Tique

Liana Miate
por , traduzido por Filipa Oliveira
publicado em
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Tyche of Antioch (by Carole Raddato, CC BY-NC-SA)
Tique de Antioquia Carole Raddato (CC BY-NC-SA)

Na mitologia grega, Tique é a deusa e a personificação da boa sorte, do acaso e da fortuna. A popularidade de Tique cresceu após o período Clássico, quando muitas cidades e magistrados por todo o mundo grego e pelo Mediterrâneo a adotaram como a sua divindade padroeira, realizando-se sacrifícios nos seus santuários. A sua popularidade perdurou por centenas de anos.

Tique foi representada em muitas formas de arte e era instantaneamente reconhecível pela sua coroa mural e pelo leme e cornucópia que segurava. Vários escritores descrevem-na como «todo-poderosa» e «sábia». A sua homóloga romana é a deusa Fortuna.

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O Nascimento e a Família

De acordo com Hesíodo (cerca de 700 a.C.) na obra Teogonia, Tique era uma das muitas filhas dos Titãs Oceano e Tétis, e irmã de muitos, incluindo as Oceânides Electra, Urânia, Métis, Estige (deusa do submundo) e Calipso. Como filha de Oceano, dizia-se que Tique tinha uma ligação com a água, o que é evidente no leme que segura nas suas representações artísticas. Outras fontes afirmavam que ela era filha de Zeus, embora seja mencionada como sua prima na Teogonia.

A Deusa da Fortuna, da Sorte e do Acaso

A ascensão da popularidade de Tique demonstrou que os gregos antigos acreditavam que o acaso e a sorte governavam as suas vidas.

Embora Tique tenha sido reconhecida precocemente, tornou-se uma deusa plenamente desenvolvida durante o período Helenístico (323-30 a.C.). A ascensão da popularidade de Tique demonstrou que os gregos antigos acreditavam que o acaso e a sorte governavam as suas vidas. A sua popularidade foi visível na prática generalizada de lhe dedicar cidades durante os períodos Helenístico e Romano (sendo a única exceção Atenas, que já tinha a sua divindade padroeira em Atena). Tique era a explicação por defeito para qualquer acontecimento não relacionado com as divindades olímpicas.

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Os gregos acreditavam que cada lugar, cidade e estado tinha a sua própria Tique, estreitamente ligada ao bem-estar de uma cidade específica. Ela era a força constante que regulava as suas vidas, e as pessoas invocavam-na para obter ajuda ou depreciavam-na, dependendo das suas circunstâncias pessoais. Dizia-se inclusivamente que os deuses aceitavam os seus comandos. Era geralmente retratada como uma deusa benevolente que causava sentimentos de bem-estar e felicidade nas pessoas que a adoravam.

Tique ganhou ainda mais importância política após a morte de Alexandre, o Grande (356-323 a.C.) e a agitação que se lhe seguiu, com o estabelecimento de novas cidades helenísticas por todo o Egito e Ásia Menor (atual Turquia).

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Head of the Goddess Tyche
Cabeça da Deusa Tique Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

Tique nas Fontes Escritas

Alguns escritores referiam-se a Tique como uma deusa, mas a maioria retratava-a como uma Tique impessoal — uma qualidade em vez de uma identidade real. Tique era frequentemente utilizada para descrever eventos históricos, personificando acontecimentos como ataques de piratas, naufrágios, escravatura e ocorrências fortuitas. Uma das primeiras menções a Tique pode ser encontrada nas Odes Olímpicas de Píndaro (cerca de 518 a cerca de 438 a.C.), onde lhe é implorado que ajude Ergóteles de Hímera enquanto este competia na corrida longa:

Suplico-te, filha de Zeus Libertador,

vigia Hímera e estende a sua força, ó Fortuna salvadora! Pois és tu por quem os velozes navios no mar

são guiados, e em terra tanto as reviravoltas súbitas da guerra

como as políticas no conselho. Assim, as esperanças e os medos dos homens,

balançando ora para cima, ora para baixo, fendendo ilusões vãs,

cavalgam e rolam.

(Píndaro, Odes Olímpicas, 12.1-6a)

Na obra homérica Hino a Deméter Tique é retratada como uma nereida (ninfa do mar). O hino menciona como Tique e as suas irmãs brincavam com Perséfone num prado antes do seu rapto violento por Hades. O historiador antigo Políbio (cerca de 208-125 a.C.) reflete sobre a influência de Tique, que tinha o poder de infligir má fortuna e ira sobre líderes questionáveis, tal como a providência divina o podia fazer.

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Na Descrição da Grécia de Pausânias (115-180 d.C.), este demonstra um grande interesse por Tique, visitando muitos dos seus santuários por toda a Grécia. Lamentou a decadência de Megalópolis e admitiu que todas as coisas estavam a ser alteradas por Tique de acordo com os seus caprichos. Afirmou que Alexandria e outras cidades, por outro lado, tinham alcançado uma grande prosperidade, apesar de serem cidades novas, porque Tique as favorecia.

Tyche Furniture Ornaments
Ornamentos de Mobiliário de Tiqu Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

No teatro grego antigo, Tique era frequentemente a causa de desfechos inesperados — um desastre súbito ou um alívio bem-vindo no último minuto. Era abordada de forma polida e indireta para a encorajar a trazer boa sorte. Menandro (342-291 a.C.), o dramaturgo grego, utilizou Tique como narradora do prólogo na sua peça O Escudo, onde ela anuncia que haverá um final surpresa. Ele referia-se a ela como uma deusa cega. No entanto, tal parece ser mais indicativo da sua natureza imprevisível e indiscriminada do que de qualquer deficiência física.

Na peça Ciclope, de Eurípides (c. 484-407 a.C.), o autor utilizou Tique como uma personificação depois de Odisseu ter invocado Hefesto e o Sono (Hypnos) para o ajudarem a prender o ciclope com sucesso. Afirmou que, se os deuses não respondessem ao seu pedido de ajuda, ele passaria a considerar Tique como uma divindade e como alguém que era mais poderosa do que os deuses.

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Tique e a Filosofia Grega

O filósofo grego Platão (428/427-348/347 a.C.) acreditava que Tique era a causa espontânea de todas as ações divinas. Da mesma forma, o aluno de Platão, Aristóteles (384-322 a.C.), via-a como o próprio epítome da espontaneidade. Os estoicos definiam Tique como alguém ou algo que era um mistério para os seres humanos e que só poderia ser adequadamente compreendido por uma inteligência superior. Os epicuristas davam sentido ao universo vendo-o de uma forma física e científica. Acreditavam que o acaso não existia e que cada evento ou ocorrência aleatória poderia ser explicada pelo movimento da matéria.

Tique na Arte

Cada cidade retratava-a de forma diferente, uma vez que ela era a personificação de cada comunidade.

Tique é representada em muitas formas de arte, incluindo moedas, esculturas, amuletos, mosaicos, lápides e cálices. Cada cidade retratava-a de forma diferente, uma vez que ela era a personificação de cada comunidade. Era frequentemente representada com símbolos únicos que representavam cada lugar, incluindo características geográficas ou culturais, como um rio ou navios de guerra em cidades fenícias. Os governantes e os magistrados das cidades utilizavam os símbolos de Tique para transmitir mensagens patrióticas ou ideológicas.

Contudo, a sua aparência básica seguia um tema semelhante: era sempre mostrada com uma coroa mural na cabeça e, frequentemente, carregando um leme numa mão e/ou uma cornucópia na outra. A coroa mural (coroa de muralhas da cidade) simbolizava a sua ligação às diferentes cidades cujo destino ela supervisionava. A cornucópia representava a prosperidade que ela trazia. O leme era um símbolo da sua orientação e da sua ascendência. Ela veste também uma túnica longa ou vestido com uma palla por cima, presa com uma fíbula, e por vezes põe um torque de ouro ao pescoço.

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No século IV a.C., Praxíteles de Atenas (395-330 a.C.) criou duas esculturas de Tique, enquanto no início do século III a.C., o escultor Eutíquides criou a famosa escultura grega Tique de Antioquia — uma réplica da qual pode ser encontrada atualmente nos Museus do Vaticano. A estátua retrata Tique sentada numa rocha com a personificação do rio Orontes aos seus pés. Ela segura um feixe de trigo na mão, que simboliza a prosperidade. Pausânias fala de uma outra escultura que viu no santuário de Tique, onde esta segura um jovem Pluto, o deus grego da riqueza e da abundância agrícola.

Tyche On a Golden Double Shekel
Tique num Duplo Siclo de Ouro RomanDeckert (CC BY-SA)

Tique e Bizâncio

Tique desempenha um papel essencial no mito de fundação de Bizâncio. Bizas, o lendário fundador de Bizâncio, consagrou Reia como a Tique da cidade, combinando-as numa única deusa conhecida como Tyche Poliade e «rainha da cidade». Reia e Tique são as divindades mais importantes da cidade de Bizâncio. O imperador romano Constantino I (reinou 306-337 d.C.) manteve o culto das duas deusas mesmo após a fundação de Constantinopla, como comprovado por cerimónias de consagração e estatuária. Ele instalou duas estátuas de Tyche Constantinopolis e de Reia em nichos no tetrastoon (um pórtico que rodeia um pátio). Os cultos de Tique e Reia foram lentamente integrados com os de outras deusas. O culto de Tique fundiu-se com os de Atena, Deméter e Hécate.

O Culto como Tique da Polis

Tique era amplamente adorada em muitas cidades por todo o antigo Mediterrâneo. O culto de Tique estabeleceu-se na Grécia Antiga no século V ou VI a.C. e surgiu no resto do Mediterrâneo durante o século IV a.C. Na Descrição da Grécia, Pausânias mencionou ter visto templos dedicados a Tique nas cidades gregas de Élis, Mégara, Sícion e Tegeia. Além disso, o seu santuário em Alexandria seria supostamente tão belo que nenhum outro templo no mundo helenístico o poderia superar. Tique também tinha templos em Cesareia (atual Israel), Antioquia (atual Turquia), Constantinopla (atual Turquia) e Palmira (atual Síria).

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Em Selge (atual Turquia), o sumo sacerdote do culto de Tique ocupava o cargo de forma vitalícia. Em Mitilene (Lesbos, Grécia), Tique era conhecida como a «Grande Tique de Mitilene». Em Trapezópolis (uma cidade na Cária), era conhecida como a «grande deusa em defesa da cidade».

Tyche & Plutus
Tique e Pluto Giovanni Dall'Orto (CC BY-NC-SA)

Evidências arqueológicas demonstram que Tique/Fortuna foi uma das divindades mais importantes em Israel, na Síria e na Jordânia durante o período romano. A popularidade de Tique perdurou por muitos anos. Os vestígios mostram que o imperador Alexandre Severo (reinou 222-235 d.C.) foi a primeira pessoa a utilizar a figura de Tique em moedas produzidas em Cesareia durante o seu reinado. O imperador Juliano (reinou 361-363) realizou um sacrifício a Tique em Antioquia em 361 ou 362.

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Perguntas & Respostas

Pelo que era Tique conhecida?

Tique era conhecida por ser a deusa grega da sorte, da fortuna e do acaso. Era a divindade padroeira de muitas cidades e vilas antigas em todo o mundo mediterrânico.

Quais são os poderes de Tyche?

Tique controla a sorte e o destino.

Em que mito aparece Tique?

Tique não é protagonista de nenhum mito específico, mas é mencionada na literatura antiga e em várias peças de teatro.

Como se pronuncia «Tique» em grego?

No grego antigo, Tique pronuncia-se como tý.kʰɛ, enquanto no grego moderno se pronuncia como ti.çi.

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Miate, L. (2026, maio 22). Tique. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15274/tique/

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Miate, Liana. "Tique." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, maio 22, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15274/tique/.

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Miate, Liana. "Tique." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 22 mai 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15274/tique/.

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