Antoine de Chandieu

Stephen M Davis
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Antoine de Chandieu (by Unknown Artist, Public Domain)
Antoine de Chandieu Unknown Artist (Public Domain)

Antoine de Chandieu (cerca de 1534-1591) foi um teólogo francês que desempenhou um papel decisivo na história religiosa do século XVI, mas que permanece na sombra de outros líderes protestantes franceses. Devido às suas notáveis capacidades e à sua contribuição para a Reforma na França, Chandieu tem sido considerado o «Chifre de Prata» entre os mais conhecidos João Calvino (Ouro) e Teodoro Beza (Bronze).

Os Primeiros Anos

Antoine de la Roche nasceu no Dauphiné, uma antiga província no sudeste de França, no seio de uma família de longa tradição, os barões de Chandieu. Era conhecido como Monsieur de la Roche até à morte do seu irmão Bertrand na Batalha de Dreux, em 1562, altura em que Antoine se tornou o senhor de Chandieu. O pai faleceu quando ele tinha quatro anos, e a sua mãe, viúva, encarregou-se da educação de Antoine e do seu irmão mais velho, Bertrand, herdeiro do nome de Chandieu e do senhorio de Chandieu. Antoine foi orientado para os estudos formais, em preparação para um cargo no governo, enquanto o seu irmão estava destinado ao serviço militar. Enviado para Paris para prosseguir a sua educação, Antoine ficou ao cuidado de um tutor influenciado pelas ideias de João Calvino (1509-1564) e continuou os seus estudos em Toulouse, uma cidade marcada pela repressão religiosa. Apesar da perseguição por parte do Parlamento de Toulouse, considerado o mais sangrento de toda a França, a Reforma Protestante atraía seguidores e simpatizantes secretos. A conversão e o martírio de vários professores respeitados levaram os estudantes a abandonar os seus estudos de Direito e a rumar a Genebra para estudar a Bíblia.

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O Ministério Pastoral

La Roche partiu de Toulouse para Genebra e converteu-se à fé evangélica sob a influência de Calvino. Regressou a Paris em 1555, onde os crentes reformados estavam a organizar uma igreja sob a liderança de Jean le Maçon, conhecido como La Rivière. Em breve, as responsabilidades da igreja exigiram outro pastor, e La Roche tornou-se um dos três pastores da igreja. Os protestantes reuniam-se geralmente à noite, em pequenos grupos, em casas espalhadas por diferentes bairros da capital. Desta forma, a igreja conseguia reunir-se sem levantar suspeitas.

Após o ataque na rue Saint-Jacques, La Roche foi detido juntamente com Jean Morel e o pastor de Lestre.

A 4 de setembro de 1557, entre 300 e 400 crentes reformados reuniram-se para celebrar a Ceia do Senhor numa grande casa na rue Saint-Jacques, nas proximidades do Collège du Plessis. Ao saírem à meia-noite, os participantes foram alvejados com pedras reunidas pelos padres do Collège du Plessis, que tinham estado a espiar as reuniões. O barulho acordou toda a vizinhança e cidadãos armados bloquearam as vias de fuga. Muitos dos que estavam lá dentro decidiram abrir caminho à força através da multidão, liderados por cavalheiros empunhando espadas. Outros, na sua maioria mulheres, crianças e idosos, temeram sair e permaneceram na casa sitiada pelo resto da noite. Ao amanhecer, foram detidos e arrastados através da multidão enfurecida até ao Châtelet, onde foram encarcerados. A maioria definhou nas masmorras; sete foram queimados na fogueira. Apesar deste acontecimento, as reuniões protestantes não foram suspensas e as precauções foram redobradas face ao perigo crescente. Após o ataque na rue Saint-Jacques, La Roche foi detido juntamente com Jean Morel e o Pastor de Lestre. La Roche e de Lestre foram libertados, enquanto Morel permaneceu preso e definhou, sujeito a múltiplos tormentos durante vários meses. Em fevereiro de 1559, a sua vida terminou na miséria da masmorra, sob a suspeita de envenenamento, e o seu cadáver foi queimado como herege.

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No final de 1560, La Roche foi enviado pela Igreja de Paris à convocação dos Estados Gerais em Orléans. A causa protestante parecia perdida. O julgamento de vários ministros, incluindo La Roche e La Rivière, era iminente, e a Igreja consagrou os últimos dez dias de novembro à oração. A morte do rei Francisco II de França, a 5 de dezembro de 1560, mudou tudo, e a rainha-mãe, Catarina de Médici (1519-1589), terá alegadamente solicitado à Igreja de Paris que enviasse La Roche para se encontrar com ela, movida pelo desejo de receber instrução religiosa. O Consistório enviou um memorando em seu lugar, em vez de colocar a vida de La Roche em perigo. Os crentes reformados desfrutaram de uma trégua na perseguição, uma vez que Catarina procurava enfraquecer ainda mais a influência dos seus opositores.

Portrait of Catherine de' Medici
Retrato de Catarina de Médici Germain Le Mannier (Public Domain)

De todos os pastores de Paris, La Roche era o mais conhecido e o mais ameaçado devido às suas grandes capacidades e ao seu estatuto social. Para sua proteção, o Consistório de Paris exigia-lhe ocasionalmente que abandonasse Paris quando os seus adversários o perseguiam. Recusou uma oferta para deixar a França e juntar-se aos refugiados em Londres e, quando o ministério em Paris se tornou impossível, serviu outras igrejas sem remuneração.

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Alguns historiadores atribuem a La Roche a autoria da Confissão de Fé e Disciplina das igrejas reformadas de 1559, no primeiro sínodo nacional, bem como a sua influência nos sínodos subsequentes. Foi autor da «Épître au roi» ( Carta ao rei), que foi anexada à Confissão de Fé e apresentada a Francisco II após a falhada Conspiração de Amboise, em 1560 — um complot para raptar o rei e afastá-lo da influência dos seus conselheiros. O irmão de La Roche, Bertrand, esteve implicado na conspiração falhada e La Roche, considerado culpado por associação, foi rejeitado pela rainha-mãe como delegado ao Colóquio de Poissy, em 1561 — uma tentativa infrutífera de evitar a guerra civil e reconciliar os católicos romanos e os protestantes de França.

A Expulsão de Paris

Um período de descanso necessário para La Roche na sua propriedade em Beaujolais foi interrompido pelo massacre de protestantes em Vassy, em março de 1562, quando uma grande congregação de huguenotes foi atacada por soldados de François, duque de Guise. O incidente desencadeou mais massacres e marcou o início das Guerras Religiosas Francesas. A eclosão da primeira guerra religiosa obrigou todos os pastores reformados a abandonar Paris quando os huguenotes foram expulsos em maio. Pastores, anciãos e muitos outros protestantes encontraram refúgio em Orléans, um baluarte do exército reformado. Com a cidade sitiada e devastada pela peste, La Roche e o seu colega La Rivière exerceram o ministério durante um ano, exercendo uma influência importante sobre outros ministros que ali tinham encontrado refúgio.

Mapa das Religiões Dominantes na Europa Século XVI
Mapa das Religiões na Europa no Século XVI Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Em nome das igrejas reformadas, La Roche liderou a oposição durante as negociações para a Paz de Amboise, em 1563. O tratado pôs fim à primeira guerra religiosa e tornou-se uma fonte de desânimo para os crentes reformados, devido às restrições impostas aos locais de culto. Em 1563, La Roche publicou a sua Histoire de la persécution et des martyrs de l'Église de Paris, depuis l'an 1557 jusqu'au temps du règne de Charles IX (História das Perseguições e dos Mártires da Igreja em Paris, de 1557 até ao tempo do rei Carlos IX), e escreveu no seu diário que as igrejas reformadas se sentiam abandonadas e numa situação pior do que antes da guerra. O sexto artigo do tratado proibia o culto reformado em Paris e, na prática, exilou La Roche e La Rivière da sua igreja parisiense.

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Chandieu no Exílio

Com a morte do seu irmão na Batalha de Dreux, em dezembro de 1562, La Roche tornou-se o chefe da sua família e passou a ser tratado por Monsieur de Chandieu. Nem o seu novo título nem a sua fortuna alteraram em nada o seu estilo de vida simples; ele manteve-se dedicado à sua vocação pastoral. Em 1563, casou-se com Françoise de Felin, da família dos senhores de Banthelu, uma família dedicada à causa reformada. Françoise permaneceu como fiel companheira de Chandieu durante 28 anos.

Chandieu trabalhou na Borgonha para reorganizar e estabelecer igrejas nos locais autorizados pela Paz de Amboise.

Um sínodo provincial reunido em La Ferté em 1564, com 38 ministros e 60 anciãos sob a presidência de Chandieu, demonstrou o vigor das igrejas protestantes reorganizadas na região de Paris, na Picardia e na Brie. O quinto sínodo nacional reuniu-se secretamente em Paris em 1565, embora não se saiba se Chandieu esteve presente. O seu cuidado pela igreja da qual continuava a ser pastor manifestava-se através de cartas, oração e visitas discretas. Finalmente, em junho de 1567, recebeu autorização do Consistório para regressar ao seu ministério com prudência. No entanto, três meses mais tarde, no início da segunda guerra de religião, foi forçado a retirar-se mais uma vez de Paris. Nunca mais regressaria à capital.

Chandieu trabalhou na Borgonha para reorganizar e estabelecer igrejas em locais autorizados pela Paz de Amboise. Consagrou o seu tempo e as suas forças à igreja de Lyon, uma grande congregação que se tinha mantido nas mãos dos protestantes durante a primeira guerra de religião. Dos três templos protestantes em Lyon construídos para substituir aqueles que lhes tinham sido retirados, um foi demolido em 1566 antes de estar concluído, e os outros dois sofreram o mesmo destino no ano seguinte, no início da segunda guerra de religião. Os protestantes foram expulsos da cidade, os seus bens foram confiscados e os protestantes que permaneceram e se recusaram a converter-se ao catolicismo foram presos. Os pastores foram especialmente perseguidos e Genebra voltou a acolher refugiados, que foram assistidos com fundos provenientes de terras protestantes. A Paz de Longjumeau, em março de 1568, que pôs fim à segunda guerra de religião, não trouxe qualquer alívio com as suas promessas não cumpridas. O rei proibiu o culto protestante em Lyon e, em flagrante violação das disposições do edito, os prisioneiros religiosos não foram libertados e os bens confiscados não foram devolvidos aos seus proprietários.

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Chandieu fugiu de casa em agosto de 1568, após várias tentativas de assassinato. Vagou durante nove dias com os seus adversários em perseguição. Atravessou o rio Saône à meia-noite, dirigiu-se a Genebra, então assolada por uma peste, e seguiu para Lausanne antes de regressar a Genebra. Um mês após a sua fuga, Carlos IX de França (reinou 1560-1574) proibiu a prática da religião reformada e teve início a terceira guerra de religião. A esposa de Chandieu foi obrigada a permanecer em França para evitar o confisco das suas propriedades. Visitou-o duas vezes e, na segunda visita, deu à luz a sua quinta filha, Suzanne, que ficou aos cuidados do pai.

Em fevereiro de 1570, recebeu a notícia de que a sua família estava em perigo e que o seu castelo tinha sido ocupado pelo inimigo. Foi durante este período que compôs a Ode sur les misères des Églises françaises (Ode às misérias das Igrejas francesas). Após anos de desolação, seguiu-se um período de paz com o Tratado de Saint-Germain, em agosto de 1570, que pôs fim à terceira guerra religiosa e concedeu liberdade de culto limitada aos protestantes. Chandieu regressou à França e à sua família e participou em dois sínodos nacionais com Theodor Beza (1519-1605) em La Rochelle e Nîmes durante este período de paz. A breve trégua foi interrompida a 24 de agosto de 1572, com o Massacre do Dia de São Bartolomeu. A carnificina começou em Paris e prosseguiu nas províncias. Tal como milhares de outras pessoas, Chandieu voltou a enveredar pelo caminho do exílio para Genebra, desta vez por onze anos.

St. Bartholomew Day Massacre
Massacre do Dia de São Bartolomeu François Dubois (Public Domain)

Os Últimos Anos

Chandieu passou os onze anos seguintes numa relativa tranquilidade, dedicando-se à educação dos seus filhos. A Academia de Lausanne convidou-o para o cargo de professor de teologia em 1577. Dois anos mais tarde, uma peste assolou Lausanne, obrigando Chandieu e a sua família a partir para Aubonne, entre Lausanne e Genebra, onde permaneceu até julho de 1583. Durante este período de calma, compôs vários dos seus escritos. Traduziu as suas «Meditações sobre o Salmo 32» do latim para o francês e dedicou-as aos protestantes de França que tinham sido forçados a aderir à Igreja Católica.

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O Tratado de Fleix, em novembro de 1580, pôs fim à sétima guerra de religião e trouxe ordem e segurança à França. Chandieu partiu de Aubonne para o seu país natal em 1583, a fim de visitar as suas propriedades rurais e estabelecer-se em Poule. Em setembro de 1584, foi delegado numa assembleia reformada autorizada por Henrique III de França (reinou 1574-1589) em Montauban e regressou a casa para se dedicar aos seus escritos teológicos.

O ano de 1584 marcou o início de uma nova era de turbulências que mergulhou a França noutra guerra civil. Henrique de Navarra tornou-se o primeiro na linha de sucessão ao trono após a morte do irmão mais novo de Henrique III, Francisco, duque de Anjou (1555-1584). Em junho, Chandieu partiu para Genebra para garantir a segurança da sua família e regressou sozinho a Poule. Durante os três anos seguintes, Chandieu serviu como capelão de Navarra. Foi um dos pastores que rezou antes da Batalha de Coutras, em outubro de 1587. Este importante confronto nas guerras religiosas francesas terminou com uma grande vitória para os huguenotes, e Chandieu proclamou a humilhação dos inimigos do príncipe, cujas bandeiras enfeitavam as muralhas dos vencedores.

Portrait of Henry IV of France
Retrato de Henrique IV da França Frans Pourbus the Younger (Public Domain)

A saúde de Chandieu foi afetada pela vida nos acampamentos militares, e ele adoeceu gravemente em Nérac, em novembro de 1587. Depois de se recuperar, foi-lhe permitido reunir-se com a sua família na primavera seguinte, em Genebra, após uma separação de três anos. Quinze dias depois, foi encarregado de missões nos cantões da Suíça Reformada e junto dos príncipes protestantes da Alemanha. Com o assassinato de Henrique III em 1589, Henrique de Navarra foi designado seu sucessor como Henrique IV de França (reinou 1589-1610). Chandieu recebeu a sua primeira carta do rei Henrique IV em janeiro de 1590; mantiveram correspondência e Chandieu conservou um profundo afeto por ele.

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Nos seus últimos anos, Chandieu serviu a igreja em Genebra sem remuneração, continuou a escrever sobre teologia e manteve correspondência com pastores em França. Juntamente com Beza, os seus conselhos e opiniões eram procurados para questões de doutrina e disciplina eclesiástica. Faleceu a 23 de fevereiro de 1591.

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Bibliografia

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Davis, S. M. (2026, julho 18). Antoine de Chandieu. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-22665/antoine-de-chandieu/

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Davis, Stephen M. "Antoine de Chandieu." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, julho 18, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-22665/antoine-de-chandieu/.

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Davis, Stephen M. "Antoine de Chandieu." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 18 jul 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-22665/antoine-de-chandieu/.

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