James Armistead Lafayette

Harrison W. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
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James Armistead Lafayette (by Unknown engraver, after John B. Martin, Public Domain)
James Armistead Lafayette Unknown engraver, after John B. Martin (Public Domain)

James Armistead Lafayette (1748-1832) foi um patriota afro-americano que serviu o Exército Continental como espião durante a Guerra da Independência Americana (1775-1783). Durante o Cerco de Yorktown, infiltrou-se no acampamento britânico para levar informações cruciais aos americanos. Após a guerra, foi libertado da escravidão com a ajuda do Marquês de Lafayette, cujo nome adotou.

Os Primeiros Anos de Vida

James Armistead Lafayette nasceu na escravidão por volta do ano de 1748 no Condado de New Kent, Virgínia (algumas fontes apontam o ano de seu nascimento como 1760). Nasceu na propriedade do Coronel John Armistead e tornou-se escravo do coronel; embora escritores e historiadores posteriores se refiram a ele como James 'Armistead', ele nunca adotou o apelido do seu senhor durante a sua vida, sendo simplesmente referido como 'James'. James foi criado ao lado do filho do Coronel Armistead, William, com a intenção de que James servisse, eventualmente, como criado pessoal de William. Para esse fim, James recebeu uma educação básica e foi ensinado a ler e a escrever, competências invulgares para pessoas escravizadas na América Colonial, mas que James precisava de saber para ser um criado eficaz. Quando William Armistead atingiu a maioridade, o coronel ofereceu-lhe James como seu criado, tendo William herdado o resto dos escravos e terras do pai quando o coronel faleceu em 1779.

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Dezenas de milhares de afro-americanos tiveram de decidir se eram os Patriotas ou os Legalistas que ofereciam a melhor hipótese de liberdade.

James provavelmente teria permanecido como um criado para o resto da sua vida, desvanecendo-se na obscuridade histórica da mesma forma que a maioria dos outros 450 000 indivíduos escravizados que viviam nas Treze Colónias na altura. Contudo, em 1779, o mesmo ano em que o Coronel Armistead faleceu, algo aconteceu que mudaria o curso da vida de James para sempre: a Guerra da Independência Americana chegou ao sul. Àquela altura, a guerra estava já no seu quarto ano; os Estados Unidos da América tinham declarado a sua independência, as Batalhas de Saratoga — decisivas — tinham sido travadas em Nova Iorque, o Exército Continental tinha-se reorganizado em Valley Forge e o Reino de França tinha entrado na guerra do lado americano. Mas, até então, a maior parte dos combates tinha ocorrido no norte, particularmente em Nova Iorque, Nova Jérsia, Massachusetts e Pensilvânia; os britânicos tinham-se concentrado em capturar cidades americanas importantes como Filadélfia e Nova Iorque, enquanto, simultaneamente, isolavam a Nova Inglaterra, acreditando ser o coração da rebelião americana.

Mas, após o fracasso de várias campanhas no norte, os britânicos voltaram as atenções para os estados do sul, que se dizia estarem repletos de legalistas que aguardavam ansiosamente pelo regresso da autoridade real. Os britânicos implementaram a sua estratégia para o sul, capturando Savannah, na Geórgia, em dezembro de 1778, e cercando Charleston, na Carolina do Sul, no início de 1780. Com a chegada dos casacas-vermelhas às suas costas, os colonos do sul foram forçados a escolher onde residiam as suas lealdades; isto incluía as dezenas de milhares de afro-americanos, como James, que tinham de decidir se eram os Patriotas (Patriots) ou os Legalistas (Tories) que ofereciam a melhor hipótese de liberdade.

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Os Legalistas Negros e os Patriotas Negros

Em novembro de 1775, apenas alguns meses depois de a guerra ter começado, o governador monárquico da Virgínia, Lord Dunmore, emitiu uma proclamação na qual prometia liberdade a qualquer homem escravizado que pegasse em armas contra os Patriotas. Milhares de homens negros de todo o sul viajaram para Norfolk, na Virgínia, para responder ao apelo de Dunmore e lutar pelos britânicos; muitos destes antigos escravos foram organizados numa unidade militar legalista composta inteiramente por negros, denominada Regimento Etíope de Lord Dunmore. O regimento parecia aliciante, oferecendo liberdade, aventura e uma oportunidade de heroísmo a homens que tinham passado as suas vidas inteiras a realizar trabalhos forçados para benefício dos seus proprietários brancos. Para sublinhar este ponto, os uniformes do Regimento Etíope estavam até inscritos com as palavras «Liberdade para os Escravos». Contudo, antes que o regimento pudesse participar em grandes batalhas, um grande número das suas tropas ficou incapacitado ou morreu devido a um surto de varíola que devastou a unidade no inverno de 1775-76. Embora o Regimento Etíope tenha sido dissolvido no verão de 1776, muitos legalistas negros continuaram a ajudar o esforço de guerra britânico, ainda na esperança de conquistar a sua liberdade; talvez o melhor exemplo disto tenha sido a Brigada Negra, uma milícia legalista composta inteiramente por negros, liderada por um antigo escravo chamado Coronel Tye, que em 1780 devastou a zona rural de Monmouth County, em Nova Jérsia, controlada pelos Patriotas.

Smock Similar to the Uniforms of Dunmore's Ethiopian Regiment
Avental Smelhante aos Uniformes do Regimento Etíope de Dunmore Chitt66 (CC BY)

Embora muitos afro-americanos tenham lutado pela causa legalista, houve muitos outros que lutaram pelos Estados Unidos recém-nascidos. Os Patriotas Negros existiam quase desde o início do próprio movimento patriota; de facto, uma das primeiras baixas da Revolução Americana foi um homem de ascendência mista, negra e nativa americana, chamado Crispus Attucks, que foi uma das vítimas do Massacre de Boston (5 de março de 1770) e, posteriormente, aclamado como um mártir da causa da liberdade americana. Cinco anos mais tarde, um escravo chamado Prince Estabrook foi um dos 77 milicianos patriotas a enfrentar mais de 700 soldados regulares britânicos em Lexington Green; Estabrook foi ferido no combate subsequente, conhecido como as Batalhas de Lexington e Concord (19 de abril de 1775), mas recuperou a tempo de guardar o quartel-general do Exército Continental durante o Cerco de Boston. Outro miliciano escravizado, Salem Poor, distinguir-se-ia durante a Batalha de Bunker Hill (17 de junho de 1775). Depois de a maioria dos outros milicianos americanos já ter fugido do reduto em Breed's Hill, Poor permaneceu no local para ajudar a evacuar os feridos. À medida que os britânicos tomavam de assalto o reduto americano, Poor disparou o tiro que, alegadamente, matou o Tenente-Coronel James Abercrombie, um oficial britânico que liderava o ataque.

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Quando a Guerra da Independência chegou à Virgínia, portanto, havia milhares de negros a servir com valor e distinção em ambos os lados do conflito, todos eles acreditando que o seu lado era a melhor oportunidade para assegurar a sua liberdade. Em 1781, James ainda não tinha escolhido um lado; não tinha atendido ao apelo de Lord Dunmore para os legalistas negros, nem tinha partido para lutar no Exército Continental, que começara oficialmente a recrutar soldados negros em 1778, oferecendo aos homens escravizados a liberdade em troca do serviço militar. Em vez disso, James tinha permanecido como criado pessoal de William Armistead, que era ele próprio um ardente patriota da Virgínia. Quando James ouviu dizer que o general francês Gilbert du Motier, Marquês de Lafayette, procurava especificamente recrutar homens afro-americanos para ajudar a causa patriota, James pediu permissão ao seu senhor para servir. William Armistead concordou, com a condição de que James continuasse a ser seu escravo quando o serviço terminasse.

A Espionagem para os Patriotas

Nesta fase da guerra, o General Lafayette liderava um destacamento de tropas americanas em perseguição de um exército britânico comandado por Benedict Arnold, que fora, outrora, um general americano antes de mudar de lado e passar para os britânicos — um episódio famoso de traição. Lafayette tinha recebido ordens de George Washington para capturar Arnold e enforcá-lo como traidor. Para cumprir esta missão, Lafayette esperava recolher informações sobre as intenções e o número de tropas de Arnold; a melhor forma de o fazer era usar afro-americanos como espiões, sob o pretexto de que seriam escravos fugitivos à procura de se juntarem aos britânicos para assegurarem a sua liberdade, conforme ainda era garantido pela Proclamação de Dunmore.

James tornou-se um agente duplo, movendo-se entre os campos americano e britânico.

Foi nessa qualidade que James foi utilizado quando se juntou a Lafayette no início de 1781. Fingindo ser um escravo fugitivo, James dirigiu-se ao acampamento de Arnold em Portsmouth, na Virgínia, onde prometeu os seus serviços aos britânicos. James, que conhecia muito bem o território local, conseguiu ganhar a confiança de Arnold ao guiar as tropas britânicas pelas terras circundantes; Arnold, pensando de forma semelhante à de Lafayette, também decidiu usar James como espião e enviou-o de volta para o acampamento americano para recolher informações. Foi desta forma que James se tornou um agente duplo, movendo-se entre os campos americano e britânico. Ele recolhia informações do acampamento britânico para levar a Lafayette, enquanto, simultaneamente, passava informações falsas aos oficiais de Arnold. Era um jogo perigoso; uma vez que James era um espião e não um soldado alistado, não estava protegido pelas regras de guerra que governavam o destino dos soldados capturados em batalha. Tal como o famoso Nathan Hale antes dele, James estava sujeito a ser enforcado se os britânicos descobrissem que trabalhava secretamente para os americanos. James, contudo, provou ser um espião bastante bem-sucedido; usando as informações que ele lhes trazia, Washington e Lafayette conseguiram impedir que 10 000 reforços britânicos se juntassem ao exército britânico principal na Virgínia, liderado por Lord Charles Cornwallis.

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Após Arnold ter partido da Virgínia e seguido para norte, James permaneceu e serviu como um aparente «estafeta» para Lord Cornwallis. Nessa qualidade, conseguiu ouvir conversas entre oficiais britânicos e ler cartas que lhe eram confiadas pelo pessoal de Cornwallis; uma vez que ele era um escravo, poucos esperavam que James soubesse ler e escrever, o que ajudou imenso a sua eficácia como espião. Continuou a fornecer informações ao Exército Continental a partir do quartel-general de Cornwallis durante o Cerco de Yorktown (de 28 de setembro a 19 de outubro de 1781), sendo que o seu trabalho de espionagem ajudou a levar à vitória americana final no cerco. Com a rendição do exército de Lord Cornwallis em Yorktown, o último grande confronto da Guerra da Independência terminou; dois anos mais tarde, foi assinado o Tratado de Paris, terminando oficialmente a guerra. As últimas tropas britânicas evacuaram os Estados Unidos em novembro de 1783, levando consigo milhares de refugiados legalistas negros.

Map of the American Revolutionary War, 1775–1783
Guerra de Independência Americana, 1775 - 1783 Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

A Emancipação

Após a guerra, o Congresso dos EUA libertou os homens escravizados que tinham servido no Exército Continental. Isto não se aplicou a James, no entanto, uma vez que ele tinha servido como espião e nunca fora alistado como soldado. Em vez disso, James regressou ao seu antigo senhor, William Armistead, para retomar as suas funções como criado escravizado. Isso não o impediu, contudo, de apresentar uma petição à Assembleia da Virgínia solicitando a sua liberdade, argumentando que tinha prestado aos Estados Unidos tanto serviço — e arriscado a sua vida tanto — quanto homens como Prince Estabrook e Salem Poor, que tinham lutado nos campos de batalha da Revolução e conquistado a sua liberdade. Mas, como não era soldado, a primeira petição de James foi recusada.

Em 1784, Lafayette soube que James ainda era escravizado; lembrando-se dos serviços que James tinha prestado à causa americana, o marquês concordou em encontrar-se com ele em Richmond, Virgínia. Lá, Lafayette forneceu a James um testemunho escrito no qual elogiava os serviços que ele tinha prestado à nova república. O marquês atestou que James tinha feito:

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um serviço essencial para mim enquanto tive a honra de comandar neste estado [da Virgínia]. As suas informações vindas do campo inimigo foram recolhidas com diligência e entregues com a maior fidelidade. Ele cumpriu na perfeição algumas missões importantes que lhe dei e parece-me ter direito a toda a recompensa que a sua situação possa admitir

(Unger, pág. 200).

Munido do testemunho de Lafayette, James apresentou novamente uma petição ao governo da Virgínia pela sua liberdade. Desta vez, foi ajudado pelo seu senhor, William Armistead, que tinha conquistado um lugar na Câmara dos Delegados da Virgínia em 1786. Ambas as câmaras da legislatura da Virgínia votaram a aceitação da petição de James, que foi assinada pelo governador da Virgínia a 9 de janeiro de 1787; James foi finalmente libertado, tendo Armistead sido compensado financeiramente pela perda do seu escravo. Ao garantir a sua liberdade, James adotou o apelido 'Lafayette' para mostrar a sua gratidão ao general francês.

A Vida Posterior

Após conquistar a liberdade, James Lafayette mudou-se 15 km (9 milhas) a sul do Condado de New Kent, onde comprou 16 hectares (40 acres) de terra e começou uma exploração agrícola. Casou-se e criou uma família numerosa, embora não tenha recebido a pensão militar que lhe era devida pelo Congresso até 1819, 27 anos após o fim da guerra. Depois de muitos anos a solicitar ao Congresso o dinheiro que lhe era devido, foi-lhe finalmente concedida uma pensão anual de 40 dólares, bem como 60 dólares em pagamentos retroativos.

The Marquis de Lafayette with James Armistead Lafayette
O Marquês de Lafayette com James Armistead Lafayette Jean-Baptiste Le Paon (Public Domain)

Em 1824, quase 50 anos após o início da Guerra da Independência, o Presidente James Monroe convidou o já idoso Marquês de Lafayette para uma digressão pelos Estados Unidos. O marquês, que não visitava a América há décadas, aceitou com alegria, visitando cada um dos 24 estados, onde foi aclamado por multidões em êxtase de americanos que esperavam vislumbrar um dos últimos heróis sobreviventes da Revolução. Quando o marquês visitava Yorktown, na Virgínia, ouviu alguém chamar o seu nome; olhando para a multidão, o marquês viu o rosto familiar de James Lafayette, a quem reconheceu imediatamente. O Marquês de Lafayette saltou então do seu cavalo, correu para a multidão e abraçou o antigo espião, sob os aplausos da multidão de habitantes da Virgínia ali reunidos.

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James Lafayette faleceu em 1830 ou 1832, altura em que teria cerca de 80 anos. A sua longa vida foi certamente extraordinária: nascido na escravidão, arriscou a vida como espião para os americanos, ajudando a concretizar a vitória final americana em Yorktown. Entrou depois noutro tipo de batalha — uma batalha legal — na qual, com a ajuda do Marquês de Lafayette, conquistou a sua liberdade. Sem dúvida, James Lafayette é uma figura frequentemente esquecida que merece ser mencionada como uma das figuras notáveis da Guerra da Independência.

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Perguntas & Respostas

Quem foi James Armistead Lafayette?

James Armistead Lafayette foi um afro-americano escravizado que atuou como espião dos Patriotas durante a Revolução Americana. O seu trabalho crucial de espionagem contribuiu para a vitória dos Patriotas no Cerco de Yorktown.

Qual era a relação entre James Armistead Lafayette e o Marquês de Lafayette?

James Armistead Lafayette trabalhou como espião para o Marquês de Lafayette, fornecendo ao general francês informações sobre os acampamentos britânicos. Em 1784, após a Revolução, o marquês ajudou a libertar James da escravatura, o que levou James a adotar o apelido «Lafayette» em sinal de gratidão.

Por que é que James Armistead Lafayette não foi libertado da escravatura após a Revolução?

Embora os soldados negros escravizados da Revolução Americana tenham sido imediatamente libertados após a guerra, James Armistead Lafayette não o foi, porque tinha servido como espião e não como soldado alistado. Teve de lutar pela sua liberdade, que conquistou em 1787 com a ajuda do Marquês de Lafayette.

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Mark, H. W. (2026, julho 09). James Armistead Lafayette. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-22646/james-armistead-lafayette/

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Mark, Harrison W.. "James Armistead Lafayette." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, julho 09, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-22646/james-armistead-lafayette/.

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Mark, Harrison W.. "James Armistead Lafayette." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 09 jul 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-22646/james-armistead-lafayette/.

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