A viagem de Eneias, príncipe troiano e herói da Eneida (tít. original: Aeneis), pertence à mitologia de fundação de Roma e não ao registo histórico. Composta por Virgílio (70–19 a.C.) entre 29 e 19 a.C., durante o reinado de Augusto (reinou 27 a.C.-14 d.C.), a epopeia reinterpreta eventos tradicionalmente situados após a queda de Troia (por volta do século XII a.C.). Através de Eneias, Virgílio liga o mundo heróico da Grécia à Roma augustana, apresentando as origens romanas como o resultado de um propósito divino, perseverança, sacrifício e dever.
As peregrinações de Eneias pelo Mediterrâneo, desde o Egeu oriental passando pela Sicília e Norte de África até Itália, adaptam as tradições homéricas a preocupações claramente romanas. O seu abandono de Dido de Cartago cria uma pré-história mítica para o posterior conflito entre romanos e cartagineses, ao passo que a sua descida ao Submundo e as guerras no Lácio enfatizam a pietas: o dever perante os deuses, a família e o destino acima do desejo pessoal. O seu pretendido casamento com Lavínia liga os troianos ao Lácio e, na tradição romana posterior, à ancestralidade de Roma. Para o público da era de Augusto, Eneias podia, assim, encarnar tanto o passado lendário de Roma como as ideias contemporâneas de sacrifício, autoridade e destino imperial.

