Ur

A Grande Cidade Bíblica Abandonada pelos Deuses
Joshua J. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Ruins of Ur (by M.Lubinski, CC BY-SA)
Ruínas de Ur M.Lubinski (CC BY-SA)

Ur foi uma cidade na região da Suméria, no sul da Mesopotâmia, e as suas ruínas encontram-se no actual Tell el-Muqayyar, no Iraque. De acordo com a tradição bíblica, o nome da cidade deve-se ao homem que aí fundou o primeiro povoado, Ur, embora esta tese tenha sido contestada. A cidade é famosa pelas suas associações bíblicas e pelo seu papel como antigo centro comercial.

A outra ligação bíblica da cidade é ao patriarca Abraão, que deixou Ur para se estabelecer na terra de Canaã. Esta afirmação tem sido igualmente contestada por académicos que acreditam que o lar de Abraão seria mais a norte, na Mesopotâmia, num local chamado Ura, perto da cidade de Harran, e que os autores da narrativa bíblica no Livro do Génesis confundiram as duas.

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Quaisquer que tenham sido as suas ligações bíblicas, Ur foi uma importante cidade portuária no Golfo Pérsico, que terá começado, muito provavelmente, como uma pequena aldeia no período de Obaide da história mesopotâmica (6500-4000 a.C.), sendo já uma cidade estabelecida por volta de 3800 a.C. e continuamente habitada até 450 a.C. As associações bíblicas de Ur tornaram-na famosa na era moderna, mas a cidade foi um centro urbano significativo muito antes dessas narrativas terem sido escritas, sendo altamente respeitada no seu tempo.

O Período Inicial e as Escavações

O sítio tornou-se famoso na era moderna em 1922, quando Sir Leonard Woolley escavou as ruínas e descobriu o que apelidou de "O Grande Poço da Morte" (um complexo funerário elaborado), os Túmulos Reais e, o que foi mais significativo para ele, afirmou ter encontrado evidências do Grande Dilúvio descrito no livro do Génesis. Esta afirmação foi mais tarde desacreditada, mas continua a encontrar apoiantes.

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No seu tempo, Ur foi uma cidade de enorme dimensão, abrangência e opulência, que retirava a sua vasta riqueza da sua posição no Golfo Pérsico e do comércio que esta permitia com regiões tão distantes como a Civilização do Vale do Indo. O atual sítio das ruínas de Ur situa-se muito mais para o interior do que na época em que a cidade floresceu, devido ao assoreamento dos rios Tigre e Eufrates.

Desde o início, Ur foi um importante centro comercial, devido à sua localização num ponto crucial onde os rios Tigre e Eufrates desaguam no Golfo Pérsico.

Desde o início, Ur foi um importante centro comercial, devido à sua localização num ponto nevrálgico onde os rios Tigre e Eufrates desaguam no Golfo Pérsico. Escavações arqueológicas comprovaram que, precocemente, Ur possuiu uma enorme riqueza e que os seus cidadãos desfrutavam de um nível de conforto desconhecido noutras cidades mesopotâmicas

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Tal como aconteceu com os outros grandes complexos urbanos da região, a cidade começou como uma pequena aldeia, que seria muito provavelmente liderada por um sacerdote ou por um rei-sacerdote. O rei da Primeira Dinastia, Mesanepada, é apenas conhecido através da Lista de Reis Sumérios e de inscrições em artefactos encontrados nos túmulos de Ur.

Sabe-se que a Segunda Dinastia teve quatro reis, todavia nada se conhece sobre eles, sobre os seus feitos ou sobre a história deste período. Os antigos escribas mesopotâmicos não consideravam que valesse a pena registar as acções de meros mortais, preferindo associar as conquistas humanas à obra e à vontade dos deuses. Os antigos reis-heróis, como Gilgamesh de Uruque, ou aqueles que realizaram feitos extraordinários, como Etana ou os que figuram no Mito de Adapa (incipit: Adapa u ana šamê), eram dignos de registo, mas aos reis mortais não era concedido o mesmo nível de zelo quanto aos detalhes dos seus reinados.

Os Reis-Heróis de Acádia

Isto mudou com a ascensão de Sargão da Acádia (reinou entre 2334 e 2279 a.C.) e do seu Império Acadiano (2334-2154 a.C.), que governou sobre as diversas regiões da Mesopotâmia. Sargão, o Grande, afirmava ter nascido de uma sacerdotisa e de um deus, ter flutuado rio abaixo num cesto de juncos até ser encontrado pelo servo do rei da cidade de Lagasce, e ter ascendido da obscuridade — através da vontade da deusa Inana — para governar toda a Mesopotâmia. As inscrições que deixou desafiam os que o seguirem a realizar os mesmos feitos que ele, se pretendem apelidar-se de reis; e a sua vida foi digna dos esforços dos escribas da região durante séculos após a sua morte.

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Akkadian Ruler
Governante de Acádia Sumerophile (Public Domain)

O seu neto, Naram-Sin (reinou entre 2254 e 2218 a.C.), tendo aprendido bem as lições sobre a importância da propaganda pessoal, afirmou ter ido mais longe do que o seu avô e fez-se divinizar durante o seu reinado. Ao fazê-lo, forneceu um modelo para os reis que o seguiriam. Sargão, o Grande, e Naram-Sin foram os governantes mais poderosos do Império Acadiano e, após a sua queda, os seus nomes tornaram-se lenda e os seus feitos algo digno de ser emulado.

Os heróis da Acádia foram emulados de forma muito próxima pelos governantes da Terceira Dinastia de Ur. Este período da história da Suméria é conhecido como o período de Ur III (cerca de 2112 a cerca de 2004 a.C.) e foi a era em que a cidade de Ur atingiu o seu auge. O grande zigurate de Ur, que ainda pode ser visitado nos tempos modernos, data deste período, tal como a maioria das ruínas da cidade e das tábuas cuneiformes descobertas.

Dois dos maiores reis da Terceira Dinastia foram Ur-Nammu (reinou entre cerca de 2112 e cerca de 2094 a.C.) e o seu filho Shulgi de Ur (reinou entre cerca de 2094 e cerca de 2046 a.C.), que criaram uma comunidade urbana dedicada ao progresso e à excelência cultural e, ao fazê-lo, deram origem ao que é conhecido como o Renascimento Sumério.

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Ziggurat of Ur (Artist's Impression)
Zigurate de Ur (Concepção Artística) Mohawk Games (Copyright)

Ur-Nammu e Shulgi: O Renascimento Sumério

Ur-Nammu redigiu o primeiro sistema de leis codificado da região, o Código de Ur-Nammu, cerca de 300 anos antes de Hamurabi da Babilónia escrever o seu, e governou o seu reino de acordo com uma hierarquia patriarcal na qual ele era o pai que guiava os seus filhos rumo à prosperidade e à saúde contínua. Sob Ur-Nammu, o grande zigurate foi construído e o comércio floresceu. As artes e a tecnologia pelas quais os sumérios são mais famosos foram todas incentivadas em Ur durante este período.

O académico Paul Kriwaczek observa que, para que um sistema de governo patriarcal deste tipo tenha sucesso, o povo deve acreditar que o seu governante é superior e mais poderoso do que ele, da mesma forma que os filhos olham para o pai. Para este fim, ao que parece, Ur-Nammu apresentou-se aos seus súbditos em linha com os reis-heróis Sargão e Naram-Sin, de modo a incentivar a população a segui-lo na senda da excelência. Foi morto em batalha contra os gútios e imortalizado no poema A Morte de Ur-Nammu (íncipit: Ur-Nammu A), que o imagina no reino do submundo de Eresquigal, a Rainha dos Mortos.

O seu filho Shulgi, num esforço para superar as conquistas do pai, foi ainda mais longe. Um exemplo disso é a sua famosa corrida quando, para impressionar o seu povo e distinguir-se do seu pai, Shulgi correu 321,8 km (200 milhas) entre o centro religioso de Nipur e a capital, Ur — e regressou — num único dia, a fim de oficiar os festivais em ambas as cidades. A sua proeza foi celebrada no Hino de Louvor a Shulgi, que era lido em todo o seu reino. Shulgi deu continuidade às políticas do seu pai, aperfeiçoando-as quando considerava adequado, e é tido como o maior rei da Terceira Dinastia de Ur devido ao patamar que a civilização atingiu sob o seu reinado, incluindo o facto de ter tornado a literacia uma prioridade.

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Map of the Third Dynasty of Ur
Mapa da Terceira Dinástia de Ur Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Shulgi melhorou as estradas, criou estalagens de beira de estrada com jardins e água corrente, e encomendou a renovação e reconstrução de inúmeras estruturas por todos os seus territórios. Entre os seus muitos projetos de construção contava-se uma muralha que se estendia por 250 km (155 milhas) ao longo da fronteira da região da Suméria para manter afastadas as tribos bárbaras conhecidas como os Martu (também referidos como Tidnum), que são mais reconhecíveis para os leitores modernos pela sua designação bíblica de Amoritas. A muralha de Shulgi foi mantida pelo seu filho, neto e bisneto, mas não conseguiu travar as tribos nas fronteiras.

A muralha era demasiado longa para ser devidamente guarnecida e, como não estava ancorada em nenhuma das extremidades, os invasores podiam contornar o obstáculo simplesmente marchando à sua volta. Em 1750 a.C., o reino vizinho de Elão rompeu a muralha, saqueou Ur e levou o último rei como prisioneiro. Os Amoritas, que já tinham encontrado forma de contornar a muralha, fundiram-se com a população suméria e, desta forma, a cultura suméria chegou ao fim com a queda de Ur. Este declínio e queda foram imortalizados num dos poemas mais conhecidos do género dos 'Lamentos de Cidades' Mesopotâmicas — o Lamento sobre a Suméria e Ur (cerca de 2000 a.C.) — que atribui a queda da cidade à vontade dos deuses.

O Declínio de Ur e a Escavação

Devido às mudanças climáticas e ao uso excessivo da terra, as pessoas migraram para as regiões do norte da Mesopotâmia ou para o sul, em direção à terra de Canaã.

No Período Paleobabilónico (cerca de 1894-1595 a.C.), Ur continuou a ser uma cidade de importância e era considerada um centro de aprendizagem e cultura. De acordo com a académica Gwendolyn Leick: "Os 'herdeiros' de Ur, os reis de Isin e Larsa, empenharam-se em demonstrar o seu respeito pelos deuses de Ur através da reparação dos templos devastados" (pág. 180). Os reis Cassitas, que mais tarde conquistaram a região, fizeram o mesmo, tal como os governantes assírios que se lhes seguiram.

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A cidade continuou a ser habitada durante a fase inicial do Período Aqueménida (cerca de 550-330 a.C.), mas, devido às alterações climáticas e à exaustão da terra, cada vez mais pessoas migraram para as regiões do norte da Mesopotâmia ou para sul, em direção à terra de Canaã (entre as quais, como anteriormente referido, alguns afirmam estar o patriarca Abraão). Ur perdeu importância gradualmente à medida que o Golfo Pérsico recuava cada vez mais para sul da cidade, acabando por cair em ruína por volta de 450 a.C.

A área esteve enterrada sob as areias até ser visitada por Pietro della Valle em 1625, que notou inscrições estranhas em tijolos (mais tarde identificadas como escrita cuneiforme) e imagens em artefactos, que seriam posteriormente reconhecidas como selos cilíndricos usados para identificar propriedade ou assinar cartas. Entre 1853 e 1854, a primeira escavação do sítio foi realizada por John George Taylor no interesse do Museu Britânico; Taylor notou múltiplos complexos funerários e concluiu que o local poderia ter sido uma necrópole babilónica.

A escavação definitiva das ruínas de Ur foi conduzida entre 1922 e 1934 por Sir Leonard Woolley, trabalhando em nome do Museu Britânico e da Universidade da Pensilvânia. O famoso túmulo de Tutankamon tinha sido descoberto por Howard Carter em novembro de 1922, e Woolley esperava um achado igualmente impressionante. Em Ur, ele pôs a descoberto os túmulos de dezasseis reis e rainhas, incluindo o da Rainha Puabi (também conhecida como Shub-ad) e os seus tesouros. O "Grande Poço da Morte", como Woolley o batizou, foi o maior dos complexos descobertos.

Woolley encontrou seis guardas armados e 68 aias. Elas usavam fitas de ouro e prata no cabelo, exceto uma mulher que ainda segurava na mão a fita de prata enrolada que não conseguira prender antes que a poção de dormir fizesse efeito, levando-a, sem dor, para o além com o seu mestre. (Bertman, pág. 36)

Woolley também pôs a descoberto o Estandarte Real de Ur, que celebrava o triunfo da cidade sobre os seus inimigos na guerra e as festividades de que o povo desfrutava na paz. Num esforço para superar o triunfo de Carter na descoberta do túmulo de Tutankamon, Woolley afirmou ter encontrado em Ur evidências do Grande Dilúvio bíblico; contudo, as notas tomadas pelo seu assistente, Max Mallowan, mostraram mais tarde que o registo de cheias no sítio não apoiava de forma alguma um dilúvio mundial, sendo mais condizente com as inundações regulares causadas pelos rios Tigre e Eufrates.

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The Standard of Ur
O Estandarte de Ur Trustees of the British Museum (Copyright)

Conclusão

Escavações adicionais em Ur, desde o tempo de Woolley, corroboraram as notas de Mallowan e, apesar das crenças persistentes em contrário, não foram encontradas evidências que sustentem a história do Grande Dilúvio bíblico em Ur, nem em qualquer outro lugar da Mesopotâmia. Ainda assim, como observa o académico Stephen Bertman:

Mesmo sem as reivindicações bíblicas que lhe deram fama, a Ur de Wooley continua sendo um exemplo brilhante da era de ouro da Suméria. Embora as suas liras originais não soem mais, com nosso ouvido interno ainda podemos ouvir suas melodias.

(pág. 36)

As ruínas de Ur são hoje um sítio arqueológico significativo, que continua a render artefactos importantes quando os conflitos na região o permitem. O grande zigurate de Ur ergue-se das planícies acima das ruínas de tijolos de barro daquela que foi outrora uma grande cidade e, como sugere Bertman, ao caminhar entre elas, revive-se o passado em que Ur era um centro de comércio e troca, protegida pelos deuses e florescendo por entre campos férteis.

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Perguntas & Respostas

Quando é que foi fundada Ur?

Ur foi fundada em 3800 a.C.

Por que é que Ur é famosa?

Ur é famosa devido à menção na Bíblia como o lar do patriarca Abraão antes de ter migrado para Canaã. Já era famosa antes das narrativas bíblicas como um grande centro comercial e cultural. Na era moderna, ficou conhecida devido à descoberta, em 1922, do Grande Poço da Morte e os artefactos que os túmulos continham.

Onde é que está localizada Ur?

As ruínas de Ur, incluindo o seu famoso Grande Zigurate, estão localizados em Tell el-Muqayyar, no Iraque.

Quando e por que é que Ur foi abandonada?

Ur foi abandonada em 450 a.C., devido a mudanças climáticas, às alterações de curso dos rios Tigre e Eufrates devido ao acúmulo de sedimentos e o uso excessivo dos recursos naturais.

Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Jornalista brasileiro que vive no Rio de Janeiro. Seus principais interesses são a República Romana e os povos da Mesoamérica, entre outros temas.

Sobre o Autor

Joshua J. Mark
Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Mark, J. J. (2025, julho 19). Ur: A Grande Cidade Bíblica Abandonada pelos Deuses. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-128/ur/

Estilo Chicago

Mark, Joshua J.. "Ur: A Grande Cidade Bíblica Abandonada pelos Deuses." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, julho 19, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-128/ur/.

Estilo MLA

Mark, Joshua J.. "Ur: A Grande Cidade Bíblica Abandonada pelos Deuses." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 19 jul 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-128/ur/.

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