Cila e Caríbdis

Os Monstros que Guardavam a Sicília
Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
publicado em
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Scylla Terracotta Plaque (by The British Museum, Copyright)
Placa de terracota de Cila The British Museum (Copyright)

Cila e Caríbdis eram monstros da mitologia grega que, acreditava-se, habitavam o Estreito de Messina, o mar estreito entre a Sicília e o continente italiano. Aterrorizando os marinheiros que por ali passavam, Cila era uma criatura terrível com seis cabeças e doze pés, enquanto Caríbdis, vivendo no lado oposto do estreito, era outro monstro que, com o passar do tempo, foi transformado na imaginação dos antigos num remoinho mais racional, mas não menos letal. Odisseu, como é sabido, teve de negociar uma passagem pelas suas garras mortíferas na Odisseia (tít. original Ὀδύσσεια - Odýsseia) de Homero.

Cila

Segundo Hesíodo, Cila (ou Skylla) era filha de Hécate, que estava associada à Lua e ao Submundo, e especialmente aos cães ferozes. Homero, contudo, aponta Crataéis como a mãe de Cila; e o pai é o deus marinho Fórcis, mas pode também ser Tifão, Tritão ou Tirreno, todas figuras com ligação ao mar. Uma tradição posterior descreve-a como uma bela humana mortal que mantém relações com Posídon, Minos de Creta e o deus marinho Glauco, até ser transformada num monstro por ciúmes, seja pela feiticeira Circe ou pela consorte de Posídon, a ninfa marinha Anfitrite. Ela é apanhada desprevenida na sua piscina de banhos quando são lançadas ervas mágicas às águas, transformando-a numa criatura hedionda.

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"Cila não nasceu para a morte: ela é uma coisa de terror, intratável, feroz e impossível de combater." — Homero.

Cila, cujo nome significa "aquela que rasga" ou "cachorrinha", apenas conseguia emitir o ganido de um cachorro, mas estava bem dotada noutros aspetos, com seis pernas e seis cabeças que saíam de várias partes do corpo, cada uma com três fileiras ferozes de dentes, de modo que a sua mordidela era, sem dúvida, pior do que o seu latido. Habitante de uma gruta situada bem alto nas falésias do estreito, Cila aguardava que presas desprevenidas — peixes, golfinhos e homens — passassem pelo seu caminho para, então, lançar uma das suas cabeças e arrastar a vítima para o seu covil, para ser esmagada e devorada com calma. Homero descreve esta criatura temível da seguinte forma:

Ninguém a poderia contemplar com agrado, nem mesmo um deus se por ali passasse. Tem doze pés, todos a baloiçar no ar, e seis longos pescoços esquálidos, terminando cada um numa cabeça horrível com uma tripla fileira de presas, densas e cerradas, e carregadas de uma morte ameaçadora. Até à cintura encontra-se submersa nas profundezas da gruta, mas as suas cabeças projetam-se do abismo aterrador e, assim, ela pesca a partir da sua própria morada, tateando avidamente em redor da rocha.

(Odisseia, 12:87-95)

Homero, novamente através da voz de aviso de Circe, descreve também a falésia onde Cila habita:

O seu pico aguçado... é coroado por nuvens negras que nunca se dispersam nem deixam o tempo limpo em redor do cume, nem mesmo no verão ou na época da colheita. Nenhum homem na terra poderia escalar o seu topo ou sequer encontrar onde apoiar os pés, mesmo que tivesse vinte mãos e pés para o ajudar, pois a rocha é tão lisa como se tivesse sido polida. Mas, a meio da encosta, existe uma caverna sombria, virada a poente e que desce até ao Érebo... Nem um arqueiro jovem e forte conseguiria atingir a boca escancarada da gruta com uma flecha disparada de um navio lá em baixo... Nenhuma tripulação pode gabar-se de alguma vez ter feito passar o seu navio por Cila incólume... Cila não nasceu para a morte: ela é uma coisa de terror, intratável, feroz e impossível de combater.

(Idem, 12:75-120)

Scylla, Red-Figure Vase
Cila, Vaso de Figuras Vermelhas Marie-Lan Nguyen (Public Domain)

Licofrão, poeta trágico grego do século III a.C., narra uma tradição segundo a qual Cila foi morta pelo especialista em matar monstros, Hércules; contudo, tirando isso, desconhece-se o destino daquela que figurou em moedas do século V a.C. tanto de Cumas como de Acragas (atual Agrigento, na Sicília) e em numerosos vasos de cerâmica de figuras vermelhas durante os séculos V e IV a.C., notavelmente na cerâmica ática e da Itália meridional. É tipicamente representada como uma espécie de sereia com cabeças de cão a brotar da sua cintura.

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Caríbdis

Monstro de descrição desconhecida, acreditava-se que Caríbdis fosse filha de Posídon e de Gaia (a Terra) e que habitasse em frente a Cila, no mesmo estreito. Foi lançada para lá após ser atingida pelo raio de Zeus, talvez como punição pelo seu carácter lascivo. Racionalizada como um remoinho ou maelstrom, considerava-se que as suas águas sugavam e expeliam tudo três vezes por dia. Tal era a força poderosa desta turbulência que nenhum navio podia sobreviver às atenções de Caríbdis.

Odisseu

Na Odisseia de Homero, as águas revoltas de Caríbdis destruíram, como é célebre, o navio do herói Odisseu no seu regresso a casa após a Guerra de Troia. Tendo acabado de sobreviver às sereias, o navio, ao tentar evitar Caríbdis, aproximou-se demasiado do covil de Cila. Seis membros da tripulação de Odisseu, os seis melhores, foram agarrados pelas seis cabeças de Cila enquanto atravessavam as águas turbulentas do estreito. O navio passou pelas vítimas que ainda gritavam e conseguiu concluir a passagem, mas a fuga foi apenas temporária.

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Scylla, Agrigento Coin
Cila, Moeda de Agrigento The British Museum (Copyright)

Ao desembarcarem na Sicília, os homens de Odisseu ignoraram as instruções estritas e cozinharam alguns dos bois sagrados que pertenciam a Hiperião. Como punição, Zeus enviou uma tempestade e um dos seus raios, partiu o mastro e matou o timoneiro ao tombar. O navio foi destruído, a tripulação afogou-se e apenas Odisseu sobreviveu, atando pedaços de destroços. Os deuses, contudo, ainda não tinham terminado, pois uma nova tempestade surgiu e arrastou o herói diretamente de volta para Caríbdis. Odisseu foi violentamente batido pelas águas durante um bom período, até conseguir escapar agarrando-se ao ramo pendente de uma figueira brava. Cronometrou então a sua saída, aguardando que as águas o expelissem para longe, em segurança, juntamente com os restos do seu navio. Após nove dias à deriva, a sorte do herói mudou e ele desembarcou na ilha de Ogígia, onde a encantadora Calipso o auxiliou no seu descanso e recuperação durante os sete anos seguintes.

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Cartwright, M. (2026, julho 08). Cila e Caríbdis: Os Monstros que Guardavam a Sicília. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15734/cila-e-caribdis/

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Cartwright, Mark. "Cila e Caríbdis: Os Monstros que Guardavam a Sicília." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, julho 08, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15734/cila-e-caribdis/.

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Cartwright, Mark. "Cila e Caríbdis: Os Monstros que Guardavam a Sicília." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 08 jul 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15734/cila-e-caribdis/.

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