Verdades Envoltas em Ficção: A Literatura Naru da Mesopotâmia

A Originalidade na Escrita de Sucessos Literários da Antiguidade
Joshua J. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Na Antiguidade, a originalidade nas composições literárias não detinha o mesmo peso ou valor que lhe são atribuídos na atualidade. Ao longo dos últimos séculos, os autores têm sido aclamados pela criação de obras originais, sendo, em contrapartida, alvo de escárnio por plágio ou por apresentarem uma obra como um relato verídico — em particular quando narrado na primeira pessoa — sem que efetivamente o seja. Todavia, este paradigma não se aplicava ao mundo antigo. Na contemporaneidade, um autor concebe uma obra original na esperança de que esta desperte o interesse da maioria do público leitor e se torne um sucesso de vendas; no mundo antigo, um autor podia simplesmente assumir a identidade de uma figura já consagrada, redigir um relato sob o seu nome e ponto de vista, e apresentá-lo ao público como um testemunho fidedigno e autoritário na primeira pessoa.

Relief of King Ashurnasirpal II
Relevo do Rei Assurnasirpal II Wally Gobetz (CC BY-NC-ND)

Na Mesopotâmia, tais obras eram muito populares — como viriam a ser mais tarde noutras culturas — e são hoje conhecidas como o género literário «literatura naru», um termo cunhado em 1934 por H. G. Guterbock, referindo-se a um conjunto de obras ficcionais antigas que se fazem passar por histórias autênticas. As histórias criadas pelos escritores deste género substituíram qualquer verdade histórica que pudesse existir e, com o tempo, tornaram-se a verdade. Este parece ter sido o efeito de grande parte das obras da literatura naru. O mito, com o tempo, tornou-se a realidade. A este respeito, a académica Gerdien Jonker escreve:

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Cumpre esclarecer que os autores da Antiguidade não tinham por objetivo enganar através das suas criações literárias. A literatura inspirada no género naru constituía um excelente meio pelo qual, ao afastar-se das formas tradicionais, era possível criar uma nova «imagem» social do passado.

(pág. 95)

A Literatura Naru e a Bíblia

Se tais obras foram realmente aceites como relatos verdadeiros pelo povo da época é motivo de algum debate, mas se considerarmos as narrativas relativas à vida de Jesus Cristo — tanto as histórias dos evangelhos que compõem os primeiros quatro livros do Novo Testamento como aquelas que foram excluídas —, parece bastante provável que sim.

As narrativas dos evangelhos encaixam-se perfeitamente na tradição da literatura Naru.

Nenhum dos manuscritos existentes que detalham a vida e os ensinamentos de Jesus foi redigido por quem tivesse experienciado os acontecimentos em primeira mão; foram escritos após as missões evangélicas de São Paulo já terem estabelecido a natureza divina de Jesus e o propósito da sua missão (algures entre cerca de 50 e 90 d.C.). Isto não significa que não haja verdade nessas narrativas, mas apenas que, muito provavelmente, não se trata de uma verdade histórica. As narrativas evangélicas enquadram-se inteiramente na tradição da literatura naru.

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Tal como as obras mesopotâmicas, não foram escritas pelas testemunhas oculares dos acontecimentos — cujos nomes vieram a ser aceites como os dos autores — e recorrem a pessoas e acontecimentos históricos conhecidos para conferir credibilidade à narrativa. O seu objetivo final não era ser «história», mas sim contar histórias sobre a vida de um homem santo que tinha marcado as pessoas.

Mateus, Marcos, Lucas e João não eram os nomes dos autores dos quatro evangelhos canónicos; esses nomes foram propositadamente escolhidos pelo peso que exerceriam sobre um público da Antiguidade, que os poderia reconhecer como estando associados a Jesus. Embora este facto possa inquietar os leitores contemporâneos, não teria sido uma questão de grande relevância para um público antigo, o qual parece ter aceitado as obras como tendo sido compostas por homens que efetivamente conheceram Jesus e ouviram os seus ensinamentos.

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Aquando da redação dos relatos evangélicos, era já conhecida a história do ministério de Jesus, sob diversas formas. O propósito dos manuscritos que conhecemos como os evangelhos — tal como o livro de Lucas refere — consiste em fornecer testemunhos autoritários sobre a vida e os ensinamentos de Jesus; contudo, o facto de Lucas iniciar a narrativa assinalando a existência de múltiplas versões da história (que a sua própria narrativa se propõe corrigir) sugere fortemente a existência de uma figura central cuja vida se prestava a inúmeras interpretações:

1 PRÓLOGO - Já que muitos empreenderam compor uma narração dos factos que entre nós se consumaram, como no-los transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e se tornaram servidores da Palavra, resolvi eu também, depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem, expor-tos por escrito e pela sua ordem, ilustre Teófilo, a fim de que reconheças a solidez da doutrina em que foste instruído.

(Lucas 1:1-4 - Villapadierna, Carlos (✝) et al. Bíblia Sagrada. 3.ª Ed. Lx: Dif. Bíblica (MC), 1968, pág. 1737-1738)

O Evangelho segundo São Lucas é o único em que o narrador não se apresenta (ou, como alguns têm defendido, não se apresenta a si própria) como testemunha ocular dos acontecimentos descritos. O propósito declarado é fornecer um "relato ordenado" da vida de Jesus, permitindo ao leitor distinguir entre este testemunho e outros que pudessem estar a circular na época. O autor de Lucas torna claro, logo na primeira linha do livro, que não se trata de um relato em primeira mão, constituindo esta a exceção à regra.

Evangelist Portrait of Luke
Retrato do Evangelista Lucas Walters Art Museum Illuminated Manuscripts (CC BY-NC-SA)

Os outros três evangelhos canónicos e aqueles que não estão incluídos na Bíblia apresentam-se como relatos em primeira mão. Isto, claro, não é exclusivo das histórias dos evangelhos no Novo Testamento, já que algumas das epístolas atribuídas a Paulo também são consideradas obras de autores anónimos que escreveram no estilo de Paulo (da mesma forma que o poema O Escudo de Hércules foi escrito no estilo de Hesíodo, do século VIII a.C., e há muito aceite como obra sua), mais notavelmente o livro de Hebreus.

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No Antigo Testamento, o Cântico de Salomão (também conhecido como Cântico dos Cânticos) é outro exemplo do modelo de literatura naru em ação, na medida em que o livro começa no capítulo 1:1 com a frase: «O Cântico dos Cânticos de Salomão.» A obra foi datada entre os séculos VI e III a.C., enquanto Salomão viveu por volta de 970-931 a.C.

Ele poderia, certamente, ter redigido uma versão primitiva do Cântico de Salomão, mas crê-se geralmente que a obra terá sido criada por alguém que, mais tarde, se serviu do seu ilustre nome. Este mesmo paradigma aplica-se a livros bíblicos como o Eclesiastes, os Provérbios e os Salmos, que são regularmente atribuídos ou a Salomão ou ao seu pai, o Rei David, mas que terão sido, muito provavelmente, escritos ou coligidos por autores posteriores. autores posteriores.

O Paradigma de Naru em Platão

É igualmente verificado este mesmo padrão da literatura naru nas obras de Platão, nas quais ele apresenta o seu mestre Sócrates em situações que pareceriam ao leitor ou ouvinte terem sido narradas por uma testemunha real dos acontecimentos. Embora Platão se coloque no júri no diálogo da Apologia, os estudiosos têm questionado se o que Sócrates disse naquele dia está de acordo com a versão de Platão dos acontecimentos, uma vez que Xenofonte (430 a cerca de 354 a.C.), também seguidor de Sócrates, apresenta uma versão diferente do julgamento e, no diálogo de Platão, o Fedão, que relata as últimas horas da vida de Sócrates, o autor afirma que não estava presente, mas apresenta um relato sob o nome de um colega de estudos, Fédon.

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Diz-se que o Fédon histórico repudiou o diálogo como ficção, mas isso não impediu que o diálogo de Fédon (ou o Livro da Alma de Platão, como era conhecido) fosse amplamente lido e apreciado. A originalidade na composição pode ter trazido recompensas pessoais para o escritor, mas na publicação, um nome reconhecível era o mais importante. Fédon tinha sido um escravo que Sócrates conseguiu libertar para que pudesse estudar filosofia e, após a morte do seu mestre, fundou a sua própria escola e tornou-se tão conhecido na Atenas antiga como Platão.

Plato
Platão Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

Embora Platão não precisasse de ajuda para encontrar um público para a sua obra, um diálogo com o popular Fédon como personagem principal teria tido grande apelo. Se Platão ou Fédon estiveram realmente presentes na cela de Sócrates durante as suas últimas horas já não importa; o diálogo em que Fédon conta a história daquele dia tornou-se agora a verdade histórica.

Os Objetivos da Literatura Naru

Esta prática de escrever histórias supostamente verdadeiras que não se tinha realmente vivido, tal como muitas práticas, conceitos e invenções, teve origem na Mesopotâmia no género da literatura naru. Segundo o académico O. R. Gurney:

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Um naru era uma estela gravada na qual um rei registava os acontecimentos do seu reinado; as características distintivas de tal inscrição são uma autoapresentação formal do autor, através do seu nome e títulos, uma narrativa na primeira pessoa e um epílogo que consistia, geralmente, em maldições sobre qualquer pessoa que pudesse, no futuro, danificar o monumento, e bênçãos sobre aqueles que o honrassem. A chamada "literatura naru" é composta por um pequeno grupo de inscrições naru apócrifas, redigidas provavelmente no início do segundo milénio a.C., mas em nome de reis célebres de uma era pretérita. Um exemplo sobejamente conhecido é a Lenda de Sargão de Ácade. Nestas obras, a forma do naru é preservada, mas o conteúdo é lendário ou mesmo fictício.

(pág. 93)

Os especialistas debatem continuamente se tais relatos deveriam, por direito, ser designados como "literatura naru" ou "autobiografia fictícia"; porém, independentemente do termo utilizado, estas obras apresentam-se propositadamente como testemunhos na primeira pessoa de um acontecimento significativo, do qual o público deve extrair informações importantes — seja a "verdade" dos factos históricos, uma moral religiosa ou, simplesmente, alguma lição considerada útil para quem escuta as narrativas. O termo "literatura naru" deriva de "naru", que é explicado pela investigadora Gerdien Jonker:

A palavra naru é utilizada como nome para vários objetos, originalmente pedras de demarcação, pedras comemorativas e monumentos. Dois tipos de objetos com inscrições receberam a designação naru no início do segundo milénio: tabuletas que acompanhavam presentes e tabuletas utilizadas para inscrições em edifícios. No final do terceiro milénio, o naru desempenhava principalmente um papel em transações religiosas; no início do segundo milénio, viria a tornar-se não só de facto, mas também simbolicamente, o portador da memória.

(pág. 90)

Como portadores da memória real, a literatura naru tinha um significado enorme para aqueles que ouviam as histórias, e isto era especialmente verdadeiro no caso das histórias relativas aos grandes reis do Império Acádio, Sargão, o Grande (reinou 2334-2279 a.C.) e o seu neto Naram-Sin (reinou 2254-2218 a.C.). Estes dois, mais do que quaisquer outras figuras da antiga Mesopotâmia, assumiram um papel de destaque na literatura naru posterior da região.

A Lenda de Sargão de Ácade, mencionada anteriormente por Gurney, é apresentada como sendo a autobiografia de Sargão — e parece ter sido aceite como tal pelo público antigo — mas é muito provável que se trate de um relato lendário inicialmente divulgado com o objetivo de conquistar os corações e as mentes da população suméria de classes mais baixas, cujo apoio Sargão precisava para conquistar a região.

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Akkadian Ruler
Governante de Acádia Sumerophile (Public Domain)

Ele apresenta-se como tendo nascido filho ilegítimo de uma sacerdotisa, tendo sido abandonado à deriva no rio Eufrates pouco após o seu nascimento, resgatado por um jardineiro e, posteriormente, através da ajuda da deusa Inana, ascendido a rei de Ácadia. À época em que Sargão subiu ao poder, em 2334 a.C., a Suméria era uma região que apenas recentemente fora unificada sob o domínio do rei de Uma (e, mais tarde, de Uruque), Lugalzagesi, e, mesmo então, não constituía uma união coesa.

Antes da conquista de Lugalzagesi, as cidades sumérias estavam frequentemente em guerra umas com as outras, disputando recursos como água e direitos sobre a terra. A complicar ainda mais a situação estava a discrepância entre ricos e pobres. A académica Susan Wise Bauer escreve sobre isto, comentando:

A conquista relativamente rápida de Sargão de toda a planície da Mesopotâmia é surpreendente, dada a incapacidade dos reis sumérios de controlar qualquer área muito maior do que duas ou três cidades [mas os sumérios] sofriam de um fosso crescente entre a liderança da elite e os trabalhadores pobres. [Os ricos] usavam o seu poder combinado, religioso e secular, para reivindicar para si próprios até três quartos das terras em qualquer cidade. A conquista relativamente célere da região por parte de Sargão (para já não mencionar a alusão constante à sua própria origem não aristocrática) poderá revelar um apelo bem-sucedido aos estratos oprimidos da sociedade suméria para que se lhe aliassem.

(pág. 99)

Ao apresentar-se como um «homem do povo», conseguiu angariar apoio para a sua causa e conquistou a Suméria com relativa facilidade. Assim que o sul da Mesopotâmia ficou sob o seu controlo, avançou para criar o primeiro império multinacional da história. O facto de o seu reinado nem sempre ter sido popular, uma vez que se encontrava firmemente no poder, é atestado pelo número de revoltas que, segundo as suas inscrições, foi obrigado a enfrentar. No início, porém, o seu apelo teria sido grande para as pessoas que estavam cansadas de ver os ricos a viverem como bem entendessem às custas da classe trabalhadora.

Crê-se que o monarca persa posterior, Dário I (o Grande, reinou 522-486 a.C.), se terá inspirado no exemplo de Sargão para a sua Inscrição de Behistun (encomendada por volta de 520 a.C.), na qual apresenta um relato da sua própria ascensão ao poder. Diversos especialistas contemporâneos sustentam que Dário I usurpou o trono do Império Aqueménida; contudo, de acordo com a sua inscrição, a sua ascensão deveu-se à graça divina concedida pelo deus supremo Ahura-Mazda e, ademais, ele estaria apenas a depor um usurpador fora da lei que não detinha qualquer direito ao trono. Se Dário I dizia a verdade é uma questão de somenos importância, uma vez que o seu reinado foi tão eficaz e impressionante que se legitimou por si próprio.

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Os Exemplos Famosos da Literatura Naru

Outras obras da literatura naru do segundo milénio a.C., tais como as relativas a Naram-Sin, deixaram claro o papel dos deuses na vida das pessoas e como se deve comportar ao lidar com a divindade. A obra conhecida como A Grande Revolta recorre às rebeliões históricas contra o início do reinado de Naram-Sin, mas embeleza os factos para impressionar o público com a genialidade militar de Naram-Sin e a natureza ingrata da cidade de Quis (Kish), que organizou a rebelião contra ele. Na Lenda de Cutha (também conhecida como a Lenda de Kutha), também do segundo milénio a.C., o foco é a importância de ouvir e obedecer à vontade dos deuses.

Nesta história, o reino de Naram-Sin é invadido por um exército de criaturas aparentemente sobre-humanas (associadas, pela sua descrição, embora não pelo nome, aos gutianos). Destruem tudo no seu caminho e parecem ser invencíveis. Naram-Sin envia um dos seus soldados para picar uma das criaturas com uma faca e ver se sangra. Quando o soldado regressa e relata que a criatura sangrou, Naram-Sin percebe que, se sangram, podem ser mortas. Consulta então os deuses para descobrir a sua vontade nesta situação e se deve atacar os invasores.

Akkadian Soldier on Naram-Sin Victory Stele from Wasit
Soldado Acadiano na Estela da Vitória de Naram-Sin, de Wasit Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

O oráculo diz-lhe para não atacar, nem recebe qualquer mensagem dos deuses nos seus sonhos. Mesmo assim, ignora os desejos dos deuses, dizendo:

Que leão alguma vez praticou a adivinhação? Que lobo consultou um intérprete de sonhos? Deixa-me partir como um bandido, seguindo o conselho do meu próprio coração. Deixa-me ignorar o conselho do deus; deixa-me assumir a responsabilidade por mim mesmo.

(linhas 80-83)

Ele envia 120 000 soldados contra os invasores, e «nenhum deles regressou com vida» (verso 85). Continuando a seguir o conselho do seu próprio coração, envia 90 000 soldados, e nenhum deles regressa. Acreditando que a terceira vez será diferente, ele envia mais 60.700 soldados, mas também estes são mortos em batalha. Nesta altura, o rei percebe que não fez uma boa escolha e exclama:

O que deixei para trás como legado do meu reinado? Sou um rei que não cuidou da sua terra e um pastor que não cuidou do seu povo. Como posso continuar? Como posso salvar o país?

(linhas 90-93)

Naram-Sin humilha-se então perante os deuses no Festival do Ano Novo e procura a sua vontade. Quando volta a encontrar os invasores, na forma de doze dos seus soldados que capturou, jura que não prosseguirá com o castigo até ter ouvido a vontade dos deuses. Os deuses dizem-lhe para não fazer mal aos prisioneiros e, além disso, para não fazer nada para repelir os invasores, porque o grande deus Enlil tem planos para os destruir ele próprio; foi por isso que lhe disseram, desde o início, para não atacar os seus inimigos.

Dizem-lhe que Enlil tratará das forças invasoras e «as levantará para o mal. Elas aguardam o coração furioso de Enlil» (linhas 131-132). Naram-Sin aceita a vontade dos deuses e entrega-lhes os prisioneiros no templo. A obra termina com a advertência de que quem quer que a leia no futuro deve dar ouvidos à mensagem e acatar a vontade dos deuses, em vez de confiar no conselho do seu próprio coração e fazer o que achar melhor.

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Tal como em A Grande Revolta, a mensagem teria significado tanto para a nobreza como para o povo comum. Embora a obra termine com um discurso dirigido a um governante, teria sido bem recebida por qualquer pessoa que a ouvisse, da mesma forma que as leituras da Bíblia são recebidas nos dias de hoje. A mensagem é a mesma que se encontra no livro bíblico de Provérbios 3:5: «Confia no Senhor de todo o teu coração; e não te apoies no teu próprio entendimento.» Naram-Sin, no início da história tão arrogante que se considerava mais sábio e mais capaz do que os seus deuses, é humilhado no final e, aparentemente, escreveu esta inscrição como uma advertência aos outros.

Victory Stele of Naram-Sin
Estela da Vitória de Naram-Sin Jan van der Crabben (CC BY-NC-SA)

Outra obra com Naram-Sin que parece ter sido muito popular foi A Maldição de Ágade, que explicava por que razão os deuses destruíram a cidade de Acádia. Embora esta obra não seja tecnicamente literatura naru (uma vez que não é narrada na primeira pessoa e não segue a progressão padrão das inscrições), deriva certamente do género, e alguns estudiosos (como Gerdien Jonker) consideram-na parte do género naru, na medida em que algumas dessas histórias também são escritas na terceira pessoa.

A cidade de Acádia foi a sede do Império Acádio (2350/2334-2154 a.C.), que caiu perante uma invasão dos gútios em 2154 a.C. Mais tarde, tornou-se a base de histórias e lendas e continuaria a inspirar as mesmas durante milénios. A Maldição de Ágade explica por que razão Acádia foi destruída pelos gútios e, além disso, como é fútil desafiar a vontade dos deuses, pois só eles sabem quais são os seus planos e os seres humanos não podem ter acesso a tal conhecimento.

Nesta história, o deus Enlil retira a sua graça de Acádia e Naram-Sin implora aos céus durante sete anos para saber o motivo. Finalmente frustrado com o silêncio dos deuses, ele decide tomar o assunto nas próprias mãos. Quem conhece a Bíblia reconhecerá na próxima ação de Naram-Sin a antítese de Jó, que se recusou a amaldiçoar Deus e a morrer e continuou a acreditar que o seu redentor vivia.

Naram-Sin, cansado de não receber resposta às suas orações nem reparação pelo seu sofrimento, mobiliza o seu exército e marcha sobre a cidade sagrada de Enlil, Nipur, onde destrói o Ekur, o templo de Enlil. Ele "crava as suas enxadas nas raízes [do templo], os seus machados nos alicerces, até que o santuário, qual soldado morto, cai prostrado" (Leick, Invention of the City [Mesopotâmia: A Invenção da Cidade], pág. 106). Em seguida, destrói até mesmo as ruínas.

A Maldição de Ágade é contada na terceira pessoa, mas ainda assim do ponto de vista de alguém que testemunhou os acontecimentos que descreve.

Este ataque, claro, provoca a ira não só de Enlil, mas também dos outros deuses, que enviam os gutianos – «um povo que desconhece a inibição, possuindo instintos humanos, mas inteligência canina e feições simiescas» (Idem) – para invadir Acádia e devastá-la. Segue-se uma fome generalizada após a invasão dos gutis, os mortos permanecem a apodrecer nas ruas e nas casas, e a cidade fica em ruínas; assim, segundo o conto, termina a outrora gloriosa cidade — e império — de Acádia, devido à arrogância e à falta de fé do rei.

A Maldição de Ágade é contada na terceira pessoa, mas ainda assim do ponto de vista de alguém que testemunhou os acontecimentos que descreve. Nos registos históricos reais, não há provas de que Naram-Sin alguma vez tenha saqueado Nipur ou destruído o templo de Enlil. A estudiosa Gwendolyn Leick, entre outros, sugeriu que A Maldição de Ágade é uma obra escrita posteriormente, muito provavelmente algures antes de cerca de 2112 a.C., para expressar «uma preocupação ideológica com a relação correta entre os deuses e o monarca absoluto» (Leick, pág. 107), cujo autor escolheu Acádia e Naram-Sin como temas porque, nessa altura, já eram lendários.

De acordo com as evidências históricas, Naram-Sin honrava os deuses e era muito piedoso. Como o rei histórico possa ter sido, e o que ele fez, não teve qualquer importância para o autor de A Maldição de Ágade; o que importava era a moral da história, e as verdades históricas que não se encaixavam nessa história não tinham qualquer importância.

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Conclusão

Mais uma vez, como mencionado acima, para um leitor moderno, tal prática pode ser interpretada como desonesta, mas para um ouvinte antigo do conto, a mensagem da história era importante, não os «factos» nela contidos. Platão discute isto na sua obra República, Livro II, quando aborda o conceito da Verdadeira Mentira (também conhecida como a Mentira na Alma). Ao discutir vários tipos de inverdades, ele faz com que a personagem Sócrates diga:

Considerando que a mentira nas palavras é, em certos casos, útil e não detestável; ao lidar com inimigos — esse seria um exemplo; ou ainda, quando aqueles a quem chamamos de amigos, num acesso de loucura ou ilusão, estão prestes a causar algum mal, então é útil e constitui uma espécie de remédio ou medida preventiva; também nos contos da mitologia, dos quais acabámos de falar — porque não conhecemos a verdade sobre os tempos antigos, tornamos a falsidade o mais parecida possível com a verdade e, assim, tiramos partido dela.

(págs. 378-382d)

A mitologia sempre explicou aos seres humanos como o mundo funciona, de onde vieram as pessoas, por que estão aqui, e a mitologia sempre foi aceite por quem ouve os contos, seja na totalidade ou em parte, literal ou figurativamente, como transmitindo a verdade. Seja no mundo antigo ou no mundo moderno, os seres humanos precisam de se sentir seguros nas suas vidas e acreditar que há algum propósito em levantar-se todos os dias para enfrentar quaisquer desafios que os esperem. Quer se baseie na filosofia ou na religião, em Platão ou na Bíblia, ou na própria experiência e no progresso da investigação científica, continua-se a procurar algum tipo de garantia de que o mundo, e a própria vida, têm significado e propósito.

A literatura naru na antiga Mesopotâmia proporcionava essa garantia, dando aos leitores uma compreensão do mundo governado por deuses que se preocupavam intimamente com as escolhas e ações humanas. Numa obra como A Lenda de Sargão de Acádia, essa lição pode ser que alguém pode ascender de origens infelizes, com a ajuda dos deuses, para se tornar rei, enquanto em A Lenda de Cutha a mensagem pode ser resumida nas linhas do livro bíblico de Eclesiastes 5:1: «Não digas nada inconsideramente, nem o teu coração se apresse a proferir palavras diante de Deus, porque Deus está no céu, e tu na terra: portanto, sejam poucas as tuas palavras.» (Villapadierna, Carlos (✝) et al. Bíblia Sagrada. 3.ª Ed. Lx: Dif. Bíblica (MC), 1968, pág. 1099)

A literatura naru utilizava períodos históricos passados para transmitir mensagens de significado a um público que procurava esse significado; se os detalhes dessas histórias eram realmente verdadeiros era irrelevante, desde que a mensagem ressoasse nos corações daqueles que ouviam as histórias contadas. Nesta qualidade, a literatura naru desempenhou um papel vital na sociedade, transmitindo valores culturais centrais através de histórias dramáticas e memoráveis. Como referido, este mesmo paradigma seria seguido por escritores posteriores noutras culturas, a fim de incutir um importante valor cultural, filosófico ou religioso no público.

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Perguntas & Respostas

Quando surgiu pela primeira vez a literatura 'naru' da Mesopotâmia?

A literatura 'naru' da Mesopotâmia surgiu pela primeira vez no segundo milénio a.C.

Será que as obras antigas deste género eram conhecidas como «literatura 'naru'»?

Não. O termo «literatura 'naru' mesopotâmica» foi cunhado em 1934 por H. G. Guterbock. Desconhece-se como é que as obras eram referenciadas pelos antigos mesopotâmios.

Quais são algumas das obras mais famosas da literatura 'naru' da Mesopotâmia?

Algumas das obras mais famosas da literatura 'naru' da Mesopotâmia são «A Lenda de Sargão de Acádia», «A Lenda de Cutha», «A Maldição de Ágade» e, segundo alguns estudiosos, «A Epopeia de Gilgamesh».

Será que a literatura 'naru' da Mesopotâmia é a forma mais antiga de ficção histórica?

Sim. A literatura 'naru' da Mesopotâmia pode ser considerada ficção histórica, na medida em que apresenta uma figura histórica famosa num cenário ficcional que, ainda assim, se inspira ou recorre a acontecimentos reais.

Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Tradutora e autora, o gosto pelas letras é infindável – da sua concepção ao jogo de palavras, da sonoridade às inumeráveis possibilidades de expressão.

Sobre o Autor

Joshua J. Mark
Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Mark, J. J. (2026, abril 02). Verdades Envoltas em Ficção: A Literatura Naru da Mesopotâmia: A Originalidade na Escrita de Sucessos Literários da Antiguidade. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-749/verdades-envoltas-em-ficcao-a-literatura-naru-da-m/

Estilo Chicago

Mark, Joshua J.. "Verdades Envoltas em Ficção: A Literatura Naru da Mesopotâmia: A Originalidade na Escrita de Sucessos Literários da Antiguidade." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, abril 02, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-749/verdades-envoltas-em-ficcao-a-literatura-naru-da-m/.

Estilo MLA

Mark, Joshua J.. "Verdades Envoltas em Ficção: A Literatura Naru da Mesopotâmia: A Originalidade na Escrita de Sucessos Literários da Antiguidade." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 02 abr 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-749/verdades-envoltas-em-ficcao-a-literatura-naru-da-m/.

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