A Legio I Adiutrix (Primeira Legião Auxiliadora) foi uma legião do exército romano formada a partir de marinheiros veteranos após a morte do imperador romano Nero (reinou 54-68 d.C.). Durante sua longa trajetória, a legião acompanhou Trajano (reinou 98-117) em suas campanhas na Dácia e na Pártia, lutou ao lado de Marco Aurélio (reinou 161-180) em suas Guerras Germânicas, apoiou Septímio Severo, no ano de 193, e ainda estava ativa no século V.
Origem
Conforme seus inimigos se aproximavam durante seus últimos dias no trono, o imperador Nero estava desesperado. Embora Roma já contasse com duas legiões na cidade — a Legio XI Claudia e a Legio XV Apollinaris —, ele decidiu formar uma terceira legião a partir dos marinheiros da frota romana baseada em Miseno (importantíssima base naval romana localizada no Golfo de Nápoles.). Os marinheiros estavam ansiosos pela oportunidade porque, assim como qualquer outro legionário romano, eles agora poderiam obter a cidadania romana. A futura legião esperava impacientemente para ser condecorada com sua águia e seus estandartes quando a morte de Nero, em 68 d.C., trouxe um novo imperador ao Império Romano: o governador da Hispania Citerior, Sérvio Galba (reinou 68-69). Os 5.000 marinheiros levaram sua causa até ele, mas Galba não se mostrou tão receptivo quanto eles esperavam.
Com sua recém-formada legião espanhola, a Legio VII Gemina, acompanhando-o, Galba deixou a Espanha e chegou a Roma em outubro. Infelizmente para o novo imperador, sua tão esperada entrada na cidade logo se transformou em tumulto. A cinco quilômetros de Roma, Galba e seu exército foram recebidos por milhares de cidadãos romanos que lhe davam as boas-vindas à cidade. Em meio à multidão de romanos estavam os marinheiros, que tentaram desesperadamente apresentar seu caso a ele. No entanto, ele os ignorou, recusando-se a ouvir e prometendo analisar o pedido deles mais tarde. Naturalmente, não era isso o que os marinheiros queriam ouvir. Impedindo que outros vissem ou ouvissem o imperador falar, eles continuaram a segui-lo, gritando suas exigências. Na Ponte Mílvia, que cruzava o Tibre, a procissão parou. Ao ver um punhado de espadas desembainhadas, Galba ordenou que sua cavalaria atacasse os homens, que estavam majoritariamente desarmados. O resultado foi um banho de sangue; e sua chegada violenta o colocaria em conflito direto com os marinheiros de Miseno, com a Guarda Pretoriana e com o povo de Roma. O historiador romano Tácito (cerca de 56 - cerca de 118), em sua obra Histórias, escreveu sobre a entrada de Galba em Roma e os efeitos que ela teria a partir de então:
Sua entrada na capital, realizada após o massacre de milhares de soldados desarmados, foi do pior agouro e causou terror até mesmo nos executores. Ele trouxe para a cidade sua legião espanhola, enquanto aquela que Nero havia recrutado da frota ainda permanecia.
(Histórias, I. 6)
Sua reação severa às exigências dos marinheiros era indicação clara da reputação de crueldade do imperador. O historiador Suetônio (cerca de 69 - cerca de 130/140), em A Vida dos Doze Césares, escreveu sobre sua reputação manchada e seu tratamento brutal para com os marinheiros na ponte:
Histórias sobre a crueldade e a ganância de Galba o haviam precedido. [...] Galba mais do que confirmou essa reputação ao entrar em Roma. Ele mandou de volta para o serviço de remo alguns marinheiros que Nero havia transformado em soldados e, quando eles insistiram obstinadamente em seu direito à Águia e aos estandartes, ele não apenas os dispersou com uma carga de cavalaria, mas também os dizimou.
(249)
Aqueles que sobreviveram ao ataque brutal foram imediatamente colocados sob custódia, embora ainda exigissem sua águia e seus estandartes. Plutarco (cerca de 45/50 - cerca de 120/125.), o filósofo e historiador grego, escreve sobre a entrada de Galba de uma maneira mais condescendente com o imperador; os marinheiros foram vistos como uma turba desordenada:
Quando ele chegou a cerca de vinte e cinco estádios da cidade, deparou-se com uma turba desordenada de marinheiros que o cercaram enquanto passava. Eram aqueles a quem Nero havia transformado em soldados, reunindo-os em uma legião. Eles se aglomeraram de forma tão rude para ter sua comissão confirmada que não permitiram que Galba fosse visto ou ouvido... Galba os adiou para outra ocasião, o que eles, interpretando como recusa, tornaram-se mais insolentes e amotinados.
(1166)
Ele acrescentou que, após verem as espadas desembainhadas, "…eles logo foram postos em fuga, nenhum homem mantendo sua posição, e muitos deles foram mortos, tanto ali quanto na perseguição" (1166). Assim como Tácito, Plutarco viu isso como um mau agouro. Galba "…passou a ser visto com terror e alarme por qualquer um que antes o tivesse desdenhado..." (1166).
Galba era conhecido por muitos como alguém sem coração. Ele acreditava que qualquer sinal de desobediência ou desrespeito era totalmente inaceitável e um desafio à sua autoridade. Ele exigiu tributos de muitas cidades e deixou de gastar dinheiro com espetáculos extravagantes, como os jogos de gladiadores. Depois de assumir o trono, recusou-se a pagar à Guarda Pretoriana as bonificações que lhes haviam sido prometidas. Seus contínuos cortes de gastos, seu mau trato com a Guarda Pretoriana e o massacre na Ponte Mílvia fizeram com que ele caísse em desgraça com aqueles ao seu redor, especialmente com o povo de Roma. Sobre o crescente ódio a Galba, Suetônio escreveu:
…ele ofendeu todas as classes em Roma; mas o ódio mais virulento contra ele ardia no exército. Embora os oficiais tivessem prometido bonificação maior do que a habitual aos soldados que haviam empenhado suas espadas a Galba... ele não honrou o compromisso, mas anunciou: 'É meu costume recrutar tropas, não as comprar.
(250)
Formação da I Adjutrix
No sul da França, duas cidades vizinhas — Vienne e Lugdunum (a atual Lyon) — estavam envolvidas em uma disputa antiga. Inicialmente, durante os meses finais antes da morte de Nero, Vienne havia permanecido leal ao imperador, enquanto Lugdunum apoiava Galba. No entanto, quando Nero posicionou a Legio I Italica em Lugdunum para proteger a casa da moeda imperial, a cidade mudou rapidamente sua lealdade para Nero, fazendo com que Vienne repensasse sua posição e passasse a apoiar Galba. Em dezembro do ano 68, Galba, em um ato de clemência, libertou alguns dos marinheiros sob custódia e formou uma nova legião em Vienne. Ele concedeu à nova legião de marinheiros, a Prima Adiutrix, sua águia e seus estandartes. Os legionários restantes para a I Adiutrix vieram dos cidadãos de Vienne.
A legião inexperiente logo teve seu primeiro gosto de conflito quando a autoridade de Galba foi confrontada por Otão (Marco Sálvio Otão, em latim, Marcus Salvius Otho; reinou 69), governador da Lusitânia, um aliado próximo de Galba e que se considerava o sucessor legítimo ao trono. Galba, no entanto, escolheu outro herdeiro. De acordo com Suetônio, "A decepção, o ressentimento e um enorme acúmulo de dívidas o impulsionaram [Otão] à revolta" (257). Com a lealdade das forças militares dividida, a Legio I Adiutrix percebeu que precisava declarar sua aliança. Contudo, não seria ao homem que os havia encarcerado. Em vez disso, a legião escolheu o homem que logo se tornaria o novo imperador: Otão.
Tácito escreveu sobre aquele dia final em que Lúcio Piso, o herdeiro aparente, discursou para a Guarda Pretoriana. Percebendo a gravidade da situação, ele lhes falou sobre a necessidade de permanecerem leais a Galba e acrescentou: "Nós vos daremos um donativo por vossa lealdade, tão certamente quanto outros vos podem dar por vossa traição" (I. 30). Aqueles legionários que ainda eram leais a Galba preparavam-se para proteger seu imperador, mas "Nenhuma confiança depositava-se na legião recrutada da frota, que havia sido enfurecida pelo massacre de seus camaradas, os quais Galba havia chacinado imediatamente após sua entrada na capital" (I. 31). A I Adiutrix aliou-se à Guarda Pretoriana contra Galba. Em 15 de janeiro de 69, um membro da Legio XV Apollinaris matou o impopular imperador, levando a cabeça decepada a Otão. No entanto, o tempo de Otão no trono seria de curta duração. Era o Ano dos Quatro Imperadores.
Ano dos Quatro Imperadores
Após sua ascensão, Otão preencheu a I Adiutrix com os sobreviventes restantes do massacre da Ponte Mílvia e concedeu cidadania aos novos legionários. A legião escolheu Pégaso, filho do deus romano do mar, Netuno, como seu emblema. A lealdade da legião a Otão logo foi colocada à prova. As legiões da fronteira do Reno já haviam dado seu apoio ao governador da Germania Inferior, Vitélio. A guerra era inevitável. Na Primeira Batalha de Bedríaco, Otão contou com o apoio não apenas da I Adiutrix, mas também de coortes da Guarda Pretoriana, dos evocati (soldados veteranos) e de coortes da Legio VIII Gemina e da Legio XIV Gemina. Durante a batalha, a I Adiutrix capturou o estandarte da Legio XXI Rapax. Tácito escreveu sobre o incidente:
Do lado de Vitélio estava a 21ª, chamada Rapax... Do lado de Otão estava a 1ª, chamada Adiutrix, que nunca antes havia sido levada ao campo de batalha, mas era de espírito elevado e ansiosa por obter seu primeiro triunfo. Os homens da 1ª, derrubando as fileiras da frente da 21ª, levaram a águia. (Histórias, I. 43.)
A Rapax repeliu a Adiutrix e matou seu legado, Orfídio Benigno. Plutarco escreveu sobre esse confronto entre a Rapax de Vitélio ("A Voraz") e a Adiutrix de Otão ("A Auxiliar"):
Os homens de Otão eram fortes e ousados, mas nunca haviam estado em batalha antes... A legião de Otão atacou com audácia, repeliu seus oponentes e tomou a águia, matando praticamente todos os homens da primeira fileira, até que os outros, cheios de fúria e vergonha, revidaram o ataque.
(Vidas Paralelas, 1180)
No fim das contas, após reinar por apenas três meses, Otão cometeu suicídio, Vitélio marchou para Roma como o novo imperador e a I Adiutrix foi enviada para a Espanha. No entanto, assim como Otão e Galba, Vitélio não passaria muito tempo como imperador. Na Segunda Batalha de Bedríaco, Vitélio sofreu derrota contra as forças de Vespasiano (reinou 69-79). Na batalha, a I Adiutrix apoiou Vespasiano; o tratamento que recebeu de Vitélio após a primeira Bedríaco ainda estava fresco em sua memória. Tácito escreveu sobre o papel de liderança da legião na batalha:
… a liderança foi assumida na Espanha pela 1ª legião (a "Adiutrix"), cujas lembranças de Otão os faziam odiar Vitélio; eles arrastaram consigo a 6ª e a 10ª, e a Gália não hesitou em segui-los.
(Histórias, III. 44.)
Vitélio foi fragorosamente derrotado. Após apenas oito meses, o imperador destronado tentou fugir de Roma disfarçado; no entanto, foi capturado pelos legionários de Vespasiano e, enquanto suplicava por sua vida, foi arrastado pelas ruas, torturado, morto e jogado no rio Tibre.
História posterior
No ano de 70., Vespasiano transferiu a legião da Espanha para Mogontiaco (atual Mainz, Alemanha), no Reno, dividindo uma fortaleza com a XIV Gemina, e onde lutou na Revolta dos Batavos contra Caio Júlio Civil. Posteriormente, a legião foi transferida para a Panônia e baseada em Brigetio (atual Komárom, Hungria). Em 86, a legião juntou-se a Domiciano (reinou 81–96) na Dácia, lutando contra o rei Decébalo e ajudando na vitória romana em Tapas.
Sob o comando de Trajano, a I Adiutrix foi uma das legiões das Guerras Dácias. Na primavera de 101, Trajano partiu de Roma para sua primeira batalha contra Decébalo. Embora já houvesse quatro legiões estacionadas na Moésia preparando-se para cruzar o Danúbio em direção à Dácia, a Legio I Adiutrix, junto com as legiões XIV Gemina, XV Apollinaris, X Gemina e II Adiutrix, estava a caminho para se juntar a Trajano. No entanto, seria necessária uma Segunda Guerra Dácia para derrotar Decébalo. Permanecendo leal a Trajano, a legião o acompanhou até a Pártia, em 116–117. Apesar de alcançar um sucesso marginal, Trajano nunca mais retornou à Pártia depois disso. Sua morte em 117 levou Adriano ao trono, que optou por não dar continuidade à guerra, preferindo a paz.
Adriano transferiu a legião para o Danúbio, onde ela fez parte de um exército que lutou com o imperador Marco Aurélio em suas campanhas germânicas e, sob o comando do futuro imperador Pertinax (reinou 192–193), combateu os marcomanos. Após o assassinato de Pertinax, em 193, a legião acompanhou Septímio Severo, ao lado da X Gemina, XIV Gemina Martia Victrix e II Adiutrix, em sua marcha para Roma, onde ele foi aclamado imperador pelo Senado Romano. Percebendo que precisava eliminar quaisquer pretendentes ao seu trono, o imperador marchou em direção ao leste com suas legiões, cruzando a Ásia Menor, onde derrotou Pescênio Níger. Tendo assegurado seu trono contra todos os rivais, Septímio Severo retornou a Roma. Mais tarde, junto com outras legiões das Guerras Párticas, a I Adiutrix participou de suas campanhas na Pártia.
A legião apareceu em seguida em 238, quando lutou ao lado do imperador Maximino Trácio (reinou 235–238) nas guerras civis e em seu cerco a Aquileia, no norte da Itália. Após o assassinato de Maximino e dos breves mandatos dos imperadores-soldados Pupieno e Balbino, Gordiano III foi proclamado imperador. A legião juntou-se ao novo imperador em sua guerra contra os persas, em 244. Em 25 de fevereiro de 244, Gordiano III foi morto perto da cidade de Zaitha, no rio Eufrates, e foi substituído por Filipe, o Árabe (reinou 244–249). Pouco mais se sabe sobre a legião após a morte de Gordiano III. De acordo com relatos escritos, a legião ainda existia no século V, em Brigetio.

