Johann Eck (também conhecido como João Eck) (1486-1543) foi um teólogo e escritor católico, mais conhecido pelas suas disputas com Martinho Lutero (1483-1546), que tiveram início em 1517 e continuaram até à sua morte em 1543. Eck defendia a posição de que, se qualquer pessoa pudesse determinar a verdade por si própria, então a verdade não existiria, havendo apenas opiniões; esta afirmação tornou-se central para a Contra-Reforma.
Ambos eram amigos até à publicação das 95 Teses em outubro de 1517 por Lutero, e, a partir de então, tornaram-se fervorsos adversários. Ele foi o primeiro a atacar as 95 Teses em 1517, argumentou contra Lutero por escrito ao longo de 1518 e debateu com Lutero e Andreas Karlstadt (1486-1541) em Leipzig, em 1519, onde, embora não tenha sido declarado um vencedor oficial, Eck foi felicitado em privado pela sua vitória. Ele tinha vencido claramente Karlstadt e forçado Lutero a admitir publicamente o seu desafio à autoridade papal, o que levou à excomunhão de Lutero em 1521
Como membro de destaque do corpo docente da Universidade de Ingolstadt, Eck instituiu as políticas que proibiam o estudo de obras luteranas, o que incluía quaisquer obras e/ou artigos escritos de Karlstadt, Filipe Melanchthon (1497-1560), Martin Bucer (1491-1551) ou de qualquer um dos seus apoiantes. Em 1523, estas políticas levaram à detenção do jovem académico Arsacius Seehofer (cerca de 1504 - cerca de 1539) em Ingolstadt, que tinha apresentado uma preleção sobre as obras de Melanchthon. A sua detenção resultou em que a ativista luterana Argula von Grumbach (1490-cerca de 1564) escrevesse a sua famosa carta À Universidade de Ingolstadt, em defesa de Seehofer
Entre 1522 e 1526, Eck publicou pelo menos oito obras de vulto, além de cartas que denunciavam o movimento que viria a ser conhecido como a Reforma Protestante, e venceu o reformador Johann Oecolampadius (1482-1531) num debate público em junho de 1526. Na Dieta de Augsburgo, em 1530, representou as posições da Igreja contra Melanchthon e os luteranos, apresentando a sua compilação de 404 heresias (404 Articuli in indeitāietatem et haereses Lutheri et aliorum - 404 Artigos contra a impiedade e as heresias de Lutero e de outros) e contribuindo para a Confutação Pontifícia da Confissão de Augsburgo (Responsio Augustanae Confessioni ou Confutatio Pontificia), denunciando a Reforma e clarificando a profissão de fé católica. Em 1537, publicou a sua própria tradução do Novo Testamento para contrapor a tradução anterior de Lutero e, em 1540, foi uma figura de proeminência no Colóquio de Worms, que tentou, sem sucesso, chegar a um compromisso entre católicos e protestantes.
Ele morreu de febre em 1543, mas as suas obras influenciaram as deliberações do Concílio de Trento (1545-1563) e da Contrarreforma (1545 – cerca de 1700), que denunciou formalmente as seitas protestantes como heréticas e restabeleceu a autoridade da Igreja Católica. Embora os escritores protestantes o tenham apresentado de uma forma negativa, ele continua a ser muito estimado pelos católicos e é reconhecido hoje como um dos maiores teólogos e oradores do seu tempo, e um dos poucos que estiveram à altura de Martinho Lutero.
Primeiros Anos de Vida e Educação
Johann Maier von Eck nasceu na aldeia de Eck, na Suábia, Baviera, em 1486. Nada se sabe sobre a sua mãe, mas o seu pai, Michael Maier, era o magistrado da cidade. O seu tio, Martin Maier, era o pároco de Rottenburg am Neckar e acolheu o rapaz para o educar. Desconhece-se porque foi viver com o tio e não há registros de irmãos. Em 1498, aos doze anos de idade, Eck matriculou-se na Universidade de Heidelberg, onde estudou durante um ano antes de se mudar para Tubinga, onde lhe foi atribuído o grau de mestre em 1501, seguindo depois para Colónia e, mais tarde, para Friburgo para prosseguir com os estudos.
Por volta de 1505, quando tinha dezanove anos, era fluente em latim, hebraico e grego, e dominava as disciplinas de matemática, jurisprudência, filosofia e teologia. Os seus estudos avançados tinham sido financiados pelo tio que, por esta altura e por razões desconhecidas, lhe cortou a mesada, levando Eck a sustentar-se através de explicações. Continuou os estudos em Friburgo, onde foi nomeado reitor, e foi ordenado sacerdote em 1508. A sua ordenação foi concedida através de uma dispensa papal (visto que era demasiado jovem para ser elegível), reconhecendo as suas conquistas intelectuais e a sua devoção à Igreja. Em 1510, recebeu o doutoramento em Teologia aos 24 anos e foi convidado para assumir o cargo de Professor de Teologia na Universidade de Ingolstadt, onde foi nomeado vice-chanceler em 1512.
Durante os seus primeiros anos em Ingolstadt, escreveu várias obras sobre filosofia, geografia e teologia, que se tornaram os textos padrão em Ingolstadt e noutros lugares, e aos 28 anos de idade já era conhecido como estudioso e escritor.
Eck e Lutero
Eck tinha abraçado a filosofia do Humanismo enquanto estudava em Tubinga e, em determinada altura (provavelmente em Heidelberg), conheceu e tornou-se amigo do académico humanista e jurista Christoph von Scheurl (1481-1542). Em 1517, von Scheurl apresentou Eck a Martinho Lutero, um professor em Wittenberg onde von Scheurl ensinara Direito. Von Scheurl acreditava, sem dúvida, que ambos criariam laços através da admiração partilhada pelo pensamento humanista e pela devoção religiosa, e parece ter tido razão, uma vez que documentação posterior refere que Eck e Lutero nutriam inicialmente uma elevada estima mútua.
Em outubro de 1517, Lutero afixou as suas 95 Teses, condenando a política da Igreja relativa à venda de indulgências, e Eck respondeu com uma refutação brutal que deixou Lutero «profundamente ferido pelo que considerou ser uma traição pessoal», tendo este «retaliado com ira» (Roper, pág. 84). Eck respondeu à retaliação na mesma moeda, e isto marca o início da disputa de décadas entre os dois antigos amigos.
As 95 Teses de Martinho Lutero foram rapidamente impressas e distribuídas ao longo de 1518, período durante o qual Eck argumentou consistentemente contra elas. Karlstadt tinha-se manifestado a favor de Lutero e Eck desafiou-o para um debate, com a condição de que Lutero, caso estivesse presente, se mantivesse em silêncio. Lutero respondeu com uma carta a Karlstadt, claramente dirigida a Eck, expressando o seu interesse em debater com este último em qualquer altura.
O Debate de Leipzig
O debate foi agendado para junho-julho de 1519 no Castelo de Pleissenburg, em Leipzig, e seria presidido por Jorge, Duque da Saxónia (reinou 1500-1539), que apoiava Eck contra a Reforma. Eck convidou Lutero a participar, mas ainda com a estipulação de que este não poderia intervir no debate com Karlstadt. Embora Karlstadt tenha argumentado bem, Eck era o debatedor superior e, ainda que possa ter tecnicamente perdido, conseguiu confundir o seu oponente o suficiente para ser declarado o vencedor.
Após Karlstadt, Lutero tomou a palavra e, depois de discutirem vários tópicos, o debate centrou-se na autoridade da Igreja liderada pelo Papa e dirigida por concílios eruditos. Quando Lutero insistiu que apenas a fé e apenas as Escrituras eram tudo o que se necessitava para a comunhão com Deus, Eck atacou-o apelidando-o de hussita — um dos seguidores de Jan Hus da Boémia (cerca de 1369-1415), que fora condenado por heresia pelo Concílio de Constança em 1415 e queimado na fogueira. Lutero rejeitou inicialmente o rótulo, mas depois argumentou que alguns dos pontos de Hus tinham sido válidos e que as suas afirmações não eram o «vírus boémio» como a Igreja regularmente as descartava. O académico Roland H. Bainton recria a resposta de Eck a partir das transcrições originais:
Mas este é o vírus boémio: atribuir mais peso à própria interpretação das Escrituras do que à dos Papas e Concílios, dos doutores e das universidades. Quando o Frei Lutero diz que este é o verdadeiro significado do texto, o Papa e os Concílios dizem: 'Não, o irmão não o entendeu correctamente'. Nesse caso, eu escolherei o Concílio e deixarei o irmão de lado. Caso contrário, todas as heresias serão renovadas. Todas elas apelaram às Escrituras e acreditaram que a sua interpretação era a correcta, alegando que os Papas e os Concílios estavam equivocados, tal como Lutero faz agora. (pág. 107)
Lutero respondeu que afirmaria a verdade tal como Deus lha tinha revelado e que não importava se os Papas, os Concílios ou as universidades concordavam com essa verdade. Quando pressionado, Lutero teve então de admitir publicamente que contestava a autoridade do Papa e discordava do veredito do Concílio de Constança que tinha condenado Hus. Não foi proferido qualquer veredito sobre o debate, pois Jorge, Duque da Saxónia, parece ter ficado aborrecido com a discussão e precisava que o salão fosse desocupado para outro evento.
O debate continuou através da tinta, com Eck e Lutero a atacarem-se mutuamente em cartas abertas, panfletos e obras mais extensas. Em 1519, Eck publicou obras de vulto que denunciavam a teologia de Lutero e o movimento da Reforma, ao mesmo tempo que defendia a proibição e a queima de livros protestantes. Ele também apelou directamente a Roma, o que resultou na emissão, pelo Papa Leão X, da Bula Papal Exsurge Domine (Erguei-vos, Senhor) que refutava as afirmações de Lutero classificando-as como erros. O próprio Eck levou a Bula para a Saxónia em julho de 1520, leu-a em público e mandou afixá-la mas, por esta altura, a opinião popular apoiava Lutero, e Eck foi atacado e expulso de cidade em cidade. Lutero queimou a Bula e, em janeiro de 1521, foi excomungado.
Defensor da Fé
Eck não foi suficientemente tolo para acreditar que a excomunhão silenciaria Lutero e continuou o seu ataque em 1521, encorajando Carlos V, Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, a convocar a Dieta de Worms, na qual Lutero foi ordenado a comparecer. O discurso de Lutero na Dieta de Worms (conhecido como o discurso 'Aqui Permaneço') em abril de 1521 tornou a sua posição clara, e Eck apelou a Carlos V para que tomasse medidas mais severas, o que resultou no Édito de Worms de maio de 1521, declarando Lutero um proscrito que poderia ser morto sem consequências. Lutero foi raptado secretamente por um apoiante da nobreza, Frederico III (o Sábio, 1463-1525), e levado em segurança para o seu castelo em Wartburg, parecendo desaparecer ao início, até que começou a publicar mais obras, incluindo a tradução do Novo Testamento para alemão.
Por volta de 1522, Eck retaliou impondo a proibição de todas as obras de Lutero e de qualquer um dos seus apoiantes em Ingolstadt, e convidou oficiais da Inquisição para examinarem qualquer pessoa suspeita de ler ou distribuir tais obras. Em 1522, o académico Arsacius Seehofer foi avisado por Eck contra a introdução da doutrina luterana na escola, aviso que Seehofer ignorou, proferindo uma palestra sobre a teologia de Melanchthon na primavera de 1523. Eck providenciou a censura de Seehofer e, após uma busca ao seu aposento ter revelado 17 textos luteranos, este acabou por ser expulso, preso e ameaçado de execução, caso não se retractasse. Este evento inspirou a obra de Argula von Grumbach, À Universidade de Ingolstadt, uma carta aberta que condenava a faculdade por perseguir Seehofer e exigia que explicassem de que forma as visões de Lutero ou Melanchthon eram heréticas, uma vez que derivavam diretamente da Bíblia.
Eck e o restante corpo docente ignoraram a carta, pelo que von Grumbach a mandou publicar por instigação de um colega protestante e reformador, Andreas Osiander (1498-1552), que escreveu um prefácio para a obra. O panfleto tornou-se muito conhecido, encorajando von Grumbach a escrever mais, e poderá ter ajudado a garantir a libertação de Seehofer em 1524. Eck continuou a ignorar von Grumbach enquanto prosseguia os seus ataques a Lutero, mas os argumentos dela foram certamente abordados nas obras que continuou a publicar contra a Reforma até 1526, as quais incluíam refutações e a condenação de Ulrico Zuínglio (1484-1531) e dos seus seguidores, bem como do movimento anabatista. Nesse mesmo ano de 1526 debateu com Oecolampadius e foi declarado vencedor, continuando a fundamentar o seu argumento essencial na afirmação de que, se cada indivíduo que lesse a Bíblia pudesse depois dizer que compreendia a verdade última e a vontade de Deus, então não haveria verdade, apenas opinião.
Quando a Dieta de Augsburgo foi convocada em 1530, Eck compilou os seus 404 Artigos sobre os erros dos Reformadores e submeteu-os a Carlos V com uma carta de apresentação:
Todos os católicos acreditam que, no meio destes numerosos tumultos de guerras e aflições do Cristianismo, vós, mui venerado Imperador, sois o instrumento divinamente designado, escolhido e consagrado para deter o declínio da fé católica, para ajudar a Igreja aflita e os eclesiásticos oprimidos, e para salvar o império cristão do Turco...
Mas Martinho Lutero, o inimigo da Igreja dentro da própria Igreja, recusou-se a dar ouvidos às solenes admoestações que lhe foram dirigidas por Vossa Majestade e lançou-se num verdadeiro turbilhão de impiedade. Ele blasfema contra Deus; não tem reverência pelos santos nem pelos sacramentos, nem respeito pelos magistrados eclesiásticos ou seculares; é contumaz e rebelde; ateia os fogos da sedição por todo o império; prepara ardentemente um dilúvio de sangue cristão; arma as mãos dos alemães para que estes se banhem no sangue do Papa e dos Cardeais.
Assim, ele gerou uma vasta descendência, muito pior do que ele próprio, dando à luz ninhadas de víboras. Eles destroem as igrejas, demolem os altares e espezinham a santíssima Eucaristia; queimam imagens de Cristo e dos santos, extinguem o culto a Deus, lançam as relíquias dos santos na lama e roubam os tesouros da Igreja...
Com o propósito de aniquilar as suas jactâncias enganosas, apresento-me perante Vossa mui venerada Majestade, pronto para realizar o mesmo serviço que prestei em Leipzig contra Lutero e em Baden contra Oecolampadius, a saber: defender todas as ordenanças, usos, doutrinas e cerimónias da nossa religião e fé católica, e atacar os argumentos dos antagonistas. Que venham eles, estes inimigos da igreja, estes instrumentos da impiedade, estes advogados de heresias e vasos de iniquidade. (Lindberg, Fonte 8.10, págs. 143-144)
Na Dieta de Augsburgo, em junho de 1530, Melanchthon apresentou a Confissão de Augsburgo luterana, que foi aprovada pelos príncipes protestantes presentes. Eck contribuiu para a Confutação Pontifícia da Confissão de Augsburgo, rejeitando a obra de Melanchthon enquanto reafirmava as crenças da Igreja Católica.
Conclusão
Entre 1530 e 1542, Eck continuou os seus ataques ao movimento da Reforma, ao mesmo tempo que defendia a autoridade e as tradições da Igreja Católica. Em 1542, circulou um boato de que tinha morrido. A académica Lyndal Roper comenta:
Em 1542, o velho inimigo de Lutero, Eck, fora um daqueles indivíduos afortunados (ou desafortunados) que puderam ler os seus próprios obituários. Acreditando que o seu antagonista estava morto, Bucer escrevera um tratado contra ele, ao qual Eck respondeu com um contra-ataque fulminante, afirmando audazmente na página de rosto que estava bem vivo. Mas poucos dias após a sua resposta ter sido publicada, Eck caiu de cama com febre, entrando rapidamente em delírio. Insistindo que era demasiado cedo para chamar um padre, tornou-se cada vez mais incoerente e, quando o sacerdote foi finalmente convocado, Eck já não conseguia acompanhar as palavras do rito. (págs. 391-392)
Ele morreu no início de 1543. Lutero, que morreria três anos mais tarde, aproveitou a saída repentina de Eck — a qual sugeriu ter-lhe negado os Últimos Ritos, uma vez que este não os conseguia compreender — como um julgamento de Deus pelas perseguições incessantes do seu antigo adversário. Concluiu que Eck tinha ido direto para o inferno, tal como fizera com Ulrico Zuínglio em 1531, quando este último tombou em combate nas Guerras de Kappel. No entanto, Eck foi pranteado pela comunidade católica como um defensor da fé e um campeão da crença religiosa tradicional.
Nos dias de hoje, Johann Eck aparece invariavelmente em qualquer filme ou documentário sobre Martinho Lutero como o vilão da história, perseguindo Lutero e os seus corajosos seguidores pelas suas convicções, enquanto se escondia atrás das tradições da Igreja. No entanto, esta representação é injusta e imprecisa, uma vez que Eck provou ser tão corajoso como qualquer um dos reformadores e foi reconhecido, no seu tempo, como o mais distinto teólogo, intelectual, escritor e orador público do Sacro Império Romano-Germânico.
A sua obra formou a Contrarreforma, que estabeleceu novamente a autoridade da Igreja e reformou os seus abusos e, mais importante ainda, o seu argumento central nunca foi refutado: se a interpretação da Bíblia por parte de qualquer pessoa é válida com base na sua fé nessa convicção, então a de ninguém o é, porque deixa de existir qualquer autoridade para determinar a validade. Se a verdade é apenas opinião, então não existe Verdade. O argumento de Eck provou estar correcto à medida que as seitas protestantes proliferaram ao longo do século XVI, cada uma reivindicando representar, em exclusivo, o verdadeiro Cristianismo.
