Em tempos remotos, numa terra chamada Suméria, um povo construiu um templo em homenagem ao deus que tinham conquistado as forças da desordem e trazido ordem ao caos. Construíram o templo num lugar conhecido como Eridu, que como a académica Gwendolyn Leick diz:
Um dos sítios localizados mais a sul, no limite extremo da planície aluvial e próximo dos pântanos: a zona de transição entre o mar e a terra, com os seus cursos de água mutáveis, ilhas e densos canaviais.
(Cidade, pág. 2).
Foi a partir deste cenário rural que surgiu a cidade mesopotâmica, e a urbanização – onde quer que se tenha desenvolvido posteriormente na região – tornar-se-ia central para a identidade pessoal mesopotâmica, o comércio comunitário, a educação, a indústria e os avanços militares, religiosos e culturais, a partir de cerca de 4000 a.C. O surgimento das cidades mesopotâmicas não só veio a definir a região, mas também o seu povo. Leick escreve:
Os escribas mesopotâmicos consideravam a vida urbana como a única forma de comunalidade civilizada. A identidade cívica de uma pessoa era a de um cidadão de uma determinada cidade, com os seus subúrbios e campos circundantes. Os membros não urbanos da população definiam-se pela sua lealdade tribal.
(A a Z, pág. 42)
A cidade não era apenas um lugar para viver, mas proporcionava também às pessoas a sua identidade, o seu sustento e o seu propósito de vida. Da mesma forma que as pessoas de hoje defendem orgulhosamente a sua própria cidade, os seus monumentos, especialidades gastronómicas e peculiaridades, também o faziam os povos da antiga Mesopotâmia. A cidade passou igualmente a estar associada à realeza e, por conseguinte, à ordem. A semi-mítica Lista de Reis Sumérios indica as primeiras cinco cidades às quais a realeza foi concedida por vontade divina:
- Eridu
- Bad-tibira
- Larak
- Sipar
- Shuruppak
A realeza, de acordo com este documento, passou de Eridu até Shuruppak e, a partir daí, continuou, mantendo a visão divina de ordem social que se tinha concretizado pioneiramente em Eridu. Embora os estudos académicos contemporâneos tenham provado que esta narrativa é falsa, a visão do mundo expressa na Lista de Reis Sumérios demonstra de que forma a cidade era equiparada à ordem e à civilização na época em que a obra foi escrita, durante o Período de Ur III (de cerca de 2112 a cerca de 2004 a.C.).
Porque é que surgiram as primeiras cidades na Mesopotâmia? A resposta mais simples é que as pessoas estabeleceram comunidades perto de fontes de água, desenvolveram técnicas de irrigação para canalizar essa água para os seus campos e, assim, atraíram outros que desejavam o mesmo nível de afluência que viam naqueles que ali habitavam. À medida que mais pessoas chegavam, a cidade desenvolvia-se não só para incentivar o crescimento económico, mas também para proteger quem o tornava possível – recorrendo, para isso, a um rei, a um governo, a leis, a muralhas, a uma força militar e a obrigações religiosas e culturais.
As Origens Mitológicas
Esta área pantanosa, rodeada por terras áridas e dunas de areia, representava para o povo a força criadora de vida dos deuses e conferia uma manifestação física da ordem que os deuses criaram a partir do caos; as doces águas da vida eram celebradas em Eridu, uma vez que estavam associadas àquilo a que os sumérios chamavam o abzu: a fonte primordial de toda a existência, o reino onde os deuses habitavam e do qual tinham emergido.
O deus Enki surgiu do abzu e habitou Eridu, e A Lista Suméria de Reis afirma, "Depois da realeza ter descendido do céus, a realeza estava em Eridu" Este centro cultural tornou-se a primeira cidade para os sumérios. A historiadora Gwendolyn Leick escreve:
Assim, o Éden mesopotâmico não é um jardim, mas sim uma cidade, formada a partir de uma porção de terra firme cercada pelas águas. O primeiro edifício é um templo… Era desta forma que a tradição mesopotâmica apresentava a evolução e a função das cidades, e Eridu fornece o paradigma mítico. Ao contrário do Éden bíblico, do qual o homem foi banido para sempre após a Queda, Eridu permaneceu um lugar real, imbuído de sagrado, mas sempre acessível.
(Cidade, pág. 2).
Eridu não foi apenas a primeira do mundo para os sumérios, mas o princípio da civilização. Todas as outras cidades já erguidas, eles acreditavam, tinham sua origem nas areias e águas que circundavam Eridu.
As Teorias Modernas
Os académicos contemporâneos divergem quanto às razões que levaram as primeiras cidades do mundo a surgir na região da Mesopotâmia e não noutro local. As teorias variam desde a hipótese dos antigos astronautas a convulsões sociais ou naturais que forçaram as populações a unir-se em centros urbanos, passando por preocupações ambientais e até pela migração forçada de comunidades rurais para as cidades. Nenhuma destas teorias é universalmente aceite, sendo que a hipótese dos antigos astronautas é rejeitada por todos os investigadores de prestígio.
O que é consensual, no entanto, é que no momento em que os antigos sumérios da Mesopotâmia decidiram comprometer-se com o processo de urbanização, mudaram para sempre a forma como os seres humanos viveriam. O académico Paul Kriwaczek escreve:
Este foi um momento revolucionário na história humana. Os [sumérios] ambicionavam conscientemente nada menos do que mudar o mundo. Foram os primeiros a adotar o princípio que tem impulsionado o progresso e o avanço ao longo da história, e que ainda motiva a maioria de nós nos tempos modernos: a convicção de que é direito da humanidade, a sua missão e o seu destino, transformar e aperfeiçoar a natureza e tornar-se sua senhora.
(pág. 20)
Este princípio a que Kriwaczek se refere talvez não passe da inclinação natural dos seres humanos para se reunirem em busca de proteção contra as intempéries, ou poderá ter as suas raízes na religião e nas práticas religiosas comunitárias que, entre os benefícios que oferecem, garantem que existe ordem e significado por detrás dos acontecimentos aparentemente aleatórios da vida. O académico Lewis Mumford afirma:
O hábito de recorrer a grutas para a realização coletiva de cerimónias mágicas parece remontar a um período anterior, e comunidades inteiras, vivendo em grutas e em cavidades rochosas, sobreviveram em áreas amplamente dispersas até ao presente. O contorno da cidade, tanto como forma exterior como padrão interior de vida, poderá encontrar-se em tais aglomerados ancestrais.
(pág. 1)
Independentemente do que tenha dado origem, inicialmente, ao desenvolvimento das cidades na Mesopotâmia, o mundo nunca mais seria o mesmo. Kriwaczek escreve:
A partir de meados de 4000 a.C., ao longo dos dez a quinze séculos seguintes, o povo de Eridu e os seus vizinhos lançaram os alicerces de quase tudo o que conhecemos como civilização. Ficou conhecido como a Revolução Urbana, embora a invenção das cidades tenha sido, na verdade, o menos importante.
Com a cidade surgiu o Estado centralizado, a hierarquia das classes sociais, a divisão do trabalho, a religião organizada, a construção monumental, a engenharia civil, a escrita, a literatura, a escultura, a arte, a música, a educação, a matemática e o direito, para já não falar de uma vasta gama de novas invenções e descobertas — desde elementos tão básicos como os veículos com rodas e os barcos à vela, até ao forno de oleiro, à metalurgia e à criação de materiais sintéticos.
E, acima de tudo isto, surgiu a enorme coleção de noções e ideias tão fundamentais para a nossa forma de olhar para o mundo, como o conceito de números ou de peso, totalmente independentes dos objetos reais contados ou pesados — o número dez, ou um quilo — que há muito esquecemos que tiveram de ser descobertos ou inventados. O sul da Mesopotâmia foi o lugar onde tudo isto foi alcançado pela primeira vez.
(págs. 20-21)
A Ascensão de Uruque
O conceito de cidade, manifestado pioneiramente na construção de Eridu, não permaneceu confinado àquela área por muito tempo. A urbanização espalhou-se rapidamente por toda a região da Suméria, começando por volta de 5000/4500 a.C. com o surgimento da cidade de Uruque, hoje entendida como a primeira cidade do mundo. Eridu, apontada pelos sumérios como a primeira cidade, pouco oferece nas suas ruínas que sugira ter sido alguma vez mais do que um centro sagrado, podendo mesmo ser definida como uma grande aldeia ou vila de acordo com os padrões dos estudos académicos contemporâneos.
Uruque, por outro lado, era um centro urbano enorme e o ponto de origem de vários avanços culturais importantes, sendo o mais notável a invenção da escrita por volta de 3200 a.C., mas também o berço do zigurate, de progressos em obras arquitetónicas em pedra e da criação do selo cilíndrico, que constituía a forma de identificação legal do cidadão. No seu apogeu, Uruque era a cidade mais poderosa, maior e mais rica da antiga Mesopotâmia e, de acordo com a literatura suméria, tal deveu-se ao facto de os meh — basicamente, as regras da civilização dadas pelos deuses — terem sido levados de Eridu para Uruque e, à medida que esta última ascendia em poder, a primeira definhava.
Uruque e Eridu na Mitologia
A mitologia suméria sustenta a tese de que Uruque suplantou Eridu no poema Inanna e o Deus da Sabedoria (íncipit: ga-ca-an-an-na-jen me-e ga-jen abzu-ce3). Nesta obra, a deusa Inanna, cuja morada fica em Uruque, viaja até Eridu para visitar o seu pai, Enki. Kriwaczek observa:
Os mesopotâmicos reconheciam Enki como o deus que traz a civilização à humanidade. É ele quem concede aos governantes a sua inteligência e conhecimento; é ele quem "abre as portas do entendimento"… não é o soberano do universo, mas sim o conselheiro sábio e o irmão mais velho dos deuses… Mais importante ainda, Enki era o guardião dos meh, que o grande assiriologista Samuel Noah Kramer explicou como o "conjunto fundamental, inalterável e abrangente de poderes e deveres, normas e padrões, regras e regulamentos, relativos à vida civilizada".
(pág. 30)
No início do poema, Inanna diz: "Dirigirei os meus passos para Enki, para o Apsu, para Eridu, e eu própria lhe falarei com brandura, no Apsu, em Eridu. Dirigirei uma súplica ao Senhor Enki", indicando claramente que deseja algo do seu pai. Enki parece estar ciente da sua vinda e instrui o seu servo para a acolher bem, para "lhe servir cerveja, em frente à porta do Leão, fazê-la sentir-se como se estivesse na casa de uma amiga, dar-lhe as boas-vindas como a uma colega".
Inanna senta-se a beber cerveja com o pai e, à medida que ficam progressivamente mais embriagados juntos, Enki oferece à filha um meh após outro, até ela ter mais de uma centena. Enki parece então desmaiar devido à bebida e Inanna, munida dos meh, apressa-se a sair de Eridu em direção a Uruk. Quando Enki acorda e descobre que perdeu os seus meh, envia o servo Isimud para os recuperar.
O resto do poema relata as tentativas fúteis de Isimud para impedir que Inanna chegue a Uruque com os meh. Ela consegue levar a "Barca do Céu até à Porta da Alegria" em Uruque e, "Onde a barca atracou no cais, ela batizou o lugar com o nome de Cais Branco" para comemorar o seu triunfo. O poema tem sido interpretado como uma representação, em forma simbólica, da transferência de poder e prestígio da cidade de Eridu para Uruque — e do desenvolvimento da urbanização que levou ao surgimento de outras cidades.
A Evidência Arqueológica
Esta versão dos acontecimentos provém, naturalmente, da mitologia suméria; contudo, desde que as escavações contínuas começaram em meados do século XIX, têm surgido amplas evidências sugerindo haver alguma verdade histórica por trás do poema. Eridu pareceu, de facto, declinar à medida que Uruque ascendia em prestígio, embora a cidade mais antiga tenha permanecido sempre um centro sagrado e um local de peregrinação.
À medida que novas escavações arqueológicas têm avançado no Próximo Oriente, contudo, os académicos começaram a questionar se a visão tradicional da urbanização (que teria começado na Suméria e se teria espalhado para norte) ainda pode ser considerada válida. A descoberta do assentamento de Tell Brak (na atual Síria), fundado por volta de 6000 a.C., parece sugerir a alguns estudiosos que a Revolução Urbana poderá ter começado no norte; a tese de que esta teria originado na Suméria apenas terá sido aceite porque os sumérios inventaram a escrita, o que fez com que a sua versão da história passasse a ser considerada a verdade, e, naturalmente, porque as primeiras escavações do século XIX ocorreram na Suméria.
Embora o assentamento de Tell Brak seja mais antigo do que Eridu, a questão de onde as cidades surgiram primeiro é mais bem abordada definindo o que se entende por "cidade" na antiguidade. O Professor M. E. Smith, da Universidade Estadual do Arizona, escreve:
O mais antigo grande assentamento urbano foi Tell Brak, na zona de agricultura de sequeiro do norte da Mesopotâmia. Durante o período de Uruque (3800-3100 a.C.), esta cidade consistia numa zona central de arquitetura pública cercada por um assentamento suburbano disperso com mais de 1 quilómetro quadrado de extensão. No final deste período, o sítio entrou em declínio e o foco do desenvolvimento urbano deslocou-se para o sul da Mesopotâmia.
(The Sage Encyclopedia of Urban Studies [Enciclopédia Sage de Estudos Urbanos], pág. 24)
O problema com esta afirmação, contudo, é que ela não aborda a definição de "cidade". Seria Tell Brak uma "cidade" ou uma grande vila ou aldeia? O Professor George Modelski, da Universidade de Washington, sustenta que não se tratava de uma cidade e baseia a sua tese na obra de 1987 do historiador Tertius Chandler, Four Thousand Years of Urban Growth. Chandler defende que uma cidade antiga deve ser definida pela dimensão da sua população. Modelski escreve:
Uma estimativa importante diz respeito a Uruque, que, com base no trabalho de Robert Adams (1967, 1981), é considerada a maior cidade do período inicial.
(pág. 3)
Tell Brak, de acordo com esta definição de cidade, seria considerada mais como um assentamento, uma vez que a população não parece ter sido suficientemente grande para a qualificar como um centro urbano. Este é, naturalmente, um método moderno de determinar o que é e o que não é uma cidade, e não há forma de saber como os antigos mesopotâmicos teriam definido "cidade" ou como olhariam para um assentamento como Tell Brak.
A Origem Suméria
O que é certo, contudo, é que, por qualquer razão, a Revolução Urbana começou na Mesopotâmia e, parece também certo, na região da Suméria. Relativamente às várias teorias sobre o porquê de ter acontecido na Suméria e não noutro lugar, Kriwaczek escreve que alguns académicos
veem a emergência da civilização como uma consequência inevitável de mudanças evolutivas na mentalidade humana desde o fim da última era do gelo… Mas nós, seres humanos, não somos bem assim; não reagimos de forma tão impensada. A verdadeira história teria de contemplar o eterno conflito entre progressistas e conservadores, entre os que olham para a frente e os que olham para trás, entre os que propõem "vamos fazer algo novo" e os que pensam que "os velhos hábitos são os melhores", os que dizem "vamos melhorar isto" e os que acham que "em equipa que ganha não se mexe". Nenhuma grande mudança cultural ocorreu alguma vez sem uma contestação deste género.
(pág. 21)
Era uma vez, na terra conhecida como Suméria, um povo que construiu um templo ao seu deus, o qual tinha conquistado as forças do caos e trazido ordem ao mundo. Esse povo continuou depois a obra do seu deus e estabeleceu a ordem por toda a terra sob a forma de cidade. A resposta à questão de saber por que razão isto aconteceu na Mesopotâmia, e não noutro lugar, pode ser mais bem encontrada ao considerar a cultura dessa sociedade em particular.
O povo da Mesopotâmia, independentemente da região ou da etnia, partilhava a preocupação comum de estabelecer e manter a ordem e, devido às suas crenças religiosas, uma quase obsessão com o controlo do mundo natural. Não deve surpreender, portanto, que uma cultura assim tenha sido a primeira a conceber e a construir a entidade urbana que mais completamente separa os seres humanos do seu ambiente natural: a cidade.
