Trocas e comércio foram componentes essenciais do sucesso e expansão do Império Bizantino. O comércio era realizado por navio a grandes distâncias, embora, por segurança, a maioria das embarcações à vela se restringisse às melhores condições climáticas entre abril e outubro. Em terra, o antigo sistema rodoviário romano foi bem utilizado e, por esses dois meios, as mercadorias viajavam de um extremo ao outro do império, bem como de lugares distantes, como o atual Afeganistão, a Rússia e a Etiópia. As cidades maiores tinham mercados cosmopolitas prósperos, e Constantinopla tornou-se um dos maiores centros comerciais do mundo, onde os compradores podiam passear por ruas cobertas e comprar qualquer coisa, desde linho búlgaro a perfumes árabes.
Posturas perante o Comércio
O cenário em relação ao comércio no Império Bizantino havia mudado muito pouco desde a antiguidade e os dias da Grécia e Roma antigas: a atividade não era altamente considerada sendo, mesmo, um pouco indigna para o aristocrata em terra seguir. Por exemplo, o imperador Teófilo (reinou 829-842 d.C.) queimou um navio inteiro e sua carga quando descobriu que sua esposa Teodora estava envolvida no comércio e tinha conexões financeiras com o navio. Essa atitude pode explicar por que os cronistas bizantinos, recorrentemente, evitavam o assunto completamente. De fato, na arte e na literatura bizantinas, comerciantes, banqueiros e agiotas que tentaram enganar seus clientes eram frequentemente retratados como habitantes dos níveis mais baixos do Inferno.
Havia também uma desconfiança geral de comerciantes e empresários (que poderiam ser homens e mulheres) tanto pela população em geral quanto pelas autoridades. Os imperadores, portanto, eram frequentemente exigentes na aplicação de questões como a padronização de pesos e medidas e, é claro, preços. Os produtos pesados passavam por escruulosa pesagem usando estaleiros e pesos na forma de um busto do imperador ou da deusa Minerva/Atena. Bens menores, como especiarias, eram mensurados usando uma balança com pesos feitos de liga de cobre ou vidro. Para minimizar a trapaça, os pesos foram inscritos com seu peso representativo ou valor equivalente em moedas de ouro e verificados regularmente.
Envolvimento do Estado
Talvez por causa do cenário em relação ao comércio como uma profissão um pouco menos respeitável, o Estado estava muito mais envolvido do que se poderia esperar. Ao contrário de épocas anteriores, o estado desempenhou um papel maior no comércio e no provisionamento de grandes cidades que, por exemplo, raramente ficavam a cargo de comerciantes privados. O comércio operava através de uma variedade de guildas hereditárias, com comerciantes que transportavam as mercadorias (navicularii) sendo subsidiados pelo Estado e sujeitos a taxas e pedágios significativamente reduzidos. Os impostos sobre as mercadorias importadas eram cobrados por funcionários nomeados pelo Estado, conhecidos como kommerkiarioi, que cobravam impostos sobre todas as transações comerciais e que emitiam um selo oficial de chumbo assim que as mercadorias passavam pelo sistema. Para limitar as possibilidades de corrupção, os kommerkiarioi eram contratados para esses cargos por um ano e depois eram transferidos para outro lugar.
Estações alfandegárias estavam espalhadas ao longo das fronteiras e dos principais portos do império, sendo duas das mais importantes em Abidos e Hieron, que controlavam o Estreito entre o Mar Negro e o Dardanelos. Deve ter havido uma boa quantidade de contrabando, mas foram tomadas medidas para combatê-lo, como um tratado do século VI entre os bizantinos e os sassânidas, que estipulava que todas as mercadorias comercializadas deveriam passar pelos postos alfandegários oficiais. Os registros também eram escrupulosamente mantidos, sendo o mais famoso deles o Livro do Eparca em Constantinopla, que também delineava as regras para o comércio e guildas comerciais na cidade.
Outros exemplos de intervenção estatal no comércio incluem provisões feitas para perdas ou danos a mercadorias transportadas por via marítima. O Direito Marítimo de Rodes (século VII ou VIII) estipulava que, nesse caso, os comerciantes receberiam uma compensação fixa. O estado também garantiu que nenhuma mercadoria útil a um inimigo pudesse ser exportado - ouro, sal, madeira para navios, ferro para armas e fogo grego (a arma secreta bizantina de líquido altamente inflamável). Nem a prestigiosa seda tingida com púrpura de Tiro era permitida para venda no exterior.
Outra área de rígida supervisão estatal era, naturalmente, a cunhagem. Moedas de cobre, prata e ouro foram cunhadas e emitidas com imagens de imperadores, seus herdeiros, a Cruz, Jesus Cristo ou outras imagens relacionadas à Igreja. Embora o estado cunhasse moedas principalmente com o objetivo de pagar exércitos e funcionários, a moeda acabou por ser disseminada por todos os níveis da sociedade. A cunhagem - na forma da moeda padrão de ouro nomisma (solidus) - também era necessária para pagar os impostos anuais. Quando havia menos guerras e menos soldados e fornecedores para pagar, ou quando os tentáculos da burocracia estatal local diminuíam nos séculos VII e VIII, as moedas podiam se tornar escassas e o escambo tinha que ser recorrido nas províncias, especialmente.
O controle estatal bizantino do comércio foi atingido pelas conquistas árabes do século VII. As cidades também estavam em declínio e cada vez mais autossuficientes, enquanto o transporte marítimo se tornava cada vez mais o domínio de comerciantes privados. Quando uma maior estabilidade no Mediterrâneo permitiu o ressurgimento de redes comerciais mais amplas a partir do século X, foram os estados italianos que aproveitaram a oportunidade para lucrar com o transporte e a venda de mercadorias de uma extremidade do mundo conhecido à outra. Grandes comerciantes, como os venezianos, receberam suas próprias instalações, regulamentos e impostos preferenciais em Constantinopla. Inicialmente, esse cenário ocorria em troca de ajuda naval nas guerras bizantinas, mas constantemente a presença de mercadores italianos (de Amalfi, Pisa, Gênova e Veneza) nos cais da capital se tornaram um elemento permanente. Constantinopla, portanto, poderia ostentar o mercado mais vibrante da Europa, com comerciantes da Síria, Rússia, Arábia e muitos outros lugares formando uma residência cosmopolita semipermanente. Os bairros surgiram na cidade onde os judeus construíram sinagogas, os árabes construíram mesquitas e os cristãos suas igrejas.
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Mercadorias Negociadas
Os grandes bens comercializados da antiguidade continuaram a ser os mais comumente enviados no Império Bizantino do período medieval: azeite, vinho, trigo, mel e molho de peixe. Da mesma forma, a ânfora de terracota permaneceu o recipiente de armazenamento de escolha. O design das ânforas mudou dependendo da localização de sua fabricação, embora as alças tenham se tornado significativamente maiores a partir do século X. O conteúdo era cuidadosamente rotulado com inscrições estampadas nas laterais ou eram adicionadas etiquetas de argila. Ânforas bizantinas foram encontradas em todo o Mediterrâneo e na antiga Grã-Bretanha, no Mar Negro, no Mar Vermelho e nas áreas do Mar Arábico. Somente no século XII as ânforas seriam desafiadas e superadas em uso pelo barril de madeira.
Outros produtos comercializados entre as regiões incluíam gado, ovelhas, porcos, bacon, vegetais, frutas, pimenta e outras especiarias, medicamentos, incenso, perfumes, sabão, cera, madeira, metais, pedras preciosas trabalhadas, lápis-lazúli (do Afeganistão), vidro, marfim (da Índia e da África), osso trabalhado, linho, lã, têxteis, linho (da Bulgária), peles (da Rússia), placa de prata, esmaltes, âmbar (do Báltico), vasos de bronze e artigos de latão (especialmente baldes e painéis de portas decorados em grande parte destinados à Itália). O comércio de escravos, muitas vezes fornecidos pela Rússia, também continuou a ser importante.
A louça de cerâmica era outra parte comum da carga de qualquer navio, conforme indicado pelos naufrágios. Cerâmicas de corpo vermelho deslizadas com decoração estampada ou aplicada eram comuns até o século VII e, em seguida, lentamente substituídas por mercadorias mais finas que eram vitrificadas com chumbo, de corpo branco e, em seguida, de corpo vermelho a partir do século IX. A decoração, quando presente, era impressa, incisa ou pintada. Constantinopla era um importante centro de produção de cerâmica de corpo branco e Corinto produzia uma grande quantidade de mercadorias vermelhas do século XI.
A seda foi introduzida pela primeira vez da China, mas a seda crua importada acabou sendo substituída pela seda produzida em fazendas de amoreira (o alimento do bicho-da-seda) na Fenícia e depois em Constantinopla a partir de 568 dC. A fábrica de seda na capital bizantina estava sob controle imperial, e as cinco guildas de seda estavam sob os cuidados do prefeito imperial da cidade. Outros locais notáveis de produção de seda dentro do império incluíam o sul da Itália, a Tebas grega e Corinto.
O mármore sempre esteve em grande demanda em todo o império, pois era usado por aqueles que podiam pagar por edifícios, pisos, altares de igrejas, decoração e móveis. O mármore cinza-branco básico, que se tornou amplamente utilizado no projeto de qualquer arquiteto bizantino, foi extraído em grandes quantidades da ilha de Proconnesus no Mar de Mármara (até o século VII), enquanto o mármore mais exótico veio da Grécia, Bitínia e Frígia. Naufrágios forneceram evidências de que o mármore foi trabalhado antes de ser enviado ao seu destino final. Muitos monumentos antigos, especialmente os pagãos, do outro lado do Mediterrâneo também foram saqueados para quaisquer pedaços de mármore úteis que pudessem ser reutilizados e enviados para outros lugares. Cízico, no Mar de Mármara, tornou-se um notável centro de produção e reciclagem de mármore a partir do século VIII.
Mercados e lojas
Os cidadãos comuns podiam comprar bens em mercados que eram localizados em praças dedicadas a este fim ou nas fileiras de lojas permanentes alinhadas nas ruas de cidades maiores. As lojas geralmente tinham dois andares - um ao nível da rua, onde as mercadorias eram fabricadas, estocadas e vendidas, e um segundo andar, onde o lojista ou artesão e sua família moravam. Os compradores eram protegidos do sol e da chuva nessas ruas por calçadas cobertas com telhados, muitas vezes, pavimentadas com lajes de mármore e mosaicos. Algumas ruas comerciais foram trancadas para pedestres e bloqueadas para o tráfego de rodas por grandes degraus em cada extremidade. Em algumas cidades, esperava-se que os lojistas mantivessem lâmpadas fora de suas lojas para fornecer iluminação pública. Assim como hoje, os lojistas tentavam espalhar suas mercadorias ao máximo possível para pegar o comprador casual, e há registros imperiais de reclamaçãoes da prática.
Um destaque final do calendário de compras foram as festas e feiras realizadas em datas religiosas importantes, como aniversários de santos ou aniversários de morte. Então, as igrejas, especialmente aquelas com relíquias sagradas para atrair visitantes peregrinos de longe, tornaram-se a peça central de mercados temporários onde barracas vendiam todos os tipos de mercadorias. Uma das maiores feiras desse tipo foi em Éfeso, realizada no aniversário da morte de São João. Normalmente, o imposto sobre vendas de 10% cobrado pelos kommerkiarioi estaduais em tais eventos era uma soma ordenada, de acordo com um registro de até 45 quilos (100 libras) em ouro.
