Lear Green (cerca de 1839-1860) foi uma mulher afro-americana escravizada em Baltimore, Maryland, que se fez enviar dentro de um caixote para Filadélfia, na Pensilvânia, para escapar à escravatura. A sua história é frequentemente comparada à de Henry Box Brown (cerca de 1815-1897), 'o homem que se enviou a si próprio para a liberdade' dentro de uma grande caixa, em 1849.
No caso de Green, esta contou com a ajuda do seu noivo, um homem negro livre chamado William Adams, e da mãe deste, também livre, que acompanhou o caixote na sua viagem de 18 horas de Baltimore para Filadélfia, por volta de 1857. Green e os Adams foram auxiliados na sua fuga por membros da Underground Railroad, uma rede de casas seguras e locais operados por abolicionistas que se estendia para norte até ao Canadá, onde a escravatura tinha sido abolida.
Após o Congresso dos EUA ter aprovado a Lei do Escravo Fugitivo de 1850, os escravos fugidos podiam ser mais facilmente recapturados pelos seus senhores, pelos agentes destes ou por caçadores de escravos profissionais; por isso, muitos continuavam o caminho através da rede da Underground Railroad até ao Canadá, onde não podiam ser devolvidos à escravatura.
Este parece ter sido o plano de Lear Green e William Adams, mas, uma vez libertada, o casal estabeleceu-se em Elmira, Nova Iorque, onde viveu durante três anos até à morte de Green (de causa desconhecida) em 1860, aos 21 anos de idade.
Lear Green e William Still
Tal como aconteceu com muitos escravos fugitivos que encontraram a liberdade no Norte, Lear Green foi ajudada por William Still (1819-1902), um abolicionista afro-americano e filho de um escravo fugitivo de Maryland. Still, frequentemente referido como "Pai da Underground Railroad" (Rede Ferroviária Subterrânea), manteve registos detalhados de todas as pessoas que ajudou a encontrar a liberdade no Norte, acreditando que estes viriam um dia a ajudar na reunificação de famílias.
Em 1872, Still publicou estes documentos sob o título The Underground Railroad Records, (Os Registos da Rede Ferroviária Subterrânea) nos quais detalha a fuga de Lear Green e como esta viveu apenas três anos após se casar com Adams em Elmira, e pouco mais se sabe. O caixote no qual escapou faz parte de uma exposição permanente, Tides of Freedom: African-American Presence on the Delaware River, com curadoria do Professor Tukufu Zuberi, no Independence Seaport Museum, em Filadélfia, na Pensilvânia.
Green viveu com William Still em Filadélfia até que pudessem ser feitos os preparativos para a enviar para Elmira, em Nova Iorque, onde William Adams a recebeu e onde se casaram. A razão principal para Green tentar a fuga foi o facto de, como escrava, os seus filhos virem a nascer na escravatura, e ela não conseguia conceber tal. Ainda assim, não há registo de que William e Lear Adams, de Elmira, tenham alguma vez tido filhos e, após a morte de Lear em 1860, nada mais consta nos registos sobre William.
Lear Green e a Underground Railroad
Still regista que Lear Green tinha 18 anos quando escapou no caixote, embora nunca indique o ano. Como se crê que tenha nascido por volta de 1839, terá escapado em 1857, embora várias fontes citem também os anos de 1850 e 1854. Não é claro até que ponto a fuga de Henry Box Brown influenciou a partida de Green da escravatura mas, em 1851, a fuga de Brown era já bem conhecida, pelo que poderá ter exercido uma influência considerável na de Green.
Lear Green e Henry Box Brown não foram os únicos antigos escravos a escapar numa caixa ou num caixote enviado para o Norte. Quando Brown escapou e, posteriormente, deu publicidade à sua fuga na sua autobiografia, Narrative of the Life of Henry Box Brown, Written by Himself (1851 - Narrativa da Vida de Henry Box Brown, Escrita pelo Próprio), o abolicionista Frederick Douglass (cerca de 1818-1895) criticou-o, argumentando que tal impediria outros de fazer o mesmo.
Ao que parece, Douglass estava errado, pois outros continuaram a conseguir fazer-se enviar para o Norte. Green é apenas um exemplo; outro é o de uma mulher grávida cujo nome não é mencionado, também registada por Still, que escapou à escravatura em Baltimore, Maryland, ao fazer-se enviar para a liberdade em Filadélfia. Esta mulher parece ter tido uma jornada em caixa muito mais difícil do que Green, conforme observado por William Still, que regista o momento em que ela foi 'desencaixotada' em Filadélfia, em 1857:
Levanta-te, minha filha', disse uma das mulheres. Combalida, mal tendo forças para mover a cobertura de palha, ela deu, contudo, sinais de vida, ainda que de forma muito ténue. Não conseguia falar, mas, com ajuda, levantou-se. Foi imediatamente auxiliada a subir as escadas, sem proferir ainda uma palavra. Passado pouco tempo, disse: 'Sinto-me mortalmente fraca'. Perguntaram-lhe então se não desejava água ou alimento, o que ela recusou.
Passado pouco tempo, no entanto, foi convencida a tomar uma chávena de chá. Foi então para a cama e ali permaneceu o dia todo, falando muito pouco durante esse tempo. No segundo dia, recuperou forças e conseguiu falar muito melhor, mas não com facilidade. No terceiro dia, começou a recompor-se e a falar com bastante liberdade. Tentou descrever os seus sofrimentos e receios enquanto esteve na caixa, mas em vão. No auge das suas mais severas agonias, o seu principal medo era ser descoberta e levada de volta para a escravatura.
(págs. 357-358)
Como Still não regista tal angústia por parte de Green, assume-se que esta não terá sofrido tanto como esta mulher. Tal como aconteceu com Brown e Green, a caixa desta mulher foi recolhida por um membro do Comité de Vigilância abolicionista, levada para uma casa segura, aberta, e a fugitiva foi cuidada até que pudesse seguir viagem mais para Norte.
Mesmo antes da Lei do Escravo Fugitivo de 1850, os membros da Underground Railroad corriam riscos enormes ao auxiliarem escravos fugitivos e, após 1850, esses riscos aumentaram drasticamente. A académica Kate Clifford Larson cita o exemplo do abolicionista e membro da Underground Railroad, Thomas Garrett (1789-1871), que ajudou muitos escravos fugitivos e 'condutores' da rede, incluindo a famosa Harriet Tubman (cerca de 1822-1913):
Uma vez em Wilmington, Tubman e o seu grupo pararam na casa de Thomas Garrett, onde este lhes forneceu comida e roupa. Harriet e um dos homens 'tinham gasto os sapatos até ficarem descalços', pelo que Garrett lhes deu 2 dólares para comprarem sapatos novos. Garrett, um comerciante de ferragens e ferro, usava os seus próprios rendimentos para providenciar refúgio e bens de primeira necessidade aos cerca de dois mil e quinhentos fugitivos que passaram pela sua casa ao longo de um período de trinta a quarenta anos… Garrett era há muito suspeito de ser um agente da Underground Railroad, mas em 1848 foi apanhado a ajudar uma família de escravos a escapar dos seus proprietários em Maryland. Declarado culpado, Garrett foi condenado a uma multa de 1500 dólares. Desafiador como sempre, no entanto, anunciou ao tribunal, aquando da sentença, que nunca deixaria passar a oportunidade de ajudar um escravo fugitivo. (pág. 114 e 339)
Em 1848, 1500 dólares seriam cerca de 60 700 dólares nos dias de hoje — uma quantia significativa; e, no entanto, pessoas como Thomas Garrett, William Still e Passmore Williamson (1822-1895, o abolicionista que ajudou Henry Box Brown) corriam constantemente o risco de multas e prisão num esforço para ajudar as pessoas escravizadas a conquistarem a sua liberdade.
O Texto
A tradução do excerto que se segue foi extraído do The Underground Railroad Records (1872- Os Registos da Rede Ferroviária Subterrânea), de William Still republicado pela Modern Library de Nova Iorque, em 2019.
150 DÓLARES DE RECOMPENSA. Fugiu do subscritor, na noite de domingo, dia 27 do corrente, a minha RAPARIGA NEGRA, Lear Green, com cerca de 18 anos de idade, de tez preta, feições arredondadas, de boa aparência e estatura comum; levava posto e consigo quando partiu um chapéu de seda cor de mel, um vestido de seda aos quadrados escuros, um de lã leve, e também uma capa de seda ondulada e uma capa cor de mel. Tenho razões para estar confiante de que foi persuadida a fugir por um homem negro chamado Wm. (William) Adams, de pele preta, fala rápida, 1,78 m (5p/10p) de altura, com uma grande cicatriz num dos lados do rosto, que desce num sulco até ao canto da boca, com cerca de 10 cm (4p) de comprimento, barbeiro de profissão, mas que trabalha maioritariamente em tabernas, a abrir ostras, etc. Ele está desaparecido há cerca de uma semana; constou que ele dizia que se ia casar com a referida rapariga e embarcar para Nova Iorque, onde se diz que a sua mãe reside. A recompensa acima referida será paga se a mencionada rapariga for capturada fora do Estado de Maryland e me for entregue; ou cinquenta dólares se for capturada no Estado de Maryland. JAMES NOBLE, m26-3t. N.º 153 Broadway, Baltimore.
Lear Green, tão detalhadamente anunciada no Baltimore Sun por 'James Noble', conquistou para si o direito a um lugar de destaque entre as mulheres heroicas do século XIX. No que diz respeito à descrição e à idade, o anúncio é razoavelmente preciso, embora o seu senhor pudesse ter acrescentado que o seu semblante era de uma modéstia e graça peculiares. Em vez de 'preta', ela era de uma 'cor castanha escura'.
Sobre o seu cativeiro, ela prestou o seguinte depoimento: Era propriedade de 'James Noble, um Comerciante de Manteiga' de Baltimore. Ele herdou Lear através do testamento da mãe da sua esposa, a Sra. Rachel Howard, a quem ela pertencera anteriormente. Lear era apenas uma criança quando passou para as mãos da família de Noble. Por isso, lembrava-se pouco da sua antiga senhora. A sua jovem senhora, no entanto, deixara uma impressão duradoura na sua mente; pois era muito exigente e opressiva em relação às tarefas que habitualmente punha diariamente sobre os ombros de Lear, sem qualquer disposição para permitir quaisquer liberdades. Pelo menos, Lear nunca foi mimada nesse aspeto.
Nesta situação, um jovem de nome William Adams propôs-lhe casamento. Ela sentiu-se inclinada a aceitar a oferta, mas detestava a ideia de estar sobrecarregada com as correntes da escravatura e os deveres de uma família ao mesmo tempo.
Após uma consulta exaustiva com a sua mãe e também com o seu pretendente sobre o assunto, decidiu que teria de ser livre para poder ocupar o lugar de esposa e mãe. Durante algum tempo, os perigos e as dificuldades no caminho da fuga pareciam desafiar totalmente qualquer esperança de sucesso. Enquanto cada batida do pulso clamava por liberdade, apenas uma hipótese parecia restar, cuja tentativa exigia tanta coragem quanto a necessária para suportar o corte do braço direito ou o arrancamento do olho direito.
Foi obtido um caixote antigo de fabrico robusto, do tipo que os marinheiros costumam usar. Foram lá colocados uma colcha, uma almofada e alguns artigos de vestuário, com uma pequena quantidade de comida e uma garrafa de água, e Lear foi nela instalada; cordas fortes foram apertadas em redor do caixote e foi arrumado em segurança entre a carga comum num dos vapores da linha Erricson.
A mãe do seu pretendente, que era uma mulher livre, concordou em vir como passageira no mesmo barco. Como poderia ela recusar? As regras prescritas pela Companhia destinavam os passageiros de cor ao convés. Neste caso, era exatamente onde esta guardiã e mãe desejava estar — o mais perto possível do caixote. Uma ou duas vezes, durante as vigílias silenciosas da noite, sentiu-se irresistivelmente atraída pelo caixote e não resistiu a aventurar-se a desatar a corda e a levantar um pouco a tampa, para ver se a pobre criança ainda vivia e, ao mesmo tempo, para lhe dar um pouco de ar fresco.
Sem proferir um sussurro, naquele momento assustador, esta tarefa foi realizada com sucesso. Não há dúvida de que as orações silenciosas desta jovem oprimida, juntamente com as do seu fiel protetor, ascendiam momentaneamente aos ouvidos do bom Deus no céu. Nem se deve duvidar por um momento que algum anjo ministrador ajudou a mãe a desapertar a corda e, ao mesmo tempo, deu ânimo ao coração da pobre Lear para suportar a dura provação da sua situação perigosa. Ela declarou que não teve medo.
Depois de ter passado dezoito horas no caixote, o vapor chegou ao cais de Filadélfia e, no devido tempo, a carga viva foi retirada do barco e entregue, inicialmente, na casa da Rua Barley, ocupada por amigos próximos da mãe. Posteriormente, o caixote e a carga foram transferidos para a residência do autor, em cuja família ela permaneceu vários dias sob a proteção e os cuidados do Comité de Vigilância.
Tal fome e sede de liberdade, como demonstrado por Lear Green, faziam os esforços dos amigos mais fervorosos, que costumavam ajudar os fugitivos, parecerem extremamente débeis. De todos os heróis, no Canadá ou fora dele, que compraram a sua liberdade através de uma bravura absoluta, enfrentando os perigos mais arriscados, nenhum merece mais louvor do que Lear Green.
Permaneceu por algum tempo nesta família e foi depois enviada para Elmira. Neste local, casou-se com William Adams, a quem se aludiu anteriormente. Nunca foram para o Canadá, mas estabeleceram residência permanente em Elmira. O curto espaço de cerca de três anos foi-lhe concedido para desfrutar da liberdade, pois a morte veio terminar a sua carreira. Por volta da altura deste triste acontecimento, a sua sogra morreu nesta cidade.
As impressões deixadas por ambas, mãe e filha, nunca poderão ser apagadas. O caixote no qual Lear escapou foi preservado pelo autor como um troféu raro, e a sua fotografia, tirada enquanto estava no caixote, é um excelente retrato dela e, ao mesmo tempo, um memorial apropriado.
