Legiões da Panônia

Donald L. Wasson
por , traduzido por Raimundo Raffaelli-Filho
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Situada a oeste do rio Danúbio, a Panônia era fundamental para a proteção da fronteira oriental do Império Romano. A região estava ocupada desde 9 a.C., mas não aceitou de bom grado a autoridade romana. A Panônia e a Dalmácia rebelaram-se em 6 d.C. e foram necessários três anos e um total de onze legiões para finalmente alcançar a vitória romana, em 9 d.C. Para garantir a paz, quatro legiões foram designadas para a Panônia: X Gemina, XIV Gemina, I Adiutrix e II Adiutrix.

Aquincum
Aquincum Kevin Hoogheem (CC BY-NC-ND)

A Revolta Panônia

Após anos de conflito com Roma, a Panônia finalmente caiu sob domínio romano, em 9 a.C. A paz instável que se seguiu não durou muito. Quando o comandante romano e futuro imperador Tibério (reinou de 14 a 37 d.C.) retirou legiões da Panônia e da Dalmácia para sua campanha na Germânia, em 5 d.C., as duas províncias aproveitaram a oportunidade para se rebelar. O exército rebelde panônio atacou primeiro, marchando em direção à Macedônia. Paralelamente, rebeldes dálmatas começaram a realizar incursões em cidades vizinhas, atacando tropas auxiliares romanas e massacrando cidadãos romanos. Com esse sucesso inicial, cada vez mais dálmatas aderiram à causa. Por fim, os rebeldes chegaram a somar mais de 200.000 pessoas — um quarto da população combinada das duas regiões. Embora cercados pelo exército rebelde, o governador da Dalmácia, Marco Messalino e coortes da 20ª Legião conseguiram derrotar os rebeldes. Após os panônios sitiarem Sírmio (Sirmium em latim, atual Sremska Mitrovica, no Norte da Sérvia), o governador da Mésia, Cecina Severo e suas legiões marcharam para o oeste para enfrentar o comandante panônio e seu exército, derrotando-o.

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FOI NECESSÁRIO UM TERÇO DO EXÉRCITO ROMANO PARA FINALMENTE REPRIMIR A REVOLTA DA PANÔNIA.

Com o ataque dálmata a Salonae (atual Solin, na Croácia) e grande parte da costa do Adriático sob controle rebelde, o pânico que se espalhou pela Itália forçou o imperador romano Augusto (reinou 27 a.C. – 14 d.C.) a convocar Tibério de volta. À frente da Legio VIII Augusta, Legio XI Hispana, Legio XIV Gemina Martia Victrix, Legio XV Apollinaris e coortes da Legio XX, ele marchou em direção às províncias rebeldes. Além de Tibério, Augusto enviou o jovem Germânico (15 a.C. – 19 d.C.) aos Bálcãs com uma força composta por tropas de não cidadãos e por evocati (veteranos que já tinham terminado o seu serviço militar e recebido dispensa, mas que eram convocados novamente para o exército por um general ou pelo imperador devido à sua experiência e prestígio). Enquanto isso, Aulo Cecina Severo e Pláucio Silvano chegaram do Oriente com cinco legiões. Ao todo, o exército romano contava com 10 legiões, 70 coortes de tropas auxiliares, 14 alas de cavalaria e 10.000 evocati.

Os panônios abandonaram o plano de marchar sobre Roma e o comandante dálmata passou a desconfiar da lealdade de seu homólogo à causa. O líder panônio foi capturado, julgado, considerado culpado e executado. Em seguida, o exército romano sitiou várias cidades dálmatas. As baixas foram elevadas em ambos os lados, sendo necessário o emprego de um terço do exército romano para finalmente sufocar a revolta. Antes de ser levado para cumprir o restante de sua vida em prisão domiciliar, o comandante dálmata fez um último comentário, culpando Roma pela guerra: "Somos os vossos rebanhos; contudo, não enviastes pastores para cuidar de nós, enviastes lobos." (citado em Dando-Collins, 234). Anos mais tarde, o historiador Suetônio (cerca de 69 – cerca de 130/140 d.C.) escreveu, em sua biografia de Tibério, sobre a gravidade da rebelião. Ele afirmou que a revolta "revelou-se a mais feroz de todas as guerras estrangeiras desde que Roma derrotou Cartago" (Os Doze Césares, 114).

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Roman Empire under Augustus
Império Romano sob Augusto Cristiano64 (CC BY-SA)

Em sua obra The Complete Roman Legions (Tudo sobre as Legiões Romanas), o historiador Nigel Pollard posiciona quatro legiões permanentemente na Panônia:

Legio X Gemina

A origem da Legio X Gemina (emblema: touro; signo: Capricórnio) é incerta. Como as primeiras legiões eram conhecidas por um número e não por um nome, alguns historiadores acreditam que a X Gemina seja a mesma 10.ª legião que serviu com Júlio César (100-44 a.C.) na Gália e, mais tarde, contra Pompeu, o Grande (106-48 a.C.), nas Guerras Civis. É possível que ela tenha lutado na Batalha de Farsalos (48 a.C.; na Tessália, Grécia; derrotando Pompeu), na Batalha de Tapso (46 a.C.; na Tunísia; derrotando os remanescentes apoiadores de Pompeu) e na Batalha de Munda (45 a.C., na Andaluzia, Espanha; derrotando definitivamente os últimos seguidores de Pompeu). A legião teria sido dissolvida, apenas para ser reconstituída, lutando contra os assassinos de César, em Filipos (42 a.C.; na Macedônia), e ao lado de Marco Antônio (30 a.C.) em sua campanha contra os partas (na região dos atuais Irã e Iraque). Uma 10.ª legião fazia parte do exército de Marco Antônio que foi derrotado por Otaviano (o futuro Augusto) na Batalha de Áccio, em 31 a.C. Segundo Suetônio, Otaviano "deu à Décima Legião inteira uma dispensa ignominiosa devido ao seu comportamento insolente..." (55). Mais tarde, a legião foi reformada por Augusto a partir da fusão de duas legiões, daí o título Gemina.

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RELATA-SE QUE A LEGIO X GEMINA PARTICIPOU DE AMBAS AS GUERRAS DÁCIAS DE TRAJANO (reinou 98-117 D.C.) E, POSSIVELMENTE, DE SUA CAMPANHA CONTRA OS PARTAS.

Ao chegar à Espanha, em 30 a.C., a Legio X Gemina serviu sob o comando de Otaviano em sua campanha na Cantábria. Posteriormente, ficou sediada em Petavonium (atual Santibáñez de Vidriale, na Espanha, a cerca de 80 km de Zamora). No início da década de 60 d.C., a legião foi transferida, juntamente com a XIV Gemina Martia Victrix, para Carnuntum (na atual Áustria, às margens do rio Danúbio, entre as cidades de Viena e Bratislava), preparando-se para a invasão da Pártia (no nordeste do atual Irã) planejada por Nero (reinou 54-68 d.C.), mas que acabou não ocorrendo. No entanto, com a eclosão da Grande Revolta Judaica em 66 d.C., a 10.ª legião retornou à Espanha. Embora tivesse declarado apoio a Vitélio, governador da Germânia Inferior, contra Otão, em 69 d.C., a legião não participou da Batalha de Bedriaco nem da marcha dele sobre Roma. Em 70 d.C., foi transferida para o Reno para auxiliar na campanha de Petílio Cerial contra a Revolta dos Batavos, liderada por Júlio Civilis, combatendo na Batalha de Vetera (o "Velho Acampamento", na atual Xanten, Alemanha). Posteriormente, foi aquartelada em Ulpia Noviomagus (atual Nijmegen, Países Baixos). Uma década mais tarde, integrou a força que derrotou a revolta do governador Lúcio Saturnino contra Roma.

De volta à Panônia, em Aquincum (atual Budapeste, Hungria), no ano de 101 d.C., a legião teria participado de ambas as Guerras Dácias de Trajano (reinou 98-117 d.C.) e, possivelmente, de sua campanha contra os partas. Foi então transferida para Vindobona (atual Viena, Áustria). Mais tarde, serviu sob o comando de Lúcio Vero (reinou 161-169) em uma batalha contra os partas e sob o de Marco Aurélio (reinou 161-180) na guerra contra os marcomanos. A Legio X Gemina apoiou a pretensão de Septímio Severo (reinou 193-211) ao trono romano e lutou sob suas ordens contra o pretendente Pescênio Níger. Embora as fontes divirjam, parece que, no século III, a legião acompanhava o imperador Aureliano (reinou 270-275) quando este derrotou a rainha Zenóbia. A legião permaneceu em Vindobona durante todo o restante de sua existência.

Legio XIV Gemina Martia Victrix

A Legio XIV Gemina Martia Victrix (emblema: asas de águia e raios; signo: Capricórnio) foi formada originalmente por Júlio César, por volta de 57 a.C. Foi destruída durante sua campanha contra os belgas, mas acabou sendo reconstituída, servindo com César nas Guerras Civis e na Batalha de Tapso, em 46 a.C. Embora as fontes não sejam claras, é possível que a 14.ª Legião tenha acompanhado Otaviano na Batalha de Áccio, em 31 a.C. Assim como a 10.ª, ela foi novamente reconstituída e fundida com outra legião. Inicialmente parte da campanha de Tibério contra os marcomanos, também acompanhou o comandante na Pártia. Posteriormente, foi transferida para a Germânia Superior, compartilhando uma base com a Legio XVI Gallica.

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Standard-bearer of Legio XIV Gemina
Porta-estandarte da Legio XIV Gemina Carole Raddato (CC BY-SA)

A 14.ª foi uma das legiões enviadas por Cláudio (reinou 41–54 d.C.) à Britânia em 43 d.C., onde ajudou a derrotar as forças de Boudica entre 60 e 61 d.C. Algumas fontes sugerem que a 14.ª recebeu de Nero o título de Martia Victrix ("guerreira e vitoriosa") devido aos seus feitos na Britânia romana, e Tácito referiu-se a ela como a "Conquistadora da Britânia". Em 68 d.C., a legião foi retirada da Britânia para servir com Nero em sua campanha abortada no Oriente. Após a morte de Nero, a 14.ª apoiou Otão, mas não chegou a tempo de prestar qualquer auxílio em Bedriaco. Vitélio (reinou 69 d.C.) enviou a legião de volta à Britânia. Ao retornar ao continente, juntamente com outras legiões da fronteira do Reno, a Legio XIV ajudou a reprimir a Revolta dos Batavos. Transferida para Moguntiacum (atual Mainz/Mogúncia, na Alemanha), compartilhou uma base com a Legio XXI Rapax. Após apoiar Saturnino em sua revolta, a legião foi enviada para a Panônia, onde ficou sediada em Vindobona, participando de campanhas contra os suevos e sármatas, entre 92 e 93 d.C. Mais tarde, lutou sob o comando de Trajano nas Guerras Dácias. Sediada em Carnuntum durante o restante de sua existência, serviu tanto sob Lúcio Vero quanto sob Marco Aurélio.

Legio I Adiutrix

A formação da Legio I Adiutrix (emblema: Pégaso; signo: Capricórnio) é cercada de controvérsias. Ela foi formada por Nero ou por Galba, a partir de marinheiros da frota de Miseno. Após não receberem sua oficialização de Nero, os soldados levaram seu pleito ao novo imperador, Galba. Enquanto marchava em direção a Roma, Galba — mais irritado do que o habitual — recusou o pedido e ordenou que sua guarda pessoal atacasse os aspirantes a legionários na Ponte Mílvia. Com vários deles mortos e outros aprisionados, o futuro da legião parecia improvável. No entanto, surgiu uma possibilidade quando eles apelaram a Otão, que desafiava Galba pelo trono. Com certo atraso, Galba oficializou a I Adiutrix, esperando que ela o apoiasse contra Otão. Contudo, a nova legião declarou apoio a Otão, e não a Galba. Ao assumir o trono, Otão integrou à I Adiutrix os sobreviventes restantes do massacre da Ponte Mílvia.

Como eram marinheiros, a legião escolheu Pégaso — filho de Netuno, o deus romano do mar — como seu emblema. Na Primeira Batalha de Bedríaco, Otão foi derrotado por Vitélio, e o novo imperador enviou a I Adiutrix para a Espanha. Quando Vitélio foi desafiado pelo trono, a I Adiutrix apoiou Vespasiano (reinou 69–79 d.C.); a forma como Vitélio a tratara após a primeira batalha de Bedríaco ainda estava viva em sua memória. A legião, ainda relativamente nova, demonstrou bravura ao enfrentar legiões muito mais experientes. Em 70 d.C., Vespasiano enviou a legião para Moguntiacum, onde ela compartilhou a base com a XIV Gemina.

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Brick Stamp of Legio I Adiutrix
Carimbo em Tijolo da Legio I Adiutrix Haselburg-müller (CC BY-SA)

Mais tarde, a legião foi transferida para Brigetio (atual Komárom, na Hungria), na Panônia. A legião participou da campanha de Domiciano (reinou 81–96 d.C.) contra os dácios, em 88 d.C., na Batalha de Tapae. Embora quatro legiões estivessem estacionadas na Mésia na época da marcha de Trajano para a Dácia para enfrentar Decébalo, a Legio I Adiutrix— juntamente com a XIV Gemina, a XV Apollinaris, a X Gemina e a II Adiutrix — juntou-se a ele. Algumas das legiões das Guerras Dácias acompanharam Trajano para lutar ao seu lado na campanha parta de 116–117. O sucessor de Trajano, Adriano (reinou 117–138), transferiu a legião para o Danúbio, onde ela lutaria com Marco Aurélio em sua campanha germânica.

A Legio XIV Gemina apoiou Septímio Severo em sua marcha sobre Roma para ser proclamado imperador. Ela serviu sob o comando dele contra o pretendente Pescênio Níger e, mais tarde, na campanha parta. Em 238, a legião lutou ao lado do imperador Maximino Trácio (reinou 235–238) durante o cerco a Aquileia, no norte da Itália. Após apoiar Gordiano III (reinou 238–244) contra os persas, a legião passou o restante de sua existência em Brigetio.

Legio II Adiutrix

Assim como sua legião irmã, a I Adiutrix, a Legio II Adiutrix (emblema: Pégaso; signo: Capricórnio) foi formada a partir de marinheiros da frota de Ravena da marinha romana, em 69 ou 70 d.C. Embora esse fato seja aceito, a questão mais frequente é quem a formou. Alguns historiadores sustentam que a legião provavelmente já existia pelo menos um ano antes de Vespasiano derrotar Vitélio. Para corroborar essa crença, historiadores citam uma passagem da obra Historia, de Tácito, que alude a várias legiões do exército de Vitélio, incluindo novos recrutas enviados da Gália para o Reno. No entanto, na batalha final pelo trono romano, a frota (que não participou do combate) apoiou Vespasiano, e não Vitélio. Em última análise, a resposta mais provável é que a II Adiutrix tenha sido formada por Vitélio — recrutada na Gália em 69 d.C. —, mas oficialmente incorporada ao exército por Vespasiano em 70 d.C. Após sua incorporação, a legião foi enviada ao Reno para servir sob o comando de Petílio Cerial e reprimir a Revolta dos Batavos. Juntamente com a VI Victrix, a XIV Gemina e a XXI Rapax, ela combateu Júlio Civilis e seus rebeldes em Vetera (atual cidade de Xanten, Alemanha). Assim como ocorre com sua formação, há certa controvérsia sobre o motivo pelo qual recebeu o título de Pia Fidelis (“Devota e Fiel”) de Vespasiano, em março de 70 d.C.

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Dedication of Legio II Adiutrix to Antoninus Pius
Dedicação da Legio II Adiutrix a Antonino Pio Carole Raddato (CC BY-SA)

Substituída pela Legio XXII Primigenia, a legião deixou Vetera e acompanhou Cerial à Britânia, onde combateu os brigantes, em 71 d.C. Sob a liderança do governador Agrícola, em 84 d.C., participou de campanhas na Escócia e no País de Gales. Após retornar ao continente, integrou a Guerra Dácia de Domiciano contra Decébalo e foi uma das nove legiões vitoriosas na Batalha de Tapae. Mais tarde, foi aquartelada em Singidunum (atual Belgrado, na Sérvia), juntamente com a IV Flavia Felix, na província da Mésia, durante a campanha de Trajano na Dácia. No ano de 106, foi transferida para Aquincum, na Panônia, onde manteve sua base pelo restante de sua existência. Ela serviu sob o comando de Adriano em sua campanha sármata, em 116, e combateu tanto ao lado de Lúcio Vero na guerra contra os partas quanto com Marco Aurélio contra os marcomanos. Entre 132 e 135, auxiliou a reprimir a Revolta de Barcoquebas. A II Adiutrix apoiou as pretensões de Sétimo Severo ao trono de Roma, em 193, lutando contra o pretendente Pescênio Níger e participando da campanha de Severo contra os partas. Existem indícios de que a legião também combateu sob as ordens dos imperadores Caracala e Gordiano III.

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Wasson, D. L. (2026, julho 03). Legiões da Panônia. (R. Raffaelli-Filho, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1868/legioes-da-panonia/

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Wasson, Donald L.. "Legiões da Panônia." Traduzido por Raimundo Raffaelli-Filho. World History Encyclopedia, julho 03, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1868/legioes-da-panonia/.

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Wasson, Donald L.. "Legiões da Panônia." Traduzido por Raimundo Raffaelli-Filho. World History Encyclopedia, 03 jul 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1868/legioes-da-panonia/.

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