Públio Quintílio Varo

Marianne R. H. Fisher
por , traduzido por Raimundo Raffaelli-Filho
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Kalkriese Face Mask (by Carole Raddato, CC BY-SA)
Máscara Facial de Kalkriese Carole Raddato (CC BY-SA)

Públio Quintílio Varo (em latim, Publius Quinctilius Varus; cerca de 46 a.C. – 9 d.C.) foi político e general romano sob o governo do imperador Augusto. Ele é lembrado principalmente por ter perdido três legiões romanas ao ser emboscado por tribos germânicas na Batalha da Floresta de Teutoburgo, o que causou grande choque em Roma e interrompeu efetivamente a expansão romana além do rio Reno.

VIDA PREGRESSA

Públio Quintílio Varo nasceu por volta de 46 a.C., em uma antiga família patrícia. Seu pai, Sexto Quintílio Varo, era republicano e foi questor, em 49 a.C. Sexto defendeu a cidade de Corfinium (atual Corfínio, província italiana de Áquila, Abruzos) do cerco de Júlio César durante a guerra civil contra Pompeu. Quando Júlio César foi assassinado, Sexto encontrava-se no campo de batalha de Filipos, combatendo Marco Antônio e Otaviano. Após a derrota dos últimos republicanos por Marco Antônio e Otaviano, Sexto suicidou-se.

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CÁSSIO DIO DESCREVE VARO COMO UM COMANDANTE MILITAR INCOMPETENTE QUE TAMBÉM ERA INGÊNUO E ARROGANTE.

Públio Quintílio Varo não tinha nenhuma das tendências republicanas de seu pai. Ele se tornou amigo político de Augusto e foi feito questor, em cerca de 21 a.C. Varo casou-se com Vipsania Marcella Agrippina, filha de Marcus Vipsanius Agrippa, braço direito do imperador Augusto. Ele foi nomeado cônsul em 13 a.C. junto com Tibério, enteado de Augusto, que era casado com uma das filhas de Agripa, Vipsânia Agripina. Mais tarde, Varo se casaria com Cláudia Pulcra, sobrinha-neta de Augusto. Cassius Dio descreve Varo como um comandante militar incompetente que também era ingênuo e arrogante. O senador e historiador romano Marco Veleio Patérculo (Marcus Velleius Paterculus), autor do Compêndio da História Romana (Historiae Romanae) avalia Varo como um homem quieto, lento e preguiçoso. Eles viam Varo como um administrador que progrediu em sua carreira a partir de seus laços estreitos com Augusto.

CARREIRA

Na época em que Varo ascendeu ao poder no cenário político romano, o império estava às voltas com dois conflitos principais: a revolta na Panônia e a ameaça representada por Marobóduo (Maroboduus), um dos líderes tribais germânicos mais poderosos. A elite imperial também estava plenamente ciente do potencial de agitação nas províncias recém-conquistadas. Um governador precisava não apenas ter demonstrado capacidade para o comando militar bem-sucedido, mas também competência para organizar e estabelecer uma nova província. Varo recebeu o governo da África, um cargo de grande prestígio, visto que era uma das províncias administradas pelo Senado e a única a contar com uma legião, enquanto todas as outras províncias guarnecidas por tropas eram governadas pelo próprio imperador. Varo administrou essa região do mundo romano entre 8 e 7 a.C., tendo seu nome gravado nas moedas de duas cidades: Hadrumeto e Achola (Hadrumetum e Achulla na atual Tunísia). Posteriormente, foi nomeado governador da Síria, onde assumiu o comando de um sexto de todo o exército romano.

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Varo chegou à Síria em 7 a.C. A província era uma das mais importantes do império, pois as quatro legiões imperiais ali estacionadas eram responsáveis ​​por proteger a fronteira oriental contra os partas. O Museu Britânico possui uma moeda antiga com as inscrições "Imperator Caesar Augustus" ao redor da efígie do imperador e "Publius Quinctilius Varus", acompanhadas por duas águias legionárias, o que evidencia os laços estreitos entre os dois homens.

Bronze coin 6-4 BCE
Moeda de Bronze, 6–4 a.C. Trustees of the British Museum (Copyright)

Como governador da Síria, Varo também era responsável por manter a paz nos reinos vassalos, entre eles a Judeia. O rei Herodes, da Judeia, havia sido o aliado mais próximo e leal de Roma. Ao final de seu reinado, Herodes acusou seu filho Antípatro — que também era seu sucessor designado — de alta traição. Varo apoiou a acusação e Antípatro foi executado.

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Herodes faleceu três anos mais tarde. Em seu testamento, dividiu o reino entre seus três filhos sobreviventes: Herodes Arquelau, Herodes Antipas e Filipe. Herodes Arquelau recebeu as regiões da Judeia e de Samaria; Herodes Antipas ficou com a Galileia e a Pereia; e Filipe tornou-se governante da Gaulanítide (região das Colinas de Golã). Pouco tempo depois, eclodiram revoltas nos territórios governados por Arquelau. As tropas de Arquelau não conseguiram conter a situação e Varo teve de intervir. As cidades de Séforis e Emaús (atualmente localizadas em Israel) foram destruídas e duas mil pessoas foram crucificadas. Os territórios de Herodes Arquelau foram pacificados, permitindo que seu reinado tivesse início. Após essa crise, Varo retornou a Roma.

Coin Inscribed VAR(us)
Moeda com a Inscrição VAR(us) Goethe-Universität Frankfurt (Public Domain)

Varo chegou a Roma em meio a uma mudança no cenário político. Augusto havia designado seus netos, Caio e Lúcio, como seus sucessores. Tibério havia deixado Roma e vivia em Rodes. No entanto, o novo plano de Augusto não prosperou, pois ambos os netos faleceram com um intervalo de menos de dois anos entre si. Devido a essa tragédia familiar, Tibério foi chamado de volta de Rodes e nomeado um dos sucessores de Augusto. Após o retorno de Tibério, Varo foi nomeado governador da Germânia, por volta de 6 d.C. Sua nomeação foi celebrada com a distribuição de dinheiro aos soldados, utilizando moedas marcadas com a inscrição VAR (referência a Varo).

A BATALHA DA FLORESTA DE TEUTOBURGO

Tibério percorreu a Germânia no outono de 4 d.C. e no verão de 5 d.C. como demonstração de força, para que as tribos germânicas compreendessem e cumprissem suas obrigações como parte do Império Romano. Em 6 d.C., ele pretendia liderar pelo menos oito legiões provenientes do Médio Reno, além de uma unidade adicional, contra o rei Marobóduo, dos marcomanos, em Boiohaemo (Boêmia).

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Simultaneamente, as três legiões do Baixo Reno também deveriam avançar contra Boiohaemo, atacando a região ao longo do rio Elba. Seu comandante era Caio Sêncio Saturnino (Gaius Sentius Saturninus). Um terceiro grupo de exército deveria marchar ao longo do rio Meno. Uma enorme base foi construída perto da atual Marktbreit, onde o exército do Médio Reno se concentraria. No entanto, a ação não se concretizou, pois uma rebelião na Panônia impediu a execução do plano de Tibério e levou três anos para ser reprimida. Varo substituiu Saturnino e organizou ativamente os territórios conquistados entre o Reno e o Elba. Ele arrecadava impostos, fundava novos assentamentos e administrava a justiça quando necessário.

No verão de 9 d.C., Tibério havia derrotado os panônios e preparava-se para retomar a ofensiva em direção à Boêmia e ao Elba, em 10 d.C. Para os líderes germânicos que desejavam livrar-se dos romanos, era o momento de agir. Varo estava em seu acampamento de verão, junto ao rio Weser, quando recebeu a notícia de uma revolta crescente na região do Reno, a oeste. Ele decidiu, então, marchar com três legiões (a XVII, a XVIII e a XIX) e fazer um desvio pela área rebelde antes de retornar ao Reno.

A única estrada passava por estreita faixa de terra acessível; ao sul, erguiam-se as colinas intransitáveis ​​da Floresta de Teutoburgo, enquanto pântanos dificultavam o avanço ao norte. Era o local perfeito para encurralar os legionários da infantaria pesada. As três legiões encontravam-se, assim, em posição onde a sua capacidade de combate seria minimizada. Elas sofreram emboscada de tribos germânicas lideradas por Armínio, na Batalha da Floresta de Teutoburgo. Alguns soldados romanos que tentavam fugir foram interceptados pelos guerreiros germânicos e mortos. Alguns romanos capturados foram aprisionados em jaulas e queimados vivos, enquanto outros foram escravizados ou mantidos para resgate. Tácito e Floro relatam que as tribos germânicas vitoriosas torturaram e sacrificaram soldados capturados aos seus deuses. Arqueólogos modernos escavaram parte do campo de batalha, recuperando muitos objetos militares e outros itens que atestam a presença de civis na área na época do massacre. Varo, ao perceber que não havia mais esperança, cometeu suicídio.

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Battle of Teutoburg Forest [Artist's Impression]
Batalha da Floresta de Teutoburgo [Impressão do Artista] The Creative Assembly (Copyright)

Após a batalha, os romanos nunca conquistaram os germanos a leste do Reno, apesar das expedições de Germânico em 15-16 d.C. e de alguns conflitos posteriores. Tamanha foi a vergonha — e a má sorte associada aos números das legiões perdidas na Batalha da Floresta de Teutoburgo — que as numerações XVII, XVIII e XIX nunca mais apareceram na ordem de batalha do exército romano. Segundo Suetônio, ao receber a notícia, Augusto rasgou suas vestes e recusou-se a cortar o cabelo por meses. Durante anos, ouvia-se Augusto lamentar ocasionalmente: " Quintílio Varo, devolva as minhas legiões!"

Armínio decepou a cabeça de Varo e enviou-a à Boêmia como presente ao rei Marobóduo, na tentativa de convencê-lo a formar uma aliança. Marobóduo recusou a oferta e enviou os restos mortais de Varo à Roma. Apesar da raiva que sentia de Varo pela derrota total na Batalha da Floresta de Teutoburgo, Augusto sepultou a cabeça dele no mausoléu da família imperial.

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Fisher, M. R. H. (2026, setembro 18). Públio Quintílio Varo. (R. Raffaelli-Filho, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-14371/publio-quintilio-varo/

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Fisher, Marianne R. H.. "Públio Quintílio Varo." Traduzido por Raimundo Raffaelli-Filho. World History Encyclopedia, setembro 18, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-14371/publio-quintilio-varo/.

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Fisher, Marianne R. H.. "Públio Quintílio Varo." Traduzido por Raimundo Raffaelli-Filho. World History Encyclopedia, 18 set 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-14371/publio-quintilio-varo/.

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