William Still (1819–1902) foi um abolicionista afro-americano, conhecido como o "Pai da Underground Railroad" (Rede Ferroviária Subterrânea) pelos seus esforços em ajudar a libertar entre 600 a 800 pessoas da escravatura. Filho de pais outrora escravizados, Still dedicou a vida à causa dos direitos civis e da liberdade para todos nos Estados Unidos.
Como membro da Sociedade Antiesclavagista da Pensilvânia / Associação Vigilante de Filadélfia (da qual foi, mais tarde, presidente), Still ajudou a orquestrar fugas, organizou assistência para os fugitivos assim que estes chegavam à Pensilvânia, acolheu-os na sua casa, escondeu-os e pagou a sua passagem para norte, rumo a Boston, Nova Iorque ou Canadá.
Mantinha registos detalhados de cada pessoa que procurava a liberdade e passava pela sua casa, na esperança de que estes pudessem ser utilizados para as reunir com as suas famílias um dia, mas também como testemunho escrito da sua coragem e dos esforços dos abolicionistas. Estes registos foram publicados como The Underground Railroad Records (1872 Os Registos da Rede Ferroviária Subterrânea), um documento primário significativo sobre a escravatura nos Estados Unidos, detalhando quem escapou, de onde vinham e para onde viajavam.
Após a aprovação da Décima Terceira Emenda em 1865, que aboliu a escravatura e tornou a Underground Railroad desnecessária, Still continuou o seu trabalho nos direitos civis. Apoiou financeiramente várias causas, ajudou a acabar com a segregação nos transportes públicos da sua cidade e estabeleceu a primeira YMCA para afro-americanos em Filadélfia. No filme de Hollywood de 2019, Harriet, sobre a vida de Harriet Tubman, Still é competentemente interpretado por Leslie Odom Jr., sendo hoje reconhecido como uma das figuras proeminentes na luta contra a escravatura e um grande herói americano.
A Família e a Juventude
Os pais de William Still, Levin e Sidney (mais tarde conhecida como Charity) Steel, eram escravos em Caroline County, Maryland. Levin comprou a sua própria liberdade em 1798 e estabeleceu um lar em Nova Jérsia. Sidney tentou segui-lo com os seus quatro filhos, mas foram capturados. Tentou novamente em 1806, levando apenas as suas duas filhas, e conseguiu escapar e reunir-se com Levin, mas teve de deixar para trás os seus dois filhos, Levin Jr. e Peter.
Em Nova Jérsia, mudaram o apelido da família para "Still" em honra de amigos com esse nome em Burlington County. Para mascarar ainda mais a sua identidade, Sidney mudou o seu nome para Charity. Os Still viriam a ter 18 filhos; William foi o mais novo, nascido a 7 de outubro de 1819. Embora tivessem nascido num estado livre, todas estas crianças eram tecnicamente escravas porque a sua mãe era uma escrava fugitiva.
William cresceu a ouvir os seus pais falar sobre as suas vidas como escravos e sobre os dois rapazes que tiveram de deixar para trás. De acordo com o académico Nick Sacco, as histórias dos seus pais, o conhecimento de que era legalmente considerado um escravo — apesar de ser livre —, bem como um acontecimento na sua infância, direcionaram Still para o movimento abolicionista:
Still também vivenciou os horrores da escravatura durante a sua juventude em Nova Jérsia. Segundo o biógrafo James Boyd, num determinado episódio, caçadores de escravos chegaram a uma quinta vizinha para capturar um agricultor negro livre que, segundo eles, era um fugitivo escravizado. Enquanto um Quaker branco chamado Thomas Wilkins combatia os agressores, Still e um cunhado ajudaram o homem a viajar trinta e duas milhas até Egg Harbor, na costa de Jersey. Estas experiências lancinantes, aliadas ao amor pela leitura e pela escrita, inspiraram Still a assumir um papel ativo no movimento abolicionista para erradicar a escravatura dos Estados Unidos.
(pág. 33)
Em 1844, Still mudou-se para Filadélfia, na Pensilvânia e, em 1847, trabalhava como escriturário para a Sociedade da Pensilvânia para a Abolição da Escravatura. Casou-se com Letitia George e o casal viria a ter quatro filhos. A sua casa tornou-se um centro para a Underground Railroad e a primeira paragem de centenas de escravos fugitivos no seu caminho para a liberdade mais a norte.
Underground Railroad (Rede Ferroviária Subterrânea)
A Underground Railroad era uma rede de negros livres, abolicionistas brancos e negros, mexicanos, nativos americanos e outros que se dedicaram a ajudar pessoas escravizadas a alcançar a liberdade. Operando entre cerca de 1780 e 1865, crê-se que a Underground Railroad tenha conduzido cerca de 500.000 pessoas da escravatura para a liberdade.
As fugas mais conhecidas, orquestradas ou assistidas pela Underground Railroad, foram as chamadas "Rotas do Norte", que levavam os candidatos à liberdade de Filadélfia para Boston, Nova Iorque e Canadá. No entanto, existiam também operacionais no Sul que assistiam os fugitivos a chegar ao México ou ao Território Índio, para além do alcance legal dos caçadores de escravos.
O conceito de uma "ferrovia" e de "rotas" implica um percurso definido sobre carris estabelecidos, mas tal não correspondia à realidade. Os "condutores" na "ferrovia" escolhiam o caminho que melhor lhes servisse e, em alguns casos, poderiam nem sequer ter conhecimento de uma casa segura numa determinada área. Nas Rotas do Oeste, o abolicionista John Brown (1800-1859) geria casas seguras e era bem conhecido entre os condutores, mas existiam muitos outros que não o eram.
Houve também inúmeras pessoas escravizadas que conquistaram a liberdade por conta própria, sem recorrer à Underground Railroad em qualquer uma das suas direções, como foi o caso de Wallace Turnage (cerca de 1846 a 1916), em 1864. Enquanto a Guerra Civil Americana grassava e Mobile, no Alabama, estava fortificada com tropas confederadas, Turnage caminhou 25 milhas (40 km) da escravatura para a liberdade no Forte Powell da União.
As Rotas do Norte são as mais célebres, pelo menos em parte devido a participantes bem conhecidos, incluindo Harriet Tubman (cerca de 1822-1913), Frederick Douglass (1818-1895), William Lloyd Garrison (1805-1879), Passmore Williamson (1822-1895), William Still, entre outros. Alguns dos mais conhecidos candidatos à liberdade também tornaram as Rotas do Norte mais famosas do que as outras, incluindo Ellen e William Craft (autores de Running a Thousand Miles for Freedom), Henry "Box" Brown, Lear Green, Clarissa Davis e Anna Maria Weems.
Still e a "Ferrovia"
A Underground Railroad inspirou-se numa ferrovia real e utilizava terminologia associada aos caminhos-de-ferro:
- Agentes – pessoas que alertavam os escravizados para a existência da rede e marcavam encontros com os condutores.
- Condutores – pessoas que guiavam os candidatos à liberdade até casas seguras e destinos no norte.
- Chefes de Estação – aqueles que geriam as casas seguras e escondiam quem procurava a liberdade.
- Acionistas – aqueles que prestavam apoio financeiro à organização.
Num momento ou noutro, William Still ocupou todos estes cargos. Organizou fugas como agente, conduziu fugitivos para casas seguras em Filadélfia, geriu ele próprio uma casa segura e, como empresário de sucesso, apoiou financeiramente as operações. Envolveu-se também diretamente na libertação de escravos que eram trazidos pelos seus senhores para o estado livre da Pensilvânia, onde, por lei, podiam reclamar a sua liberdade, tal como Still fez no famoso caso de Jane Johnson.
Jane Johnson
Jane Johnson (cerca de 1814/1827–1872) era uma escrava doméstica de um tal John Hill Wheeler, da Carolina do Norte, um proprietário de plantações e político. Em 1855, Wheeler foi nomeado para um cargo governamental na Nicarágua e passava por Filadélfia a caminho de Nova Iorque para embarcar. Trouxe consigo a família, bem como a sua escrava Jane e os seus dois filhos pequenos, Daniel e Isaiah.
A 18 de julho de 1855, Jane contou ao paquete negro do hotel de Filadélfia onde estavam alojados que queria escapar, mas tal parecia impossível porque Wheeler, sabendo que um escravo poderia reclamar a sua liberdade na cidade, tinha-a trancado com os filhos no quarto. O paquete enviou palavra a Still que, juntamente com Passmore Williamson, monitorizou a situação e confrontou Wheeler quando este e o seu grupo se preparavam para partir das docas.
Enquanto cinco estivadores negros imobilizavam Wheeler, Still explicou a Jane os seus direitos legais em Filadélfia e perguntou-lhe se desejava escolher a liberdade. Quando ela deu o seu consentimento, Still retirou-a das docas com os filhos numa carruagem, escondendo-os primeiro numa casa segura na cidade e, mais tarde, trazendo-os secretamente para a sua própria casa.
Wheeler exigiu a devolução da sua "propriedade" e Williamson foi levado a tribunal, onde foi intimado a apresentar Jane e os filhos. Williamson não o poderia ter feito, mesmo que quisesse, pois não fazia ideia de para onde Still os tinha levado. Williamson foi condenado a 90 dias de prisão por desrespeito ao tribunal.
A 29 de agosto de 1855, Still e os cinco estivadores foram julgados por agressão e incitamento a motim, ambas acusações apresentadas por Wheeler. Por esta altura, Jane Johnson e os seus rapazes já tinham sido enviados em segurança pela "ferrovia" para Nova Iorque. No entanto, ao saber que Still e os cinco trabalhadores das docas estavam a ser julgados, ela arriscou a re-escravização e regressou para testemunhar em defesa deles.
A acusação tinha argumentado que Still levara Johnson contra a sua vontade, mas ela deixou claro que tinha solicitado assistência e que participara livremente na sua emancipação. Declarou ao tribunal que planeara escapar da escravatura com os seus filhos assim que chegasse a Nova Iorque, mas, tendo encontrado a oportunidade em Filadélfia, aproveitou-a. Still e três dos estivadores foram absolvidos, enquanto os outros dois foram condenados por agressão, multados e presos por uma semana.
A detenção de Passmore Williamson e o julgamento de William Still concentraram a atenção nacional no tema da escravatura, galvanizando ainda mais o sentimento antiesclavagista no Norte. Este sentimento vinha a ganhar ímpeto desde a aprovação da Lei do Escravo Fugitivo (Fugitive Slave Act) de 1850, que exigia que os cidadãos comuns de estados livres, bem como quaisquer funcionários governamentais, ajudassem na captura e devolução de quem procurava a liberdade. Muitos opuseram-se a esta política e já a resistiam; o incidente de Jane Johnson e o tratamento dado a Williamson e Still encorajaram ainda mais a resistência nortenha.
Embora Wheeler, com a ajuda de oficiais federais, tenha tentado recapturar Johnson, a Underground Railroad conseguiu retirá-la da cidade e levá-la de volta para o Norte, onde se estabeleceu finalmente em Boston. Após o julgamento, Still regressou ao que sempre fizera: ajudar aqueles que procuravam a sua liberdade pessoal a encontrá-la.
Os Registos da "Ferrovia Subterrânea"
Como referido, William Still mantinha registos meticulosos dos candidatos à liberdade que passavam pela sua casa ou que tinham sido ajudados por outros em Filadélfia. A certa altura, um ex-escravo chamado Peter Freedman chegou à cidade na esperança de encontrar os seus pais. Peter tinha recentemente comprado a sua liberdade no Alabama e estava a caminho do norte, mas tinham-lhe dito que havia um homem negro em Filadélfia, um tal Dr. James Bias, em quem poderia confiar para obter ajuda. O Dr. Bias não estava em casa quando Peter chamou, mas a sua esposa sugeriu que ele fosse ver William Still, que era conhecido por ter registos extensos sobre escravos fugitivos e as suas famílias.
A Sra. Bias providenciou a Peter um guia até à casa de Still e, como era habitual, Still entrevistou-o. Soube que Peter e o seu irmão Levin tinham sido vendidos para o sul décadas antes, e que os nomes dos pais de Peter eram Levin e Sidney. À medida que Peter continuava a falar sobre a sua juventude e sobre os pais, Still compreendeu a situação e disse: "E se eu lhe dissesse que sou seu irmão?".
Levin Jr. tinha sido espancado até à morte pelo seu senhor por ter visitado a esposa sem permissão, mas Peter conseguira sobreviver à escravatura no Alabama, comprar a sua liberdade e vir para o norte. Em breve, reuniu-se com a mãe de ambos. Neste caso, naturalmente, Still reconheceu o homem, mas, noutros casos, os seus registos serviram para proporcionar o mesmo tipo de reuniões familiares.
A certa altura, temendo que os registos pudessem ser apreendidos e utilizados para localizar ex-escravos, Still queimou alguns deles. No entanto, parece que ou possuía cópias ou se lembrava dos detalhes, pois foi capaz de os reproduzir na sua obra de 1872, The Underground Railroad Records. A académica Kate Clifford Larson escreve:
William Still manteve um registo da maioria dos candidatos à liberdade que procuraram abrigo e auxílio através do seu gabinete na Sociedade Antiesclavagista em Filadélfia. Still anotava o nome de cada pessoa, idade, altura e cor da pele, o nome do seu escravizador, onde tinham vivido e, por vezes, informações familiares pessoais do fugitivo, tais como o número de irmãos e irmãs e os nomes dos pais, cônjuges e filhos. Registava quaisquer pseudónimos que os fugitivos escolhessem, garantindo que pudessem ser encontrados por amigos e familiares no futuro. Ocasionalmente, colhia testemunhos dos ex-escravos, registando as suas experiências sob a escravatura, as razões para a fuga e as suas opiniões sobre os seus senhores. Still também mantinha contas detalhadas dos fundos gastos com cada candidato à liberdade que passava pelo gabinete da sociedade.
(pág. 115)
Desde 1872, estes registos têm sido utilizados por pessoas para se reunirem com as suas famílias ou, mais tarde, para localizar e aprender sobre os seus antepassados, como escaparam da escravatura e para onde foram depois.
Conclusão
Durante a Guerra Civil Americana, Still trabalhou no apoio às tropas negras e geriu o posto de trocas no Campo William Penn, enquanto continuava a servir a causa da Underground Railroad. Após a guerra e a abolição da escravatura, continuou a dedicar-se ao mesmo propósito, estabelecendo a primeira YMCA em Filadélfia para afro-americanos e financiando programas para a juventude negra. Morreu de doença cardíaca a 14 de julho de 1902, na sua casa.
O legado de Still é amplamente reconhecido hoje em dia e ele continua a ser homenageado pela sua humildade, coragem e autossacrifício no interesse dos outros. O académico Andrew K. Diemer observa:
Em 1872, Still publicou o seu monumental relato deste trabalho, The Underground Railroad, com quase 800 páginas que narram as histórias de centenas de fugitivos que ele ajudou no seu caminho para o norte. Para aqueles que procuram resgatar as ações de Still, este livro revelou-se por vezes frustrante; Still não é, de forma alguma, o centro das atenções. Na verdade, ao longo de várias páginas seguidas, pode ser difícil encontrar o rasto do próprio Still. Esta ausência é propositada. Still compreendia, e queria que os seus leitores compreendessem, que os próprios escravos fugitivos eram o motor da Underground Railroad. Aqui, também, o contraste com a sua aliada Tubman é útil. A história de Tubman pode, por vezes, deixar a impressão de que as pessoas escravizadas precisavam de um salvador, alguém que as resgatasse do cativeiro. O trabalho de Still, por outro lado, mostra-nos que as pessoas escravizadas estavam preparadas para se salvarem a si próprias – precisavam apenas de uma mão amiga.
(pág. 8)
Still esteve sempre pronto a oferecer essa mão e, entre cerca de 1847 e 1865, ajudou centenas de pessoas escravizadas a alcançar a liberdade, pagou as suas passagens, encontrou-lhes casas e empregos, reuniu famílias e ofereceu a sua própria casa como um abrigo acolhedor. Trabalhou em estreita colaboração com Harriet Tubman, Frederick Douglass e William Lloyd Garrison, todos tão conhecidos hoje como o eram no século XIX; mas William Still, trabalhando habitualmente em silêncio nos bastidores, e sendo muito menos famoso, manteve a Underground Railroad a funcionar rumo ao norte até que deixasse de haver necessidade dela.
