A Imperatriz Wu Zetian (Imperatriz Consorte Wu, Wu Hou, Wu Mei Niang, Mei-Niang e Wu Zhao, 624-705, imperou entre 690-704) foi a única imperatriz da China Imperial. reinou durante a dinastia Tang (618-907) e foi uma das monarcas mais eficazes e controversas da história da China.
Começou a sua vida na corte como concubina do imperador Taizong. Após a morte deste, casou-se com o seu filho, Gaozong (reinou 649-683), e tornou-se imperatriz consorte, mas, na realidade, era ela quem detinha o poder por trás do imperador. Quando Gaozong morreu em 683, Wu assumiu o controlo do governo como imperatriz viúva, colocando dois dos seus filhos no trono e destituindo-os quase imediatamente. Foi ela quem detinha o poder por trás do trono desde a morte de Gaozong, em 683, até se proclamar abertamente em 690, tendo governado como imperadora da China até um ano antes da sua morte, em 705, aos 81 anos de idade.
Os Primeiros Anos de Vida
Wu Zetian nasceu no condado de Wenshi, na província de Shanxi, no ano 624, numa família abastada. Era filha de Wu Shihuo, um chanceler da dinastia Tang. Ao contrário da maioria das jovens na China daquela época, Wu foi encorajada pelo pai a ler e escrever e a desenvolver as competências intelectuais que eram tradicionalmente reservadas aos homens. Wu também aprendeu a tocar música, a escrever poesia e a falar bem em público.
Era muito bonita e foi escolhida pelo imperador Taizong (reinou 626-649) como uma das suas concubinas quando tinha 14 anos. Foi Taizong quem a chamou de «Mei-Niang», que significa «rapariga bonita» (um dos nomes comumente, e erroneamente, atribuídos a ela como seu nome de nascimento). Embora a função da concubina na China esteja quase sempre associada ao sexo, uma mulher nessa posição podia ter uma série de responsabilidades não sexuais, desde tarefas diárias como cuidar da roupa suja até competências mais especializadas, como conversar, ler poesia e tocar música.
Wu começou a sua vida na corte a cuidar da roupa real, mas um dia ousou falar com o imperador quando estavam a sós e conversaram sobre a história da China. Taizong ficou surpreendido por a sua mais recente concubina saber ler e escrever e ficou fascinado pela sua beleza e perspicácia na conversa. Taizong ficou tão impressionado com as suas capacidades intelectuais que a retirou da lavandaria e nomeou-a sua secretária. Na sua nova função, ela estava constantemente envolvida nos assuntos de Estado ao mais alto nível e deve ter desempenhado bem as suas funções, pois tornou-se uma das favoritas de Taizong.
Ela atraiu a atenção de muitos dos jovens da corte e um deles era o príncipe Li Zhi, filho de Taizong, que viria a tornar-se o próximo imperador, Gaozong. Wu iniciou um caso com Li Zhi, que na altura era casado, enquanto ainda estava ligada a Taizong como concubina. Li Zhi estava profundamente apaixonado por Wu, mas não podia fazer nada a esse respeito, porque ela pertencia ao seu pai e, além disso, ele já era casado.
Quando Taizong morreu, Wu e as suas outras concubinas tiveram a cabeça rapada e foram enviadas para o Templo de Ganye para começarem as suas vidas como freiras. Esta era uma prática comum após a morte do imperador. As concubinas do imperador não podiam ser passadas para serem utilizadas por outros, mas eram obrigadas a terminar o seu tempo na corte e a iniciar uma nova vida de castidade numa ordem religiosa. No entanto, quando Li Zhi se tornou imperador e assumiu o nome de Gaozong, uma das primeiras coisas que fez foi mandar chamar Wu e trazê-la de volta à corte como a primeira das suas concubinas, apesar de ter outras e também uma esposa.
A Ascensão ao Poder
A Wu foi concedida a posição privilegiada de primeira concubina, apesar de, por lei, ela dever ter permanecido no templo como freira. A esposa de Gaozong, a senhora Wang, e a sua antiga primeira concubina, Xiao Shufei, tinham ciúmes uma da outra, mas invejavam ainda mais a atenção que Gaozong dedicava a Wu. Segundo o próprio relato de Wu, elas conspiraram contra ela, mas, segundo outros historiadores, foi Wu quem iniciou e pôs fim aos problemas que teve com elas.
A Senhora Wang não tinha filhos e a Senhora Xiao tinha um filho e duas filhas. Em 652, Wu deu à luz um filho, Li Hong, e em 653 teve outro filho, Li Xian. Nenhum destes rapazes representava uma ameaça para a Senhora Wang ou para a Senhora Xiao, porque Gaozong já tinha escolhido um sucessor; o seu chanceler, Liu Shi, era tio da Senhora Wang, e Gaozong nomeou o filho de Liu Shi, Li Zhong, como herdeiro. Ainda assim, isso não significava que as mulheres não sentissem inveja do favor que o imperador demonstrava por Wu, agora que ela tinha dado à luz dois filhos seguidos.
Em 654, Wu teve uma filha que morreu pouco depois do nascimento. A bebé foi estrangulada no berço e Wu alegou que a Senhora Wang a tinha matado por inveja. Wang foi a última pessoa vista no quarto e não tinha álibi. Wu também acusou a Senhora Wang e a sua mãe de praticarem bruxaria e implicou a Senhora Xiao; a Senhora Wang foi considerada culpada de todas as acusações, tal como as outras. Gaozong divorciou-se da sua esposa, baniu a mãe dela do palácio e exilou a Senhora Xiao. O tio da Senhora Wang, o chanceler Liu Shi, foi destituído do seu cargo, o que significava que o seu filho deixava de ser considerado herdeiro de Gaozong. Wu foi então elevada à posição de primeira esposa de Gaozong e imperatriz da China. Foi-lhe também garantido que os seus filhos governariam o país após a morte do seu marido.
A Morte da Filha de Wu
A senhora Wu desempenhava bem, em público, o papel da esposa tímida e respeitável do imperador, mas, nos bastidores, era ela quem detinha o poder real. Eliminou cuidadosamente quaisquer inimigos potenciais da corte e mandou matar a senhora Wang e a senhora Xiao depois de estas terem sido exiladas. Embora o relato de Wu afirme que a senhora Wang assassinou a sua filha, todos os historiadores chineses posteriores concordam que foi Wu a assassina e que matou a sua filha para incriminar a senhora Wang.
A história do assassinato da filha por Wu e da incriminação da Senhora Wang para ganhar poder é o episódio mais infame e mais frequentemente repetido da sua vida, mas, na verdade, não há forma de saber se aconteceu tal como os historiadores o registaram. Na altura do assassinato, era a palavra da Senhora Wu contra a da Senhora Wang, e os historiadores posteriores decidiram tomar o partido da Senhora Wang contra Wu; mas isso não significa que tenham escolhido o lado certo.
Qualquer historiador que tenha escrito sobre a Senhora Wu seguiu, sem questionar, a versão estabelecida pelos historiadores chineses posteriores, mas estes historiadores tinham os seus próprios interesses, que não incluíam elogiar uma mulher que se atrevia a governar como um homem. Os historiadores retratam sempre Wu como implacável, manipuladora, intrigante e sanguinária, e ela pode ter sido todas estas coisas; pode até ter assassinado a sua filha para conquistar o trono, mas qualquer uma destas alegações só deve ser aceite após se ter considerado a sua fonte.
Uma mulher na posição mais poderosa do governo representava uma ameaça ao patriarcado tradicional, e os conselheiros da corte, ministros e historiadores alegaram que Wu tinha perturbado o equilíbrio da natureza ao assumir um poder que pertencia a um homem.
Pouco depois de ela ter assumido o trono, ocorreu um terramoto que foi interpretado como um mau presságio. O estudioso N. Henry Rothschild escreve: «A mensagem era clara: uma mulher numa posição de poder supremo era uma abominação, uma aberração da ordem natural e humana» (pág. 108).
Os presságios eram extremamente importantes para o povo da China antiga e desempenhavam um papel significativo na política da dinastia Tang. Em 683, quando Wu começou a manipular os acontecimentos como um homem faria, um erudito confucionista escreveu que a natureza tinha sido invertida pela «mulher usurpadora» e que «por todo o império, em todas as prefeituras, as galinhas transformaram-se em galos, ou ficaram parcialmente transformadas» (Rothschild, pág. 108).
Quando uma montanha pareceu surgir na sequência do terramoto, isto também foi interpretado como a própria natureza a revoltar-se contra o reinado de Wu. Wu Zhao via a situação de forma diferente: alegou que a montanha era um bom presságio que refletia a montanha budista do paraíso, Sumeru. Deu à montanha o nome de Monte da Felicidade e afirmou que esta se tinha erguido para a honrar a ela e ao seu reinado. Embora muitos na corte a tenham felicitado por ser favorecida pelos deuses, muitos outros não o fizeram. Rothschild descreve um confronto que reflete os sentimentos da maioria dos membros da corte. Depois de o Monte Felicidade ter surgido e de Wu o ter reivindicado como um presságio a seu favor, um dos seus ministros escreveu:
Vossa Majestade, uma governante feminina ocupou indevidamente uma posição masculina, o que inverteu e alterou o duro e o suave; por isso, as emanações da terra estão obstruídas e separadas. Esta montanha, nascida da convulsão repentina da terra, representa uma calamidade. Vossa Majestade pode considerar isto como o «Monte Felicidade», mas este seu súbdito considera que não há nada a celebrar. Para responder adequadamente à censura do Céu, convém que Vossa Majestade leve a vida tranquila de uma viúva e cultive a virtude; caso contrário, receio que mais desastres se abatam sobre nós.
(pág. 108)
Wu Zhao ouviu o seu ministro e ponderou o seu argumento e, em seguida, escreve Rothschild, «Wu Zhao, sem qualquer intenção de “levar a vida tranquila de uma viúva”, rejeitou esta interpretação e exilou imediatamente o homem para o Sul, uma região pantanosa e assolada por doenças» (pág. 109). Este ministro em particular foi silenciado, mas isso não silenciou os restantes; estes passaram apenas a ter mais cuidado para não expressarem a sua opinião na sua presença. O seu antagonismo em relação a uma governante feminina acabaria por encontrar o seu caminho para as histórias que registavam o seu reinado e tornar-se-ia nos «factos» que as gerações futuras aceitariam como verdade.
Estes historiadores afirmam que Wu ordenou que a senhora Wang e a senhora Xiao fossem assassinadas de forma terrível: mandou-lhes cortar as mãos e os pés e, em seguida, foram atiradas para um tonel de vinho para se afogarem. Isto é muito semelhante à história da Imperatriz Lu Zhi (241-180 a.C.) da Dinastia Han, que se livrou da sua rival Qizi da mesma forma (embora Qizi tenha sido afogada num chiqueiro e também lhe tenham arrancado os olhos). Lu Zhi era uma vilã imediatamente reconhecível pelo povo da China, e associar Wu a ela através destes assassinatos serviu para destruir a reputação de Wu. Wu poderia ter assassinado a sua filha, mas a sua posição como mulher a ocupar um cargo tradicionalmente masculino trouxe-lhe muitos inimigos que teriam ficado felizes em espalhar um boato como se fosse verdade para a desacreditar.
Wu Assume o Trono
A partir de 660, Wu era, na prática, a imperatriz da China. Ela não detinha esse título, mas era o poder por trás do cargo e ocupava-se dos assuntos imperiais, mesmo quando estava grávida, em 665, da sua filha Taiping. Um exemplo da sua influência ocorreu em 666, quando liderou um grupo de mulheres até ao Monte Tai (um antigo centro cerimonial), onde realizaram rituais que, tradicionalmente, eram executados apenas por homens.
Tendo sido criada pelo pai para acreditar que era igual aos homens, Wu não via razão para que as mulheres não pudessem realizar as mesmas práticas e ocupar os mesmos cargos que os homens. Não pediu permissão a nenhum homem para liderar estas mulheres até ao Monte Tai; sentia que sabia o que era melhor e fê-lo. Organizou também campanhas militares contra a Coreia em 668 d.C., que foram tão eficazes que reduziram a Coreia ao estatuto de Estado vassalo.
O Imperador Gaozong não teve qualquer envolvimento em nenhum destes acontecimentos, embora o seu nome tenha sido associado às campanhas contra a Coreia. Gaozong tinha contraído uma doença que lhe afetava os olhos (possivelmente um AVC) e precisava que lhe lessem os relatórios. Wu ou lia-lhe o que lhe apetecia e depois tomava as suas próprias decisões, ou lia-lhe os relatórios reais e, mesmo assim, agia por conta própria. Em 674, Gaozong assumiu o título de Tian Huang (Imperador do Céu) e Wu mudou o seu próprio título para Tian Hou (Imperatriz do Céu). Governaram como monarcas divinos até à morte de Gaozong, em 683.
Wu colocou o seu primeiro filho no trono, que assumiu o título real de Zhongzong. Ele recusou-se a cooperar adequadamente com a mãe e a sua esposa, a Senhora Wei, assumiu demasiado poder. Wei fez com que o seu pai fosse nomeado Ministro-Chefe do seu marido e tentou impor outras medidas que favorecessem a sua família. Quando Wu já não conseguiu tolerar mais as travessuras e a falta de respeito da sua nora, nem a recusa do seu filho em discipliná-la e obedecer às ordens de Wu, acusou-o de traição e baniu-o juntamente com a sua mulher.
Substituiu Zhongzong pelo seu segundo filho, que se tornou o Imperador Ruizong. Manteve Ruizong sob uma espécie de prisão domiciliária, confinando-o ao Palácio Interno. Ruizong também foi uma desilusão para ela e, por isso, obrigou-o a abdicar em 690 e proclamou-se Imperatriz Zeitan, governante da China, a primeira e única mulher a sentar-se no Trono do Dragão e a reinar em seu próprio nome e por sua própria autoridade. O seu apelido, «Wu», está associado às palavras «arma» e «força militar», e ela escolheu o nome «Zeitan», que significa «Governante dos Céus». Ela queria deixar claro que um novo tipo de governante tinha assumido o trono da China e que uma nova ordem tinha chegado.
Reinado e Reformas de Wu Zetian
A primeira coisa que fez foi mudar o nome do Estado de Tang para Zhou (na verdade, Tianzhou ou Tiansou). Era costume, quando uma dinastia mudava, reiniciar a história. Cada dinastia era considerada um novo começo e, quando Wu mudou o nome de Tang para Zhou, estava a seguir esta tradição, mas foi mais longe para deixar claro que era o início de uma era completamente nova, chamando ao seu reinado Tianzhou («concedido pelo céu»). Para garantir a segurança do seu novo reinado, mandou prender todos os membros da família real da dinastia Tang (incluindo o futuro imperador Xuanzong) e proclamou-se uma encarnação do Buda Maitreya, autodenominando-se Imperatriz Shengsen, o que significa «Espírito Santo».
Encomendou estátuas de Maitreya nas Grutas de Longmen, nos arredores de Luoyang. Wu decretou que os artesãos esculpissem o rosto da maior dessas estátuas à sua imagem e também persuadiu os monges do santuário de Luoyang a forjar o «Livro da Grande Nuvem» para fundamentar a sua reivindicação como Maitreya. As outras estátuas (ainda visíveis nas Grutas de Longmen) foram igualmente criadas para elevar o seu estatuto como governante divina que sabia o que era melhor para o povo e que tinha sido divinamente designada para aplicar quaisquer leis ou políticas que considerasse adequadas.
Já em 660, Wu tinha organizado uma força policial secreta e uma rede de espiões na corte e por todo o país. Estabeleceu uma política para que os informadores pudessem ser pagos para viajar em transportes públicos a fim de prestarem relatório à corte. Este sistema de espionagem serviu-lhe bem, alertando-a atempadamente sobre quaisquer conspirações em preparação e permitindo-lhe lidar com ameaças ao seu reinado antes que estas se tornassem problemas reais.
A Imperatriz Wu utilizou as informações que recolheu para pressionar alguns altos funcionários com mau desempenho a demitirem-se; outros simplesmente baniu ou mandou executar. Reformou a estrutura do governo e livrou-se de quem considerava que não estava a cumprir as suas funções, reduzindo assim as despesas públicas e aumentando a eficiência. Em seu lugar, nomeou intelectuais e burocratas talentosos, sem ter em conta o estatuto familiar ou as ligações.
Para diferenciar ainda mais a sua dinastia Zhou da dinastia Tang, criou novos caracteres para o sistema de escrita chinês, hoje conhecidos como «Caracteres Chineses da Imperatriz Wu» ou «Caracteres Zetian». Estes caracteres destinavam-se a substituir entre 10 e 30 dos caracteres mais antigos e representaram a tentativa de Wu de mudar a forma como o seu povo pensava e escrevia. Embora estes caracteres tenham sido eliminados após o seu reinado, ainda existem como um dialecto chinês na forma escrita. São considerados importantes pelos historiadores porque demonstram até que ponto Wu foi longe na tentativa de criar um novo mundo na China sob o seu reinado: ela chegou mesmo a querer alterar as palavras que o povo utilizava.
Nenhuma área da vida chinesa ficou alheia à influência da Imperatriz Wu e as suas reformas foram tão populares porque as sugestões provinham do povo. Sob os regimes anteriores, uma sugestão ou queixa tinha de passar por vários gabinetes diferentes antes de chegar a alguém que pudesse fazer algo a esse respeito. Wu eliminou toda a burocracia ao estabelecer uma linha direta de comunicação entre ela própria e o povo. A historiadora Kelly Carlton escreve:
Wu mandou construir uma caixa de petições, que originalmente continha quatro compartimentos: um para os homens se recomendarem como funcionários; outro onde os cidadãos podiam criticar abertamente e de forma anónima as decisões da corte; outro para relatar fenómenos sobrenaturais, presságios estranhos e conspirações secretas; e outro para apresentar acusações e queixas.
(pág. 3)
Carlton observa ainda: «Embora ostensivamente motivada pela sua grande preocupação com a condição do seu povo, a caixa servia principalmente para obter informações sobre assuntos sediciosos (Idem).» Embora a observação de Carlton seja correta, a caixa também proporcionou a Wu uma série de ideias para reformas que provinham diretamente do povo — e não de funcionários governamentais que teriam lucrado com elas — e que Wu implementou de forma eficiente.
Ela melhorou o sistema de ensino público ao contratar professores dedicados e ao reorganizar a burocracia e os métodos de ensino. Reformou também o departamento da agricultura e o sistema tributário, recompensando os funcionários que produzissem a maior quantidade de colheitas e cobrassem menos impostos ao povo. Ordenou que fossem redigidos e distribuídos manuais de agricultura. Organizou equipas para fazer levantamentos do terreno e construir canais de irrigação para ajudar no cultivo das colheitas e redistribuiu as terras para que todos tivessem uma parte igual para cultivar. A produção agrícola durante o reinado de Wu atingiu um máximo histórico.
Wu também reformou as forças armadas, tornando obrigatórios exames militares para os comandantes demonstrarem a sua competência, inspirados nos exames imperiais que ela própria aplicava aos funcionários públicos. Os exames militares tinham como objetivo avaliar a inteligência e a capacidade de tomada de decisões, e os candidatos eram entrevistados pessoalmente, em vez de serem nomeados apenas por causa de ligações familiares ou do nome da sua família.
O seu sucesso nas campanhas contra a Coreia inspirou confiança nos seus generais, e as decisões de Wu em matéria de defesa militar ou expedições nunca foram contestadas. A sua rede de espionagem e a polícia secreta impediram rebeliões antes mesmo de estas terem oportunidade de começar, e as campanhas militares que ela lançou ampliaram e garantiram a segurança das fronteiras do país. Conseguiu também reabrir a Rota da Seda, que tinha sido encerrada devido à peste de 682 e a posteriores incursões de nómadas. Wu também recuperou terras que tinham sido invadidas pelos goturcos durante o reinado de Taizong e distribuiu-as de forma a que não ficassem todas nas mãos dos aristocratas.
O Declínio e a Abdicação de Wu
Em 697, o domínio de Wu sobre o poder começou a desvanecer-se quando ela se tornou mais paranóica e passou a dedicar mais tempo aos seus jovens amantes do que a governar a China. Dois irmãos, conhecidos como os Irmãos Zhang, eram os seus favoritos e ela passava a maior parte do tempo a sós com eles. Isto era considerado escandaloso devido à sua idade avançada e à juventude dos irmãos Zhang, mas nem sequer teria sido motivo de comentários se Wu fosse um homem a dormir com mulheres muito mais jovens. A prática de um imperador ter mulheres jovens como concubinas era habitual, mas quando uma imperatriz decidia divertir-se com homens jovens, de repente tornava-se escandaloso.
A sua paranóia resultou numa purga da sua administração. Qualquer pessoa que ela suspeitasse de deslealdade, por qualquer motivo, era banida ou executada. A eficiência da sua corte diminuiu à medida que passava cada vez mais tempo com os irmãos Zhang e se tornava viciada em diferentes tipos de afrodisíacos. Em 704, os funcionários da corte já não conseguiam tolerar o comportamento de Wu e mandaram assassinar os irmãos Zhang. Wu foi forçada a abdicar em favor do seu filho exilado, Zhongzong, e da sua esposa, Wei. De qualquer forma, ela já se encontrava com a saúde muito debilitada nessa altura e morreu um ano depois.
Conclusão
Após a morte de Wu, Zhongzong reinou, mas apenas no nome; o poder real estava nas mãos da senhora Wei, que usou Wu Zetian como modelo para manipular o marido e a corte. Ao mesmo tempo, formou-se outra facção política em torno do outro filho de Wu, Ruizong, que era apoiado pela filha de Wu, Taiping. Em 710, Zhongzong morreu após ter sido envenenado por Wei, que escondeu o seu corpo e ocultou a sua morte até que o seu filho, Chong Mao, pudesse ser entronizado como imperador. A princesa Taiping pôs fim aos seus planos quando mandou assassinar Wei e a sua família e colocou o seu irmão, Ruizong, no trono.
Dois anos mais tarde, em 712, Ruizong abdicou depois de ter avistado um cometa numa noite e, seguindo a interpretação sugerida por Taiping, interpretou-o como um sinal de que o seu reinado tinha chegado ao fim. O seu filho, Li Longji, sucedeu-lhe, reinando como Imperador Xuanzong (reinou 712-756). A princesa Taiping tinha protegido Li Longji da sua mãe quando ele era jovem e apoiado-o nos seus esforços para conquistar o trono. Tal como a senhora Wei, ela tinha prestado muita atenção ao reinado de Wu Zetian e pensava que seria capaz de manipular Xuanzong, tal como a sua mãe tinha feito com Gaozong.
Quando percebeu que não seria capaz de controlar a corte como a sua mãe fazia, suicidou-se e Xuanzong decretou que nenhum membro da família de Wu seria autorizado a ocupar cargos públicos devido às suas intrigas implacáveis e políticas dissimuladas. Ainda assim, Xuanzong deu continuidade a muitas das políticas de Wu, incluindo a manutenção das suas reformas nos domínios da tributação, agricultura e educação. Sob o reinado de Xuanzong, a China tornou-se o país mais próspero do mundo na época.
A Imperatriz Wu foi sepultada num túmulo no condado de Qian, na província de Shanxi, ao lado de Gaozong. Foi erigida uma enorme estela no exterior do túmulo, como era costume, na qual os historiadores posteriores deveriam inscrever os grandes feitos da Imperatriz Wu, mas a estela permanece em branco. Apesar de todas as suas reformas e da prosperidade que trouxe ao país, Wu ficou na memória principalmente pelos seus crimes contra amigos e familiares — especialmente o assassinato da sua filha — e as pessoas não a consideraram digna de uma inscrição.
Também é possível que, tal como aconteceu no Egito após o reinado da rainha Hatshepsut, ninguém no poder quisesse registar o reinado de uma mulher e esperasse que a Imperatriz Wu fosse esquecida. Se assim foi, as suas esperanças foram em vão; a Imperatriz Wu Zetian é hoje recordada como uma das maiores governantes da história da China. A série de televisão chinesa Mulheres da Dinastia Tang (tít. original 唐宫燕; transliterado: Táng Gōng Yàn -2013), que contou com a atriz Hui Yinghong no papel de Wu Zetian, foi muito popular, o que atesta o interesse contínuo pela primeira e única governante feminina da China.
Embora os historiadores modernos, tanto do Oriente como do Ocidente, tenham revisto a antiga descrição de Wu Zetian como uma usurpadora intrigante, essa visão do seu reinado ainda persiste em grande parte do que é escrito sobre ela. A mulher que acreditava ser tão capaz quanto qualquer homem para liderar o país continua a ser difamada, mesmo que os escritores agora matem as suas críticas, mas não há como contestar o facto de que, sob o reinado de Wu Zetian, a China conheceu uma prosperidade e estabilidade que nunca antes tinha conhecido. As suas reformas e políticas lançaram as bases para o sucesso de Xuanzong como imperador, sob cujo reinado a China se tornou o país mais próspero do mundo.

