Excalibur é a espada do Rei Artur na obra icónica de Sir Thomas Malory, A Morte de Arrur (tít. original: Le Morte d'Arthur) publicada em 1485. A espada foi originalmente apresentada na História dos Reis da Grã-Bretanha (tít. original: History of the Kings of Britain, 1136), de Godofredo de Monmouth, sob o nome de Caliburnus (ou Caliburn), tendo sido posteriormente desenvolvida por escritores posteriores, antes de Malory a imortalizar na sua obra. A espada, desde a sua primeira aparição, é uma arma poderosa nas mãos de um guerreiro habilidoso e mantém essa reputação em todas as histórias em que aparece.
Tal como acontece com muitas outras espadas mágicas ou poderosas da lenda ou da mitologia, é identificada com um único herói e, devido ao seu poder inerente, não deve cair nas mãos de um inimigo. No caso de Excalibur, quando Artur está a morrer devido aos ferimentos sofridos na batalha contra Mordred, a espada deve ser devolvida à sua origem, a Dama do Lago, em vez de ser confiada a qualquer cavaleiro — por mais nobre que seja — que venha a suceder a Artur como rei.
No entanto, esta regra nem sempre se aplica em todas as versões da lenda. No poema Perceval ou a História do Graal (tít. original: Perceval ou le Conte du Graal; erca de 1190),, o poeta provençal Chrétien de Troyes (cerca de 1130 – cerca de 1190) faz de Excalibur (chamada Escalibor) a arma de Sir Gawain. No Ciclo da Vulgata (1215-1235) e no Ciclo Pós-Vulgata (cerca de 1240-1250), Artur oferece a Excalibur a Gawain, que a empresta a Lancelote para a defesa de Guinevere. Gawain devolve então a espada a Artur para a sua batalha final contra Mordred e, posteriormente, esta deve ser devolvida à Dama do Lago.
As Espadas na Mitologia
O conceito de uma «espada de poder» não teve origem na lenda arturiana. A mitologia grega menciona várias espadas mágicas e, em especial, a «harpe» , utilizada pelo titã Cronos para derrubar o seu pai, Urano. A espada de Júlio César, a «Crocea Mors», supostamente possuía poderes sobrenaturais, tal como a Espada de Marte empunhada por Átila, o Huno. As espadas «Gianjiang» e «Moye» , do Período das Primaveras e Outonos da China, também se supõe terem sido imbuídas de grande poder pelos seus criadores.
No livro bíblico do Génesis, após a Queda do Homem, Deus colocou os seus querubins a vigiar a entrada a leste do Jardim do Éden, juntamente com uma espada flamejante «que girava em todas as direções», para impedir que Adão e Eva regressassem. O deus xintoísta da tempestade, Susanoo, encontra uma espada mágica na cauda de um dragão, que acabou por se tornar parte das insígnias imperiais japonesas. A mitologia nórdica recorre frequentemente a espadas mágicas, como a Gram, a arma de Sigmund e do seu filho Sigurd, e os celtas incorporaram várias espadas mágicas nos seus contos, incluindo a Claiomh Solais (kleeve sollish), a Espada da Luz que triunfa sobre as trevas. Diz-se que o herói espanhol do século XI, El Cid, possuía duas espadas mágicas, e o campeão francês do século VIII, Roland, empunhava a sua famosa lâmina Durendal, tendo perecido com ela ao defender a Passagem de Roncesvalles no épico «Canto de Roland».
Embora existam estes precedentes de espadas mágicas ou com poderes sobrenaturais anteriores, a Excalibur é, sem dúvida, a mais famosa. É frequentemente associada a outro motivo arturiano, a Espada na Pedra, mas, na verdade, trata-se de duas espadas diferentes. Em algumas versões da lenda, a Espada na Pedra parte-se na primeira batalha de Artur e é substituída pela Excalibur, enquanto noutras, a Espada na Pedra corrobora o direito de Artur a reinar (uma vez que só ele consegue retirar a lâmina da rocha) como filho e sucessor de Uther Pendragon, servindo a Excalibur como símbolo do seu poder enquanto rei.
O NOME FAMOSO E A ORIGEM
O nome Excalibur pode ter origem na obra Culhwch e Olwen, da obra O Mabinogion: Contos Celtas Medievais (tít. original: Mabinogion), uma coleção de lendas galesas, se se aceitar uma data de composição por volta de 1100. No entanto, o Mabinogion só existe em manuscritos dos séculos XIII e XIV, e alguns estudiosos datam-no de 1200. Neste conto, a espada de Artur chama-se Caledvwich, nome que deriva do latim chalybs («aço» ou «ferro») e significa «fenda dura». Caledvwich, como nome de uma espada de poder, provavelmente provém da lâmina mitológica irlandesa Caladbolg (que significa «voraz»), empunhada pelo rei Fergus mac Roich no Ciclo do Ulster da mitologia irlandesa.
Godofredo de Monmouth chama à espada de Artur «Caliburnus» em latim medieval, o que constitui uma utilização mais direta do latim «chalybs» no sentido de «aço», mas denota uma lâmina particularmente dura ou eficaz. Essencialmente, na época em que Godofredo escrevia, o nome da lâmina de Artur seria entendido como «espada famosa» ou «grande espada», devido às associações anteriores de «chalybs» com armas mitológicas.
O poeta francês Wace (cerca de 1110-1174) traduziu a obra de Godofredo para o vernáculo do francês antigo e renomeou a espada Chaliburn. Chrétien de Troyes alterou o nome para Escalibor. Quando a lenda arturiana foi traduzida para inglês, Chaliburn/Escalibor passou a ser Excalibur. Malory, baseando-se no Ciclo da Vulgata, chama à espada de Artur Excalibur pouco depois de Artur ter encontrado e desembainhado a Espada na Pedra, associando o nome a essa arma, e essa associação permaneceu. Mais tarde, porém, depois de esta primeira espada se ter partido em batalha, fica claro que Artur deve receber a «verdadeira Excalibur» de uma fonte mística, a Dama do Lago, e Merlin (que parece ser a força mágica por trás de ambas as espadas) guia-o até ao local onde ela lhe será oferecida. Não é dada qualquer explicação quanto ao significado, poder ou origem da espada e, na verdade, Malory dedica mais atenção à bainha.
Quer seja apresentada como a Espada na Pedra ou oferecida pela Dama do Lago, é evidente que a Excalibur provém de outro reino. Este motivo decorre de um paradigma estabelecido na tradição celta de armas mágicas — tais como a lança de Cuchulain ou a espada de Fergus mac Roich —, que teriam sido forjadas num reino místico. O mesmo recurso, no entanto, é utilizado em lendas de muitas culturas por todo o mundo. As grandes espadas de Gianjiang e Moye, por exemplo, também têm origens místicas. No caso de Excalibur, a espada evolui de uma arma poderosa para um símbolo de justiça e redenção de inspiração divina. Quando a arma é mencionada pela primeira vez na obra de Godofredo de Monmouth, não lhe são atribuídos quaisquer atributos mágicos.
O PODER DA ESPADA
No Livro IX de «História dos Reis da Grã-Bretanha», Caliburn é referida pela primeira vez como «a melhor das espadas, forjada na ilha de Avallon» e é listada por Godofredo, juntamente com o restante equipamento de Artur, como um objeto de particular importância. Enquanto Artur se prepara para enfrentar os saxões em batalha em Bath, Godofredo escreve:
Colocou na cabeça um elmo de ouro gravado com a imagem de um dragão. Além disso, sobre os ombros, empunhava o escudo chamado Pridwen, no qual, no lado interior, estava pintada a imagem da Santa Maria, Mãe de Deus, que muitas e muitas vezes lhe trazia a sua memória de volta. Estava também cingido com Caliburn, a melhor das espadas, forjada na Ilha de Avallon; e a lança que adornava a sua mão direita chamava-se Ron, uma lança alta e robusta, perfeita para causar morte. (188)
Os saxões quebraram a confiança depositada em Artur depois de terem jurado um tratado de paz e, por isso, a batalha é uma questão de honra pessoal, bem como uma defesa necessária do seu reino. Godofredo descreve uma batalha renhida, na qual os saxões ocupam as alturas e infligem pesadas baixas aos britânicos sob o comando de Artur. Os saxões continuam a manter a sua posição até o dia estar quase a terminar e, então, Artur, finalmente farto, lidera ele próprio uma investida final contra a posição inimiga. Godofredo escreve:
Artur enfureceu-se com a teimosia da resistência inimiga e com a lentidão do seu próprio avanço; sacando Caliburn, a sua espada, clamou em voz alta em nome de Santa Maria e lançou-se com um ataque veloz para o meio das fileiras inimigas. Quem quer que tocasse, invocando Deus, matava com um único golpe, e não abrandou nem uma única vez o seu ataque até ter matado, sozinho, quatrocentos e setenta homens com a sua espada Caliburn. Ao verem isto, os britânicos seguiram-no em fileiras compactas, causando mortandade por todos os lados.
(pág. 189)
A Excalibur é descrita mais ou menos da mesma forma sempre que aparece numa história. Na obra de Malory, quando Artur é atacado pelo rei Lot, é inicialmente derrotado até libertar o poder da sua espada:
Com isso, o rei Lot derrubou o rei Artur. Nesse momento, os seus quatro cavaleiros resgataram-no e colocaram-no a cavalo; então, ele desembainhou a sua espada Excalibur, e esta era tão brilhante aos olhos dos seus inimigos que emitia luz como trinta tochas. Com ela, ele repeliu-os e matou muitas pessoas.
(pág. 13)
Artur confronta Lot logo no início da versão de Malory da lenda e parece que Excalibur é a mesma espada que Artur tinha anteriormente retirado da pedra. Isto causou confusão entre duas armas que são frequentemente identificadas como sendo a mesma, mas que não o são.
A ESPADA NA PEDRA
O conceito da Espada na Pedra foi introduzido na lenda arturiana pelo poeta francês Robert de Boron (século XII) na sua obra Merlin. Robert de Boron apresenta a espada cravada numa bigorna, que escritores posteriores transformaram numa pedra. O Ciclo Vulgata da lenda distingue entre a espada que Artur retirou da pedra e a Excalibur, e esta tradição é mantida no Ciclo Pós-Vulgata e repetida na obra de Malory.
Embora a espada de Artur seja identificada como Excalibur logo no início da versão de Malory, torna-se claro que não se trata da verdadeira Excalibur, uma vez que esta espada se parte na luta de Artur com o rei Pellinore. Pellinore leva a melhor sobre Artur depois de a espada deste se partir e diz-lhe para se render, mas o jovem rei recusa-se a fazê-lo. A fim de salvar a vida de ambos, Merlin adormece Pellinore e, em seguida, leva Artur para receber a verdadeira Excalibur da Dama do Lago. O estudioso arturiano Norris J. Lacy escreve:
Em certos textos (e na tradição arturiana popular), a Excalibur é também a Espada na Pedra, mas tal identificação é incompatível com a tradição, encontrada, por exemplo, no Ciclo Pós-Vulgata e em Malory, segundo a qual a espada é entregue a Artur (e, por fim, retirada dele) por uma mão no lago.
(pág. 176)
Uma vez que a Excalibur é definida pelo seu poder e força, não pode ser a mesma arma que se parte no confronto de Artur com Pellinore. Mesmo assim, segundo Merlin, não é a Excalibur que é tão extraordinária, mas sim a sua bainha. Merlin pergunta a Artur: «O que te agrada mais, a espada ou a bainha?», e Artur responde: «A espada agrada-me mais.» Merlin repreende-o então:
«És ainda mais imprudente», disse Merlin, «pois a bainha vale dez vezes mais do que a espada. Enquanto tiveres a bainha contigo, nunca derramarás sangue, por mais gravemente ferido que estejas. Por isso, mantém sempre a bainha contigo.»
(pág. 37)
Este pormenor torna-se significativo mais tarde na versão de Malory da história, quando a irmã de Artur, Morgana le Fay, rouba a bainha. Ela esperava derrotar Artur através da magia, colocando o seu amante, Sir Accolon, contra Artur, dando a Accolon a verdadeira Excalibur e a Artur uma falsa (um recurso narrativo retirado quase diretamente do Ciclo do Ulster irlandês). Quando a espada de Artur se parte, ele percebe que não se trata da Excalibur e consegue derrotar e matar Accolon. Morgana, em vingança, apanha a bainha mágica e atira-a para um lago; condenando assim Artur na sua batalha final contra Mordred.
SIGNIFICADO DA EXCALIBUR
A espada tornou-se mais famosa do que a poderosa bainha e continua a ser um símbolo da virtude e do poder de Artur. Obras posteriores, incluindo «El Cid» e «A Canção de Rolando», recorrem ao simbolismo da Excalibur para os seus heróis. A famosa trilogia de J.R.R. Tolkien, O Senhor dos Anéis, baseia-se no simbolismo de uma espada de poder que está partida e tem de ser restaurada para transmitir o conceito do regresso do rei legítimo; um recurso narrativo semelhante ao motivo da «Espada na Pedra», em que o reino sofre após a morte de Uther Pendragon até que o rei legítimo consiga retirar a espada mágica da pedra.
Mais do que um simples recurso literário, porém, Excalibur passou a representar os aspetos mais nobres da lenda arturiana. Embora seja sempre descrita como uma espada de poder, esse poder é exercido no melhor interesse do povo e da justiça, e não no interesse próprio do rei. Excalibur é entregue a Artur por meios mágicos, pela Dama do Lago; não é uma arma forjada neste mundo, mas noutro. A espada provém desse outro reino e, assim que Artur for derrotado e estiver à beira da morte, terá de ser devolvida para lá. Este motivo não é exclusivo da lenda arturiana, mas é emprestado da tradição celta, na qual a arma mágica deve ser devolvida à sua origem.
Em algumas versões da história, ao cavaleiro Sir Girflet, que sobreviveu à batalha final entre Artur e Mordred, é confiada a tarefa de atirar a Excalibur de volta ao lago; em Malory, essa tarefa cabe a Sir Bedevere. Seja Girflet ou Bedevere, a ordem de Artur para que Excalibur seja devolvida ao seu lugar de origem é ignorada por duas vezes, uma vez que o cavaleiro que ele envia para cumprir a missão não consegue ver sentido em deitar fora uma arma tão nobre e poderosa. Este fracasso por parte de um dos companheiros mais fiáveis de Artur ecoa a história cristã da traição de Cristo por Judas, tal como se pretende, e aponta para o mesmo significado: que o mundo não consegue compreender nem apreciar os esforços da vontade divina para o ajudar a elevar-se para além do que pensa ser capaz.
