A supremacia militar nos mares podia ser fator crucial para o sucesso de qualquer campanha terrestre e os romanos sabiam muito bem que uma poderosa frota naval podia fornecer tropas e equipamentos onde fossem mais necessários, no menor tempo possível. Os navios de guerra também podiam abastecer portos sitiados sob ataque inimigo e, por sua vez, bloquear portos sob controle inimigo. Marinha poderosa também era indispensável para lidar com piratas, que causavam estragos nos comércios marítimos e até mesmo, ocasionalmente, bloqueavam portos. A guerra naval, porém, tinha seus próprios perigos, sendo as condições climáticas adversas a maior ameaça ao sucesso, razão pela qual as campanhas navais eram em grande parte limitadas ao período entre abril e novembro.
Navios e Armas
Os antigos navios de guerra eram feitos de madeira, impermeabilizados com piche e tinta, e movidos tanto por velas quanto por remos. Navios com vários níveis de remadores, como a trirreme, eram rápidos e manobráveis o suficiente para atacar navios inimigos por abalroamento. Os maiores navios eram as quinquerremes, com três fileiras de remadores, dois em cada um dos dois remos superiores e um no remo inferior (cerca de 300 no total). Os navios também podiam ser equipados com plataforma por meio da qual os fuzileiros navais podiam abordar facilmente as embarcações inimigas – dispositivo conhecido como corvus (corvo). Construídos para velocidade, a maioria dos navios de guerra era leve, apertado e sem espaço para armazenamento ou mesmo para um grande contingente de tropas. Tais objetivos logísticos eram melhor alcançados com o uso de navios de transporte de tropas e navios de suprimentos à vela.
Além do aríete revestido de bronze abaixo da linha d'água na proa do navio, outras armas incluíam a balista de artilharia, que podia ser montada nos navios para desferir salvas letais contra posições terrestres inimigas a partir de um flanco inesperado e menos protegido, ou também contra outras embarcações. Bolas de fogo (potes de piche em chamas) também podiam ser lançadas contra a embarcação inimiga para destruí-la pelo fogo, em vez de abalroá-la.
Tripulação
As frotas passaram a ser comandadas por um prefeito (praefectus) nomeado pelo imperador, e o cargo exigia alguém com grande habilidade e qualidades de liderança para comandar com sucesso uma frota de embarcações, por vezes difíceis de manobrar. O capitão de um navio detinha a patente de centurião ou o título de trierarchus (trierarco). As frotas tinham como base portos fortificados, como Portus Julius, na Campânia, que incluíam portos artificiais e lagoas conectadas por túneis. As tripulações dos navios militares romanos podiam ser treinadas nesses portos, mas, na realidade, eram mais soldados do que marinheiros, pois esperava-se que atuassem como tropas terrestres levemente armadas, quando necessário. De fato, eles são tipicamente chamados de "miles" (soldados) em documentos e monumentos funerários, e também recebiam o mesmo soldo que os auxiliares de infantaria e estavam igualmente sujeitos à lei militar romana. As tripulações eram geralmente recrutadas localmente e provenientes das classes mais pobres, os proletarii (proletários), mas também podiam incluir recrutas de estados aliados, prisioneiros de guerra e escravos. O treinamento era, portanto, requisito crucial para que a força de trabalho coletiva fosse usada da maneira mais eficiente possível e a disciplina fosse mantida no frenesim e no horror da batalha.
Táticas
As táticas navais romanas diferiam pouco dos métodos empregados pelos gregos anteriormente. Os navios eram impulsionados por remadores e velas para transportar tropas e, em batalhas navais, transformavam-se em aríetes usando seus esporões revestidos de bronze. Em combate real, a manobrabilidade à vela era limitada, então os remadores impulsionavam os navios quando em combate corpo a corpo com o inimigo. As velas e o cordame eram armazenados em terra, o que economizava peso, aumentava a estabilidade da embarcação e deixava mais espaço para os fuzileiros navais. O objetivo era posicionar o aríete para abrir um buraco no navio inimigo e, em seguida, recuar para permitir a entrada de água no navio atingido. Alternativamente, um golpe bem direcionado poderia quebrar uma das fileiras de remos do inimigo e, assim, incapacitá-lo. Para causar esse tipo de dano, o melhor ângulo de ataque era pela lateral ou pela retaguarda do inimigo. Portanto, não apenas a manobrabilidade a remo era uma necessidade, mas também a velocidade. É por isso que, com o tempo, as embarcações passaram a ter cada vez mais remadores, não ao longo do comprimento do navio, o que o tornaria inapto para navegar, mas empilhando os remadores uns sobre os outros. Assim, a trirreme grega, com três fileiras de remadores, evoluiu da birreme com duas fileiras, e a trirreme eventualmente evoluiu para a quinquerreme romana.
Contra Cartago
Roma já utilizava navios de guerra desde o início da República Romana, no século IV a.C., especialmente em resposta à ameaça de piratas no Mar Tirreno, mas foi em 260 a.C. que construiu, em apenas 60 dias, a sua primeira frota naval significativa. Uma frota de 100 quinquerremes e 20 trirremes foi reunida em resposta à ameaça de Cartago. De maneira tipicamente romana, os projetistas copiaram e aprimoraram uma quinquerreme cartaginesa capturada.
Os romanos também reconheciam a inferioridade de sua habilidade náutica em comparação com a guerra naval muito mais avançada de Cartago. Por esse motivo, empregaram o corvus (corvo). Tratava-se de uma plataforma de 11 metros de comprimento que podia ser baixada da proa do navio até o convés das embarcações inimigas e fixada por meio de uma enorme ponta de metal. As tropas romanas (cerca de 120 em cada navio) podiam então abordar a embarcação adversária e dizimar rapidamente a tripulação inimiga.
O primeiro combate em que os corvos foram empregados com grande eficácia foi a Batalha de Milas, ao largo da costa norte da Sicília, em 260 a.C.. As duas frotas eram equivalentes, com 130 navios cada, mas os cartagineses, não esperando que os romanos fossem grandes mestres da guerra naval, nem sequer se deram ao trabalho de formar linhas de batalha. O corvus provou ser arma de ataque devastadoramente eficaz contra os cartagineses desorganizados, e o resultado foi a vitória romana, ainda que inesperada. O comandante e cônsul Caio Duílio não só teve a satisfação de ver seu adversário fugir de seu navio-almirante em um bote a remo, como também recebeu um triunfo militar por esta, a primeira grande vitória de Roma no mar.
Écnomo
A Batalha de Écnomo, em 256 a.C., ao largo da costa sul da Sicília, foi uma das maiores, senão a maior, batalhas navais da Antiguidade, e demonstraria que Milas não havia sido um acaso. Os romanos, animados com seu primeiro sucesso, expandiram sua frota, chegando a contar com 330 quinquerremes e um total de 140.000 homens prontos para a batalha. Os cartagineses zarparam com 350 navios, e as duas enormes frotas se encontraram ao largo da costa da Sicília. Os romanos se organizaram em quatro esquadrões dispostos em forma de cunha. Os cartagineses buscaram atrair os dois esquadrões romanos da frente para longe dos dois de trás e capturá-los em movimento de pinça. Contudo, seja por falta de manobrabilidade ou por comunicação inadequada de intenções, a frota cartaginesa atacou o esquadrão de transporte romano da retaguarda, enquanto os dois esquadrões romanos da frente causavam estragos no centro cartaginês. Nos combates corpo a corpo, a perícia náutica pouco importava, enquanto os corvos eram cruciais. Mais uma vez, a vitória foi de Roma. Cartago perdeu 100 navios, contra apenas 24 perdas romanas.
A guerra, porém, prolongou-se, pois a invasão imediata do Norte da África por Roma provou ser fracasso custoso. Notável expedição liderada por Cneu Servílio Rufo, em 217 a.C., limpou as águas italianas dos invasores cartagineses, e os romanos eventualmente derrotaram a frota cartaginesa, mas principalmente porque conseguiram repor os navios e homens perdidos mais rapidamente, numa guerra que se tornou de verdadeiro desgaste. Vitórias se misturaram com a derrota em Drepna, em 249 a.C., e desastres como a perda de 280 navios e 100.000 homens numa única tempestade ao largo da costa de Camarina, no sudeste da Sicília, mas, no fim, Roma prevaleceu. A guerra custou a Roma 1.600 navios, mas o prêmio valeu a pena: o domínio do Mediterrâneo. Este controle marítimo tornou-se útil nas guerras de Roma contra os reinos sucessores de Alexandre, o Grande, durante as Guerras Macedônicas. Entre 198 e 195 a.C., por exemplo, Roma lançou repetidamente ataques marítimos bem-sucedidos contra Nabis, aliado de Filipe V da Macedônia e tirano espartano.
Pompeu e os Piratas no Mediterrâneo Antigo
Com o declínio de Rodes, que por séculos policiou o Mediterrâneo e o Mar Negro para proteger as suas lucrativas rotas comerciais, a pirataria tornou-se desenfreada no século I a.C.. Mais de mil navios piratas, frequentemente organizados em formações militares com frotas e almirantes, tornaram-se o flagelo do comércio marítimo. Eles também ganharam confiança, adquirindo trirremes e até mesmo atacando a própria Itália, atacando Óstia e interrompendo o importantíssimo fornecimento de grãos. Em 67 a.C., Roma reuniu novamente uma frota, e Pompeu, o Grande, recebeu a missão de livrar os mares da praga dos piratas em três anos.
Com 500 navios, 120.000 homens e 5.000 cavaleiros à sua disposição, Pompeu dividiu as forças em 13 zonas e, liderando pessoalmente um esquadrão, primeiro limpou a Sicília, depois o Norte da África, a Sardenha e a Espanha. Finalmente, navegou para a Cilícia, na Ásia Menor, onde os piratas tinham as suas bases e onde Pompeu os havia permitido reunir deliberadamente para uma última batalha decisiva. Atacando por mar e terra, e vitorioso na batalha de Coracésio, Pompeu negociou a rendição dos piratas com a promessa de terras gratuitas para aqueles que se rendessem pacificamente. A última ameaça ao controle total de Roma sobre o Mediterrâneo havia desaparecido.
Guerra Civil
Agora, a única ameaça a Roma era a própria Roma e assim foi, a guerra civil devastou a Itália. Júlio César emergiu vitorioso e os remanescentes da frota de Pompeu tornaram-se a espinha dorsal da marinha romana, que foi usada com grande eficácia nas expedições para invadir a Britânia - a segunda expedição, maior, em 54 a.C., envolveu uma frota de 800 navios. Após o assassinato de César, em 44 a.C., a frota passou para o controle de Sexto Pompeu Magno, ironicamente, filho de Pompeu. Em 38 a.C., Otaviano, herdeiro de César, teve que reunir outra frota para enfrentar a ameaça de Sexto. Dando o comando a Marco Agripa, 370 navios foram enviados para atacar a Sicília e a frota de Sexto. Mais uma vez, a falta de marinheiros bem treinados forçou os comandantes a inovar e Agripa optou pela força bruta em vez da manobrabilidade, empregando um gancho impulsionado por catapulta nos seus navios. Este dispositivo permitia que os navios fossem içados para perto, facilitando o embarque por fuzileiros navais. A arma provou ser devastadoramente eficaz em 36 a.C., na batalha de Nauloco (novamente na Sicília), que envolveu 600 navios, e Sexto foi derrotado.
Ácio
Em 31 a.C., perto de Ácio, na costa oeste da Grécia, ocorreu uma das batalhas navais mais significativas da história. Ainda lutando pelo controle do Império Romano, Otaviano agora enfrentava Marco Antônio (Marco António) e sua aliada, a rainha egípcia Cleópatra. Ambos os lados reuniram uma frota e se prepararam para atacar o outro. Marco Antônio liderava frota de 500 navios de guerra e 300 navios mercantes contra a força de tamanho semelhante de Otaviano, embora Antônio possuísse embarcações maiores e menos manobráveis, do tipo helenístico. Agripa, ainda no comando, lançou seu ataque no início da temporada de navegação, pegando Antônio de surpresa. Os postos avançados do norte das forças de Antônio eram o alvo, manobra que criou uma distração enquanto Otaviano desembarcava seu exército. De qualquer forma, Antônio se recusou a ser retirado de seu porto fortificado no Golfo de Ambrícia. O bloqueio era a única opção de Agripa. Talvez Antônio estivesse ganhando tempo, esperando que suas legiões se reunissem vindas de toda a Grécia. Otaviano, porém, não se deixou levar por uma batalha terrestre e entrincheirou sua frota atrás de um molhe defensivo a 8 km ao norte. À medida que a doença devastava suas tropas e suas linhas de suprimento ficavam cada vez mais ameaçadas por Agripa, Antônio não teve outra escolha senão tentar romper o cerco, em 2 de setembro. Para piorar a situação, um desertor entregou os planos a Otaviano e vários generais mudaram de lado, e Antônio conseguiu reunir apenas 230 navios contra os 400 de Agripa.
A estratégia de Agripa era manter-se no mar e atrair Antônio para longe da costa. No entanto, isso o exporia à maior manobrabilidade dos navios de Agripa, então ele tentou navegar rente à costa e evitar o cerco. Quando o vento aumentou por volta do meio-dia, Antônio viu sua chance de escapar, pois sua frota estava navegando enquanto a de Agripa havia recolhido as velas em terra, prática comum na guerra naval da Antiguidade. As duas frotas se encontraram e entraram em combate, e na confusão, o esquadrão de 60 navios de Cleópatra fugiu da batalha. Antônio rapidamente fez o mesmo; abandonando seu navio-almirante por outra embarcação, seguiu sua amante e deixou sua frota ser esmagada pelas forças combinadas de Agripa e Otaviano. Pouco depois, o exército terrestre de Antônio, agora sem líder, rendeu-se a Otaviano com uma paz negociada. A propaganda dos vencedores, previsivelmente, culpou a covardia de Cleópatra e Antônio pela derrota, mas o fato de Antônio ter enfrentado Agripa à vela sugere que, em grande desvantagem numérica, ele pretendia, desde o início, fugir em vez de combater.
Roma Permanece Sozinha
Após a Batalha de Ácio, o novo imperador romano Otávio, agora se autodenominando Augusto, estabeleceu duas frotas de 50 navios cada – a classis Ravennatium, baseada em Ravena, e a classis Misenatium, baseada em Miseno (perto de Nápoles), que operaram até o século IV. Posteriormente, também houve frotas baseadas em Alexandria, Antioquia, Rodes, Sicília, Líbia, Ponto e Britânia, além de uma operando no Reno e outras duas no Danúbio. Essas frotas permitiram que Roma respondesse rapidamente a quaisquer necessidades militares em todo o Império Romano e abastecesse o exército em suas diversas campanhas. Na verdade, porém, não havia concorrência naval real para as frotas romanas. Isso é comprovado pelo fato de que, nos séculos seguintes, Roma se envolveu em apenas mais uma grande batalha naval – em 324 d.C., entre o imperador Constantino I e seu rival Licínio – e, portanto, pelo menos no Mediterrâneo antigo, após Ácio, os dias das batalhas navais em larga escala haviam terminado.
