Bóreas é o deus do violento Vento do Norte na mitologia grega. É filho do Titã Astraios e de Eos, a deusa da aurora, e irmão de Zéfiro (o Vento do Oeste) e de Noto (o Vento do Sul). É sobretudo conhecido pelo seu temperamento irascível, pelo rapto de Oritia e pela sua associação aos cavalos.
Vivia na Trácia, a norte da Grécia, onde soprava sobre o mar alto, fustigando-o até ao delírio e fazendo com que a terra e as florestas uivassem ao vento. Derrubava grandes carvalhos e pinheiros de ramos espessos, e a sua própria força fazia com que os animais tremessem de medo e de frio, não sendo a sua pelagem densa defesa alguma contra o Vento do Norte.
O Nascimento e a Família
Bóreas é o filho do Titã Astraios e de Eos, a deusa da aurora, e irmão de Zéfiro (o Vento do Oeste) e de Noto, o Vento do Sul.
E com o deus Astraios, Eos deitou-se Em amor, sendo ela própria uma deusa, e deu à luz os ventos De corações poderosos: o purificador Zéfiro, E Noto, e o veloz Bóreas.
(Hesíodo, Teogonia, 379-382)
O seu mau génio contrastava frequentemente com os seus irmãos mais gentis, Zéfiro e Noto. Eram coletivamente conhecidos como os Anemoi na mitologia grega. Em tradições posteriores, dizia-se que Bóreas fora amante da ninfa Pitys e pai de dois filhos, Butes e Licurgo, de duas mães diferentes.
Bóreas e Oritia
O mito mais famoso associado a Bóreas é o rapto de Oritia. Oritia era filha de Erecteu, rei de Atenas, e da sua esposa, Praxiteia. Bóreas alimentava há muito sentimentos por Oritia e pediu repetidamente ao rei Erecteu a mão da sua filha, recebendo apenas promessas vãs em troca. Finalmente, Bóreas esgotou a sua paciência e recorreu à sua violência natural, raptando Oritia enquanto ela dançava nas margens do rio Ilisso. Algumas fontes afirmam que ela foi raptada enquanto participava na procissão anual das Tesmofórias, que tinha lugar na Acrópole de Atenas, no caminho para o templo de Atenas.
Erecteu não deveria ter sido gentilmente solicitado, mas sim obrigado a dar-me a sua filha. Com palavras impetuosas como estas, ou outras de fúria semelhante, Bóreas fustigou o ar com os seus ventos poderosos, e uma rajada uivante varreu a terra e encrespou a amplitude do mar.
(Ovídio, Metamorfoses, 6.700-705)
Bóreas envolveu Oritia numa nuvem de vento e levou-a para junto dos Cícones na Trácia, onde ela se tornou sua esposa e lhe deu dois filhos gémeos alados, Calais e Zetes (dois dos Argonautas mais velozes), e duas filhas, Cleópatra (que acabou por se tornar esposa do rei Fineu de Salmidesso, na Trácia) e Quíone (que teve um filho com Posidão). Como resultado do casamento entre Bóreas e Oritia, os atenienses passaram a considerar Bóreas seu parente por afinidade.
O rapto de Oritia é referido no Fedro de Platão (cerca de 428/427-348/347 a.C.), quando Sócrates e o seu companheiro Fedro viajam pelo campo na Ática. Ao chegarem às margens do rio Ilisso, Fedro perguntou a Sócrates se aquele era o local do rapto de Oritia por Bóreas. Sócrates respondeu à sua maneira filosófica habitual, descartando e utilizando simultaneamente o mito grego. Afirmou que Bóreas não era um deus, mas sim o Vento do Norte, que empurrara Oritia de um penhasco acima do Ilisso enquanto ela brincava com a ninfa Farmaceia.
Bóreas como o Deus do Vento do Norte
De acordo com Heródoto (cerca de 484-425/413 a.C.), devido à estima que nutriam por Bóreas e ao conselho de um oráculo, os atenienses pediram-lhe ajuda em 480 a.C., quando Atenas estava sob a ameaça de uma invasão persa. Respondendo aos seus apelos, Bóreas dispersou e destruiu a frota persa, tal como fizera doze anos antes. Heródoto expressou as suas dúvidas de que a erradicação da frota persa fosse um resultado direto de Bóreas. No entanto, afirmou que os atenienses estavam tão seguros de que ele respondera aos seus apelos que construíram um santuário para o deus nas margens do rio Ilisso.
Na Ilíada de Homero (cerca de 750 a.C.), Bóreas, juntamente com o seu irmão Zéfiro, são invocados por Aquiles quando a pira funerária de Pátroclo não se acendia. Aquiles prometeu sacrifícios e oferendas maravilhosas aos deuses se estes atendessem às suas preces e ajudassem a atear a pira. Íris ouviu as suas preces e apressou-se a ir aos salões de Zéfiro para transmitir a mensagem de Aquiles.
Entregue a mensagem, ela partiu enquanto os ventos se erguiam com um rugido sobre-humano, debandando as nuvens diante de si. Atingindo subitamente o mar aberto com a força de um vendaval, fustigando as cristas das ondas sob uma borrasca assassina e sibilante, eles levantaram o solo rico e bom de Troia e atingiram a pira, e uma enorme labareda sobre-humana subiu uivando pelos céus. Durante toda a noite eles lançaram as chamas — amontoadas sobre a pira. (Homero, Ilíada, 23.242-249)
Bóreas é também mencionado na Odisseia de Homero. Atena controla o Vento do Norte para ajudar Odisseu a chegar a terra, depois de Posidão ter tentado matá-lo, agitando as ondas num frenesim louco.
Bóreas como o Pai dos Cavalos
Bóreas estava intimamente associado aos cavalos e era por vezes referido como o «pai dos cavalos» devido ao seu encontro com as éguas do rei Erictonio de Dardânia. O rei Erictonio era o homem mais rico do mundo e possuía 3000 belas éguas no seu auge. Bóreas cobiçou estas éguas, transformou-se num garanhão negro e montou várias delas. As éguas deram a Bóreas doze potros que podiam correr velozmente sobre campos repletos de milho e cereais sem os quebrar, e que podiam correr sobre as ondas.
A Competição entre Bóreas e Hélios
Como é comum na mitologia grega, Bóreas e Hélios, o deus e personificação do sol, enfrentaram-se num concurso. Ambos afirmavam ser capazes de fazer com que um viajante se despisse primeiro. Bóreas soprou o seu vento gélido sobre o homem, o que apenas o fez envolver-se mais apertadamente no seu manto e procurar refúgio numa gruta. Hélios tentou a tática oposta, aumentando gradualmente a temperatura até que o viajante saiu da gruta, se despiu e se banhou no rio. Sófocles (cerca de 496 a c.erca de 406 a.C.) relata esta fábula a Eurípides (cerca de 484-407 a.C.) para demonstrar como a bondade e a gentileza (Hélios) vencem sempre a violência e o tratamento duro (Bóreas).
Bóreas e Leto
Leto era uma Titânide que engravidou de Zeus (dos seus filhos Apolo e Ártemis) por volta da época em que Zeus e Hera se casaram. Como tal, tinha uma Hera vingativa no seu encalço. Em consequência disso, Leto foi rejeitada em muitas terras, após Hera ter ameaçado qualquer um que lhe oferecesse um lugar seguro para dar à luz. Hera proibiu ainda que os filhos de Leto nascessem onde quer que o sol brilhasse.
Leto chegou a Panopeu e a Delfos, onde encontrou a monstruosa serpente Píton, enviada por Hera. Quando chegou o momento de Leto dar à luz, Zeus convocou Bóreas para a resgatar e a levar até Posidão, que depois a conduziu à ilha de Delos, onde ela deu à luz Apolo e Ártemis.
Os Hiperbóreos
Hiperbórea era uma nação localizada para além do Vento do Norte (daí o seu nome). Os autores antigos identificam a Hiperbórea em locais diferentes — sendo o consenso geral que se tratava de terras situadas a norte da Grécia, nomeadamente terras citas. Era um lugar que não era afetado pelo pôr do sol, situando-se num paraíso de outro mundo de difícil acesso para os mortais. O acesso tinha de ser concedido pelos deuses. Hesíodo menciona que os hiperbóreos tinham grande destreza com os cavalos, o que era outra forma de estarem ligados a Bóreas.
Segundo as tradições mitológicas, Bóreas vivia numa gruta que poderá ser a mesma que hoje é conhecida como a "Gruta dos Ventos", situada num desfiladeiro e mencionada no folclore asiático.
O Hino Órfico a Bóreas
Os Hinos Órficos são uma coleção de hinos religiosos gregos que invocam os deuses e fazem parte do antigo movimento religioso conhecido como Orfismo, cujas crenças e literatura eram atribuídas a Orfeu. Adoravam Dioniso e Perséfone.
O Hino Órfico 79 (ou 80, dependendo da contagem) é dedicado a Bóreas:
Bóreas, cujas rajadas invernais, terríficas, rasgam o seio do ar profundo que nos cerca;
Poder frio e gelado, aproxima-te e sopra favoravelmente, e deserta por instantes a Trácia exposta à neve:
Dissolve a estação brumosa do ar, com nuvens grávidas, cujas formas se resolvem em chuveiros:
Tempera serenamente tudo o que há no céu, e limpa da humidade o belo olho do Éter.
A Aparência
Bóreas é representado na arte como uma figura barbuda e alada, com o cabelo desgrenhado ou espetado. Frequentemente veste uma túnica curta plissada. Por vezes, é também retratado com caudas de serpente em vez de pés. O seu rapto de Oritia é uma cena comum na cerâmica da Grécia Antiga.
O Culto de Bóreas
Acredita-se que o culto de Bóreas tenha tido origem na Líbia, antes de se desvanecer e ser suprimido em certas partes da Grécia, como Atenas. No entanto, foi apenas depois de Atenas ter sido salva pelas forças invasoras persas que o culto de Bóreas foi revitalizado — desta vez com uma forte presença em Atenas. Pausânias (cerca de 115 d.C. a cerca de 180) afirmou que o deus também ajudou a defender a cidade de Megalópolis (no sul da Grécia) contra os espartanos, o que lhe valeu sacrifícios anuais em sua honra.
Os turianos (de Túrio, na Grécia) também ofereciam um sacrifício anual a Bóreas depois de este ter destruído uma frota de navios pertencente a Dionísio I de Siracusa, que os tinha atacado. Foi estabelecido um decreto que oferecia a Bóreas um terreno e uma casa. Esta foi a sua forma de adotar o culto de Bóreas.
De acordo com Heródoto, enquanto a marinha grega navegava para o Cabo Artemísio para enfrentar o exército persa, os delfianos invocaram Apolo, e um oráculo foi enviado para lhes dizer que rezassem aos ventos. Os delfianos transmitiram a mensagem ao resto do exército grego. Após saírem vitoriosos, os delfianos dedicaram um altar aos ventos perto de Delfos e ofereceram ali sacrifícios a Bóreas.
Heródoto acreditava que um Festival de Bóreas foi iniciado durante as Guerras Médicas. No entanto, a informação sobre o mesmo é escassa, e a única coisa que se sabe é que eram realizados banquetes em honra de Bóreas durante o festival.

