A Reforma Boémia (cerca de 1380 a cerca de 1436) foi o primeiro esforço concertado do clero católico para reformar os abusos e a corrupção da Igreja medieval. Os clérigos e teólogos boémios apelaram à reforma e, tal como os defensores posteriores, inicialmente não tinham qualquer intenção de romper com a Igreja até ao martírio de Jan Hus em 1415.
A Igreja Boémia tinha sido estabelecida pela Igreja Ortodoxa Oriental, e não pela Igreja de Roma, pelos missionários (e irmãos) São Cirilo e Metódio em 863. Nesta altura, as igrejas Oriental e Ocidental ainda estavam unidas e cooperavam entre si. Após estabelecerem o Cristianismo na Boémia (atual República Checa), Cirilo e Metódio trabalharam com a Igreja de Roma na organização e administração das paróquias e, no caso de Metódio, na tentativa de navegar no mundo de um clero católico invejoso e corrupto.
A seita herética dos valdenses, fugindo à perseguição em França e Itália, chegou à região no início do século XIII e parece ter influenciado o desenvolvimento das paróquias locais, que reconheceram a diferença entre o luxo e a opulência da Igreja e a simplicidade e pobreza dos hereges. Os apelos à reforma partiram de vários padres e teólogos, incluindo Konrad von Waldhausen (falecido em 1369), Jan Milíč (também referido como Milicz von Kremsier, falecido em 1374), Matias de Janov (também referido como Matěj z Janova, falecido em 1394) e Mateus de Cracóvia (cerca de 1335-1410). A Bíblia, disponível apenas em latim, foi traduzida para checo por volta de 1360, permitindo que qualquer pessoa alfabetizada a lesse e suscitando novas questões sobre a política e a prática da Igreja.
O reformador mais famoso foi Jan Hus (1369-1415), que foi executado pela Igreja por heresia, tal como o seu amigo e co-reformador Jerónimo de Praga (1379-1416), um ano mais tarde, ambas as mortes, bem como os contínuos abusos por parte da Igreja, desencadearam as Guerras Hussitas (1419 a cerca de 1434) entre os seguidores da visão de Hus e os fiéis católicos. A violência foi contestada pelo grande pensador e escritor hussita Petr Chelčický (cerca de 1390 – cerca de 1460), reconhecido como uma das vozes mais importantes da Reforma Boémia.
Embora os católicos tenham vencido o conflito, a paz acordada no Concílio de Basileia, em 1436, concedeu à Boémia liberdade religiosa. As datas habitualmente indicadas para a Reforma Boémia são consideradas aproximadas. O movimento teve início antes de 1380 (não se sabe quando), e embora a conferência de Basileia possa ser considerada o seu desfecho, seguir-se-iam novos conflitos que só foram resolvidos na era da Reforma Protestante (1517-1648) ou mais tarde.
A Igreja Boémia e os Primeiros Reformadores
Cirilo e Metódio são celebrados como os fundadores da antiga Igreja Boémia devido à conversão do Duque Bořivoj I da Boémia ao Cristianismo, o que influenciou a sua família e a nobreza a seguir o seu exemplo. Cirilo morreu em Roma em 869, e Metódio foi nomeado Arcebispo da Morávia e Panónia, regiões centrais da Grande Morávia que incluíam a Boémia. Os ciúmes entre outros membros do clero levaram à detenção de Metódio em 870, sob a alegação de que pregava e celebrava a Missa na língua vernácula em vez de latim. Após três anos de prisão, foi libertado e traduziu a Bíblia para eslavónico, continuando a defender-se dos ataques dos seus colegas do clero até à sua morte em 885.
As Igrejas Oriental e Ocidental continuaram a cooperar, mais ou menos, até ao Grande Cisma de 1054. Por esta altura, as chamadas heresias tinham começado a surgir por toda a Europa, em resposta à diferença muito clara entre a figura e os ensinamentos de Jesus Cristo e as políticas e o dogma da Igreja Católica. Por volta de 1177, o movimento valdense foi fundado ou desenvolveu-se significativamente por Pedro Valdo (1140-1205), de Lyon, França. Os valdenses defendiam a pobreza, a simplicidade em todas as coisas e o serviço ao próximo, ao mesmo tempo que condenavam o luxo, as políticas e os dogmas da Igreja. Foram condenados, perseguidos e fugiram para a Boémia no século XIII.
A influência que os valdenses exerceram no desenvolvimento da Igreja Boémia continua a ser objeto de debate. É possível que a sua influência tenha sido insignificante, mas isso parece improvável, uma vez que os reformadores posteriores abordaram muitos dos seus pontos de vista. Ainda assim, uma vez que esses reformadores eram letrados e conhecedores da Bíblia, não seria de todo improvável que chegassem à conclusão de que a Igreja a que serviam tinha pouco em comum com as vidas e a visão de Jesus Cristo e dos seus discípulos, ou de São Paulo e do cristianismo primitivo descrito no livro bíblico dos Atos dos Apóstolos.
Konrad von Waldhausen foi bastante veemente na sua denúncia da corrupção da Igreja e nos seus apelos à reforma, mas foi ignorado. Jan Milíč, fluente tanto em checo como em alemão, era um pregador tão popular que celebrava missas até cinco vezes por dia e atraía multidões tão grandes à Igreja de Tyn, em Praga, que frequentemente tinha de pregar na praça ao ar livre. Afirmava que o fim dos tempos estava próximo e que o anticristo já se encontrava entre eles, personificado no papa.
Auando viajou para Roma para transmitir estas notícias pessoalmente, Milíč foi detido mas era tão popular (e também admirado pelo rei da Boémia e pelo Imperador do Sacro Império Romano-Germânico Carlos IV, que reinou entre 1355 e 1378) que acabou por ser libertado. Regressou a casa, onde fundou uma escola para pregadores que iriam divulgar a sua visão de um cristianismo mais simples e baseado na Bíblia. Foi convocado pelo papa para regressar a Roma e ser julgado por heresia, mas morreu antes da data marcada para comparecer. Mateus de Cracóvia, professor de teologia na Universidade de Praga, foi a figura central de uma delegação enviada ao Papa Urbano VI em 1382 a apelar à reforma, mas as suas sugestões foram ignoradas, tal como tinha acontecido com tentativas anteriores.
Matthias de Janov foi o escritor mais prolífico destes quatro primeiros reformadores e o primeiro a desenvolver o conceito de uma Igreja Verdadeira e uma Igreja Falsa, possivelmente derivado das obras do reformador inglês John Wycliffe (1330-1384) ou, tal como no caso de Wycliffe, dos escritos de Santo Agostinho de Hipona. Matthias de Janov defendia que existia um cristianismo ideal, expresso por Cristo e pelos seus apóstolos, e um falso cristianismo, expresso na Igreja cujo papa era o anticristo anunciado no livro bíblico do Apocalipse. Não é claro até que ponto estes quatro reformadores influenciaram Jan Hus, mas, assim que leu as obras de Wycliffe, ele viria a desenvolver muitas das suas teses ao apelar à reforma.
Jan Hus
Jan Hus foi a figura central da Reforma Boémia, pois foi o seu martírio, em 1415, que radicalizou o movimento e conduziu diretamente às Guerras Hussitas. Hus nasceu na classe camponesa e aprendeu as Escrituras ainda jovem com a sua mãe, que lhe lia a Bíblia Boémia e o encorajava a ingressar no sacerdócio para ter uma vida melhor. Concluiu o mestrado em 1396, lecionava na Universidade de Praga já em 1398 e foi nomeado sacerdote da Capela de Belém em 1402, que tinha sido fundada em 1391 com a condição de que as cerimónias fossem celebradas em checo, o que viria a influenciar o ministério de Hus.
Nesse mesmo ano, foi apresentado às obras de John Wycliffe pelo seu amigo Jerónimo de Praga. Jerónimo tinha estudado em Oxford — onde Wycliffe tinha sido professor — e tinha copiado várias das suas obras. Hus reagiu imediatamente à condenação feita por Wycliffe das práticas da Igreja, tais como a simonia (a venda ou concessão de cargos eclesiásticos a familiares e amigos, muitas vezes sem qualificações) e a venda de indulgências — documentos que, segundo se dizia, encurtavam o tempo de uma pessoa, ou de um ente querido, no purgatório, entre outras práticas. A Capela de Belém tinha capacidade para mais de 3 000 fiéis, e Hus pregava dois sermões todos os domingos, expondo as suas críticas e as de Wycliffe à Igreja na língua vernácula. Como era um pregador muito popular, as suas ideias espalharam-se rapidamente entre a sua audiência e, além disso, através das suas obras, que foram impressas, também em checo, utilizando a técnica da xilogravura, e distribuídas.
Hus foi convocado para o Concílio de Constança (também conhecido como Concílio de Konstanz) em 1414 para explicar os seus «erros» e recebeu um salvo-conduto de Sigismundo da Hungria (1368-1437). Quando chegou, e antes da abertura do concílio, começou a pregar em Konstanz e foi detido por autoridades eclesiásticas, que alegaram que tal violava a sua carta de salvo-conduto. Foi preso, instado repetidamente a retratar-se e, por fim, condenado e queimado na fogueira como herege a 6 de julho de 1415. Jerónimo de Praga, que defendeu as suas ideias, teve o mesmo destino um ano mais tarde.
A Rebelião Hussita e os Quatro Artigos de Praga
Uma das políticas da Igreja que Hus tinha contestado era a prática dos padres, na celebração da Eucaristia, de dar apenas o pão aos leigos e reservar o vinho para si próprios. Hus defendia a prática do utraquismo («sob ambas as espécies»), o que significava que tanto o pão como o vinho seriam oferecidos a todos os católicos em boa situação durante a missa. A controvérsia em torno do utraquismo viria a estar na origem da Rebelião Hussita que se seguiu à sua execução. O estudioso John Bossy observa:
Os hussitas… defendiam a salvação coletiva do povo checo através de uma repressão pública do pecado e de uma vivência mais intensa da Eucaristia, o que acabou por assumir a forma de comunhão universal em ambas as espécies (utraeque specie). Conhecidos por esta razão como utraquistas, eram tão radicais quanto Joana d’Arc, e a sua espinha dorsal era uma nobreza piedosa.
(pág. 81)
O grau exato de piedade da nobreza é objeto de debate, mas esta compreendia que qualquer golpe contra o poder e a autoridade da Igreja era uma boa notícia para si. A Igreja detinha a propriedade de muitas terras lucrativas por toda a Europa que não podiam ser tributadas e, se se pudesse provar que um desafio ao poder eclesiástico oferecia a mesma esperança de salvação que a Igreja, isso significaria maior poder e lucro para a nobreza. A revolta religiosa, portanto, tornou-se também um movimento político que, ainda assim, procurava combater os abusos da hierarquia eclesiástica.
Os hussitas articularam a sua visão nos Quatro Artigos de Praga:
- Liberdade para pregar a palavra de Deus a partir das Escrituras
- Liberdade do cálice na comunhão (utraquismo)
- Proibição do clero possuir grandes propriedades ou exercer cargos de autoridade secular
- Punição pelos pecados mortais, independentemente da posição social
O utraquismo tornou-se um ponto de união central para os hussitas, porque a prática tradicional do clero de negar o vinho — considerado o sangue de Cristo — aos leigos simbolizava a política da Igreja de separar os fiéis dos ensinamentos essenciais e do significado do ministério de Cristo. A missa era celebrada em latim, as orações eram ensinadas em latim, a Bíblia era lida aos fiéis em latim, língua que muito poucos leigos compreendiam. O controlo clerical da Eucaristia passou a simbolizar as políticas repressivas da Igreja em todas as outras questões, impulsionando o utraquismo para o centro da rebelião que deu início às Guerras Hussitas em 1519. O seu símbolo, estampado em estandartes, escudos e noutros locais, era o cálice.
O conflito teve início após o acontecimento conhecido como a Primeira Defenestração de Praga, a 30 de julho de 1419, quando um grupo de hussitas, enfurecido com a recusa das autoridades católicas em libertar prisioneiros hussitas, atirou sete membros do conselho municipal pelas janelas altas da Câmara Municipal; todos os sete morreram na queda. A notícia das suas mortes destruiu rapidamente qualquer ilusão de segurança ou conforto na Boémia, à medida que os hussitas saqueavam instituições católicas e os partidários católicos atacavam os hussitas. O estudioso Howard Louthan escreve:
Embora seja difícil, se não impossível, determinar números precisos, é evidente que a maioria do reino [da Boémia] aderiu ao utraquismo… A gestão dos assuntos quotidianos nas igrejas era complicada. As guerras hussitas tinham destruído quase por completo a infraestrutura eclesiástica do reino. Quase todos os bens da Igreja tinham sido secularizados e a maioria dos mosteiros estava em ruínas ou encerrada.
(Rublack, pág. 133)
Sigismundo da Hungria tinha recebido autorização do papa para lançar uma cruzada com o objetivo de esmagar os hussitas heréticos, o que significou a destruição de muitas vilas, aldeias e cidades, à medida que a região mergulhava na violência. As mortes de civis eram comuns porque, num conflito religioso, qualquer pessoa que não estivesse do lado do exército invasor era considerada inimiga. Consequentemente, o número de vítimas foi elevado tanto entre os combatentes como entre os não combatentes, e muitos morreram de fome ou de exposição às intempéries após a destruição das colheitas e das habitações.
Jan Žižka e Petr Chelčický
Dois homens, do mesmo lado, que se situavam em pólos opostos durante o conflito, foram o general hussita Jan Žižka (1360-1424) e o filósofo religioso hussita Petr Chelčický. Embora os opositores da Igreja sejam frequentemente referidos como hussitas, estes constituíam, na realidade, um grupo heterogéneo que incluía várias facções, entre as quais os taboritas (com sede em Tábor, na Boémia), que combinavam a visão de Hus com a de Jan Milíč e pregavam uma teologia do fim dos tempos, ao mesmo tempo que aderiam ao modelo do cristianismo comunitário primitivo, tal como descrito na Bíblia. Jan Žižka de Trocnov era, inicialmente, um mercenário que já tinha combatido em várias campanhas e assumiu o comando das forças taboritas contra a cruzada de Sigismundo.
Žižka já tinha provado ser um guerreiro competente anteriormente, na Batalha de Grunwald, a 15 de julho de 1410, que destruiu o poder da Ordem Teutónica, mas, a partir daí, passou a liderar com sucesso as forças hussitas contra a cruzada de Sigismundo. Foi pioneiro na utilização da pólvora em combate, bem como no uso de fortalezas sobre rodas, tanto em táticas defensivas como ofensivas. Embora tivesse perdido um olho numa batalha no início da carreira e viesse a perder o outro mais tarde, mesmo cego era um general superior a qualquer um dos seus adversários e permanecia invicto até à sua morte, vítima da peste, em 1424.
No outro extremo do espectro hussita encontrava-se Petr Chelčický, que defendia a não-violência e a adesão à exortação de Cristo para amar os inimigos e rezar por eles. A visão de Chelčický viria a inspirar a Unidade dos Irmãos (também conhecida como União dos Irmãos da Boémia), um importante movimento reformista durante as Guerras Hussitas e posteriormente. Louthan comenta:
Pouco se sabe sobre a história pessoal de Chelčický. De origem modesta, era um leigo do sul da Boémia que, embora mantivesse relações amigáveis com muitos dos taboritas, vivia afastado deles. Criticava o recurso que estes faziam ao Antigo Testamento, com os seus apelos à vingança justa e ao julgamento. Chelcicky acreditava que o Novo Testamento tinha aperfeiçoado o seu predecessor, considerado inferior. Utilizando o Sermão da Montanha como guia, exortou os cristãos a aceitarem a verdadeira lei de Cristo, a renunciarem a todas as pretensões de poder e a recusarem a prestação de juramentos e o porte de armas.
(pág. 135)
Žižka provou que as forças hussitas, compostas principalmente por camponeses e trabalhadores com pouca ou nenhuma experiência militar, estavam à altura das forças experientes dos leais à Igreja Católica, enquanto Chelčický, que denunciava a violência de Žižka, forneceu a base espiritual e filosófica para o avanço da causa hussita.
Conclusão
As Guerras Hussitas tiveram um impacto mais devastador sobre o povo da Boémia porque, assim que Žižka derrotou as forças católicas, as várias facções hussitas voltaram-se umas contra as outras. Embora cada seita hussita, por si só, concordasse com as suas críticas à Igreja Católica, não conseguiram chegar a qualquer consenso significativo entre si. Na Batalha de Lipany, em 1434, os hussitas moderados (os utraquistas) aliaram-se aos partidários católicos de Sigismundo para derrotar os hussitas mais radicais (os taboritas) e pôr fim ao conflito.
No Concílio de Basileia, em 1436, os representantes da Igreja reconheceram os Quatro Artigos de Praga (embora o papado se recusasse a fazê-lo). Foi concedida aos utraquistas a liberdade de organizar a sua igreja e celebrar os serviços religiosos como bem entendessem, incluindo, naturalmente, a oferta de pão e vinho aos leigos na celebração da Eucaristia. Embora se tivessem estabelecido como uma denominação cristã independente, continuaram a procurar a validação da Igreja Católica e chegaram mesmo a modelar a sua própria hierarquia eclesiástica à da Igreja da qual tinham lutado para se libertar.
A Igreja Utraquista da Boémia elegeu o seu próprio arcebispo e estabeleceu a sua própria hierarquia, chegando mesmo a elevar Jan Hus à condição de santo e a reconhecer aqueles que morreram pela causa como santos mártires, tal como a Igreja Católica primitiva tinha feito. Após a Reforma alemã de Martinho Lutero e a Reforma Protestante mais ampla que se seguiu, os utraquistas passaram a ser mais amplamente reconhecidos e a integrar-se na corrente dominante. Atualmente, as suas crenças estão na base dos princípios da Igreja da Morávia, uma das mais antigas entre as muitas denominações do cristianismo protestante.
