Deianira foi a segunda mulher do herói grego e semideus Héracles (mais conhecido por Hércules, filho do deus Zeus e da mulher mortal Alcmena). Era filha do rei Eneu e da rainha Althaea de Calidão. Durante o período dos famosos Doze Trabalhos de Hércules, este tinha feito um pequeno desvio para navegar com Jasão e os Argonautas e, nessa viagem, conheceu o herói Meleagro, filho de Eneu. Quando Meleagro nasceu, as Moiras predisseram que ele viveria até que um tição, que ardia na lareira da família naquele momento, fosse consumido. A mãe dele retirou instantaneamente o tição do fogo, apagou-o com água e escondeu-o num armário.
Muitos anos mais tarde, depois de Meleagro ter morto intencionalmente os irmãos na sequência da Caça ao Javali de Calidão, Althaea, na sua dor, foi buscar o tição, atirou-o para o fogo e Meleagro morreu. Hércules viria mais tarde a encontrar o espírito de Meleagro durante o seu décimo segundo trabalho, quando desceu ao submundo para trazer de volta o cão de três cabeças Cérbero, que guardava as portas de Hades. Meleagro disse-lhe que estava preocupado porque a sua irmã Deianira continuava solteira na terra. Pediu a Hércules que regressasse ao plano mortal e casasse com ela para que ela não envelhecesse nem vivesse sem amor na casa do pai. Hércules prometeu ao fantasma que casaria com ela, caso lhe fosse possível.
O Encontro de Deianira e Hércules
Assim que Hércules concluiu os seus trabalhos, envolveu-se noutras aventuras e nunca se menciona se ele se lembrou de Meleagro e do seu pedido. Havia certamente muitos outros acontecimentos prementes a ocupar-lhe a mente. Ele matou o príncipe Ífito de Ecalia e, para expiar este pecado, vendeu-se como escravo à rainha Ônfale, que o obrigou a vestir roupas femininas e a coser com as damas da corte.
Assim que Ônfale o libertou, embarcou em novas aventuras, tais como a conquista de Troia, a guerra com os Titãs e uma missão de vingança contra o rei Augias, que achava tê-lo enganado anteriormente ao retirar-se de um acordo que tinham feito. Passaram vários anos até que Hércules chegou a Calidão e conheceu Deianira.
Se ele se lembrava ou não da promessa feita a Meleagro parece irrelevante, uma vez que se apaixonou rapidamente pela bela princesa, que era tão independente que conduzia a sua própria carruagem e era versada nas artes da guerra. Parece também que Meleagro não precisava de se preocupar com o estado civil da irmã, pois ela tinha tanta beleza e encanto que contava com muitos pretendentes desejosos de casar com ela. Nem estava interessada em casar com nenhum deles e, talvez, nem sequer pensasse em casamento até se apaixonar por Hércules.
Quando Hércules declarou as suas intenções, a maioria dos pretendentes retirou-se, mas um deles, o deus dos rios Aquelau, não quis recuar perante o desafio de um mortal. Ele lutou com Hércules pela mão de Deianira e mudava constantemente de forma precisamente quando Hércules estava prestes a vencer. No final, transformou-se num touro e investiu contra Hércules, que lhe arrancou um dos chifres e se recusou a devolvê-lo até que o deus se rendesse, o que aconteceu rapidamente; Hércules e Deianira casaram-se de seguida.
O Casamento de Deianira e Hércules
O novo casal viveu feliz durante algum tempo em Calidão, até que Hércules matou acidentalmente o copeiro do sogro. Embora o incidente tenha sido um acidente e ele tenha sido perdoado pelo rei, Hércules não conseguiu perdoar-se a si próprio e decidiu abandonar o reino com Deianira. Durante a viagem, chegaram ao rio Eveno e encontraram o centauro Nesso, que se ofereceu para transportar Deianira nas costas. No entanto, ao chegarem à outra margem, Nesso tentou violá-la e Hércules atingiu-o com uma das suas flechas.
Tratava-se das mesmas flechas que Hércules tinha mergulhado no sangue do monstro de nove cabeças conhecido como a Hidra, durante o segundo dos seus Doze Trabalhos, de modo a torná-las venenosas, uma vez que o sangue da Hidra era extremamente tóxico. Nesso, portanto, estava a morrer rapidamente à medida que o veneno circulava pelo seu corpo, altura em que disse a Deianira que o seu sangue possuía uma qualidade especial como poção de amor e que ela deveria guardar um pouco dele num frasco.
Se alguma vez ela sentisse que Hércules podia amar outra mulher, disse ele, devia aspergir o sangue sobre a túnica dele, e ele continuaria apaixonado por Deianira para sempre, sem sequer reparar noutras mulheres. Nesso compreendia, é claro, que o seu sangue agora envenenado seria mortal para qualquer mortal, e esta era a sua vingança pela flecha de Hércules.
Hércules e Deianira deixaram o cadáver de Nesso junto ao rio e continuaram a viagem. Estabeleceram-se na cidade de Traquim, constituíram família e, mais uma vez, foram felizes durante algum tempo, até que Hércules partiu para a guerra contra Êurito que, tal como Augias, o tinha insultado anteriormente. Hércules matou Êurito e tomou a sua filha Iole (a quem já tinha vencido antes num concurso de tiro com arco, mas cujo prémio lhe fora recusado por Êurito) como sua concubina. Outra versão do mito relata que ele ajudou Ártemis a matar um javali que estava a devastar o reino e que Iole lhe foi dada como presente.
Hércules preparou então um banquete de vitória e mandou avisar Deianira para lhe enviar a sua melhor túnica para usar no festival. Deianira, temendo que Hércules gostasse mais de Iole do que dela, embebeu a túnica no sangue de Nesso e depois lavou as nódoas, deixando apenas o veneno. Assim que Hércules vestiu a túnica, foi tomado por uma agonia intensa e começou a arder. Arrancou a túnica do corpo, mas o veneno já se tinha fundido com a sua pele.
Como era um semideus, não podia morrer rapidamente e, por isso, sofreu enquanto o veneno penetrava no seu corpo, tornando-se cada vez mais fraco até que, deitando-se numa pira funerária que construiu, morreu. A sua parte imortal foi levada pelo pai Zeus para habitar entre os deuses. Deianira, ao aperceber-se de que tinha sido enganada por Nesso e de que matara o marido, enforcou-se.
A Deianira na Literatura
A sua história é contada com empatia na tragédia As Traquínias (tít. original: Τραχῖνιαι; transliterado: Trachiniai) do dramaturgo grego Sófocles (escrita por volta de 450 a.C.) e também pelo poeta romano Ovídio (43 a.C. – c. 14 d.C.) nas suas Heróides (tít. original: Epistulae Heroidum), onde um dos capítulos se apresenta sob a forma de uma carta de Deianira para Hércules enquanto este se encontrava ausente, expressando o seu amor por ele e perguntando quando poderia regressar para junto dela.
Ela surge igualmente na peça Hércules no Eta (tít. original: Hercules Oetaeus) do dramaturgo romano Séneca (também conhecido como Séneca, o Jovem, 4 a.C. – 65 d.C.), onde é retratada como uma mulher vingativa e ciumenta que mata Hércules por maldade. Os historiadores têm colocado dúvidas sobre se a peça foi efetivamente escrita por Séneca, mas, quem quer que a tenha redigido, baseou-se fortemente na obra anterior de Sófocles, mantendo muitas das mesmas cenas e a mesma progressão, afastando-se seriamente apenas na caracterização de Deianira.
Esta versão de Deianira, embora seja uma representação muito menos empática da história, está em consonância com o significado do seu nome: "destruidora de homens". As versões mais anteriores da sua história apresentam-na geralmente como alguém que causa a morte de Hércules sem intenção, movida pelo seu amor por ele, surgindo como uma personagem compreensiva e que tem um fim trágico.
