Juan de Grijalva (também conhecido como Grijalba, 1489-1527) foi um conquistador espanhol que explorou a costa leste do México em 1518. Entre os seus feitos mais notáveis destaca-se a demonstração de que a Península do Iucatão era efetivamente uma península e não uma ilha, como anteriormente se pensava. A expedição de Grijalva adquiriu, através de trocas comerciais, diversos artefactos de ouro, tendo estas duas descobertas encorajado os espanhóis a enviar novas expedições para o continente americano.
De Cuba ao México
Juan de Grijalva nasceu em Cuéllar, Segóvia, Espanha, em 1489. O seu tio era Diego Velázquez de Cuéllar (1465-1524), o conquistador espanhol que conquistou Cuba em 1511 e que, seguidamente, se tornou o primeiro governador da ilha durante a década seguinte. Grijalva tinha participado na conquista da ilha e recebeu como recompensa uma encomienda, ou seja, o direito de utilizar o trabalho forçado da população local para cultivar as suas terras.
Velázquez patrocinou então expedições para explorar e explorar economicamente o continente americano e, para a segunda dessas empresas, Grijalva foi o escolhido para a liderar. A sua missão era desembarcar na costa do que é hoje o México e explorar o interior. A primeira expedição de Velázquez, enviada em 1517 e liderada por Francisco Hernández de Córdoba (1474-1517), tinha trazido um relatório promissor sobre a península do Iucatão, mas ele e a maior parte do seu grupo tinham sido mortos numa batalha contra os Maias (Córdoba sobreviveu para regressar a Cuba, mas acabou por morrer devido aos ferimentos). Claramente, Grijalva devia esperar resistência à medida que se embrenhasse nas selvas deste território desconhecido, que na altura ainda se pensava ser uma ilha, tal como tinham sido as restantes conquistas espanholas nas Caraíbas.
A frota da expedição de Grijalva partiu de Cuba a 8 de abril de 1518. Grijalva comandava entre 200 a 240 homens distribuídos por duas caravelas e duas naus. Dois membros bastante úteis da expedição eram maias que tinham sido feitos reféns por Córdoba em 1517 para servirem de intérpretes; os seus nomes (atribuídos pelos espanhóis) eram Julián e Melchor. Outro membro notável do grupo, desta vez espanhol, era Bernal Díaz del Castillo (1492 a cerca de 1580), que na altura não passava de um mero alferes. Díaz escreveu mais tarde o seu famoso relato, História Verdadeira da Conquista da Nova Espanha (tít. original Historia verdadera de la conquista de la Nueva España - 1568). No entanto, a ocasional inconsistência de Díaz relativamente a pontos geográficos da expedição de Grijalva levou alguns historiadores a duvidar da sua presença na mesma. Contudo, Díaz dedicou um capítulo inteiro do seu livro à expedição, a qual descreve detalhadamente. Díaz regista ainda que, na sua opinião, Grijalva "foi sempre um homem corajoso, com todas as qualidades de um líder valente e audaz" (pág. 39).
A expedição de Grijalva era muito maior e estava melhor equipada do que a de Córdoba, sendo uma adição notável a inclusão de vários canhões. Estas armas de pólvora eram utilizadas para aterrorizar os Maias, que nunca tinham visto nada assim. Embora os canhões fossem do tipo falconete, que eram mais pequenos — conseguindo disparar projéteis com precisão apenas contra alvos a cerca de 135 metros (450 pés) de distância —, o ruído e o fumo constituíam, por si só, armas eficazes. Outro armamento útil levado pelos conquistadores incluía mosquetes e besta-de-garrocha (ou simplesmente bestas). Estas armas seriam utilizadas contra populações armadas com arcos, lanças, espadas e fundas.
A Península do Iucatão
A expedição parou primeiro para reabastecimento na ilha de Cozumel, no lado oriental da Península do Iucatão. Esta ilha tornar-se-ia um ponto de passagem frequentemente utilizado por futuras expedições de conquistadores. O historiador F. Cervantes descreve as atrações de Cozumel, uma amostra do mundo maia que Grijalva e os seus homens estavam prestes a invadir:
Cozumel estava cheia de promessas; o mel local era gloriosamente rico, e as frutas e os legumes eram tão exóticos quanto saudáveis. As cores vivas das aves eram algo que nunca tinham visto antes, um corolário adequado à sofisticação comparativa dos habitantes locais. Não só possuíam "livros", como Pedro Mártir chamaria às imagens belamente pintadas, untadas com betume e estendidas sobre longas folhas feitas de casca de árvore, mas tinham também construído um templo com cobertura de colmo no topo de uma pirâmide alta, onde eram venerados alguns ídolos intrigantes.
(pág. 122)
Contornando a ponta da península, a expedição procedeu à navegação em direção a oeste. Necessitando de paragens regulares para reabastecer com água potável devido à reduzida dimensão dos seus navios, a expedição avançou ao longo da costa, saltando de paragem em paragem, desembarcando primeiro em Campeche e depois na Laguna de Términos no início de maio. Um dos motivos para cautela era a falta de familiaridade com estas águas, como explica Díaz: "[Fazíamos] o nosso caminho de dia em direção a oeste, junto à costa, mas sem ousar navegar à noite por medo de recifes e baixios" (pág. 31). Desta forma, a expedição parou em Putunchan, Coatzacoalcos, San Juan de Ulúa/Veracruz, Nautla e, finalmente, Tampico e no Rio Pánuco, antes de fazer meia-volta.
As Batalhas, as Trocas de Mercadorias e os Sacrifícios Sangrentos
Quando a expedição desembarcou pela primeira vez perto de Campeche, a norte da atual Champotón, deparou-se com os ferozes Maias, que já tinham corrido com os invasores espanhóis no ano anterior, sob o comando de Córdoba. Os Maias eram peritos em guerra de guerrilha, utilizando a selva e táticas de ataque e fuga. Os espanhóis usaram os seus canhões com bons resultados neste confronto, mas, ainda assim, sofreram várias baixas e mais de 60 homens ficaram feridos. Além disso, Díaz refere: "Grijalva recebeu três ferimentos por flecha e ficou com dois dentes partidos" (pág. 30). Os conquistadores empurraram os Maias de volta para os pântanos no interior e continuaram o seu avanço ao longo da costa.
Na foz do Rio Tabasco, agora chamado Rio Grijalva em honra ao seu "descobridor", uma frota de 50 canoas maias repletas de guerreiros armados saiu ao encontro dos espanhóis. Graças aos intérpretes, evitou-se um conflito e trocaram-se mercadorias. Foram adquiridos alguns objetos de ouro, tais como estatuetas, diademas e colares, mas, quando pressionados a dar mais, os Maias disseram aos conquistadores que não tinham mais nada para oferecer, mas que encontrariam mais ouro mais à frente, ao longo da costa. Esta alternância entre batalhas e comércio pacífico tornou-se um padrão da expedição.
A frota deparou-se com várias ilhas e, numa delas, a Isla Verde, encontraram vestígios de sacrifícios humanos, algo que mais tarde seria utilizado como uma das principais justificações para a conquista cristã das Américas:
Os barcos foram então lançados à água e Juan de Grijalva, acompanhado por muitos de nós, soldados, embarcou para inspecionar esta ilha, pois vimos fumo a subir dela. Encontrámos dois edifícios de pedra de boa execução, cada um com uma escadaria que conduzia a uma espécie de altar, e nesses altares estavam ídolos de aspeto maligno, que eram os seus deuses. Aqui encontrámos cinco índios que lhes tinham sido sacrificados nessa mesma noite. Os seus peitos tinham sido abertos à força e os seus braços e coxas cortados, e as paredes destes edifícios estavam cobertas de sangue. Tudo isto nos espantou grandemente, e chamámos a esta ilha a Isla de Sacrificios.
(pág. 37)
A expedição atingiu o ponto mais meridional do Golfo do México em Coatzacoalcos e procedeu depois à navegação em direção a noroeste, seguindo a linha costeira e desembarcando, por fim, em Veracruz. Ali, as relações com a população local foram mais pacíficas e trocaram-se mercadorias (nomeadamente 2000 contas de vidro verde) por tecidos de algodão fino e algumas peças de ouro trabalhado. Deram à ilha ao largo de Veracruz o nome de San Juan de Ulúa porque o dia da descoberta coincidia com o dia desse santo no calendário e porque os habitantes locais tinham ordenado o sacrifício humano de dois rapazes na ilha, explicando que tal se devia às ordens de "Culhua" (cf. infra), palavra que foi corrompida pelo intérprete para "ulua". San Juan de Ulúa-Veracruz viria a tornar-se, mais tarde, um dos portos de tesouro mais importantes da Costa Firme espanhola, de onde as frotas de galeões carregadas de tesouros partiam para Espanha e onde aportavam os galeões de Manila vindos das Filipinas espanholas.
Grijalva continuou então a navegar pela linha costeira acima, voltando a desembarcar em Pánuco, na foz do rio com o mesmo nome, o ponto mais a norte atingido pela expedição. Com a aproximação das chuvas de inverno, os mantimentos a escassear e um dos navios com uma forte via de água, decidiu-se fazer meia-volta e regressar a casa. Após cinco meses de exploração, a expedição regressou finalmente a Santiago de Cuba, mas Velázquez já tinha enviado uma terceira expedição em fevereiro de 1519 à procura de Grijalva, uma grande empresa comandada por um tal Hernán Cortés (1485-1547). Velázquez viria a arrepender-se amargamente da sua escolha, uma vez que Cortés excedeu largamente as suas ordens de busca e reconhecimento e revoltou-se, acabando por conquistar a civilização asteca sem qualquer apoio oficial para uma empresa tão ambiciosa.
A Desilusão de Velázquez
De regresso a Cuba, Grijalva relatou a Velázquez que o México não era uma ilha, mas sim parte de uma grande massa de terra. Melhor ainda, Grijalva descreveu os grandes monumentos de pedra antigos que tinha visto, certamente um indício de que um grande império tinha existido, e talvez ainda existisse, naquela parte do Novo Mundo. Os contactos com as populações indígenas revelaram aos espanhóis rumores de uma grande civilização a oeste, liderada por um governante abastado conhecido como "Senhor de Culhua". Sabemos hoje que o governante asteca Motecuhzoma II (também conhecido como Montezuma, reinou 1502-1520) incluía este nome na sua longa lista de títulos honoríficos e que tinha tido conhecimento do primeiro desembarque dos espanhóis através de mensageiros. Para fundamentar os rumores, havia inclusive objetos de ouro adquiridos através do comércio e devidamente confiscados pelos conquistadores. Alguns destes presentes tinham sido, na verdade, enviados por Motecuhzoma aos invasores estrangeiros na esperança, um tanto ingénua, de que eles ficassem satisfeitos com os mesmos e desaparecessem prontamente para sempre. Grijalva foi repreendido pelo seu tio por não trazer mais destes itens preciosos, já que a sede de ouro do conquistador tinha ficado fortemente aguçada.
Infelizmente para Grijalva, a sua situação pessoal entrou em declínio precisamente no momento em que a importância da região subia nas estimativas espanholas. Durante a sua expedição de 1518, Grijalva tinha feito amizade forçada — transformando-o num inimigo — com um dos seus conquistadores mais problemáticos, Pedro de Alvarado (cerca de 1485-1541). A competição entre estes conquistadores implacáveis estava longe de ser invulgar, e Alvarado demonstraria mais tarde ser um dos mais cruéis e sádicos do seu género. Alvarado tinha capitaneado um dos navios da expedição e aborrecera Grijalva quando, certa vez, se afastara para explorar um rio sem permissão. Por sua vez, Alvarado denunciou Grijalva a Velázquez, o que poderá muito bem explicar, juntamente com a desilusão do seu tio face à escassez de ouro que ele trouxera do México, a ausência de Grijalva do palco principal das explorações nos anos seguintes.
As Expedições Posteriores e a Morte
Grijalva voltou a assumir o comando de uma expedição, ou pelo menos da sua componente naval, em 1525. Enquanto Francisco de Garay, governador da Jamaica, liderava uma força terrestre na área em redor de Pánuco, Grijalva avançava ao longo da costa com uma frota de 12 navios. A expedição foi um fracasso, à medida que os europeus sucumbiam perante as condições terríveis da selva infestada de mosquitos. Grijalva continuou a explorar, desta vez na direção oposta e descendo em direção à América Central, mas acabou por ser morto no território que hoje corresponde às Honduras, em janeiro de 1527. O seu filho, Rodrigo de Grijalva, também foi conquistador, tendo auxiliado notavelmente Francisco Pizarro (cerca de 1478-1541) na sua conquista do Peru em 1536.
