Odin

Emma Groeneveld
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Odin fighting Fenrir (by Emil Doepler, Public Domain)
Odin a Lutar Contra Fenrir Emil Doepler (Public Domain)

Odin (em nórdico antigo: Óðinn) é o deus principal da mitologia nórdica. Descrito como um ancião de um só olho e imensamente sábio, Odin possui, de longe, as características mais variadas de todos os deuses e não é apenas a divindade a quem se recorre quando se prepara uma guerra, mas também o deus da poesia, dos mortos, das runas e da magia.

Também está presente na mitologia germânica como Woden (em inglês antigo), Wodan (em franco antigo) e Wutan ou Wuotan (em alto alemão antigo). O nome moderno do dia da semana em inglês, «Wednesday», tem a sua origem no «dia de Woden», wōdnesdæg em inglês antigo, e ainda é visível no nome holandês woensdag.

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É membro da família dos deuses Æsir e ajudou a criar o mundo, reside em Asgard (a fortaleza e lar dos deuses) e reúne à sua volta os guerreiros mortos em Valhalla (salão dos mortos), mas acaba por ser esmagado até à morte pelo lobo Fenrir no Ragnarök, o «destino final dos deuses» em que o mundo é destruído.

As Funções

Odin é uma figura antiga e original da mitologia nórdica, embora, como salienta Jens Peter Schjødt, muitos estudiosos considerem que a sua posição elevada no topo da hierarquia divina possa ter sido uma adição posterior (pág. 219). O papel de Odin como «Pai de Todos» ou pai dos deuses é mais um tema literário proveniente de fontes posteriores — aparentemente influenciado pelos nomes cristãos para Deus — do que um reflexo real do seu estatuto nas sociedades da Era Viking. A poesia escáldica (poesia da Era Viking, pré-cristã, ouvida principalmente nas cortes pelos reis e as suas comitivas), por exemplo, menciona Baldr, Thor e Vali como filhos de Odin, enquanto mais tarde, no século XIII, o autor islandês Snorri Sturluson acrescenta também Heimdall, Týr, Bragi, Vidarr e Hodr à lista. Aliás, apesar de estar casado com Frigg, muitos destes filhos são de mães diferentes e Odin surge em muitas histórias como um mulherengo, chegando mesmo a gabar-se dos seus casos amorosos, o que faz lembrar (e talvez tenha sido inspirado por?) Zeus da mitologia grega.

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O principal grupo de adoradores de Odin era composto principalmente pela elite — reis, chefes tribais e poetas —, mas incluía também guerreiros.

Mais tangível é a função de Odin como deus da guerra. Apesar da sua aparência assustadora, ele nunca foi realmente retratado como um guerreiro (essa era, antes, a função de Thor), mas era invocado quando se preparava uma guerra para dar conselhos e oferecer dons especiais. Nas fontes germânicas do sul e do oeste, era Odin quem decidia se as batalhas ou os guerreiros individuais sairiam vitoriosos ou terminariam de formas um pouco menos afortunadas. Odin tem as suas Valquírias — mulheres guerreiras sobrenaturais — que levam os corpos dos combatentes mortos em batalha para o seu paraíso especial dos guerreiros, o Valhalla; estes combatentes são conhecidos como os Einherjar e tornam-se a força de ataque de Odin contra os poderes invasores do Submundo durante o Ragnarök. Devido a este aspeto, os guerreiros individuais também são atraídos para o principal grupo de adoradores de Odin, que, de resto, consistia principalmente na elite: reis, chefes tribais e poetas.

Tal como a sua busca de recrutas nos campos de batalha pode sugerir, a ligação de Odin à guerra flui naturalmente para uma ligação com os mortos, o que é ainda mais evidente pelo facto de Odin ser o líder da chamada Caçada Selvagem — um culto germânico antigo e generalizado, centrado no mito de um exército de mortos que cavalga sobre as tempestades. É também o deus da poesia, graças ao seu conhecimento das runas, bem como da magia (seiðr), sendo mesmo considerado o mais habilidoso e versado de todos os deuses no que diz respeito a esta arte. Odin recorria principalmente à magia para vislumbrar o futuro. Como explica Neil Price:

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Ele [Odin] é descrito como entrando em transe, abandonando o seu corpo e viajando para o exterior na forma espiritual de um animal, e, em várias ocasiões, tendo visões de sabedoria provocadas por vários tipos de provações.

(pág. 246)

Este tipo de adivinhação encaixa muito bem no papel de Odin como conselheiro e teria sido de grande interesse para os governantes da Era Viking. Além disso, a natureza da magia de Odin faz com que ele seja frequentemente visto como um xamã, um aspeto que é ainda mais reforçado pela sua função como deus da cura.

Odin
Odin Emil Doepler (CC BY-NC-SA)

Os Atributos

Odin pode ser reconhecido pelo seu chapéu e capa, pela barba comprida e por ter apenas um olho (o que lembra um pouco Gandalf, de O Senhor dos Anéis, de Tolkien, com exceção deste último aspeto). A sua lança, Gungnir, é um dos seus principais atributos e parece ter estado presente nas crenças da Era Viking, como sugerem as pontas de lança em miniatura encontradas em toda a Suécia do sul e central.

Outros atributos incluem o anel Draupnir, que goteja para formar oito novos anéis a cada nove noites, e o cavalo Sleipnir, mencionado desde cedo na literatura nórdica antiga e que se distingue pelas suas oito patas, que de alguma forma lhe conferem grande eficiência. Da mesma forma, os dois corvos de Odin, Huginn («pensamento») e Muninn («sabedoria»), são elementos míticos muito antigos já bem estabelecidos — como comprovado pela sua presença em ornamentos e pedras rúnicas — antes de cerca do ano de 800. Eles voam pelo mundo a recolher notícias e, quando regressam, pousam no ombro de Odin e sussurram as suas novidades ao seu ouvido. A Edda em Prosa (Prose Edda; em nórdico antigo Edda de Snorri / Edda Jovem) faz Odin dizer:

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Huginn e Muninn sobrevoam todos os dias

sobre a vasta terra;

Temo por Huginn, para que ele não deixe de regressar, —

mas fico ainda mais atento a Muninn.

(Gylfaginning, pág. 38)

Por isso, Odin é também conhecido como «o deus dos corvos». Se alguma vez viram um campo de batalha (na versão cinematográfica) depois de a ação ter acalmado, torna-se claro como os corvos de Odin se relacionam com o seu papel de deus da guerra e com a sua ligação aos mortos; um campo de batalha não é apenas um banquete para os corvos, mas também um banquete para os corvos.

Outros atributos são as Valquírias — que provavelmente são representadas por pequenas estatuetas femininas, por vezes segurando um copo feito de chifre, o que indica a veneração a Odin — e os seus lobos, Geri e Freki. Pode igualmente estar associado à águia e à cobra, e a sua potencial função como xamã faz com que o cajado seja igualmente destacado.

Os Mitos que Envolvem Odin

Tendo em conta o quão precário é realmente o nosso conhecimento da mitologia nórdica tal como era na Era Viking, o nosso material de referência limitado apresenta apenas três deuses que protagonizam mais do que um mito conhecido; Odin é um deles, a par de Thor e Loki. Muito provavelmente, dispomos apenas do esqueleto das histórias que os vikings do período pré-cristão teriam contado e acreditado sobre estes deuses. Alguns desses fragmentos são os seguintes:

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O imenso conhecimento de Odin deve-se à cabeça de Mímir, que Odin impede de se decompor para que esta lhe possa transmitir pistas secretas do «Outro Mundo».

Antes da criação do mundo, Búri, o antepassado dos deuses, surgiu do gelo, e o seu filho Borr e a filha do gigante Bestla geraram Odin e os seus irmãos (geralmente chamados Vili e Vé). Os irmãos mataram então o proto-gigante Ymir e utilizaram a sua carne para criar a terra, o seu crânio para formar o céu, os seus ossos para as montanhas e o seu sangue para formar o mar. Com um local de residência já estabelecido, moldaram então o primeiro casal humano, Ask e Embla, a partir de duas árvores ou pedaços de madeira.

O imenso conhecimento de Odin deve-se à cabeça de Mímir (ou então ao facto de ter bebido do poço de Mímir). Mímir era um sábio conselheiro, sobre quem Snorri Sturluson relata que os Vanir (a família dos deuses da fertilidade) lhe cortaram a cabeça e a enviaram a Odin, que recorre à magia e a ervas curativas para impedir que a cabeça se decomponha, de modo a que esta possa transmitir pistas secretas do «Outro Mundo». Segundo Snorri, o preço que Odin tem de pagar por isso é um dos seus olhos. O seu conhecimento ampliado surge nalguns outros mitos (conhecidos pela Edda Poética; Poetic Edda; em nórdico antigo Ljóð Edda / Sæmundar Edda); no Vafþrúðnismál, Odin inicia uma batalha de inteligência com o gigante Vafþrúðnir e derrota-o, enquanto no Grímnismál um Odin disfarçado é torturado e acaba por revelar o seu vasto conhecimento mítico ao rei Geirroðr.

Além disso, Snorri explica que as extraordinárias habilidades poéticas de Odin se devem ao facto de ele ter roubado o hidromel dos skalds (ou seja, dos poetas) ao dormir com a gigante Gunnlǫð, guardiã do hidromel, durante três noites. Por se ter aproximado dela dessa forma, são-lhe concedidos três goles, mas ele simplesmente bebe de um só trago e esvazia os recipientes, transforma-se numa águia e foge (bem, voa) dali. Também relacionado com a poesia, Odin adquire conhecimento das runas, o que o poema Hávamál (Discurso do Altíssimo) atribui a um sacrifício pessoal:

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Sei que fiquei pendurado numa árvore varrida pelo vento

durante nove longas noites,

ferido por uma lança, dedicado a Odin,

eu a mim mesmo,

naquela árvore cujas raízes ninguém sabe de onde vêm.

(pág. 138)

A sua busca incansável pelo conhecimento fica aqui bem patente nos esforços a que o benevolente rei de Asgard se submete (de forma muito deliberada — ele sacrifica-se a si próprio) para desvendar as runas; nove noites a balançar num ramo de Yggdrasil, a Árvore do Mundo, com um ferimento de lança que o deixou à beira da morte, e só então é que as runas lhe são reveladas.

Odin on Sleipnir (Tjängvide image stone)
Odin em Sleipnir (Pedra com Imagem de Tjängvide) Berig (GNU FDL)

No Ragnarök, a sabedoria e o poder de Odin são postos à prova. Catástrofes naturais, incluindo um inverno terrível, bem como Fenrir a devorar o sol, anunciam a chegada das forças do Submundo; Heimdall soa o alarme, a cabeça de Mímir é consultada e os deuses reúnem-se sob Yggdrasil para decidir o que fazer. Por mais bem preparado que estivesse, porém, assim que a batalha irrompe, Odin enfrenta corajosamente Fenrir, mas encontra o seu fim nas mandíbulas da criatura, morrendo ao lado de muitos dos seus companheiros deuses, que perecem às mãos de vários inimigos, mas também matam muitos no processo.

O Culto de Odin

A crença em Odin era tão difundida pelas regiões germânicas no período pré-cristão e as semelhanças entre ele e o deus indiano Varuna tão inconfundíveis que é provável que as suas origens remontem aos tempos mais remotos da tradição indo-germânica. Já na Idade do Bronze, as gravuras rupestres suecas retratam figuras de um deus a segurar uma lança, que, com alguma imaginação, pode ser associado a Odin, e, pelo menos no ano de 500, ele aparece claramente numa série de ornamentos ao lado de aves e guerreiros. As pedras ilustradas da Era Viking dão continuidade a esta tendência e retratam-no, entre outras coisas, a cavalgar rumo ao Valhalla.

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No entanto, tendo em conta o seu estatuto posterior como figura máxima da mitologia nórdica, as provas tangíveis reais de um culto a Odin são bastante escassas. Os locais com nomes inspirados em Odin — um indicador razoável das práticas de culto e da popularidade — estão totalmente ausentes na Islândia entre a sua colonização e a chegada do cristianismo, e são muito raros no sul da Noruega, embora surjam aqui e ali no sul da Suécia e na Dinamarca. Thor, em contraste, rouba toda a cena e é muito mais visível num contexto de culto do que o seu pai. Felizmente, Rudolf Simek tem uma forma de acalmar a nossa confusão:

De facto, parece provável que as fontes literárias lhe tenham atribuído uma posição tão elevada do seu próprio ponto de vista, uma vez que não há dúvida de que Odin era o deus da poesia (e dos poetas), e as nossas fontes, que provêm direta ou indiretamente — através da sistematização de Snorri — dos escaldos da época pagã, revelam, sem surpresa, uma inclinação particular a favor do deus da sua própria arte.

(pág. 243)

Assim, em vez de existir um culto abrangente a Odin como o rei benevolente de Asgard na mitologia nórdica e germânica, faz mais sentido que ele fosse venerado em contextos específicos e por indivíduos específicos — principalmente poetas, guerreiros, chefes tribais e reis. Os sacrifícios humanos macabros, por exemplo, tendem a ser exclusivamente dedicados a Odin. Fora isso, nas crenças da Era Viking, ele era apenas mais um do grupo. Isto também é visualmente ilustrado no grande templo pagão da Velha Uppsala, na Suécia; em 1070, Adão de Bremen escreveu sobre a sua visita a este local, referindo que uma estátua de Thor se erguia de forma proeminente no centro do salão, com Odin e Freyr ao lado, e que eram feitos sacrifícios a Thor em caso de fome, a Odin em tempos de guerra e a Freyr para atividades relacionadas com casamentos.

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Bibliografia

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  • The Prose Edda, accessed 10 Nov 2017.

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Groeneveld, E. (2026, setembro 01). Odin. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-14652/odin/

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Groeneveld, Emma. "Odin." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, setembro 01, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-14652/odin/.

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Groeneveld, Emma. "Odin." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 01 set 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-14652/odin/.

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