Califados Islâmicos

Syed Muhammad Khan
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Tombstone of Caliph Umar (by Mohammad adil, GNU FDL)
O Túmulo do Califa Umar ibn al-Khattab Mohammad adil (GNU FDL)

O Califado («Khilafat», em árabe) era um sistema de governação político e semirreligioso no Islão, no qual os territórios do império islâmico no Médio Oriente e no Norte de África, bem como as populações que neles habitavam, eram governados por um líder supremo designado Califa («Khalifa», em árabe — que significa sucessor). Inicialmente, os califas eram os únicos soberanos do império deixado pelo Profeta Maomé, ao qual anexaram vastos territórios de impérios rivais circundantes. Numa fase inicial, eram selecionados por um grupo de membros seniores de um parlamento primitivo que tomava em consideração a vontade do povo. Os primeiros quatro califas, nomeados desta forma, são designados pelos muçulmanos sunitas ortodoxos como os califas Rashidun (os «bem guiados»); já os muçulmanos xiitas consideram apenas Ali, o quarto califa, como legítimo, rejeitando as pretensões dos três primeiros ao rotulá-los como usurpadores.

O califado tornou-se rapidamente numa instituição hereditária quando o sistema de governação dinástico foi introduzido no mundo islâmico pelos Omíadas, que foram mais tarde derrubados e substituídos pelos Abássidas. Após a destruição de Bagdade em 1258, os Abássidas passaram a deter apenas o título em si. Este cenário mudaria quando os sultões otomanos assumiram a instituição, tornando-se os primeiros e últimos não-árabes a fazê-lo, e mantiveram-na até 1924 d.C., data em que foi oficialmente abolida pelo líder nacionalista turco Mustafa Kemal Pasha (o pai da Turquia moderna).

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O Califado Rashidun

A grande maioria da comunidade muçulmana apoiou a reivindicação do mais capaz e próximo dos companheiros de Maomé, Abu Bakr.

Um dos problemas suscitados pelo falecimento do Profeta Maomé (em 632) residiu no facto de este não ter nomeado um herdeiro e, uma vez que não deixou filhos varões sobreviventes, surgiu um conflito. O parente mais próximo de Maomé e, segundo alguns, o seu herdeiro legítimo, era Ali, seu primo e genro (casado com Fátima, filha do Profeta) — estes apoiantes tornaram-se conhecidos como «Shia't Ali» (o partido de Ali), grupo que mais tarde se transformaria numa vertente distinta do Islão. Contudo, os árabes não estavam habituados a um sistema de governação dinástico, pelo que a vasta maioria da comunidade muçulmana apoiou a pretensão do mais apto e próximo dos companheiros de Maomé: Abu Bakr. Este grupo viria a ser conhecido como os Sunitas (seguidores da «Sunna» ou do caminho do Profeta). A Abu Bakr foi atribuído o título de califa (sucessor do Profeta), contando também com o apoio fervoroso de outro companheiro sénior e respeitado de Maomé, Umar, que viria a ser, a seu tempo, o seu sucessor.

Abu Bakr (califado 632-634) provou ser um líder competente. A maioria das tribos árabes recusou-se a aceitar a autoridade califal, sob o pretexto de que a sua lealdade se restringia a Maomé enquanto pessoa, e não ao Islão — estes apóstatas uniram-se também a «impostores» ou falsos profetas que surgiam continuamente com fés novas e obscuras. A partir da sua capital em Medina, Abu Bakr respondeu com eficácia, convocando os «fiéis» às armas sob a bandeira da Jihad (guerra santa — contextualmente). Os exércitos muçulmanos triunfaram sobre os rebeldes e Abu Bakr conseguiu unir toda a Península Arábica. Ciente de que as afiliações tribais acabariam por ressurgir, Abu Bakr enviou os exércitos recém-formados para consolidar o domínio sobre as tribos árabes nos territórios Sassânida e Bizantino. Estes ataques deveriam ter sido meras incursões, mas transformaram-se em conquistas rápidas e permanentes. Após a morte de Abu Bakr em 634 d.C., o seu mais influente apoiante — Umar ibn Khattab (califado 634-644) — tornou-se o califa seguinte.

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Umar deu continuidade às campanhas de Abu Bakr, e as vitórias simultâneas na Batalha de Al-Qadisiyya e na Batalha de Yarmouk, em 636, abriram caminho para a conquista da maior parte do Império Sassânida e das províncias orientais do Império Bizantino — principalmente o Egito, a Síria e o Levante. Umar introduziu inúmeras reformas e novas instituições, tais como a polícia, pensões, tribunais e conselhos consultivos (shura), entre outras; no entanto, era sobretudo conhecido como um homem temente a Deus que a todos superava na administração da justiça. Foi assassinado por um escravo persa chamado Lu'lu, em 644.

Calligraphic Names of Rashidun Caliphs in Hagia Sophia
Nomes em Caligrafia dos Califas Rashidun no Hagia Sophia Belt93 (CC BY-NC-SA)

O sucessor de Umar foi Uthman ibn Affan (califado 644-656), proveniente do abastado clã dos Banu Umayya e amigo próximo de Maomé. Embora fosse um homem piedoso e dedicado à nova fé, não gozava de popularidade. Os problemas que haviam sido contidos sob o regime rigoroso de Umar — tais como o custo elevado da expansão agressiva — começaram a emergir e revelaram-se excessivos para o novo califa. O seu mandato não foi desprovido de sucessos militares, mas os custos superavam os lucros gerados por essas conquistas. Foi assassinado em 656, na sua própria casa, por soldados rebeldes da cidade-guarnição de Fustat, no Egito; com a sua morte, extinguiu-se a unidade da Ummah (comunidade) muçulmana.

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Muawiyya (o apto governador da Síria), primo de Uthman e agora chefe do clã Umayya, pretendia vingar o assassínio, mas o novo califa, Ali ibn Abi Talib (califado 656-661 d.C.), não acedeu ao pedido. Isto enfureceu não só Muawiyya, mas também outros muçulmanos, pelo que o seu reinado foi marcado por constantes guerras civis e a expansão foi interrompida. Numa outra decisão controversa, Ali transferiu a capital de Medina para Kufa, uma cidade-guarnição no atual Iraque. Ali teve um fim semelhante ao do seu antecessor; foi assassinado em 661 por um grupo extremista designado Kharijitas (Carijitas), enquanto participava na oração congregacional. Ali alcançou uma fama póstuma sem precedentes, em grande parte devido ao seu lugar na ideologia xiita. É venerado por estes como o único sucessor legítimo de Maomé, ao passo que os muçulmanos sunitas consideram os quatro califas igualmente legítimos e «bem guiados» («Rashidun», em árabe).

A Dinastia Omíada

Mesmo enquanto Ali ainda governava, Muawiyya desafiou audaciosamente a sua autoridade com base em fundamentos morais. Utilizando a morte trágica do seu primo para propagar a sua agenda, conseguiu fortalecer o seu poder. Após a morte de Ali, o único rival de Muawiyya (califado 661-680) era o filho mais velho de Ali, Hasan, que abdicou do cargo a favor do primeiro em troca de uma pensão elevada. O ano de 661 d.C. marca o início oficial do domínio da Dinastia Omíada, com Muawiyya como o seu primeiro califa e Damasco como a nova capital; o poder foi transferido do Iraque para a Síria, e Medina nunca mais recuperaria o prestígio político que outrora detivera. O seu reinado de 20 anos foi o mais estável para a Ummah (comunidade muçulmana) desde a morte de Umar. Próximo do fim da vida, Muawiyya nomeou o seu filho Yazid (califado 680-683) como seu sucessor, o que encontrou grande resistência, nomeadamente por parte do filho mais novo de Ali, Hussayn. Este acabaria por ser morto (um mártir aos olhos de sunitas e xiitas) juntamente com o seu exército — composto maioritariamente por membros da sua família — pelas forças de Yazid na Batalha de Karbala, em 680.

Battle of Karbala
Batalha de Karbala Andreas Praefcke (Public Domain)

O califa Abd al-Malik (califado 685-705) fomentou a centralização do império e elevou o estatuto do árabe, tornando-o a lingua franca do mesmo. Foi também durante o seu reinado que Tunes foi conquistada (em 693); a população berbere local aceitou o Islão e, com o tempo, viria a expandir as fronteiras do império até à Península Ibérica. A província rebelde do Iraque (devido à presença de muçulmanos xiitas) foi igualmente mantida sob controlo, através da sua colocação sob o comando de um governador implacável, mas leal — Hajjaj ibn Yusuf (661-714):

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O único dos omíadas a receber elogios dos historiadores muçulmanos foi o altamente devoto e piedoso Umar II.

O império atingiu a sua máxima extensão sob o domínio do filho de Abd al-Malik — Walid I (califado 705-715), sob cuja égide grandes generais acrescentaram vastas extensões de novos territórios ao império. Muhammad ibn Qasim conquistou com sucesso partes do que é hoje o Paquistão (por volta de 712), enquanto Qutayba ibn Muslim conquistou a Transoxiana (por volta de 713). Tariq ibn Ziyad iniciou a conquista muçulmana da Hispânia em 711, tendo sido reforçado por Musa ibn Nusayr; aquando da morte de Walid, a dupla já havia conquistado a maior parte da Península Ibérica.

O único dos Omíadas a receber elogios por parte dos historiadores muçulmanos foi o profundamente devoto e piedoso Umar ibn Abd-Al-Aziz (califado 717-720). Também conhecido como Umar II, era dedicado ao Islão e o seu curto reinado foi reminiscentes do anterior Califado Rashidun. Promoveu a igualdade, facilitou a conversão ao tornar os impostos mais leves para os muçulmanos não-árabes, pôs fim às maldições públicas dirigidas a Ali e interrompeu as incursões contra vizinhos pacíficos do império. A sua postura inabalável em relação à justiça e à piedade colocou-o em rivalidade com o seu próprio clã, que o assassinou em 720; é recordado até aos dias de hoje como uma figura lendária pelos muçulmanos.

No final da década de 740, as divisões internas e as constantes guerras civis de sucessão — a par da incompetência dos governantes — haviam deixado o império fraturado. Marwan, um líder capaz, emergiu do conflito civil final em 744, mas viria a ser o último da sua linhagem a governar o império. Em 750, foi derrotado por uma nova força: os Abássidas. Com a morte de Marwan, terminou o domínio incontestado dos Omíadas — embora estes tenham mantido uma pequena parte do seu antigo império: o Al-Andalus (que persistiu até 1492).

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A Dinastia Abássida

Os Abássidas eram descendentes de Abbas, tio do Profeta Maomé, e utilizaram esse facto para legitimar a sua pretensão ao califado. Após os Abássidas terem derrubado os Omíadas em 750 d.C., Abu Abbas As-Saffah — «o Sanguinário» (califado 750-754) — foi declarado califa. As sepulturas dos Omíadas na Síria foram profanadas e os seus restos mortais queimados; quanto aos membros masculinos vivos, foram todos massacrados, exceto um — Abd al-Rahman I. Este escapou aos Abássidas numa jornada perigosa até ao Al-Andalus, onde estabeleceu o Emirado (mais tarde Califado) Omíada de Córdova (em 756), que viria a rivalizar com os Abássidas em elegância e grandiosidade.

As-Saffah Being Proclaimed Caliph
As-Saffah sendo proclamado califa Muhammad Bal'ami (Public Domain)

Al-Mansur (califado 754-775), o sucessor de As-Saffah, criou uma nova capital junto ao rio Tigre — Bagdade (no atual Iraque) — uma cidade que superava todas as cidades europeias da época em todos os aspetos. Artistas, arquitetos, eruditos, poetas, historiadores, cientistas, astrólogos, matemáticos e especialistas de diversas outras áreas contribuíram para a elevação da cidade, transformando-a num centro de saber e de cultura no império islâmico.

Sob o califa Harun al-Rashid (califado 786-809), o mais famoso dos Abássidas (que figurou também com destaque em contos populares e lendas), foi estabelecida a Grande Biblioteca de Bagdade — a Bayt al-Hikma (Casa da Sabedoria) —, que se tornou o centro de saber do mundo. Aqui, as obras clássicas dos gregos foram traduzidas para árabe e, com o tempo, seria em grande parte graças à Bayt al-Hikma que a Renascença Europeia viria a ter lugar, uma vez que, de outro modo, todos os manuscritos gregos teriam sido perdidos. O seu reinado é recordado como a idade de ouro dos Abássidas; o seu governo não só realizou grandes avanços na administração, como ele próprio demonstrou grande competência no campo de batalha, liderando exércitos na Ásia Menor em campanhas militares bem-sucedidas contra os bizantinos em 806.

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As Conquistas Muçulmanas Entre os Séculos VII e IX
Mapa das Conquistas Islâmicas nos Séculos VII-IX Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

A sua decisão de dividir o império entre os seus dois filhos, Al-Amin e Al-Ma'mun, desencadeou uma guerra civil dispendiosa após a sua morte, da qual Al-Ma'mun (califado 813-833) saiu vitorioso. Esta guerra civil foi uma das principais causas para o colapso do império. Al-Ma'mun foi um patrono das artes e do saber, mas não se revelou tão politicamente ativo como os seus antecessores, nem demonstrava o mesmo respeito pela sua fé. Com a morte de Al-Ma'mun, perdeu-se também o apogeu do império; na verdade, mesmo durante o seu reinado, diversas regiões do império haviam começado a separar-se, constituindo-se como emirados independentes.

Os candidatos ao califado começaram a depender fortemente de guarda-costas turcos para conquistarem o trono, uma vez que o império se encontrava quase permanentemente em estado de guerra civil. O custo astronómico destes exércitos privados, aliado a governantes incompetentes que não conseguiam manter um controlo férreo sobre o vasto império, deixou-os virtualmente na bancarrota. Além disso, em 90, surgiu um (anti-)califado xiita rival nas regiões ocidentais do Norte de África, expandindo-se depois até ao Egito e ao Hejaz; estes autodesignavam-se Fatímidas — os descendentes de Fátima, filha do Profeta (estes xiitas pertenciam a uma seita radical chamada Ismaelita ou «dos Sete», pois acreditavam em apenas sete imames, ao contrário dos muçulmanos xiitas maioritários com os quais estamos familiarizados hoje, que acreditam numa linhagem diferente de doze imames). Os Fatímidas continuariam a operar até 1171 d.C., data em que foram abolidos por Saladino (1137-1193), que colocou o Egito sob a suserania dos Abássidas.

A somar a esta fragmentação, os Abássidas, eles próprios sunitas, passaram a ser dominados por um império iraniano xiita chamado Buídas — nome que deriva do seu fundador Ali ibn Buya (cerca de 891-949). Em 945, os Buídas capturaram Bagdade e reduziram os califas a meras figuras de proa. Os Buídas foram, por sua vez, derrubados em 1055 d.C. pelos Seljúcidas, uma tribo turca da Ásia Central que aceitara a vertente sunita do Islão no século XI e iniciara a expansão do seu império até à Ásia Menor. Os Seljúcidas capturaram Bagdade, mas nada mudou para os califas; estes mantiveram apenas os seus títulos. Os Seljúcidas caíram tão rapidamente quanto ascenderam e, por volta do século XII, já não eram a força forte e formidável que haviam sido. Foram meros espetadores nas Cruzadas (1095-1291), um conflito que fora iniciado precisamente pela sua ascensão e pela ameaça que haviam representado para o Império Bizantino após a Batalha de Manzikert (1071). Os Abássidas aproveitaram esta oportunidade para obter uma autonomia completa, embora efémera.

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Mongol Siege of Baghdad
Cerco Mongol à Bagdá Sayf al-vâhidî (Public Domain)

Contudo, uma nova ameaça emergia agora das estepes da Ásia Central: os Mongóis. O califa Al-Must'asim (califado 1242-1258), o último dos governantes formais abássidas, foi cercado na sua própria capital em 1258 pelas forças de Hulagu Khan. Toda a cidade foi arrasada, a sua população massacrada e Al-Must'asim foi enrolado num tapete e pisoteado pelos cascos dos cavalos. Com a destruição de Bagdade, o domínio abássida chegou ao fim, embora os «califas-sombra» tenham continuado a viver no Cairo; porém, à parte o título, nada possuíam, nem sequer qualquer significado simbólico.

O Sultanato Otomano

Em 1299, um antigo vassalo turco dos Seljúcidas e chefe tribal chamado Osman (sultanato cerca de 1299-1324) iniciou a expansão do seu domínio na Ásia Menor à custa do enfraquecido Império Bizantino, fundando o Sultanato Otomano (assim designado em honra de Osman). Osman e os seus descendentes, considerando a jihad e a expansão imperial como um dever moral, continuaram a conquistar vastos territórios de forma célere. Por volta de 1453, a partir da sua capital em Edirne (Adrianópolis), os Otomanos detinham o domínio sobre territórios na Ásia Menor, toda a Anatólia e diversas regiões nos Balcãs. Duas grandes tentativas da Cristandade Europeia para travar o seu avanço fracassaram em 1389 (Batalha do Kosovo) e em 1444 (Batalha de Varna).

Em 1453, Constantinopla era tudo o que restava do domínio bizantino e o sultão otomano Mehmed II (sultanato 1451-1481) estava determinado a conquistá-la. O cerco de Mehmed revelou-se bem-sucedido e a cidade tornou-se a nova capital do Sultanato. Com a posse dos Dardanelos, os Otomanos detinham o monopólio das principais rotas comerciais (parte da Rota da Seda) no Médio Oriente e na Eurásia, e não tinham qualquer intenção de as partilhar com o resto do mundo. Fecharam a Rota da Seda, o que forçou outras potências ocidentais a explorar o mundo desconhecido — a Era dos Descobrimentos —, culminando na conquista do chamado «Novo Mundo» pelas potências europeias.

Mehmed II Conquers Constantinople
Mehmed II Conquista Constantinopla Jean-Joseph Benjamin-Constant (Public Domain)

Mehmed, tal como os sultões anteriores, havia reivindicado para si o título de califa e, não havendo mais ninguém que lhe disputasse o cargo, a pretensão era, de certa forma, legítima. Esta foi, contudo, reforçada em 1517, quando o sultão Selim I conquistou o Sultanato Mameluco e transferiu oficialmente o título dos califas-sombra abássidas para os Otomanos. Os Otomanos mantiveram este título por mais quatro séculos; embora o mundo muçulmano não estivesse unido como outrora, a importância simbólica (semi-religiosa) do califado persistiu nos corações dos muçulmanos, que o viam como um símbolo de unidade da Ummah, e os turcos eram igualmente honrados por isso. A derrota dos Otomanos na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) levou à ascensão da Turquia nacionalista, cujo fundador — Mustafa Kemal Pasha — aboliu oficialmente a instituição do califado em 1924. Após esse momento, nenhuma outra nação assumiu a autoridade califal sobre o mundo islâmico.

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Conclusão

A instituição do califado apresentou três grandes fases de evolução. Inicialmente, começou como um sistema político de inspiração religiosa, cujo detentor deveria garantir que a «lei de Deus» prevalecesse sobre a sua terra, embora a falta de centralização fizesse com que a maioria dos costumes locais e estruturas administrativas persistissem nos territórios recém-conquistados. Esta fase inicial continha uma falha grave: a inspiração religiosa não era suficiente para assegurar a posição dos califas.

Após o assassínio de Uthman, tornou-se evidente que a componente política da instituição era a dominante e que o califado podia ser simplesmente «arrebatado». Isto foi reafirmado quando as dinastias Omíada e Abássida ascenderam ao poder. Ambas enfrentaram forte resistência e ressentimento, mas continuaram a governar apesar disso (algo que os primeiros califas não teriam conseguido fazer, considerando a benevolência de Uthman e a sua relutância em usar o poder militar para suprimir revoltas). Estes dois impérios também introduziram e fundiram o conceito de domínio dinástico com o califado, ou seja, o califado passava a poder ser herdado.

Quando os Otomanos assumiram oficialmente a pretensão incontestada ao califado em 1517, tornaram-se os primeiros não-árabes (por etnia) a obter o «comando dos fiéis». Esta mudança trouxe também um novo sentido de igualdade ao mundo muçulmano; muçulmanos árabes e não-árabes eram iguais em todos os aspetos, inclusive na política. A abolição da instituição e a ausência de esforços para a reviver são consideradas lamentáveis pelos muçulmanos que acreditam que, embora o poder político e militar da instituição se tivesse perdido há muito, a sua importância simbólica para a comunidade islâmica como um sistema político semi-religioso e a inspiração que proporcionava constituíam um legado cultural inestimável.

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Bibliografia

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Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Tradutora e autora, o gosto pelas letras é infindável – da sua concepção ao jogo de palavras, da sonoridade às inumeráveis possibilidades de expressão.

Sobre o Autor

Syed Muhammad Khan
Muhammad é biólogo, entusiasta de história e escritor freelancer. Ele tem contribuído ativamente à seção de história islâmica da Enciclopédia desde 2019.

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Estilo APA

Khan, S. M. (2026, abril 09). Califados Islâmicos. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-18629/califados-islamicos/

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Khan, Syed Muhammad. "Califados Islâmicos." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, abril 09, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-18629/califados-islamicos/.

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Khan, Syed Muhammad. "Califados Islâmicos." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 09 abr 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-18629/califados-islamicos/.

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