O poema de amor mais antigo do mundo é a Canção de Amor de Shu-Sin (incipit: šir-nam-ursaḡ-ak-ib-bi-suen-a; escrita por volta de 2000 a.C.), composta na antiga Mesopotâmia para ser utilizada nos rituais sagrados de fertilidade. Antes da sua descoberta no século XIX e da respetiva tradução no século XX, o bíblico "Cântico dos Cânticos" era considerado o poema de amor mais antigo.
No século XIX, vários arqueólogos deslocaram-se à região da Mesopotâmia à procura de provas físicas que corroborassem as narrativas bíblicas do Antigo Testamento. Embora este pudesse não ter sido o seu propósito inicial, a necessidade de financiamento (baseada no interesse do público para justificar tais verbas) depressa fez com que assim se tornasse. Em vez de encontrarem as evidências que esperavam, descobriram tábuas cuneiformes que estabeleceram que muitas das narrativas bíblicas derivavam de fontes mesopotâmicas. Esta descoberta teve um impacto profundo, não só nos estudos bíblicos da época, mas também na história do mundo tal como era então compreendida.
A Escavação e a Descoberta
Quando em 1845 o arqueólogo Austen Henry Layard iniciou as escavações em Kalhu, assistido por Hormuzd Rassam, encontrava-se sob tanta pressão para encontrar locais bíblicos que se precipitou ao concluir que a cidade que tinha desenterrado era Nínive. O seu relato das escavações, publicado em 1849, intitulava-se Nínive e os seus Merecimentos (1.ª Ed. 1852-3; tít.original: Nineveh and its Remains) e, devido à fama desta cidade na Bíblia, o livro tornou-se um êxito de vendas. O sucesso da obra despertou um interesse ainda maior pela história da Mesopotâmia como meio de corroborar as narrativas bíblicas, o que levou ao envio de novas expedições à região em busca de outras cidades mencionadas na Bíblia.
Anteriormente a este período, a Bíblia era considerada o livro mais antigo do mundo e o "Cântico dos Cânticos" (também conhecido como "Cântico de Salomão") o poema de amor mais antigo. Curiosamente, as expedições enviadas para corroborar historicamente as histórias da Bíblia fizeram precisamente o oposto. Quando Layard escavou o local real de Nínive, entre 1846 e 1847, descobriu a Biblioteca de Assurbanípal — o projeto pessoal do grande rei assírio Assurbanípal (reinou 668-627 a.C.) —, que continha mais de 30 000 textos cuneiformes.
Muitos destes textos foram posteriormente traduzidos pelo lendário George Smith, tornando-se claro que a história da "Queda do Homem", o "Dilúvio" e a "Arca de Noé" não eram composições originais dos autores do Livro do Génesis, mas sim contos mesopotâmicos pré-existentes, incluindo o Mito de Etana, o Génesis de Eridu e o Atrahasis, que foram retrabalhados por escribas hebreus mais tarde. O "Cântico dos Cânticos", datado dos séculos VI a III a.C., deixou de poder ser considerado o poema de amor mais antigo aquando da descoberta da Canção de Amor de Shu-Sin nas ruínas de Nínive.
A Tradução e a Interpretação
Quando foi encontrada, a tábua cuneiforme da Canção de Amor de Shu-Sin foi levada para o Museu de Istambul, na Turquia, onde foi guardada numa gaveta, por traduzir e desconhecida, até 1951, ano em que o famoso sumerólogo Samuel Noah Kramer a encontrou enquanto traduzia textos antigos.
Kramer tentava decidir quais as obras a traduzir a seguir quando encontrou a canção de amor na gaveta, e descreve o momento na sua obra A História Começa na Suméria:
A pequena tábua com o número 2461 jazia numa das gavetas, rodeada por várias outras peças. Quando pus os olhos nela pela primeira vez, a sua característica mais atraente era o seu estado de conservação. Cedo percebi que estava a ler um poema, dividido em várias estrofes, que celebrava a beleza e o amor, uma noiva jubilosa e um rei chamado Shu-Sin (que governou a terra da Suméria há perto de quatro mil anos). À medida que o lia e relia, não havia como confundir o seu conteúdo. O que eu segurava na mão era uma das canções de amor mais antigas alguma vez escrita pela mão do homem.
(pág. 245)
O poema não era, contudo, apenas um poema de amor, mas parte do rito sagrado, realizado anualmente, conhecido como o "casamento sagrado", no qual o rei se casava simbolicamente com a deusa Inanna, acasalando com ela para assegurar a fertilidade e a prosperidade para o ano seguinte. Kramer escreve:
Uma vez por ano, de acordo com a crença suméria, era dever sagrado do governante casar-se com uma sacerdotisa e devota de Inanna, a deusa do amor e da procriação, de forma a assegurar a fertilidade do solo e a fecundidade do útero. A cerimónia, consagrada pelo tempo, era celebrada no dia de Ano Novo e precedida por festas e banquetes acompanhados de música, canto e dança. O poema inscrito na pequena tábua de argila de Istambul foi, com toda a probabilidade, recitado pela noiva escolhida do rei Shu-Sin no decurso de uma destas celebrações de Ano Novo.
(págs. 245-246)
O académico Jeremy Black, também muito respeitado pelo seu trabalho com textos mesopotâmicos, interpreta o poema seguindo a mesma linha. Black escreve:
Esta é uma das várias canções de amor compostas para este rei que articulam uma crença na sua relação muito próxima e pessoal com a deusa do amor. Nalgumas canções deste tipo, o nome do rei parece ter sido meramente substituído pelo de Dumuzi [o amante celestial de Inanna no mito]. Quase certamente eram executadas no contexto de certos rituais religiosos que têm sido referidos como o "casamento sagrado", embora se desconheça os detalhes precisos. A crença de que o rei poderia, em certo sentido, ter efetivamente relações sexuais com a deusa está intimamente ligada à crença na divindade dos reis deste período.
(págs. 88-89)
É provável que se pensasse que o rei, ao manter relações sexuais com uma das sacerdotisas de Inanna, estaria a unir-se à própria deusa, mas, como Black observa, os detalhes do ritual do casamento sagrado são desconhecidos. Embora a recitação do poema pela "noiva" servisse uma função religiosa e social na comunidade ao garantir a prosperidade, trata-se também de uma composição profundamente pessoal e afetuosa, proferida por uma voz feminina, relativa ao amor romântico e erótico.
A História por Trás do Poema
Shu-Sin reinou como rei na cidade de Ur entre cerca de 2037 e 2028 a.C., durante o período Ur III (cerca de 2112 a cerca de 2004 a.C.). O poema é por vezes datado de cerca de 2030 a.C., mas é-lhe atribuída mais frequentemente uma data de composição genérica por volta de 2000 a.C. Shu-Sin era o filho mais novo do rei Shulgi de Ur (reinado de 2094 a cerca de 2046 a.C.), que foi um dos maiores reis do período Ur III. O filho mais velho de Shulgi, Amar-Suen (reinado de cerca de 2046 a cerca de 2037 a.C.), reprimiu revoltas e manteve o reino até à sua morte devido a uma picada de escorpião, altura em que Shu-Sin subiu ao trono.
Embora não tenha sido tão poderoso ou influente como o seu avô Ur-Nammu (reinou por volta de 2112-2094 a.C.) ou o seu pai, Shu-Sin foi um monarca capaz que manteve o reino unido durante um período de crescentes ameaças e tensões. Era certamente bem visto pelos seus súbditos e por aqueles que o sucederam, uma vez que se tornou uma personagem popular na literatura.
Segundo o académico Stephen Bertman, além deste poema, "Shu-Sin foi também o protagonista masculino numa série de poemas eróticos em acádio, escritos em forma de diálogo, semelhantes ao posterior "Cântico dos Cânticos" bíblico" (pág. 105). Muito antes de as narrativas bíblicas terem sido escritas, os mesopotâmios já escreviam os "primeiros rascunhos" de algumas das obras mais influentes da história mundial.
O trabalho arqueológico realizado na Mesopotâmia no século XIX mudou completamente a forma como a história e o mundo podiam ser compreendidos. Outrora, o passado antigo terminava na Bíblia e na versão da história apresentada nas narrativas bíblicas. Após a descoberta do passado remoto da Mesopotâmia, a história foi alargada e aprofundada, e a narrativa da humanidade tornou-se muito mais complexa e interessante.
A literatura da antiga Mesopotâmia forneceu as primeiras formas de literatura mundial, as primeiras expressões da emoção e experiência humanas e, entre elas, a experiência do amor romântico e da paixão através do poema de amor mais antigo do mundo.
O Texto do Poema
A tradução que se segue da "Canção de Amor de Shu-Sin" foi extraída da obra de Samuel Noah Kramer, A História Começa na Suméria, págs. 246-247:
Noivo, querido do meu coração,
É bela a tua beleza, doce como o mel,
Leão, querido do meu coração,
É bela a tua beleza, doce como o mel.
Cativaste-me, deixa-me estar tremendo diante de ti.
Noivo, eu seria levada por ti para o quarto de dormir,
Cativaste-me, deixa-me estar tremendo diante de ti.
Leão, eu seria levada por ti para o quarto de dormir.
Noivo, deixa-me acariciar-te,
A minha carícia preciosa é mais saborosa que o mel,
No quarto de dormir, pleno de mel,
Deixa-me desfrutar da tua bela beleza,
Leão, deixa-me acariciar-te,
A minha carícia preciosa é mais saborosa que o mel.
Noivo, tu tiveste o teu prazer de mim,
Diz à minha mãe, ela dar-te-á iguarias,
Ao meu pai, ele dar-te-á presentes.
O teu espírito, eu sei como alegrar o teu espírito,
Noivo, dorme na nossa casa até ao amanhecer,
O teu coração, eu sei como alegrar o teu coração,
Leão, dorme na nossa casa até ao amanhecer.
Tu, porque me amas,
Dá-me, peço-te, as tuas carícias,
Meu senhor deus, meu senhor protetor,
Meu Shu-Sin, que alegras o coração de Enlil,
Dá-me, peço-te, as tuas carícias.
O teu lugar, bom como o mel, peço-te que ponhas a mão sobre ele,
Pousa a tua mão como sobre uma veste-gishban,
Cobre-o com a palma da mão como uma veste-gishban-sikin.
É uma canção-balbale de Inanna.
