O Desenvolvimento Literário da Lenda Arturiana

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por , traduzido por Filipa Oliveira
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A lenda arturiana tem origem no clérigo galês Godofredo de Monmouth (cerca de 1100 – cerca de 1155). Historiadores anteriores, como Gildas, Beda e Nénio, já tinham estabelecido a existência de um chefe de guerra britânico que derrotara os saxões no monte Badon muito antes de Godofredo de Monmouth redigir o seu próprio relato; contudo, nenhum deles conceberia o rei com tanto brilho nem decidiria transformar a história em lenda. No início da sua História dos Reis da Bretanha (tít. original: Historia Regum Britanniae; 1136), explica de que modo se propôs a escrever a obra:

Muitas vezes, ao ponderar no meu íntimo os muitos temas que poderiam constituir a matéria de um livro, ocorria-me o desígnio de escrever uma história dos reis da Bretanha; e, nessas meditações, parecia-me um verdadeiro espanto que, além da menção que Gildas e Beda deles fizeram no seu luminoso tratado, nada mais conseguisse eu encontrar acerca dos reis que tinham habitado a Bretanha antes da Incarnação de Cristo, nem sequer acerca de Artur e de tantos outros que lhe sucederam após a Incarnação, apesar de os seus feitos serem dignos de louvor eterno e de serem tão agradavelmente recordados de viva voz nas tradições de muitos povos, como se estivessem por escrito.

(pág. 3)

Este trecho introduz o leitor ao problema de Godofredo de Monmouth, que fica resolvido quando um amigo lhe empresta «um certo livro muitíssimo antigo», exatamente aquilo que ele esperava encontrar. Ele afirma então que a sua obra não passa de uma tradução desse texto antigo para latim. Embora alguns estudiosos defendam ser possível que ele tenha tido acesso a um verdadeiro «livro muitíssimo antigo», não restam dúvidas de que Geoffrey inventou a maior parte da sua «história» numa tentativa de conferir à Bretanha um passado orgulhoso e nobre.

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King Arthur, French Tapestry
Rei Artur, Tapeçaria Francesa Neil R (CC BY-NC-SA)

Embora a escassez de literatura arturiana seja a principal queixa de Godofredo de Monmouth no prefácio, a sua obra não se foca exclusivamente em Artur, mas sim nos reis da Bretanha desde o primeiro soberano, Bruto (por volta do século XII a.C.), até Cadualadre (por volta do século VII). A história de Artur apenas é narrada nos Livros 9, 10 e 11 do volume, mas, nesse curto espaço, Godofredo de Monmouth cria uma das epopeias mais poderosas da literatura.

Artur, a Lenda

Quaisquer que tenham sido as falhas de Godofredo de Monmouth enquanto historiador, ele compensa-as em estilo, imaginação e ritmo dramático. O Artur de Godofredo de Monmouth ganha vida na página desde a sua primeira apresentação como um jovem ingénuo até se transformar num rei maduro e conquistador de vastos reinos. Monmouth faz um uso hábil do diálogo, da ambientação, da caracterização, do simbolismo e, acima de tudo, do ritmo; a narrativa nunca se arrasta e o autor tem o cuidado de evitar sobrecarregar o leitor com demasiada descrição. Não admira que o seu livro se tenha tornado um bestseller internacional e tenha estabelecido a fundação para todas as obras futuras relacionadas com a figura de Artur.

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Na obra de Godofredo de Monmouth, Artur assume pela primeira vez a forma de herói lendário:. a sua armadura e o seu capacete são de ouro, adornados com o brasão da Virgem, e as suas armas são a poderosa lança conhecida como Ron e a grandiosa espada Caliburn.Godofredo de Monmouth altera o nome do monte Badon para a Batalha do Banho e atribui a Artur um inimigo pessoal bem definido no líder saxão Cheldric (posteriormente referido como Cerdic). Na sua narrativa, os saxões prestaram juramento de vassalagem a Artur como tributários e, com a mesma rapidez, quebraram-no. Assim, a grande batalha deixa de ser a posição defensiva descrita por Gildas, Beda e Nénio, transformando-se numa campanha ofensiva em prol do bem-estar do país e da honra pessoal.

Cerdic of Wessex
Cerdic de Wessex Guardian Unlimited (Copyright, fair use)

Na narrativa de Godofredo de Monmouth, Artur conta com Deus do seu lado na figura de São Dubricio, arcebispo de Caerleon, que profere um discurso antes da batalha a incentivar os bretões a lutar e a não temerem a morte, pois as suas ações contra o inimigo assegurar-lhes-ão o céu. Embora Artur perca um número considerável de homens no combate, acaba por triunfar, mata pessoalmente 470 saxões e põe Cheldric em fuga.

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Godofredo de Monmouth situa a Batalha do Banho no início da sua narrativa sobre Artur, no Livro IX, alterando assim a ordem tradicional das batalhas arturianas apresentadas por Nénio, e faz com que a vitória mais espetacular associada a Artur constitua apenas o começo de um reinado ilustre. A partir deste triunfo, a história desenvolve-se até aos dois primeiros capítulos do Livro XI; no final, Artur já conquistou a Europa e subjugado inclusive Roma. Muito embora seja o maior rei do seu tempo, mantém-se humilde e afável para com os amigos e atencioso perante as necessidades dos seus súbditos — traços que continuarán a caracterizar Artur ao longo de toda a evolução da sua lenda.

Godofredo de Monmouth é o primeiro a introduzir personagens que viriam a tornar-se essenciais nas lendas posteriores, além de acrescentar pormenores como o facto de a lança e a espada de Artur terem nomes próprios e possuírem um poder extraordinário.

Godofredo de Monmouth foi o primeiro a introduzir personagens que se tornariam fundamentais nas lendas posteriores: Guinevere, Merlin, Sir Kay, Sir Bedevere, Sir Gawain, Uther Pendragon e Mordred. Acrescenta também elementos como o facto de a lança e a espada de Artur terem nomes próprios e possuírem um poder extraordinário, a imagem de Artur como um guerreiro poderoso mas clemente, a traição de Mordred ao apoderar-se do reino e a reter Guinevere, a batalha cataclísmica entre Artur e Mordred, o ferimento mortal de Artur e a sua partida para a Ilha de Avalon, e o facto de Guinevere professar votos de castidade e ingressar numa ordem religiosa.

É por esta razão que Godofredo de Monmouth é apelidado de o 'Pai da Lenda Arturiana' e que a forma latina do seu nome, Galfridius, define os textos nos dias de hoje. O cânone arturiano divide-se em pré-galfridiano (escrito antes dele) e galfridiano ou pós-galfridiano (as obras que surgiram depois dele). Todos os textos arturianos escritos após os de Godofredo de Monmouth ostentam a marca da sua influência, pelo simples motivo de a sua obra ter sido lida e admirada pelos maiores poetas da era medieval.

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Os Poetas Franceses

A obra de Godofredo de Monmouth foi escrita em latim, a língua literária da época, não necessitando assim de tradução para ser lida por pessoas letradas noutros países. Foram muitos os que se inspiraram no relato de Godofredo de Monmouth para produzir as suas próprias versões — tantos, de facto, que os mencionados abaixo são apenas os mais célebres, aqueles que acrescentaram os pormenores mais famosos.

Por volta de 1160, a obra de Godofredo de Monmouth foi adaptada por Wace (também conhecido como Robert Wace, cerca de 1110–1174), da Normandia. Wace traduziu a obra para o vernáculo francês antigo, mas ofereceu muito mais do que uma simples tradução. A poesia de Wace elevou a história e acrescentou detalhes fundamentais, como a Távola Redonda — onde todos os cavaleiros da corte de Artur eram iguais — e uma imagem mais completa do próprio rei. Wace é também o responsável pelo famoso nome da espada de Artur: alterou a designação Caliburn de Godofredo de Monmouth para Chaliburn, que, ao ser traduzida para inglês, se viria a tornar Excalibur.

Geoffrey of Monmouth
Godofredo de Monmouth ndl642m (CC BY-NC-ND)

O poeta provençal Chrétien de Troyes (cerca de 1130 – cerca de 1190), da corte de Maria de Champagne (cerca de 1145–1198, filha de Leonor da Aquitânia), acrescentou os elementos da cavalaria, do amor cortês, a demanda do Graal e uma das figuras arturianas mais duradouras de sempre: Sir Lancelote. Na história de Chrétien Erec e Enida (tít. original: Erec et Enide; cerca de 1170), Lancelote faz a sua primeira aparição como cavaleiro da corte de Artur. No poema Lancelote, o Cavaleiro da Carreta (tít. original: Lancelot, le Chevalier de la Charrette; cerca de 1177), Lancelote é a personagem central de um enredo que relata as suas infrutíferas tentativas de resgatar a rainha Guinevere. Esta obra assinala igualmente a primeira menção ao famoso caso amoroso entre ambos, que moldaria grande parte da literatura arturiana posterior. Chrétien, tal como Godofredo de Monmouth, é também considerado o Pai da Lenda Arturiana devido a estes contributos.

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Por volta de 1190, Chrétien iniciou uma narrativa sobre Perceval centrada na busca do Santo Graal e que introduzia a figura do Rei Pescador (que viria a ter um papel tão proeminente nas lendas), mas não chegou a vivê-la para a concluir. A tarefa foi retomada por outro poeta francês, Robert de Boron (século XII), que escreveu José de Arimateia (tít. original: Le Roman de l'Estoire dou Graal) e Merlin, duas obras em verso que desenvolvem a demanda do Santo Graal e a figura do Rei Pescador.

Robert de Boron introduziu também a célebre espada na pedra (no seu Merlin), que originalmente surgia cravada numa bigorna. O estudioso da matéria arturiana Norris J. Lacy refere que Robert de Boron «havia explicado parcialmente o significado dos objetos — a espada representa a justiça; a pedra simboliza indubitavelmente Cristo —, estabelecendo assim Artur como um defensor da fé e como rei por direito divino» (pág. 536). Escritores posteriores substituiriam a bigorna por uma pedra e atenuariam o simbolismo cristão. Embora esta espada seja popularmente associada a Excalibur, tratam-se de duas armas distintas.

Excalibur, from the 1981 Film Excalibur
Excalibur, do Filme Excalibur de 1981 Eduardo Otubo (CC BY)

Outros dois poetas franceses da mesma época, Beroul e Tomás da Bretanha, deram os seus próprios contributos para a lenda em evolução através das respetivas versões em verso da história de Tristão e Isolda. Estima-se que ambas as obras datem de cerca de 1175–1200. A obra de Beroul carece dos elementos de cavalaria e amor cortês de que Tomás da Bretanha faz abundante uso. A escrita de Tomás da Bretanha foi muito provavelmente influenciada pela de Chrétien de Troyes, embora as semelhanças também possam dever-se aos interesses partilhados pelos respetivos públicos, ambos profundamente atraídos por estas vertentes do romance cavaleiresco: Tomás escrevia para Leonor da Aquitânia e Chrétien para a corte da filha dela.

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O desenvolvimento francês do código de honra cavalheiresco e dos elementos do amor cortês é singular por elevar o estatuto das mulheres na literatura europeias a um patamar nunca antes alcançado. Isto levou alguns estudiosos (sendo o mais notável Denis de Rougemont) a sugerir um significado oculto nestes contos. De Rougemont e outros afirmam que as histórias são alegorias relacionadas com a heresia cátara dos séculos XII e XIII. Os cátaros veneravam uma divindade feminina chamada Sofia (termo grego para sabedoria), e os enredos que envolvem uma donzela em apuros em geral, ou Guinevere em particular, seriam contos simbólicos que ilustram a forma como a Igreja tenta «raptar» a sabedoria ancestral, sendo necessário que um nobre cavaleiro (um cátaro) a resgate e a leve de volta em segurança para o seu verdadeiro lugar.

A Igreja acabaria por suprimir os cátaros entre 1209 e 1244, mas, mesmo antes disso, segundo esta teoria, a perseguição movida pela Igreja contra os cátaros tornara necessário ocultar as suas crenças sob as «mensagens cifradas» do romance, compreensíveis apenas para os iniciados. A validade desta interpretação continua a ser debatida, mas os elementos introduzidos por Chrétien influenciariam todas as versões posteriores da lenda arturiana.

Os Poetas Alemães

O poeta alemão Wolfram von Eschenbach (cerca de 1170 – cerca de 1220) aproveitou o motivo da demanda e criou o seu poema épico Parzival por volta de 1200, no qual a personagem central empreende uma jornada de autoconhecimento. O poema de Wolfram baseia-se na obra inacabada de Chrétien e na de Robert de Boron, mas as personagens encontram-se mais profundamente desenvolvidas a todos os níveis, e a densidade da obra consolidou-a como um ponto alto da literatura medieval em geral e dos textos arturianos em particular. A criação de Wolfram serviria de base para a ópera homónima de Richard Wagner.

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Gottfried von Strassburg (cerca de 1210) escreveu Tristrant (Tristão), inspirando-se nos trabalhos anteriores de Tomás da Bretanha e de Beroul, para criar uma obra poderosa que explora a tensão entre o amor romântico (cortês) e a honra pessoal. A história de amor entre Tristão e Isolda e a traição ao Rei Marcos, embora inicialmente sem qualquer ligação à lenda arturiana, acabaria por ser nela integrada, influenciando também a representação do caso entre Lancelote e Guinevere.

Os Poetas Ingleses

A obra-prima galesa O Mabinogion: Contos Celtas Medievais (tít. original: Mabinogion) data desta época (cerca de 1200), embora o texto apenas exista em cópias dos séculos XIV e XV. O Mabinogion é uma coletânea de contos influenciada pela poesia de Chrétien de Troyes, mas que assenta fortemente no folclore e na mitologia célticas. Em particular, duas destas histórias viriam a contribuir de forma decisiva para o desenvolvimento da lenda arturiana: Culhwch e Olwen, que retrata Artur como um rei poderoso que governa um reino mágico, e O Sonho de Rhonabwy, que apresenta o mundo onírico em que Artur e Ywain jogam o seu jogo de tabuleiro como infinitamente mais fascinante do que a vida real do sonhador.

Este universo literário foi depois plenamente vivificado por Layamon (cerca dos finais do século XII / inícios do século XIII), um sacerdote de Worcestershire que se tornou o primeiro a traduzir a história de Artur para inglês. O Brut de Layamon é um poema com pouco mais de 16.000 versos que se inspira largamente na obra de Wace, complementada por outras fontes. Layamon introduziu os pormenores do nascimento mágico de Merlin, descreveu a origem da Távola Redonda e incorporou os aspetos mais místicos da lenda.

Knights of the Round Table
Cavaleiros da Távola Redonda Evrard d'Espinques (Public Domain)

O desenvolvimento seguinte foi a criação do Ciclo da Vulgata (também conhecido como Ciclo de Lancelote-Graal, Lancelote em Prosa e Ciclo Pseudo-Map), atribuído ao escritor galês Walter Map (cerca de 1140 – cerca de 1210). A composição do Ciclo da Vulgata data firmemente de 1215–1235, pelo que Map não poderá ter sido o seu autor. A importância desta obra reside no facto de relatar a lenda arturiana em prosa; até então, os romances eram escritos em poesia, ficando a prosa reservada para obras sérias de história ou teologia. Trata-se da primeira visão plenamente concretizada da demanda do Graal, de Artur como rei cristão, de Lancelote como o grande herói mas com falhas, e de Galaad como o cavaleiro de coração puro a quem é concedida a visão do Santo Graal. O Ciclo da Vulgata foi posteriormente editado e revisto, dando origem à versão conhecida como Ciclo Pós-Vulgata (cerca de 1240–1250).

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O Ciclo Pós-Vulgata serviu de principal fonte a Sir Thomas Malory (cerca de 1415–1471), que compilou, editou, reviu e acrescentou elementos à lenda para criar a obra-prima da prosa inglesa A Morte de Artur (tít. original: Le Morte d'Arthur, por volta de 1469, enquanto se encontrava prisioneiro. A obra de Malory consagra a lenda arturiana por excelência tal como é reconhecida nos dias de hoje. Foi publicada em 1485 por William Caxton, no âmbito da sua iniciativa de disponibilizar literatura de valor aos leitores através do novo engenho da imprensa. A história fez tanto sucesso que foram ordenadas uma segunda e uma terceira tiragens.

O Declínio e o Renascimento

Embora tenha sido inicialmente um êxito de vendas, a obra caiu em desfavor durante o século XVI, no apogeu do Renascimento. As histórias de um rei medieval inglês deixaram de estar na moda à medida que os textos de escritores da Grécia e de Roma antigas voltaram a ser amplamente disponibilizados. A Reforma Protestante do século XV abriu a crença religiosa a uma maior liberdade de interpretação, e a imprensa permitiu uma maior disseminação de obras que tinham estado perdidas durante séculos. Escritores como Platão, Homero, Aristóteles, Cícero, Lucrécio e Virgílio tornaram-se populares entre a elite letrada e a lenda (conhecida como a Matéria da Bretanha) caiu no esquecimento.

O poeta inglês Edmund Spenser (1552–1599) tentou reviver as lendas arturianas no seu poema épico e alegórico The Faerie Queene (A Rainha das Fadas; cerca de 1590), mas o seu Artur é demasiado perfeito para despertar interesse. Ao tentar fazer do Rei Artur um modelo de virtude e força cristãs, Spenser criou uma personagem irrepreensível cuja fé em Deus o torna invencível e, por conseguinte, sobre-humano. Nenhuma das qualidades da personagem tão marcantes na obra de Geoffrey de Monmouth ou na de Malory se encontra presente na obra de Spenser. Embora The Faerie Queene tenha sido bem acolhida, em nada contribuiu para reavivar o interesse pela lenda arturiana, e as histórias permaneceram mais ou menos esquecidas até ao século XIX. A estudiosa da matéria arturiana Debra N. Mancoff escreve:

Após séculos de esquecimento, a lenda arturiana foi introduzida no repertório do pintor britânico sob a forma de alegoria patriótica. Em 1848, a pedido do príncipe Alberto, o governo incumbiu William Dyce de conceber e executar um programa de frescos baseados na lenda arturiana para a Sala de Vestimenta da Rainha no novo palácio de Westminster. Tendo Malory como texto de referência, Dyce personificou as qualidades ideais da virilidade britânica nos heróis da lenda, e a sua postura moral antecipou a interpretação de Tennyson em Idílios do Rei.

(Lacy, pág. 28)

Alfred, Lord Tennyson (1809–1892) popularizou a lenda através das suas obras, a começar em 1832 com a publicação do poema A Donzela de Shalott (tít. original: The Lady of Shalott), prosseguindo com outros títulos sobre o mesmo tema e, de forma mais marcante, com a publicação em 1859 de Idylls of the King (Idílios do Rei). Tennyson há muito que se sentia fascinado pela lenda arturiana e pela figura de Artur, tendo remodelado o texto de Malory — reconduzindo a história à forma poética — de modo a refletir os valores da Inglaterra vitoriana. Idílios do Rei não constituiu de todo a sua derradeira obra sobre o tema, pois continuaria a escrever e a publicar poesia arturiana até ao fim da vida. A obra de Tennyson inspirou outros escritores e poetas vitorianos a debruçarem-se também sobre a matéria, renascendo assim a literatura arturiana na era moderna.

King Arthur by C.E.Butler
Rei Artur, por C. E. Butler Charles Ernest Butler (Public Domain)

A história de Artur, a demanda e os Cavaleiros da Távola Redonda voltaram a ser leituras populares, deram origem a uma versão em prosa em inglês moderno (King Arthur and His Knights of the Round Table - O Rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda, de James Knowles, publicado em 1862) e começaram a ser levadas a sério por estudiosos que se dedicaram a interpretar o simbolismo e a investigar as fontes primordiais dos contos. A lenda arturiana tornou-se leitura obrigatória para os jovens e estabeleceu o código de cavalaria e a conduta irrepreensível para pessoas de todas as idades.

Tennyson é regularmente apelidado de o Pai do Renascimento Arturiano, uma vez que foi quase inteiramente responsável por reacender o interesse pela lenda. Mark Twain ampliou o público de Artur na sua obra Um Ianque na Corte do Rei Artur (tít. original: A Connecticut Yankee in King Arthur's Court), em 1889. No século XX, escritores como T. S. Eliot, Hemingway, Fitzgerald, D. H. Lawrence e Joyce inspiraram-se nas lendas para o simbolismo das suas próprias obras. John Steinbeck reescreveu os contos para um público moderno e T. H. White redefiniu a lenda para o seu próprio tempo, em 1958, com a sua obra O Único e Eterno Rei (tít. original: The Once and Future King).

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Mais tarde, Thomas Berger faria o mesmo no seu romance Arthur Rex: A Legendary Novel (Arthur, o Rei: Um Romance Lendário), e Mary Stewart popularizaria ainda mais a lenda através da sua Trilogia de Merlin. Estes são apenas alguns dos escritores e artistas que recorrem constantemente às lendas arturianas em busca de inspiração. As pessoas continuam a sentir-se atraídas pela história nos dias de hoje, tal como quando Geoffrey publicou a sua obra pela primeira vez, porque a figura de Artur é intemporal; todas as eras, por mais sofisticadas que se considerem, continuam à procura de um herói.

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Bibliografia

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Mark, J. J. (2026, agosto 25). O Desenvolvimento Literário da Lenda Arturiana. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1069/o-desenvolvimento-literario-da-lenda-arturiana/

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Mark, Joshua J.. "O Desenvolvimento Literário da Lenda Arturiana." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, agosto 25, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1069/o-desenvolvimento-literario-da-lenda-arturiana/.

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Mark, Joshua J.. "O Desenvolvimento Literário da Lenda Arturiana." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 25 ago 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1069/o-desenvolvimento-literario-da-lenda-arturiana/.

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