Guia do Visitante de Carsulae (San Damiano)

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por , traduzido por Filipa Oliveira
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Carsulae, na Úmbria (Itália central), foi fundada cerca de 300 a.C., tornando-se um centro urbano próspero apenas após a ligação à Via Flamínia, no final do século III a.C. Foi-lhe concedido o estatuto de municipium, o que permitiu a construção de um conjunto impressionante de edifícios cívicos, incluindo um teatro, um anfiteatro, um fórum, templos e termas.

A cidade acabou por ser abandonada por razões desconhecidas, possivelmente devido a deslizamentos de terras, escapando assim a posteriores reconstruções urbanas. Durante períodos mais tardios, a Carsulae romana foi saqueada para servir de pedreira para novas construções, mas subsistem ruínas substanciais de estruturas importantes. Estas incluem a basílica, o teatro (que remonta ao reinado de Augusto, 27 a.C. – 14 d.C.), dois templos, as termas, o fórum e um arco monumental sobre a Via Flamínia.

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Via Flaminia at Carsulae
Via Flamínia em Carsulae, Itália Carole Raddato (CC BY-NC-SA)

As Tabernas

Esta série de edifícios interligados era utilizada para fins comerciais. Estão entre as construções mais antigas da Carsulae romana, sendo anteriores ao período imperial. Inicialmente, o nível inferior albergava quatro grandes salas com entradas em arco. Um segundo andar, que dava para o terraço do fórum, era acessível através de uma escadaria no lado sul. As salas do rés-do-chão tinham tetos abobadados e balcões de pedra para a exposição e venda de mercadorias. A sala mais a norte foi adaptada para a construção do arco monumental sobre a Via Flamínia. O arco foi construído como um tetrapylon (edifício de quatro colunas), com escadas que subiam da estrada sul para dar acesso ao terraço superior e aos templos gémeos de Castor e Pólux.

As salas abobadadas tinham vários metros de altura, incluindo as entradas em arco. É possível observar os vestígios das dobradiças das portas, bem como a soleira e o degrau de entrada. As escadas do lado sul também permanecem, mostrando o acesso ao nível superior. O tetrapylon foi parcialmente reconstruído em torno dos vestígios da escadaria que conduzia ao terraço do fórum.

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O Teatro

O Teatro de Carsulae foi construído inteiramente acima do nível do solo, assente num enchimento sólido de betão romano. A cavea superior apoia-se numa estrutura de 15 câmaras em forma de cunha com abóbadas de berço. O acesso a cada câmara era feito por um ambulacrum abobadado que rodeava a cavea inferior. No total, a cavea tinha quase 63 metros (206 pés) de largura, com os assentos organizados em quatro setores. A bancada estava voltada a oeste, diretamente alinhada com a entrada principal do anfiteatro posterior. O número de filas de assentos é desconhecido, uma vez que nada se preservou além da subestrutura da cavea.

Roman Theatre of Carsulae, Italy
Teatro Romano de Carsulae, Itália Carole Raddato (CC BY-NC-SA)

Os visitantes podem explorar as ruínas do teatro, juntamente com a reconstrução moderna. A subestrutura da cavea está magnificamente preservada, permitindo observar o método de construção utilizado para formar as câmaras com abóbada de berço sob as bancadas. Uma reconstrução moderna em madeira exemplifica a disposição da cavea inferior. É também possível ver a configuração invulgar da escadaria retangular traseira. Foi erguido um palco de madeira para permitir a visualização das fundações da scenae, ou área principal de cena. A orquestra tinha 20,5 metros (67.2 pés) de diâmetro e era pavimentada com placas de calcário. Estava rodeada por um corredor sobre um dreno que ligava a uma grande cisterna abobadada, a qual corria ao longo da parede do postscaenium. Um muro de mármore separava o corredor da zona dos assentos. As escadas de acesso à orquestra eram feitas de pedra rosa e calcário.

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A frente do palco tinha 35,6 metros (116.7 pés) de comprimento, era construída em tijolo com um revestimento de mármore e estava decorada com três nichos retangulares. A scaenae frons principal apresentava um nicho central curvo e pouco profundo, com quase onze metros de largura, flanqueado por hospitalia retangulares. A fachada exterior do teatro consistia em 22 pilares em opus quadratum, cada um com 1,2 m² (12.9 pés²) e 2,6 metros (8.5 pés) de altura, que sustentavam aberturas em arco. Uma série de oito furos para mastros suportava o aulaeum, ou cortina de palco, que podia ser subida e descida para revelar cada cena.

As Termas

Descobertas inicialmente em 1783, as termas revelaram um mosaico de azulejos vermelhos e brancos com temas marinhos. Este foi removido do complexo e o local foi parcialmente aterrado. As termas foram brevemente expostas na década de 1950, embora não existam registos dos trabalhos de escavação realizados. Atualmente, decorrem escavações modernas no local e apenas uma pequena parte do complexo termal foi exposta.

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As termas romanas de Carsulae foram construídas ligeiramente afastadas da cidade principal e parecem ter sido utilizadas por visitantes que aproveitavam as águas termais curativas, em vez de servirem para o banho e higiene diários. A água de nascente mineralizada, rica em cálcio, era particularmente procurada, e Carsulae foi um centro termal terapêutico popular desde os seus primórdios.

As termas parecem datar do período inicial da ocupação romana de Carsulae, apresentando várias fases de modificação até ao século IV. Grande parte do material utilizado em renovações posteriores incluía blocos decorativos ou carimbados e azulejos de períodos de construção anteriores. Este trabalho fragmentado de remendos e reparações torna difícil uma datação e reconstrução precisas enquanto as escavações estão em curso.

O anfiteatro foi construído após o teatro, no século I, para acolher combates de feras e lutas de gladiadores.

As termas estavam ligadas, através de canais de água, à cisterna próxima da Via Flamínia e a uma cisterna da era pré-imperial, recentemente descoberta, junto a uma muralha poligonal pré-romana a sul da cidade. O complexo incluía uma sala retangular ricamente decorada que tem sido interpretada como o tepidarium. O seu pavimento ostentava o mosaico marinho que foi removido durante o século XVIII. Tubos de argila (tubuli) revestiam a parede leste para permitir que o ar quente circulasse pelas paredes.

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As paredes da sala eram ainda revestidas com placas finas de mármore. Grandes fragmentos de uma vidraça (medindo pelo menos 35 x 33 centímetros - 13.7 x 12.9 polegadas), que se ajustaria à parede voltada a noroeste, demonstram que a sala também era aquecida pelo sol. Uma pequena sala que se abre no lado sul e uma abside situada na extremidade nordeste parecem ter sido utilizadas como caldaria. As piscinas de água quente eram aquecidas diretamente por um sistema de hipocausto sob o piso. Invulgarmente, os pilares (pilae) do hipocausto parecem ter sido construídos com dois níveis. Um arco de tijolo subterrâneo, com pavimento de placas cerâmicas, ligava o subsolo da abside à sala da fornalha para passar o ar quente diretamente para a câmara. O frigidarium, ou piscina fria, situava-se numa sala recentemente escavada a leste.

As escavações revelaram, até agora, uma vasta quantidade de cerâmica que data de todo o período de ocupação, bem como ganchos de cabelo em marfim, uma agulha de costura e pequenos recipientes de vidro. Um dos ganchos de marfim foi finamente esculpido com a imagem do rosto de um homem.

Enquanto as escavações prosseguem, o acesso às termas é periodicamente restringido. Os visitantes podem ver os vestígios da sala retangular e da abside, bem como as suspensurae do hipocausto e os mosaicos parcialmente escavados. Um pouco além das termas, também é possível observar o canal de água e a muralha poligonal.

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Os Templos Gémeos

Os templos gémeos situavam-se no lado sul do fórum. Embora as divindades a que eram dedicados sejam desconhecidas, são geralmente interpretados como sendo templos dedicados aos gémeos Gémeos: Castor e Pólux, que eram tradicionalmente associados à saúde e à cura; São Cosme e São Damião eram os santos padroeiros dos curandeiros e médicos. Os templos foram construídos no século I a.C. sobre pódios de 1,8 metros (5.9 pés) de altura, revestidos com calcário rosa pálido dentro de uma moldura de travertino. Os edifícios eram separados por um corredor estreito pavimentado em opus spicatum (disposição em espinha de peixe). Cada um dos templos idênticos apresentava um pórtico frontal tetrastilo que conduzia a uma pequena naos e à cella principal. A naos foi construída em estilo dístilo in antis, com duas colunas centrais entre as paredes prolongadas da cella. Escadarias largas e independentes, com 13 degraus cada, conduziam do fórum a cada templo. As escadas cobriam também os canais de drenagem de água que rodeavam o fórum.

Twin Temples at Carsulae, Italy
Templos Gémeos de Carsulae, Itália Carole Raddato (CC BY-NC-SA)

Os imponentes pódios elevados permanecem com vista para o fórum e foram restaurados com as suas fachadas originais de calcário rosa. As fundações revelam a disposição da naos e da cella. Os visitantes podem subir a escadaria traseira para aceder ao pódio dos templos e desfrutar de uma vista panorâmica sobre a cidade antiga.

A Via Flamínia

A Via Flamínia é a segunda estrada romana mais antiga, logo a seguir à Via Ápia de Roma. Tratava-se de uma estrada consular, financiada pelo Estado e construída cerca de 220 a.C. para ligar Roma à cidade costeira do norte, Ariminum (Rimini), atravessando os Montes Apeninos. A estrada foi edificada sob a tutela do censor Caio Flamínio (cerca de 275–217 a.C.) como uma rota de transporte principal, sendo utilizada prioritariamente para a movimentação das forças militares de Roma e para o seu abastecimento com cereais provenientes do Vale do Pó.

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Carsulae foi fundada na mesma altura em que se construía o ramo ocidental (Flaminia Vetus) entre Narni e Forum Flaminii. Além da importância estratégica (situando-se a meio caminho entre Narni e Massa Martana), os solos férteis e as nascentes de água doce tornaram Carsulae um local privilegiado. A Via Flamínia foi restaurada sob o domínio de Augusto, entre 27 a.C. e 14 d.C., durante um período de urbanização. Augusto supervisionou a repavimentação da estrada na área circundante a Carsulae; a cidade foi então elevada ao estatuto de municipium e tornou-se cada vez mais próspera. A nova Via Flamínia foi construída com grandes blocos de calcário trabalhados. Passeios elevados (crepidines) em ambos os lados da estrada ofereciam espaço adicional para a circulação de peões. Foi também acrescentado um novo sistema de drenagem ao longo dos pavimentos.

Via Flaminia at Carsulae, Italy
Via Flamínia em Carsulae, Itália Carole Raddato (CC BY-NC-SA)

A estrada funcionava como o principal Cardo Maximus (eixo noroeste) da cidade. A principal via este-oeste (o Decumanus Maximus) intersetava-se com a Via Flamínia junto ao fórum. O aparecimento de algares na zona causou danos na calçada, exigindo reparações em vários locais. O estreitamento da estrada e a ligeira mudança de direção na metade norte da cidade resultaram do colapso de parte da via original. Os danos contínuos na Via Flamínia, provocados por algares e sismos, levaram eventualmente ao declínio do uso do ramo ocidental da estrada, tendo o tráfego sido desviado para o ramo oriental, que passava por Spoletium. Com a diminuição do tráfego, Carsulae foi gradualmente abandonada.

Permanecem visíveis grandes secções da Via Flamínia pavimentada, e a estrada é hoje utilizada pelos visitantes do parque arqueológico. No centro da cidade antiga, o passeio elevado e a sarjeta de pedra permanecem in situ. Os sulcos deixados pelas rodas nas secções mais antigas da estrada revelam séculos de uso por carruagens que transportavam mercadorias para Roma.

O Anfiteatro

O anfiteatro e o teatro formavam um complexo interligado, rodeado por um pátio pavimentado. O anfiteatro foi construído após o teatro, no século I d.C., para acolher combates de feras e lutas de gladiadores. Um epitáfio de Carsulae regista um gladiador que lutou como pinnirapus iuvenum com um tridente e uma rede. O muro de contenção do anfiteatro data do período de construção do teatro e pode ter sido utilizado para organizar combates antes da construção do próprio anfiteatro. Este situava-se numa depressão natural causada por um algar ou dolina. Os antigos romanos estavam cientes das vulnerabilidades causadas pelo terreno natural da zona e pela variação do lençol freático; por isso, construíram a subestrutura do anfiteatro para resistir aos movimentos do solo com contrafortes adicionais. O anfiteatro foi construído em tijolo e opus vittatum.

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O edifício era de dimensões modestas, medindo 86,5 x 62 metros (283 x 203 pés). As fachadas das extremidades mais curtas (leste e oeste) estavam alinhadas com uma série de arcos que emolduravam as entradas principais para a arena. Os gladiadores e os animais selvagens utilizavam provavelmente a pequena porta no final de um corredor estreito para aceder à arena fora do campo de visão dos espetadores. Localizavam-se entradas adicionais nos lados mais longos (norte e sul), embora estas dessem acesso aos níveis superiores das bancadas.

Roman Amphitheatre of Carsulae, Italy
Anfiteatro Romano de Carsulae, Itália Carole Raddato (CC BY-NC-SA)

Apenas a parte norte do anfiteatro foi escavada. No entanto, a subestrutura de todo o complexo oval é visível. Os visitantes podem entrar na arena do anfiteatro através das entradas originais nos lados mais curtos, a leste e a oeste. É possível observar as fundações do pátio retangular exterior e do muro de contenção anterior, bem como as imensas muralhas de sustentação do próprio anfiteatro.

A Basílica

A basílica remonta ao início do século I a.C. e era utilizada para processos judiciais e tribunais. Embora fosse um dos principais edifícios cívicos de Carsulae, situava-se em frente ao fórum, no lado oposto da Via Flamínia. O acesso à basílica a partir da estrada principal fazia-se através de uma larga escadaria que percorria toda a extensão do edifício. Um pórtico com aberturas em arco dava entrada para a sala principal. O grande salão media 30 x 25 metros (98 x 82 pés) e estava dividido em três naves por duas colunatas. A nave central, mais larga, abria-se para uma sala traseira interligada com uma abside ao centro. O edifício anexo no lado sul da basílica data do período inicial da ocupação romana de Carsulae e poderá ter sido uma residência privada.

A basílica encontra-se mal preservada, uma vez que grande parte da sua pedra foi saqueada para construções posteriores. As fundações exteriores do edifício permanecem visíveis, com as bases das colunas que dividiam o salão principal ainda in situ. As zonas sul e leste do edifício estão melhor preservadas, e as paredes inferiores da abside traseira permitem ter uma ideia da dimensão total do salão.

A Igreja de São Cosme e São Damião

Esta igreja cristã primitiva foi construída no século XI, reutilizando um edifício romano já existente. A estrutura romana original data do século I ou do início do século II. A planta da igreja posterior seguiu o traçado original da estrutura romana, que poderá ter sido utilizada como um mercado de carne ou macellum. A Via Flamínia pavimentada passava diretamente em frente ao edifício. Foi construída como um salão retangular com uma abside traseira, possivelmente com colunatas internas sob a forma de um pórtico com naves. A parede sul da igreja, em particular, exibe os arcos romanos feitos de tijolo vermelho afeiçoado que foram posteriormente preenchidos. Originalmente, os arcos eram sustentados por pilares e permaneciam abertos ao nível do solo. As fiadas de cantaria desajustadas no interior dos arcos revelam que estas foram acrescentadas durante a construção da igreja, utilizando os blocos de calcário romanos originais.

Church of Saints Cosma and Damiano in Carsulae, Italy
Igreja de São Cosme e São Damião em Carsulae, Itália Carole Raddato (CC BY-NC-SA)

A entrada frontal da igreja foi construída reutilizando materiais romanos, incluindo duas colunas monolíticas atarracadas. Estas colunas simples foram rematadas com plintos quadrados em vez de capitéis decorativos. O arquitrave superior e a cornija denticulada também foram reaproveitados do edifício romano original. Na abside, na parte traseira da igreja, a janela curvilínea pertence à construção romana original.

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A Igreja de São Cosme e São Damião preserva magnificamente grande parte do edifício romano original. Os visitantes podem observar a disposição dos arcos e grande parte do trabalho decorativo inicial. As imagens esculpidas de animais e figuras com auréolas na fachada, bem como os frescos internos, datam do século XI. Diversas placas com inscrições e outros elementos decorativos da cidade romana encontram-se expostos no pórtico de entrada.

As Cisternas

Durante o período romano, desviaram-se as nascentes naturais na base do Monte Martani para a cidade. Em Carsulae, foram escavadas cinco cisternas, dois tanques de poço e uma vasta rede de canais de drenagem e aquedutos subterrâneos. A cisterna mais acessível localiza-se na extremidade oeste do antigo centro da cidade. Durante o período medieval, foi reutilizada como estábulo para animais. Antes da construção do novo centro de visitantes do parque arqueológico, serviu também como antiquário para expor achados do local.

A curia foi construída em opus quadratum de blocos de calcário, alternando com fiadas horizontais de cascalho em opus vittatum.

A maior cisterna, que teria sido o castellum aquae da cidade (o principal reservatório de armazenamento de água), localiza-se num terreno ligeiramente mais elevado, a cerca de 100 metros (328 pés) a sudeste do teatro. Uma outra cisterna, longa e estreita, composta por cinco tanques interligados, situa-se imediatamente a norte do anfiteatro, logo à saída da estrada moderna. Uma quarta cisterna está ligada às termas, a sul da cidade. Recentemente, foi descoberta uma pequena cisterna datada do período republicano durante escavações no nordeste da cidade.

Cada uma destas cisternas pode ser observada em diferentes estados de conservação. As paredes originais da cisterna que serviu de antiquário permanecem de pé, sendo as portas e janelas adições posteriores. O castellum aquae, de maiores dimensões, encontra-se ligeiramente fora da área principal do parque arqueológico. Pode ser avistado junto ao caminho, do lado esquerdo, quando se caminha do parque de estacionamento em direção ao sítio arqueológico principal.

A Cúria

Uma série de salas de administração pública, com dois pisos, delimitava o lado norte do fórum. Um pórtico colunado estendia-se ao longo da fachada dos edifícios, onde o Decumanus percorria a extensão do fórum. O edifício de maiores dimensões (localizado na extremidade leste) era a cúria. Tratava-se da sede do senado municipal local de decuriões, que eram supervisionados por quatro magistrados. A cúria foi construída em opus quadratum de blocos de calcário, alternando com fiadas horizontais de cascalho em opus vittatum, e encontrava-se sumptuosamente decorada com mármore. O edifício consistia num longo salão retangular com três entradas em arco voltadas para o fórum. A longa parede traseira apresentava uma abside central.

Três salas menores, de planta retangular e absidada, foram construídas junto à parede oeste da cúria. As suas paredes internas eram revestidas a mármore e cada uma apresentava pavimentos de crustae de mármore. As funções individuais destas salas vizinhas, mais pequenas, são desconhecidas; no entanto, eram utilizadas conjuntamente para atividades políticas e administrativas relacionadas.

Northern Side of the Forum of Carsulae, Italy
Lado Norte do Fórum de Carsulae, Itália Carole Raddato (CC BY-NC-SA)

As fundações e algumas partes das paredes inferiores de cada um dos quatro edifícios são visíveis. As absides traseiras de cada edifício estão preservadas, juntamente com algumas secções do revestimento e do pavimento de mármore. O Decumanus pavimentado está bem conservado e os visitantes podem percorrer a rua antiga ao lado do centro administrativo do fórum.

O Fórum

A ampla praça pública situava-se num terraço, na interseção da Via Flamínia com o Decumanus (eixo este-oeste). Apresentava uma forma trapezoidal pavimentada, com vestígios visíveis que datam das modificações efetuadas na era de Augusto. A entrada no fórum era assinalada por tetrapilos. Cada tetrapilo tinha 5,5 metros (18 pés) de largura, com um vão de arco de 3,15 metros (10.3 pés) de largura e 7,3 metros (23.9 pés) de altura.

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Estes foram edificados em opus quadratum com grandes blocos de silhar de travertino local, revestidos por uma fachada de pedra rosa e rematados por um frontão decorativo. Uma colunata estendia-se acima do muro de contenção e ao longo do lado leste do fórum, entre os dois portais monumentais. O fórum era limitado, no lado sul, pelos templos gémeos — erguidos nos seus pódios elevados — e por um longo pórtico aberto. No lado norte, a entrada monumental da Via Flamínia conduzia diretamente a uma série de quatro salas retangulares absidadas, que incluíam a cúria e os edifícios administrativos públicos adjacentes. O grande templo, situado na extremidade oeste do fórum, foi identificado em 2018 como sendo o capitolium, ou templo principal, dedicado à tríade capitolina: Júpiter, Juno e Minerva. Escavações realizadas na década de 1950 encontraram diversos fragmentos de estátuas que representavam a família Júlio-Claudiana, destacando-se uma estátua do jovem imperador Cláudio (reinou 41-54 d.C.) pertencente aos primeiros anos do seu reinado.

Emperor Claudius
Imperador Cláudio Carole Raddato (CC BY-NC-SA)

Os tetrapilos monumentais, parcialmente reconstruídos, assinalam a entrada para o nível elevado do fórum. O pódio dos templos gémeos pode ser observado no lado sul. Os edifícios públicos mais bem preservados são as salas absidadas da cúria e os escritórios administrativos adjacentes, no lado norte. No limite oeste do fórum, foram descobertas apenas as paredes perimetrais do capitolium, estando as escavações ainda em curso. Também são visíveis algumas secções do pavimento de pedra rosa do fórum.

Os Monumentos Funerários

A necrópole, situada imediatamente após o Arco de São Damião, preserva vários monumentos datados entre o século I a.C. e o século I d.C. A chamada "Túmulo em Torre" foi restaurada para recuperar a sua altura total de quase 11 metros (36 pés). A sua estrutura inferior consiste numa base quadrangular com 4,3 metros (14.1 pés) de lado e 2,4 metros (7.8 pés) de altura. Sobre a base, ergue-se uma torre cilíndrica de pedra, oca e com frestas de iluminação, com 4,6 metros (15 pés) de altura. O pináculo superior possuía dois degraus inferiores rematados por uma estrutura cónica afilada. O monumento apresenta ornamentos de estilo dórico, incluindo um friso contínuo de métopes e tríglifos que alternam com imagens esculpidas de cabeças de touro, motivos florais, um golfinho e uma urna.

Tower Tomb in Carsulae, Italy
Túmulo em Torre em Carsulae, Itália Carole Raddato (CC BY-NC-SA)

A "Túmulo em Torre" foi magnificamente restaurada e ergue-se em toda a sua altura, incluindo partes do friso dórico decorativo. Resta pouco do recinto que rodeava o Sarcophagus della Fanciulla; no entanto, o sarcófago de calcário pode ser visitado, e o espólio funerário da jovem encontra-se em exposição no museu. Nas proximidades, foi descoberto na década de 1990 um sarcófago conhecido como o Sarcophagus della Fanciulla (Sarcófago da Rapariga). Foi fabricado em calcário com uma tampa em forma de leito duplo (kline). No seu interior, continha um caixão de chumbo que albergava os restos mortais de uma pré-adolescente, sepultada com um colar e brincos de ouro de fabrico intrincado. Escavações recentes revelaram que o sarcófago se situava dentro de um recinto retangular medindo 8 x 12 metros (26.2 x 39.3 pés). As fundações do muro envolvente foram feitas em opus caementicium e parecem ter sustentado um edifício de duas salas em opus quadratum de calcário. O sarcófago estaria localizado ao centro da parede traseira da sala maior, que provavelmente conteria outras sepulturas anteriormente saqueadas. No centro da sala principal, foi encontrada uma ânfora contendo os restos mortais de um enterramento infantil (enchytrismos).

O Mausoléu da Gens Furia

Este mausoléu circular data do século I d.C. Foi edificado através do corte num rochedo de calcário e da construção de um muro de terraço em opus quadratum de calcário. A base de pedra tem aproximadamente 18 metros (59 pés) de lado. Sobre esta base quadrada, ergue-se um túmulo circular em forma de tambor com quatro metros de altura, rematado por ameias. No interior, seis paredes radiais em opus caementicium teriam sustentado um tumulus superior. A altura total do monumento poderá ter oscilado entre os 11 e os 13 metros (36-42 pés).

Circular Mausoleum in Carsulae, Italy
Mausoléu Circular em Carsulae, Itália Carole Raddato (CC BY-NC-SA)

O túmulo pertencia, provavelmente, à família Furia. Uma placa com uma inscrição, cuja curvatura coincide com a do mausoléu, regista uma dedicação à Gens Furia. A inscrição homenageia um pai e um filho da tribo Clustumina, ambos chamados Caio Furio Tiro, que serviram Carsulae como quattuorvir quinquennalis (quatro magistrados locais que serviam sucessivamente durante um mandato de cinco anos). A placa foi erguida pelo quattuorvir Lúcio Nónio Asprenas e por duas mulheres da Gens Furia chamadas Secunda e Polla.

O mausoléu permanece bem preservado e foi alvo de restauro. A parede circular de blocos de calcário mantém-se de pé, incluindo várias secções das ameias superiores. Escadas na parede exterior permitem o acesso para observar a disposição interna das paredes radiais. A placa dedicatória encontra-se em exposição no Palazzo Cesi, em Acquasparta.

O Domus dos Mosaicos

As investigações na área a sul dos templos gémeos iniciaram-se em 2017. As escavações nesta zona são designadas como Saggio E (ou Sondagem E). Os arqueólogos puseram a descoberto uma grande residência que data do primeiro período de monumentalização da cidade, durante a era de Augusto. Esta luxuosa domus inclui um triclinium (sala de jantar) anexo a um enorme salão de banquetes, que mede 17 x 8 metros (55.7 x 26.2 pés). O seu grande átrio possui um pavimento decorativo em opus scutulatum, um mosaico de tesselas pretas com incrustações irregulares de calcite branca e mármores policromados. O impluvium central foi decorado com um mosaico que apresenta uma disposição geométrica de losangos. Cada uma das salas que se abrem para o átrio foi igualmente decorada com pavimentos de mosaico ornamentados, incluindo um painel principal de retângulos densamente organizados em quadrados, com uma imagem inferior de um pórtico em arco rematado por ameias.

O portão norte da cidade, conhecido como o Arco de São Damião, foi construído sob o domínio de Augusto, entre 27 a.C. e 14 d.C.

Imediatamente a sul, encontra-se uma bacia ou tanque de água interno que mede 3,6 x 1,4 metros (77.4 x 4.5 pés). Outra sala, parcialmente escavada, possui um mosaico de triângulos pretos e brancos interligados para formar hexágonos. A oeste, uma sala junto ao pátio do jardim com peristilo apresenta um padrão complexo de meandros ortogonais, semelhantes a um labirinto, formados por quadrados pretos e brancos alternados e triângulos em forma de ampulheta. A sua faixa exterior retrata uma muralha de pedra isódoma com um portal de arco triplo e torres defensivas, tudo rematado por ameias em forma de T. No lado noroeste, localiza-se uma série de lojas com pisos de tijolo em opus spicatum), que se abrem para a rua. As escavações também revelaram fragmentos de estuque de qualidade e paredes de gesso pintadas. Com exceção de dez lucernas, restaram muito poucos artefactos no interior da domus.

As escavações da Domus dos Mosaicos e da área circundante continuam em curso. Os mosaicos permanecem cobertos para proteção enquanto prosseguem os trabalhos periódicos de escavação e consolidação. Nas próximas temporadas, planeia-se escavar uma maior parte da residência e um compartimento hipogeu associado que será, possivelmente, uma cisterna.

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A Área Nordeste C

As escavações preliminares começaram em 2012 na vasta área aberta, anteriormente inexplorada, a leste da Via Flamínia e a sul do Arco de São Damião, que marca o limite norte da cidade antiga. As escavações nesta zona são designadas como Saggio C (ou Sondagem C). Os arqueólogos descobriram primeiro uma pequena cisterna com um teto em abóbada de berço que data da ocupação mais remota de Carsulae, na era republicana. Passando imediatamente ao lado da cisterna, encontrava-se uma secção pavimentada, bem preservada, de 14 x 4 metros (45.9 x 13.1 pés) de uma rua pré-augustana, provavelmente um dos decumani do norte em uso antes do realinhamento da Via Flamínia. Esta secção da estrada foi preservada pela construção de edifícios posteriores e por um pavimento de cocciopesto ao longo da sua extremidade oeste. Sobre a estrada pavimentada encontrava-se uma variedade de detritos, incluindo telhas de cerâmica, argamassa e gesso pintado policromado pertencentes a uma fase posterior de construção. Os edifícios posteriores incluíam uma série de salas identificadas como armazéns e um pequeno forno semi-hipogeu utilizado como olaria para fabricar cerâmica de paredes finas. A construção inicial destes edifícios data da primeira metade do século I, com modificações posteriores. A área continuou a ser utilizada até por volta do final do século III ou início do século IV.

As escavações no bairro nordeste da cidade continuam em curso. Os visitantes podem observar o pavimento exposto, a cisterna com abóbada de berço e as fundações dos edifícios posteriores.

Cardo Maximus of Carsulae, Italy
Cardo Máximo de Carsulae, Itália Carole Raddato (CC BY-NC-SA)

A Área Nordeste D

Após o sucesso das escavações de 2012 na vasta área aberta e anteriormente inexplorada do bairro nordeste da cidade, foi aberta uma trincheira adicional em 2014. Esta localiza-se ao longo do lado leste da Via Flamínia, a meio caminho entre a entrada do fórum e o portão norte da cidade. As escavações nesta zona são designadas como Saggio D (ou Sondagem D). Foi posta a descoberto uma área pavimentada com 33 metros (108 pés) de comprimento, que remonta à ocupação mais antiga de Carsulae, no período republicano. A estrada provém inicialmente da direção da Via Flamínia primitiva e, em seguida, vira para uma direção mais oriental. Esta zona foi modificada durante o período augustano, altura em que a área imediatamente a norte da estrada foi dividida inicialmente em duas e, posteriormente, em três salas de armazém distintas. O pavimento original foi utilizado para permitir o acesso a estas áreas de armazenamento independentes. Os armazéns foram construídos com paredes de calcário. O material encontrado no interior das salas e na área pavimentada inclui um vasto conjunto de cerâmica, telhas com marcas de fabrico, recipientes de vidro, vestígios de uma forja de processamento de ferro próxima e mais de 60 moedas que datam do último período de ocupação, durante a era teodosiana.

As escavações no bairro nordeste da cidade continuam em curso, sendo possível observar a estrada angulada com as suas guias laterais, sarjeta e profundos sulcos deixados pelas rodas das carroças. Os três armazéns permanecem de pé, com vários metros de altura. Estão atualmente a decorrer trabalhos de consolidação para conservar os edifícios expostos.

O Arco de São Damião

O portão norte da cidade, conhecido como o Arco de São Damião, foi construído sob o domínio de Augusto, entre 27 a.C. e 14 d.C., na mesma altura em que a Via Flamínia foi repavimentada. Anteriormente, este pórtico era conhecido como o Arco de Trajano, devido à descoberta de várias moedas datadas do reinado de Trajano (reinou 98-117 d.C.) nas proximidades, durante o século XVI. A cidade de Carsulae não era fortificada e não possuía muralhas. Por isso, o Arco de São Damião foi edificado puramente como uma entrada monumental e não para fins defensivos. O portão marcava também o limite da cidade, para lá do qual se situavam os túmulos mais proeminentes. Originalmente, o Arco de São Damião era composto por três vãos em arco: o arco central, de maiores dimensões, era suficientemente largo para o tráfego de veículos, enquanto os arcos laterais, mais pequenos, alinhavam-se com os passeios elevados da rua.

Arch of San Damiano in Carsulae, Italy
Arco de São Damião em Carsulae, Itália Carole Raddato (CC BY-NC-SA)

Uma série de três degraus de pedra envolvia os pilares do vão central. O portão foi construído com um núcleo de betão romano (opus caementicium) revestido por grandes blocos de silhar de calcário. Os blocos ajustam-se perfeitamente e foram montados sem o uso de argamassa. Originalmente, todo o portal estava revestido com placas de mármore. Os blocos de calcário na parte inferior do arco foram deixados com um acabamento rústico, enquanto na parte superior (o intradorso) foram utilizados blocos polidos. Embora reste apenas o arco abobadado central, o portão estaria originalmente rodeado por um pilar de sustentação e rematado por um frontão decorativo no estilo romano tradicional.

Quem visita Carsulae pode percorrer a Via Flamínia, passando pelo portão norte a caminho dos túmulos. O vão central permanece de pé e foi restaurado para mostrar toda a passagem abobadada. O arco tem um vão de cinco metros (16.4 pés) de largura, sendo que a largura total — incluindo os pilares e o plinto em degraus — mede seis metros (19.6 pés). O arco ergue-se a 9,2 metros (30.1 pés) de altura e tem uma profundidade de 4,5 metros (14.7 pés). É possível observar tanto a fachada exterior de pedra como o núcleo interno, e os pequenos orifícios na cantaria mostram onde as placas decorativas de mármore eram originalmente fixadas.

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Bibliografia

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