ao Cristianismo Viktor Mikhailovich Vasnetsov (Public Domain)

Em reconhecimento do seu destemor, os Rus foram recrutados pelo imperador bizantino Basílio II (reinou 976-1025) para defender Constantinopla. Cerca de 6000 mercenários Rus formaram a elite da Guarda Varangue para proteger a cidade e servir como guarda-costas pessoais do imperador. Estes mercenários combateram em todas as grandes campanhas bizantinas desde então até 1204: aquando do saque de Constantinopla pelos Cruzados.

Quando a Rus de Kiev colapsou como estado após a invasão mongol da Europa em 1237-1242, Moscovo era apenas um entreposto comercial insignificante. Com o tempo, uma sucessão de príncipes expandiu as suas fronteiras e Moscovo assumiu-se como o centro político e cultural das terras do norte da Rus. A localização remota e florestada de Moscovo protegeu-a da ocupação e dos ataques mongóis, estando situada perto de vários rios que permitiam o acesso aos mares Báltico e Negro e a toda a região do Cáucaso. Moscovo unificou gradualmente os principados russos do nordeste e do noroeste ao longo do século XV, e derrubou o domínio mongol em 1480. Ivan III, o Grande (reinou 1462-1505), tornou-se o primeiro governante de Moscovo a adotar o título de czar e autodenominou-se Soberano de toda a Rus.

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Perguntas & Respostas

Quem eram os varangues?

Os gotlandeses (escandinavos da ilha de Gotland) passaram a ser chamados varangues, um nome provavelmente derivado da palavra do nórdico antigo var, que significa «união por promessa». Espalharam-se por toda a região do Báltico, ao longo dos rios russos, durante os anos 700 e tornaram-se mercadores abastados.

Foram os rus os antepassados dos russos?

As nações modernas da Bielorrússia, da Rússia e da Ucrânia têm todas a Rus de Kiev como seu antepassado cultural.

Bibliografia

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Hancock, J. (2026, junho 06). Comércio e Guerra na Rus de Kiev. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1980/comercio-e-guerra-na-rus-de-kiev/

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Hancock, James. "Comércio e Guerra na Rus de Kiev." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, junho 06, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1980/comercio-e-guerra-na-rus-de-kiev/.

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Hancock, James. "Comércio e Guerra na Rus de Kiev." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 06 jun 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1980/comercio-e-guerra-na-rus-de-kiev/.

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