Miguel IV o Paflagónio

Michael Goodyear
por , traduzido por Filipa Oliveira
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The Wedding of Empress Zoe and Michael IV the Paphlagonian (by Cplakidas, Public Domain)
O Casamento da Imperatriz Zoé com Miguel IV, o Paflagónio Cplakidas (Public Domain)

Miguel IV o Paflagónio, (Michaēl Δ, ho Paphlagōn) ocupou o trono bizantino entre os anos de 1034 e 1041. Após um envolvimento amoroso com a Imperatriz Zoé (Zōē Porphyrogennētē), desposou-a e ascendeu ao título imperial na sequência do falecimento de Romano III Argiro (Rōmanos Γ΄, Argyros), o seu primeiro marido. O seu governo revelou-se competente na manutenção da estabilidade do Império, embora não tenha realizado conquistas dignas de nota.

A Ascensão ao Trono Imperial

Oriundo de uma linhagem de cambistas da Paflagónia, na Anatólia — região cujos naturais eram malvistos em Constantinopla —, Miguel foi introduzido na esfera imperial pelo seu irmão João. Este último, um eunuco que ascendera a uma posição de influência na corte de Basílio II, apresentou-o à Imperatriz Zoé, que então partilhava o trono com o seu primeiro marido, Romano III. João era conhecido pela alcunha de Orfanotrófos literalmente o diretor de um orfanato, embora o título tivesse adquirido um significado mais abrangente como alguém que gozava de amplas isenções fiscais. Logo após o primeiro encontro, Zoé e Miguel envolveram-se romanticamente.

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Zoé e Miguel iniciaram um caso amoroso, mas Romano não demonstrou ciúmes e chegou mesmo a tratar Miguel com simpatia, devido à epilepsia de que este sofria.

De acordo com o historiador contemporâneo Michael Psellos, Miguel era um 'jovem de proporções harmoniosas, com o brilho da juventude no rosto, fresco como uma flor, de olhar límpido e, em boa verdade, faces rosadas', mas era também epilético (Psellos, pág. 49). Surpreendentemente, Romano não sentiu ciúmes e chegou mesmo a tratar Miguel com simpatia devido à sua epilepsia. Romano morreu na banheira a 10 ou 11 de dezembro de 1034 e, embora não tenham sido encontrados indícios de crime, correu o boato de que Zoé e Miguel o tinham envenenado. Em determinado momento, ao longo dos anos seguintes, Miguel deixou de partilhar o leito com Zoé e passou a dar esmolas aos pobres, construiu mosteiros e envolveu-se em obras públicas para beneficiar monges e indigentes. Isto poderá ter servido apenas para angariar apoio popular, mas a combinação destes actos pode também significar um desejo de expiar os pecados do passado.

Após a morte de Romano, Zoe imediatamente pediu ao Patriarca Aléxios que a casasse com Miguel. Aléxios estava preocupado, pois a Ortodoxia exigia que as mulheres guardassem um ano inteiro de luto antes de voltarem a casar, para além de ser sobejamente conhecido o caso amoroso pré-existente entre os dois. Aléxios acabou por ceder, invocando a importância para o Império Bizantino, embora o suborno de 50 libras de ouro oferecido por João, o Orfanotrófio, certamente tenha ajudado.

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Os Assuntos Internos

Após o casamento, Miguel foi coroado imperador e aclamado publicamente como tal, o que ajudou a legitimar o seu governo — processo facilitado pelo facto de Romano III não ter sido muito popular. Embora Miguel fosse agora imperador, deixou a maioria das tarefas administrativas nas mãos de João. Segundo Psellos, João era um gestor minucioso, exigente e trabalhador (Idem, pág. 62). Miguel raramente permanecia em Constantinopla: fugindo à norma imperial, passava longas temporadas nas províncias, com destaque para Tessalónica, onde acreditava existir uma cura potencial para a sua epilepsia.

Byzantine Empress Zoe
Imperatriz Bizantina Zoé Myrabella (Public Domain)

Mas João e Miguel também promoveram seus vários irmãos a cargos de poder, o que deixou a antiga elite inquieta. O principal magnata militar da época, Constantino Dalasseno, foi atraído a Constantinopla através de um estratagema e mantido lá por João para evitar que se rebelasse. Entretanto, um dos irmãos de Miguel, Nicetas, era agora o doux, ou duque, de Antioquia; contudo, ao chegar, foi impedido de entrar na cidade até aceitar uma amnistia geral para os cidadãos que, semanas antes, tinham matado um cobrador de impostos opressivo. Nicetas acedeu, apenas para executar os cabecilhas assim que entrou na cidade. De seguida, enviou os restantes culpados para Constantinopla, alegando que estes estavam conluiados com Constantino Dalasseno. Na sequência destes acontecimentos, Miguel ordenou a detenção de Constantino e do seu genro — que viria a ser o imperador Constantino X Doukas (reinou 1059-1067). Durante o restante reinado, Miguel não voltaria a sofrer revoltas por parte da aristocracia fundiária bizantina, embora, em 1038, tenha enviado toda a família Dalasseno para o exílio.

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Conquanto Miguel se tivesse aliado à Dinastia Macedónica por via do matrimónio, permanecia incontestável que a legitimidade do poder residia nessa linhagem, e não a família arrivista de Miguel, vinda da Paflagónia. Todavia, Zoé e a irmã, Teodora, eram as últimas representantes da casa macedónica e, tendo ambas já ultrapassado os 50 anos, a extinção da dinastia era iminente. Para estabelecer uma dinastia paflagónia, Miguel fez com que Zoé adotasse formalmente o seu sobrinho, também chamado Miguel (o futuro Miguel V, reinou 1041-1042), e nomeou-o césar, ou seja, herdeiro do trono

As Relações Exteriores

Embora Bizâncio ainda detivesse um poder militar substancial, durante o reinado de Miguel o Império Bizantino esteve maioritariamente à defesa. As incursões dos pechenegues através do Danúbio devastaram partes dos Balcãs, tendo um grupo chegado inclusivamente até Tessalónica, embora pareçam ter cessado após 1036, sinalizando uma possível trégua. Emires muçulmanos locais atacaram Edessa em 1036 e 1038, tendo o cerco de 1036 terminado apenas graças à intervenção oportuna das forças bizantinas de Antioquia. O exército georgiano atacou as províncias orientais em 1035 e 1038, embora em 1039 o general georgiano Liparit tenha convidado os bizantinos a entrar na Geórgia para derrubar Bagrat IV e substituí-lo pelo seu meio-irmão, Demétrio. Apesar de a conspiração ter acabado por falhar, permitiu aos bizantinos intervir na Geórgia durante as guerras entre Liparit e Bagrat nas duas décadas seguintes. Miguel concluiu também uma trégua de dez anos com os Fatímidas, após a qual Alepo deixou de ser um importante teatro de guerra para o Império Bizantino. Nos Balcãs, Miguel cultivou relações de clientela com os senhores sérvios, os zupans, de modo a assegurar também esse flanco.

O único teatro de guerra agressivo durante o reinado de Miguel concentrou-se na Sicília. A marinha bizantina derrotou os navios árabes sicilianos que tentavam invadir o Egeu com a ajuda de mercenários varangianos sob o comando de Harald Hardrada, o futuro rei da Noruega (reinou 1046-1066). Os ataques dos árabes da Sicília continuaram a fustigar a Itália bizantina, apesar de o katepano (o alto comando militar) Boioanes ter consolidado a autoridade imperial no sul da península entre 1018 e 1028. Na década de 1030, uma guerra civil eclodiu na Sicília entre Ahmad al-Akhal e seu irmão, Abu Hafs. Ahmad celebrou um tratado com os bizantinos em 1035, tendo-lhe sido concedido o título honorífico de magistros e enviado o seu filho para Constantinopla. Esta aparente subserviência aos bizantinos levou os Ziridas do Norte de África a invadir a ilha sob o comando do seu emir, 'Abd Allah. Embora Ahmad tenha apelado aos bizantinos, acabou por ser morto em batalha.

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The Varangian Guard
A Guarda Varangue Unknown Artist (Public Domain)

Um exército bizantino vindo de Itália invadiu a ilha em 1038, tal como uma frota substancial vinda de Constantinopla chefiada por Estêvão, o pai do césar Miguel, e pelo prestigiado general Jorge Maniaces (Georgios Maniakes), que incluía a Guarda Varegue sob o comando de Hardrada. Maniaces esmagou as forças árabes em Rometta e conquistou o leste da Sicília, incluindo a antiga capital romana de Siracusa. 'Abd Allah conseguiu, no entanto, escapar, e Maniaces culpou Estêvão, gritando com ele e chegando mesmo a chicoteá-lo na cabeça. Estêvão queixou-se a Miguel, que substituiu Jorge por Basílio Pediadites e ordenou a sua detenção. Contudo, após a destituição de Jorge os bizantinos começaram a perder na Sicília e, por volta de 1042, todos os territórios reconquistados tinham sido perdidos. Esta foi a última tentativa de Bizâncio para reaver a ilha.

A Rebelião Búlgara e o Último Ano de Miguel

A perda da Sicília explica-se, em parte, pela necessidade de Miguel desviar contingentes para travar uma sublevação búlgara de grandes proporções às portas da capital. A revolta terá sido desencadeada pela decisão de João, o Orfanotrófio, de exigir o pagamento de tributos em numerário, revogando o privilégio do pagamento em géneros concedido por Basílio II. A este factor económico somou-se um inegável sentimento de identidade nacional. Esta insurreição foi liderada por Deliano, que afirmava ser neto de Samuel (reinou 997-1014), o antigo czar búlgaro e grande adversário de longa data de Basílio II (reinou 976-1025), declarando-se czar Pedro II da Bulgária. Outro líder rebelde, Ticomiro, sublevou as tropas em Dirráquio, mas acabou atraído a uma cilada e morto por Deliano, que absorveu os seus homens. Perante o avanço de Deliano sobre Tessalónica, Miguel foi obrigado a uma fuga precipitada para Constantinopla, deixando para trás até a tenda imperial. Em Tessalónica, Manuel Ibatzes, filho do principal general de Samuel, também se juntou à rebelião. Nos meses seguintes, Deliano enviou tropas para tomar Dirráquio e Tebas, e o thema de Nicópolis juntou-se voluntariamente à Bulgária contra o Império Bizantino.

Michael IV the Paphlagonian in Bulgaria
A Campanha de Miguel IV, o Paflagónio, na Bulgária Cplakidas (Public Domain)

Alusiano, filho de Ivã Vladislau, o último czar da Bulgária (r. 1014-1018 d.C.), juntou-se então a Deliano, que lhe entregou um exército para atacar Tessalónica. Os bizantinos derrotaram Alusiano, que regressou para junto de Deliano; contudo, ambos nutriam grandes suspeitas um pelo outro, e Alusiano acabou por cegar Deliano após o ter convidado para um banquete. Em 1041 d.C., Miguel marchou contra os rebeldes búlgaros, apesar de ter contraído hidropisia. Alusiano concordou em trair os rebeldes búlgaros em troca de dinheiro e títulos. O exército de Miguel marchou então pelo território ocupado, esmagando a rebelião. Miguel levou Deliano acorrentado de volta para Constantinopla e celebrou um triunfo.

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Embora Miguel fosse popular, a sua família não o era. Começaram a fomentar-se rebeliões em Constantinopla, sob a liderança do futuro patriarca Miguel Cerulário, e no acampamento militar de Mesmakta, na Ásia Menor, mas ambas foram sufocadas antes de eclodirem. Contudo, Miguel não teve mais tempo para fortalecer a posição da sua família antes da sua morte. No final de 1041 d.C., Miguel recebeu a tonsura e tornou-se monge. Recusou-se a ver Zoé no seu leito de morte e faleceu a 10 de dezembro de 1041.

O Legado de Miguel

Miguel e os seus irmãos provaram ser surpreendentemente capazes, considerando que começaram como ilustres desconhecidos vindos das regiões remotas da Paflagónia; contudo, o legado de Miguel foi o seu sobrinho, Miguel V (reinou 1041-1042), em relação ao qual o mesmo não se poderia dizer. Miguel manteve intacta a prosperidade de Bizâncio e travou a perigosa insurreição búlgara, mas falhou ao não preparar um sucessor digno que mantivesse e reforçasse a posição do Império.

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Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Tradutora e autora, o gosto pelas letras é infindável – da sua concepção ao jogo de palavras, da sonoridade às inumeráveis possibilidades de expressão.

Sobre o Autor

Michael Goodyear
Michael possui graduação em História e em Línguas e Civilizações do Oriente Próximo pela Universidade de Chicago, onde estudou principalmente a história bizantina. Ele também tem um doutorado profissional (J.D.) pela Faculdade de Direito da Universidade de Michigan (University of Michigan Law School).

Cite Este Artigo

Estilo APA

Goodyear, M. (2026, abril 12). Miguel IV o Paflagónio. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17188/miguel-iv-o-paflagonio/

Estilo Chicago

Goodyear, Michael. "Miguel IV o Paflagónio." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, abril 12, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17188/miguel-iv-o-paflagonio/.

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Goodyear, Michael. "Miguel IV o Paflagónio." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 12 abr 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17188/miguel-iv-o-paflagonio/.

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