Os detentores de escravos nos Estados Unidos alegavam frequentemente que os negros se sentiam 'felizes' na escravatura e que, de forma alguma, conseguiriam funcionar como pessoas livres, uma vez que considerariam a liberdade 'pesada' — uma tese articulada na íntegra pelo apologista da escravatura T. R. Dew, na sua obra A Review of the Debate in the Virginia Legislature of 1831 and 1832 (Uma Revisão do Debate na Assembleia Legislativa da Virgínia de 1831 e 1832). Os The Underground Railroad Records (Os Registos da Rede Ferroviária Subterrânea) bem como outras fontes, contradizem a afirmação.
Entre os muitos relatos de pessoas escravizadas que recorreram a medidas extremas para conquistar a liberdade, destacam-se os exemplos de Clarissa Davis (1854) e da mulher anónima que escapou num caixote (1857), tal como William Still (1819-1902) registou no The Underground Railroad Records em 1872. Still, conhecido como o 'Pai da Underground Railroad', manteve registos detalhados dos candidatos à liberdade que foram resgatados do cativeiro.
Clarissa Davis (mais tarde conhecida como Mary D. Armstead) vestiu-se como um homem para escapar aos caçadores de escravos e a outros perseguidores, viajando dentro de uma arca a bordo de um navio, da Virgínia para a Pensilvânia, para conquistar a liberdade. Por sua vez, a mulher anónima fez-se enviar dentro de um caixote de Baltimore, Maryland, para a liberdade em Filadélfia — tal como Henry 'Box' Brown (cerca de 1815 a 1897) e Lear Green (cerca de 1839 a 1860) — mas, no seu caso, por estar grávida, enfrentou uma jornada muito mais difícil. A fuga de Clarissa Davis, disfarçada de homem, é frequentemente citada em comparação com o caso mais conhecido de Anna Maria Weems (cerca de 1840 a cerca de 1863), que utilizou a mesma estratégia.
No caso da mulher anónima que escapou numcaixote, o próprio facto de uma mulher grávida se ter deixado confinar num pequeno baú, arriscando ferimentos graves para si e para o seu filho ainda por nascer para escapar à escravatura, deveria ter sido prova suficiente de que não existiam 'escravos felizes'; no entanto, o mito dos 'escravos gratos' (aos quais os seus senhores supostamente forneciam 'competências de vida') persistiu e, em certos meios, ainda hoje é repetido.
As narrativas apresentadas abaixo são apenas duas de muitas que não só contradizem a tese do 'escravo feliz', como exemplificam o desejo de liberdade das pessoas escravizadas nos Estados Unidos no século XIX, antes da Guerra Civil Americana e da abolição da escravatura pela Décima Terceira Emenda em 1865.
O Texto
A tradução do excerto que se segue foi extraído do The Underground Railroad Records (1872), de William Still.
Clarissa Davis: Chegada em Trajes Masculinos
Clarissa fugiu de Portsmouth, Virgínia, em maio de 1854, com dois dos seus irmãos. Dois meses e meio antes de conseguir partir, Clarissa fizera um esforço desesperado, mas falhou. Os irmãos tiveram sucesso, mas ela ficou para trás. Contudo, não perdeu a esperança de escapar e, por isso, procurou "um esconderijo seguro até que surgisse uma oportunidade" através da qual pudesse seguir os seus irmãos pela U.G.R.R. (Rede Ferroviária Subterrânea). Clarissa era propriedade das senhoras Brown e Burkley, de Portsmouth, a quem sempre servira.
Sobre elas, falou favoravelmente, dizendo que "não fora tratada de forma tão dura como muitos outros". Nesse período, Clarissa tinha cerca de vinte e dois anos, uma tez castanha clara, feições bonitas, era extremamente respeitosa e modesta, e possuía todas as características de uma jovem bem educada. Para alguém tão pouco familiarizada com os livros, a correção da sua fala era perfeitamente assombrosa.
Para Clarissa e os seus dois irmãos, foi mantida nos jornais, durante bastante tempo, uma "recompensa de mil dólares", pois estes (artigos) eram considerados muito raros e valiosos; o melhor que a Virgínia podia produzir.
Entretanto, os irmãos tinham chegado em segurança a New Bedford, mas Clarissa permaneceu escondida, "esperando que a tempestade acalmasse". Manter a coragem dia após dia, durante setenta e cinco dias, com o medo de ser detetada e severamente punida, e depois vendida — após todas as suas esperanças e lutas — exigia a fé de um mártir.
Vez após vez, quando esperava ter sucesso na fuga, a má sorte parecia desapontá-la, e nada mais do que sofrimento intenso parecia estar reservado. Tal como muitos outros, sob o peso esmagador da opressão, pensou que "teria de morrer" antes de provar a liberdade. Neste estado de espírito, um dia, chegou-lhe a notícia de que o navio a vapor City of Richmond tinha chegado de Filadélfia e que o comissário de bordo (com quem ela tinha conhecimento) aceitara escondê-la nesta viagem, se ela conseguisse chegar ao navio em segurança, o qual partiria no dia seguinte.
Esta notícia foi para Clarissa simultaneamente animadora e dolorosa. Tinha estado "a rezar todo o tempo enquanto esperava", mas agora sentia "que, se chovesse bem forte na manhã seguinte, por volta das três horas, para afastar os polícias das ruas, então poderia chegar em segurança ao barco".
Por isso, rezou ansiosamente todo esse dia para que chovesse, "mas nenhum sinal de chuva apareceu até perto da meia-noite". A perspetiva parecia horrivelmente desanimadora; mas ela continuou a rezar e, na hora marcada (três da manhã — antes do amanhecer), a chuva caiu em torrentes. Vestida com trajes masculinos, Clarissa deixou o miserável cubículo onde estivera quase sem luz ou ar durante dois meses e meio e, sem ser molestada, chegou em segurança ao barco. Foi escondida num caixote por Wm. (William) Bagnal, um jovem astuto que simpatizava sinceramente com os escravos, tendo ele próprio uma esposa na escravatura; por ele, foi entregue em segurança às mãos do Comité de Vigilância.
Clarissa Davis, por conselho do Comité, abandonou o seu antigo nome e foi imediatamente batizada como "Mary D. Armstead". Desejando juntar-se aos seus irmãos e irmã em New Bedford, foi devidamente provida com o seu passaporte da U.G.R.R. e encaminhada para lá. O seu pai, que ficou para trás quando ela partiu, pouco depois seguiu caminho para o Norte e juntou-se aos filhos. Era provavelmente demasiado velho e enfermo para ter qualquer valor comercial, tendo-lhe sido permitido partir em liberdade ou comprar-se por uma quantia meramente nominal.
Os detentores de escravos mostravam, em algumas dessas ocasiões, uma generosidade admirável ao libertarem os seus velhos escravos quando estes já não podiam trabalhar mais. Após chegar a New Bedford, Clarissa manifestou a sua gratidão escrevendo repetidamente aos seus amigos em Filadélfia e demonstrou um interesse muito vivo pela U.G.R.R. A carta em anexo indica os seus sinceros sentimentos de gratidão e profundo interesse na causa:
NEW BEDFORD, 26 de agosto de 1855.
SR. STILL: — Aproveito a oportunidade para lhe escrever estas poucas linhas, esperando que o encontrem a si e à sua família bem, tal como me deixam a mim e a toda a família, exceto ao meu pai; ele parece estar a melhorar do ombro e já conseguiu trabalhar um pouco. Recebi os jornais e fiquei imensamente satisfeita por recebê-los; fiquei muito contente por ter notícias suas sobre o caso Wheeler e por saber que as pessoas estavam seguras. Lamentei muito saber que o Sr. Williamson foi preso, mas sei que, se a parte do povo que reza rezar por ele, e se ele puser a sua confiança no Senhor, Ele o fará sair mais do que vencedor.
Por favor, lembre o meu querido e velho pai e irmãs e irmãos à sua família; dê um beijo nas crianças por mim. Ouvi dizer que a febre amarela está muito má no Sul agora; se a Rede Ferroviária Subterrânea pudesse correr livremente, o emigrante cruzaria o rio Jordão rapidamente. Espero que continue a funcionar e espero que as rodas da carruagem possam ser lubrificadas com lubrificante mais substancial, para que possam correr celeremente.
Teria escrito antes, mas as circunstâncias não mo permitiram. A Menina Sanders e todos os amigos desejaram ser lembrados a si e à sua família. Terei prazer em ter notícias da Rede Ferroviária Subterrânea frequentemente.
Com os meus respeitos,
MARY D. ARMSTEAD.
A Mulher que Escapou num Caixote, 1857: Ela Estava Muda
No inverno de 1857, uma jovem mulher, que acabara de atingir a maioridade, foi colocada num caixote em Baltimore por alguém que era seu companheiro, um jovem que providenciou o transporte do caixote como carga para o depósito em Baltimore, com destino a Filadélfia.
Quase uma noite inteira permaneceu no depósito com a agonia viva lá dentro e, depois de ter sido virada de cabeça para baixo mais do que uma vez, chegou a Filadélfia no dia seguinte, por volta das dez horas. O seu companheiro, vindo à frente do caixote, combinou com um cocheiro de aluguer, George Custus, que este se encarregasse de a trazer do depósito para uma casa designada, a da Sra. Myers, no n.º 412 da Rua 7 Sul, onde a "ressurreição" deveria ter lugar.
Custus, sem saber exatamente o que o caixote continha, mas suspeitando, devido à aparente ansiedade e instruções do jovem que o contratara, que se tratava de algo de grande importância, exigiu o caixote ao agente de carga enquanto a carruagem de mercadorias ainda estava na rua, não querendo esperar o tempo habitual para a entrega de carga.
A princípio, o agente recusou a entrega em tais circunstâncias. O cocheiro insistiu, dizendo que desejava despachá-la com grande pressa, afirmando: "está tudo bem, conhece-me, venho aqui todos os dias há muitos anos e serei responsável por ela".
O chefe de carga disse-lhe: "leva-a e segue caminho". Dito e feito. O caixote foi colocado numa carroça de um cavalo, por insistência de Custus, e levada para as ruas Seventh e Minster.
O segredo fora confiado à Sra. M. pelo jovem companheiro da mulher. Um sentimento de horror apoderou-se da idosa, que se viu subitamente investida de tal responsabilidade. A poucas portas de distância vivia uma velha amiga da sua mesma fé religiosa, bem conhecida como uma mulher corajosa e amiga dos escravos, a Sra. Ash, a agente funerária (ou preparadora de corpos), que todos entre a população de cor conheciam.
A Sra. Myers sentiu que não seria prudente avançar com esta "ressurreição" sem a presença da agente funerária. Assim, chamou a Sra. Ash. Até a sua própria família foi impedida de testemunhar a cena. As duas idosas preferiram estar sozinhas naquele momento terrível, estremecendo com a ideia de que um cadáver pudesse surgir diante dos seus olhos em vez de uma criatura viva.
Contudo, ganharam coragem e forçaram a tampa. Uma mulher foi descoberta entre a palha, mas não havia qualquer sinal percetível de vida. Os seus medos pareciam confirmados. "Certamente está morta", pensaram as testemunhas.
"Levanta-te, minha filha", disse uma das mulheres. Com vida mal suficiente para mover a cobertura de palha, ela deu, finalmente, sinais de vida, embora de forma muito ténue. Não conseguia falar, mas, com ajuda, levantou-se. Foi imediatamente amparada até ao andar de cima, sem proferir uma única palavra.
Passado pouco tempo, disse: "Sinto-me tão mortalmente fraca". Perguntaram-lhe então se não queria água ou alimento, o que ela recusou. Pouco depois, no entanto, convenceram-na a tomar uma chávena de chá. Foi então para a cama e lá permaneceu o dia todo, falando muito pouco durante esse tempo. No segundo dia ganhou forças e conseguiu falar muito melhor, embora não com facilidade. No terceiro dia começou a recuperar e a falar com bastante liberdade.
Tentou descrever os seus sofrimentos e medos enquanto esteve no caixote, mas em vão. No meio das suas agonias mais severas, o seu principal medo era ser descoberta e levada de volta para a Escravatura. Tinha consigo uma tesoura e, para conseguir ar fresco, fizera um furo no caixote, mas era muito pequeno. Como conseguiu respirar e manter-se viva, estando na condição de vir a ser mãe, era difícil de compreender.
Neste caso, a resistência máxima foi posta à prova. Ela esteve, obviamente, mais perto da morte do que Henry "Box" Brown ou qualquer outro dos casos de caixotes ou arcas que alguma vez chegaram ao conhecimento do Comité.
Em Baltimore, ela pertencia a uma família rica e elegante, tendo sido costureira e criada pessoal. Certa ocasião, ao ser enviada numa diligência para obter certos artigos destinados ao Grande Baile de Abertura na Academia de Música, aproveitou a oportunidade para não regressar, figurando entre os desaparecidos.
Fizeram-se grandes buscas e ofereceu-se uma recompensa elevada, mas tudo sem proveito. Uma mulher de cor livre, que lavava para a família, foi suspeita de saber algo sobre a sua partida, mas, não conseguindo extrair nada dela, foi despedida.
Logo após a chegada desta viajante a casa da Sra. Myers, o Comité foi chamado e tomou conhecimento dos factos acima relatados. Depois de passar uns três ou quatro dias com a família da Sra. Myers, ela permaneceu com a família do autor por igual período de tempo, sendo depois enviada para o Canadá.
A Sra. Myers era originária de Baltimore e tinha o hábito frequente de receber passageiros da Rede Ferroviária Subterrânea; encontrara sempre em Thomas Shipley, o fiel filantropo, uma ajuda presente em momentos de necessidade. O jovem sabia bem que a Sra. Myers agiria com prudência ao levar a sua companheira para casa dela.
George Custus, o cocheiro, um homem de cor, foi calmo, sensato e fiável no desempenho do seu dever, tal como as outras partes, pelo que tudo foi bem gerido.
Com este caso interessante terminam as nossas narrativas, exceto factos de natureza semelhante que possam estar ligados a alguns dos esboços dos acionistas. Um grande número de casos no livro de registos tem de ser omitido. Isto deve-se, em parte, ao facto de, durante os primeiros anos da nossa ligação com a Rede Ferroviária Subterrânea, se ter escrito tão pouco sob a forma de narrativas que dificilmente teriam interesse suficiente para publicação; e, em parte, ao facto de que, embora existam casos excecionais mesmo entre os omitidos que seriam igualmente interessantes, o tempo e o espaço não permitem mais incursões.
Se de alguma forma errámos na tarefa de fornecer factos e informações importantes sobre a Rede Ferroviária Subterrânea, não foi por exagerar os sofrimentos, provações, perigos e fugas maravilhosas daqueles descritos, mas sim o contrário.
Em muitos casos, após ouvirmos as narrativas mais dolorosas, não tivemos tempo nem inclinação para as escrever, exceto da forma mais breve, apenas o suficiente para identificar as partes, o que fizemos sem sonhar que a nuvem negra da Escravatura daria tão cedo lugar à luz brilhante da Liberdade.
