Czar

Liana Miate
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Ivory Throne of Ivan IV of Russia (by Stan Shebs, CC BY-SA)
Trono de Marfim de Ivan IV da Rússia Stan Shebs (CC BY-SA)

O termo Czar (também grafado como tsar em inglês) é uma designação eslava derivada do latim caesar. Ivan III (Ivan, o Grande) (czarado 1462-1505) foi o primeiro governante russo a começar a usar o título de czar durante o seu reinado, em vez do título de Grão-Príncipe de Moscovo. O seu neto, Ivan IV (Ivan, o Terrível) (czarado 1547-1584), foi o primeiro governante russo formalmente coroado como czar.

Na época, o título não significava poder absoluto, mas referia-se a um governante que não tinha de prestar vassalagem a um soberano estrangeiro. Os primeiros czares russos reivindicavam ser descendentes dos imperadores romanos e bizantinos para justificar ainda mais o seu direito de governar. O Patriarca de Constantinopla confirmou o título de czar num documento formal em 1561; comparou Ivan IV a um imperador bizantino, declarando que ele era o soberano de todos os cristãos ortodoxos, do Oriente ao Ocidente. O título de "czar" foi utilizado na Rússia de 1547 até 1721, altura em que a Rússia se tornou um império e Pedro, o Grande (czarado 1682-1725), foi coroado imperador.

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A Origem do Título

Os primeiros czares da Rússia adotaram genealogias mitológicas na tentativa de se ligarem à Roma imperial.

O título de czar foi inicialmente utilizado para designar os cãs da Horda Dourada e os imperadores do Império Bizantino. O termo czar servia para distinguir os imperadores romanos pagãos do passado dos imperadores cristãos da era moderna. O equivalente feminino de czar é czarina (também chamada czaritsa).

Ivan III (Ivan, o Grande) adotou o título de czar durante o seu czarado, embora nunca tenha sido formalmente coroado como tal. Naquela época, o título de czar não simbolizava um governante com poder absoluto, mas sim um soberano independente que governava as terras listadas no seu título completo. O neto de Ivan III, Ivan IV, proclamaria mais tarde que o título de czar era concedido por Deus e que qualquer oposição constituía um sacrilégio.

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Os primeiros czares da Rússia adotaram genealogias mitológicas na tentativa de se ligarem à Roma Imperial. Num tratado intitulado Сказание о князьях владимирских (transliterado como Skazaniye o knyazyakh vladimirskikh - O Conto dos Príncipes de Vladimir), incluiu-se a figura de Prus, irmão de Augusto. Dizia-se que Prus era um descendente direto de Rurik, o lendário chefe viking da Rússia de Quieve. Ivan IV referia-se frequentemente a Augusto como o seu antepassado, como forma de justificar a sua soberania. Царский титулярник (Tsarsky titulyarnik - Titular Czarista ou Livro dos Títulos do Czar) era uma coleção de biografias de príncipes e czares russos, que também apresentava Augusto e Rurik como forma de demonstrar a ligação entre esses dois grandes governantes e os monarcas russos.

Portrait of Ivan IV
Retrato de Ivan IV Viktor Vasnetsov (Public Domain)

Com o tempo, os czares passaram a ser vistos como governantes seculares capazes de realizar feitos miraculosos, quase como um deus na Terra. Simeão de Polotsk (1629-1680), um monge de Quieve, escreveu um livro intitulado Жезл правления (Zhezl pravleniya - O Cetro do Poder), no qual acrescentou características individuais ao título de czar (como "o mais piedoso"). Estas qualidades eram utilizadas na Igreja e na corte, embora não fizessem parte do título formal de um czar.

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A Terceira Roma

A segunda mulher de Ivan III foi Sofia Paleóloga (cerca de 1449-1503), sobrinha do último imperador bizantino, Constantino XI (reinou 1449-1453). Ivan III escolheu-a como noiva para trazer a grandeza bizantina para a corte russa. A influência de Sofia sobre o marido provocaria mudanças significativas na Rússia ao longo dos 400 anos seguintes. Por sugestão dela, Ivan III incorporou a águia bicéfala bizantina no brasão de armas russo. Também incluiu certas tradições bizantinas nas cerimónias russas, passando a adotar coroações mais solenes e baseadas na Igreja. Durante este período, começou a assinar os seus documentos com o título de "czar".

Artistic Facial Reconstruction of Sophia Palaiologina (Palaeologus)
Reconstrução Facial Artística de Sofia Paleóloga (Palaeologus) Sergey Nikitin (CC BY-SA)

Ivan III via-se como o herdeiro do trono do Império Romano do Oriente. Acreditava que Moscovo era a "Terceira Roma", a sucessora de Roma e de Constantinopla como capital do mundo cristão. Três lendas sustentavam a pretensão de Moscovo como a "Terceira Roma". A primeira era a crença de que Santo André († cerca de 60) tinha trazido o cristianismo para a Rússia; a segunda era a ligação familiar dos czares aos imperadores romanos e bizantinos. A terceira lenda estabelecia a Igreja Ortodoxa Russa como a sucessora da Igreja Ortodoxa Grega. Esta girava em torno do conto de que o avô do Grão-Príncipe Vladimir II Monomakh (reinou 1113-1125), o imperador bizantino Constantino IX Monómaco (reinou 1042-1055), tinha oferecido ao príncipe Vladimir o governo conjunto do Império Bizantino e da Igreja Ortodoxa. Contudo, o que a lenda omite é que Constantino IX morreu antes de Vladimir se ter sequer tornado príncipe, pelo que não existe qualquer veracidade neste relato.

A Coroação dos Czares

Сказание о царях владимирских (Skazaniye o tsaryakh vladimirskikh - A Lenda de Monómaco) explicava também o esplendor da coroação imperial russa e das suas insígnias; de acordo com a lenda, Vladimir Monómaco recebeu as insígnias imperiais do seu avô. Macário, o Metropolita (arcebispo) de Moscovo (1482-1563), concebeu o primeiro rito de coroação imperial russo para a subida ao trono de Ivan IV, então com 17 anos, em 1547. Ao contrário das coroações reais francesas e inglesas, que apresentavam tradições medievais como os Pares do Reino e os Ritos de Cavalaria, a cerimónia russa era uma manifestação de absolutismo, inspirada nos ritos bizantinos do século XIV. As insígnias, que incluíam o Gorro de Monómaco (coroa), um cetro, a cruz e peças de ombro, eram prova de uma ligação a Bizâncio.

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Nas coroações russas, a unção ocorria após a investidura.

A coroação começava com Ivan IV a solicitar a Macário que consagrasse os seus laços hereditários ao título de czar. Macário confirmou o direito de Ivan IV ao trono, colocou a cruz ao pescoço do monarca, impôs as mãos sobre a sua cabeça e leu a bênção. Este gesto completava o ato de consagração. Ivan IV era coroado e empunhava o orbe e o cetro. Na parte final da coroação, Macário lia o preceito: as obrigações do czar para com a Igreja e os seus súbditos. A futura morte do czar e o seu governo no céu, ao lado de Deus e dos santos, eram reconhecidos como uma recompensa pela sua piedade perante Deus.

A unção foi acrescentada à cerimónia de coroação na década de 1550, tornando-se parte da tradição nas coroações imperiais russas a partir desse momento. Nas coroações russas, a unção ocorria após a investidura; era realizada para significar que o czar era o mais santo de todos os homens e o igual a todos os soberanos ocidentais. Contudo, não tinha relevância para a consagração do poder secular do czar.

Durante o seu reinado, o Czar Aleixo da Rússia (czarado 1645-1676) introduziu duas novas tradições na cerimónia de coroação: a comunhão e a recitação do Credo. Estas duas adições garantiram que a cerimónia tivesse ainda mais pontos em comum com as coroações dos governantes bizantinos e europeus. As coroações terminavam, habitualmente, com um banquete luxuoso que consolidava a solidariedade entre a Igreja e o Estado. O patriarca, ou chefe da Igreja, recebia o czar no espaço sagrado e religioso, enquanto, durante o banquete, o czar recebia o patriarca no Palácio das Facetas, um espaço secular.

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Czar de Todas as Rússias

À medida que mais territórios passavam para o controlo russo, Ivan IV começou a chamar à Rússia "Rossiia" em vez de "Rus", que se referia apenas aos territórios do Principado de Moscovo. Durante o czarado do Czar Aleixo, nas décadas de 1650 e 1660, o czar passou a utilizar o título de "Czar de todas as Rússias" após a Rússia ter conquistado mais terras, incluindo Quieve, Smolensk e a Rússia Branca (atual Bielorrússia). Lavrentii Khurulevich, um mestre de heráldica austríaco, criou um novo selo estatal: uma águia com as asas erguidas, a imitar o selo do Sacro Império Romano-Germânico. A águia segurava um orbe e um cetro nas suas garras, que simbolizavam "o Soberano mais gracioso, Sua Majestade Imperial, Autocrata e Possuidor". Três coroas acima da águia representavam a Sibéria, Cazã e Astracã, e três colunas nas bordas simbolizavam a Grande, a Branca e a Pequena Rússia.

Map of the Tsardom of Russia under Ivan IV, the Terrible
Mapa do Czarado da Rússia sob o Reinado de Ivan IV, o Terrível Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Os Czares e a Igreja Ortodoxa Russa

A Igreja Ortodoxa Russa desempenhava um papel considerável na vida de todos os russos, e os czares não eram exceção. O poder de um czar dependia da sua piedade e moralidade pessoais. Eram vistos como defensores da Igreja Ortodoxa; mais importante ainda, a Igreja era um pilar fundamental do Estado autocrático, e os seus ministros obedeciam ao czar. Em contrapartida, a maioria dos czares respeitava a hierarquia da Igreja e protegia-a.

Em 1589, sob o czarado de Feodor I (1584-1598), foi eleito um patriarca. Ao colocar um patriarca à frente da Igreja Ortodoxa, libertou-a da supremacia estrangeira. Naquela época, o Império Russo era o único Estado ortodoxo livre de interferências soberanas estrangeiras, pelo que era natural que a Igreja Ortodoxa Russa quisesse seguir os passos da Rússia. O patriarca estava encarregado da justiça eclesiástica; era financiado pelas vastas propriedades dos ricos e pelas receitas obtidas pelos mosteiros; e à semelhança do czar, possuía os seus próprios tribunais de justiça, contabilidade e serviços administrativos. Um patriarca era, para todos os efeitos, um czar da Igreja.

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O Czar Aleixo esforçou-se por transformar a Igreja Ortodoxa Russa numa igreja universal e numa forma de ortodoxia. A Igreja sofreu várias reformas durante o século XVII, incluindo a substituição da liturgia e dos livros por versões gregas e ucranianas, a revisão de textos e a substituição de ícones religiosos por outros novos que exibiam o sinal da cruz com três dedos. O Czar Aleixo nomeou o Patriarca Nikon (1605-1681) para supervisionar estas reformas. O Patriarca Nikon via-se como um co-czar e persuadiu Aleixo a participar em rotinas litúrgicas estritas, nas quais Aleixo vestia ricas túnicas douradas que se assemelhavam às dos imperadores bizantinos e transportava um orbe e um cetro fabricados em Istambul. Durante os serviços religiosos, era tratado como sagrado (sviatoi), o que conferia a Aleixo as qualidades de um semideus, contrariando as crenças religiosas da Igreja Ortodoxa Russa. Aleixo era apresentado como o monarca absoluto que detinha primazia tanto secular como eclesiástica.

Young Tsar Alexis and Patriarch Nikon
O Jovem Czar Aleixo e o Patriarca Nikon Alexander Litovchenko (Public Domain)

Os servos (nobres que participavam em cerimónias militares ou religiosas sob ameaça de punição) ajudavam a sustentar o papel do czar como governante piedoso, juntando-se às procissões e serviços religiosos na condição de escravos do monarca. Estas procissões religiosas seriam um espetáculo impressionante, com o czar e os seus servos engalanados com ouro, esmeraldas e pérolas. Em 1658, Aleixo desentendeu-se com Nikon e exilou-o da Igreja, mas manteve as suas reformas. O ostracismo de Nikon provou que era impossível para a Igreja assumir uma posição contra o czar. Por outro lado, o Estado tinha todo o direito de interferir nos assuntos eclesiásticos.

O filho de Aleixo, Pedro, o Grande, foi um pouco mais longe e aboliu por completo o cargo de patriarca, uma vez que receava o poder da Igreja e estava consciente dos obstáculos que surgiriam relativamente às múltiplas reformas que desejava implementar. Inspirado pelas várias reformas religiosas na Europa Ocidental, Pedro I estabeleceu um Colégio Eclesiástico (Santo Sínodo) em 1721, que compreendia vários colégios cujo objetivo era inovar ainda mais a Igreja.

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Foi entregue um Código Eclesiástico a cada bispo, que os alertava contra o excesso de orgulho e os lembrava de que os seus cargos eram de subordinação e não estavam ao mesmo nível de um czar. O Santo Sínodo era visto como a mão do czar, um instrumento num Estado autocrático. Contudo, o czar não deveria ser visto como o chefe da Igreja Ortodoxa – apenas Deus era reconhecido nesse papel. Qualquer poder que o czar tivesse sobre a Igreja Ortodoxa Russa era externo e apenas relevante no que dizia respeito à administração da Igreja, não ao dogma ou aos ensinamentos religiosos. Após ser coroado pela Igreja, o czar torna-se o mais alto representante da Igreja Ortodoxa Russa e um Defensor da Igreja: ele é nomeado pelo próprio Deus para governar sobre os crentes da fé cristã.

Portrait of Peter I of Russia
Retrato de Pedro I da Rússia Maria Giovanna Clementi (Public Domain)

Os Czares da Rússia

Os czares da Rússia formalmente coroados incluem:

  • Ivan IV da Rússia (Ivan, o Terrível) (czarado 1547-1584)
  • Feodor I da Rússia (czarado 1584-1598)
  • Boris Godunov (czarado 1598-1605)
  • Feodor II da Rússia (czarado 1605-1605)
  • Falso Demétrio I da Rússia (czarado 1605-1606)
  • Basílio IV da Rússia (czarado 1606-1610)
  • Miguel I da Rússia (czarado 1613-1645)
  • Aleixo da Rússia (czarado 1645-1676)
  • Feodor III da Rússia (czarado 1676-1682)
  • Ivan V da Rússia (czarado 1682-1696)
  • Pedro I da Rússia (Pedro, o Grande) (czarado 1682-1721)

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Perguntas & Respostas

O que significava «czar»?

«Csar» é um termo eslavo derivado do latim «caesar» e refere-se a um governante semelhante a um imperador que não devia lealdade a outros soberanos.

Escreve-se «tsar» ou «czar»?

Tanto «czar» como «tsar» estão corretos na língua inglesa. No entanto, quando se fala da Rússia, «czar» é mais correto em português.

O czar era bom ou mau?

Houve czares bons e maus, dependendo do seu czarado. Ivan IV era conhecido como Ivan, o Terrível, por exemplo, enquanto Pedro I era conhecido como Pedro, o Grande.

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Miate, L. (2026, julho 08). Czar. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-19765/czar/

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Miate, Liana. "Czar." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, julho 08, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-19765/czar/.

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Miate, Liana. "Czar." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 08 jul 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-19765/czar/.

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