Batalha de Omdurman

A Vingança da Grã-Bretanha pela Morte do General Gordon
Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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A 2 de setembro de 1898, a Batalha de Omdurman testemunhou o General Kitchener liderar um exército anglo-egípcio-sudanês rumo à vitória sobre 50.000 mahdistas no Sudão. A morte do General Gordon durante o cerco de Cartum, treze anos antes, fora finalmente vingada, em grande parte devido ao uso de armas ultramodernas e vastamente superiores. Um ano mais tarde, os britânicos venceriam a Guerra Mahdista (1881-1899), passando então a governar o Sudão como um protetorado em tudo menos no nome.

Mahdist Cavalry Charge, Omdurman
Carga da Cavalaria Mahdista, Omdurman Robert Talbot Kelly (Public Domain)

A Guerra Mahdista

A Guerra Mahdista começou no Sudão em 1881 como um movimento liderado pelo inspirador líder muçulmano Muhammad Ahmad (1844-1885), o autoproclamado Mahdi ou Messias da tradição islâmica. Os mahdistas rejeitavam o domínio colonial otomano-egípcio no Sudão, caracterizado pelos impostos elevados e pela supressão do lucrativo comércio de escravos. O Mahdi pretendia também difundir uma nova forma de Islão, tanto no Sudão como noutros locais — uma variante da fé que descreveu como "purgada de heresias e acréscimos" (Boahen, pág. 39). A rebelião espalhou-se rapidamente por várias províncias do país e derrotou facilmente os exércitos egípcios enviados para restaurar a ordem.

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Muhammad Ahmad insistia que os seus seguidores, conhecidos como ansares (ou Dervixes para os britânicos), vestissem a jibba, uma túnica de material remendado que simbolizava a rejeição dos bens materiais. Quando o exército mahdistas avançava para a batalha, cavalgava os seus cavalos e camelos precedido por grandes bandeiras vermelhas, verdes e pretas, inscritas com citações do Alcorão.

Os mahdistas capturaram El Obeid em janeiro de 1883 e, em novembro, derrotaram um numeroso exército egípcio sob o comando do coronel britânico William Hicks. Estas vitórias trouxeram o benefício adicional de centenas de espingardas modernas e uma quantidade considerável de peças de artilharia de campanha. Um estado mahdistas foi estabelecido no oeste do Sudão e expandiu-se lentamente.

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Map of the Mahdist State
Mapa do Estado Madista US Federal Government (Public Domain)

A partir do final de 1882, o Egito foi ocupado e passou a ser administrado pelos britânicos como um protetorado. O governo britânico tinha dois objetivos nesta região de África: controlar o Canal de Suez, preservando assim a rota marítima vital entre a Europa e a Índia Britânica, e controlar o Sudão, uma vez que o rio Nilo atravessa o país e é essencial para a sobrevivência do Egito. No entanto, o Primeiro-Ministro britânico, William Gladstone, estava relutante em iniciar outra guerra colonial dispendiosa no Sudão; por isso, em vez de enviar um exército, optou por enviar o carismático General Charles Gordon (1833-1885). Gordon, que já era um herói nacional após as suas proezas na China, recebeu instruções para evacuar as guarnições egípcias restantes, incluindo a da capital, Cartum. O general ignorou a ordem e, em vez disso, decidiu tentar manter Cartum até que fosse enviado um exército de socorro britânico. Os mahdistas cercaram Cartum de março de 1884 a janeiro de 1885 e, embora Gladstone tenha acabado por ceder e enviado uma expedição de socorro, esta chegou dois dias demasiado tarde. Os mahdistas já tinham saqueado Cartum e matado Gordon.

Nos anos que se seguiram à queda de Cartum, o Mahdi morreu, mas o seu estado continuou a florescer sob o comando do seu sucessor.

A indignação pública perante a morte de Gordon e a relutância do governo em enviar-lhe auxílio significaram que as autoridades britânicas foram obrigadas a contra-atacar os mahdistas, que controlavam agora praticamente todo o Sudão, à exceção das suas regiões fronteiriças. Contudo, uma crise no Afeganistão — onde o "Grande Jogo" (Great Game) do imperialismo asiático estava a ser disputado entre a Grã-Bretanha e a Rússia — adiou a intervenção militar britânica no Sudão por mais de uma década.

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O General Kitchener

Quando a decisão de enfrentar a crise no Sudão foi finalmente tomada em 1896, o General Horatio Herbert Kitchener (1850-1916) foi o homem escolhido para liderar um numeroso exército anglo-egípcio-sudanês e vingar a morte de Gordon. Kitchener possuía uma vasta experiência no Médio Oriente, tinha servido na expedição de socorro a Gordon e derrotara os mahdistas quando estes atacaram o Egito em 1888. Kitchener era "um comandante severo, implacável e meticuloso que não iniciava qualquer operação sem uma preparação a cem por cento" (Featherstone, pág. 9). O ambicioso general, a quem foi atribuído o título de Sirdar (Comandante) do Exército Egípcio, não era certamente do agrado de todos. Como nota o historiador Laurence James: "Kitchener era um soldado de energias consideráveis, a maioria das quais canalizada para a promoção da sua carreira". Kitchener foi, sem dúvida, bem-sucedido na sua ascensão ao topo, uma vez que viria a comandar na Segunda Guerra dos Bôeres, tornar-se-ia marechal de campo e serviria como comandante-chefe na Índia Britânica. O rosto de Kitchener, com os seus olhos azuis penetrantes e o distintivo bigode eriçado, foi memoravelmente utilizado em cartazes de recrutamento para a Primeira Guerra Mundial (1914-18), altura em que serviu como Secretário de Estado da Guerra.

Kitchener as Sirdar of the Egyptian Army
Kitchener como Sirdar do Exército Egípcio Robinson, C.N. (Public Domain)

Nos anos decorridos desde a queda de Cartum, o Mahdi morrera, mas o seu estado continuava a florescer sob o comando do sucessor escolhido, o Califa 'Abdullah. Os mahdistas, procurando expandir o seu estado, tinham avançado para atacar o Egito, a Etiópia e o Estado Livre do Congo (o precursor do Congo Belga) com variados graus de sucesso. Claramente, o estado mahdista era uma ameaça à estabilidade de toda a região. Era tempo de afirmar o controlo britânico no Sudão. Outra consideração prendia-se com o facto de um dos grandes rivais coloniais da Grã-Bretanha, a França, estar também interessado nesta zona de África.

Acreditava-se que, no final da década de 1890, o exército mahdista tivesse crescido para 50 000 ou mesmo 60 000 homens. Kitchener liderou metodicamente o exército, muito mais pequeno — composto por 7 500 soldados britânicos e 12 500 egípcios — subindo o Nilo, acompanhado por uma flotilha de canhoneiras. O progresso era lento, uma vez que Kitchener insistia na construção de uma linha férrea, a Sudan Military Railway, à medida que avançava, para garantir que o seu exército pudesse ser facilmente reabastecido. Um membro desta força, então um mero tenente, era Winston Churchill. Havia também um pequeno exército de correspondentes de guerra que acompanhava a expedição e enviava relatos regulares para a Europa. A cada etapa do caminho, o exército protegia-se construindo trincheiras e uma cerca de arbustos espinhosos (zariba) em redor do acampamento mais recente.

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O Prelúdio: A Batalha de Atbara

Em junho de 1896, Kitchener derrotou uma pequena força mahdista perto de Firket. Em setembro do mesmo ano, tinha alcançado Dongola, onde derrotou outro contingente inimigo. Até então, não surgira qualquer oposição de relevo ao progresso pausado da expedição. Em julho de 1897, a cidade estratégica de Berber foi tomada. Em março de 1898, Kitchener estava finalmente pronto para partir de Berber e atacar Cartum, mas primeiro teria de enfrentar um exército mahdista em Atbara. O exército de Kitchener estava equipado com as mais recentes espingardas de longo alcance e com as espingardas Lee-Metford com carregador, que já não exigiam que o soldado de infantaria colocasse uma bala de cada vez na câmara. Outro desenvolvimento tecnológico foi o uso de munições de cordite, que produziam muito menos fumo do que anteriormente, o que representava uma vantagem por duas razões: a posição do atirador não era revelada ao inimigo e a linha de atiradores não ficava com a visão obstruída após as primeiras descargas.

Battle of Omdurman by Sutherland
Batalha de Omdurman, de Sutherland A. Sutherland - Wellcome Collection (CC BY)

O exército de Kitchener possuía também as mais recentes metralhadoras Maxim (muito menos propensas a encravar do que as antigas metralhadoras Gatling) e diversas peças de artilharia pesada. Com esta vantagem em poder de fogo, não é de estranhar que os mahdistas tenham sido derrotados na Batalha de Atbara, a 8 de abril de 1898. Kitchener utilizou a sua artilharia para bombardear o acampamento inimigo ao amanhecer e, em seguida, avançou de forma avassaladora utilizando a cavalaria. O exército mahdista sofreu 3 000 mortos e 4 000 feridos. O exército anglo-egípcio registou 493 feridos e apenas 81 mortos. Após reagrupar e reabastecer as suas tropas através da linha férrea, Kitchener avançou para Omdurman a 1 de setembro.

Omdurman

Kitchener dispunha agora de cerca de 25 000 homens ao acampar perto da cidade de Omdurman, mantendo-se ainda sob a proteção do Nilo. Havia regimentos de infantaria, unidades de artilharia, cavalaria montada e o Corpo de Camelos (Camel Corps). Os uniformes cáqui tinham agora substituído por completo as antigas túnicas escarlates. O capacete colonial continuava a ser usado, mas tinha agora uma cobertura cáqui para ocultar o branco conspícuo por baixo. Os soldados egípcios e sudaneses também vestiam uniformes cáqui, mas punham um fez de várias cores.

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O exército mahdista contava com cerca de 50 000 homens. Milhares estavam equipados com espingardas de retrocarga e mosquetes mais antigos, mas a maioria estava armada com enormes espadas de dois gumes e lanças. Embora a maioria dos mahdistas vestisse a jibba, alguns punham cotas de malha e elmos de aço. Este foi, talvez, um dos últimos grandes exércitos de era medieval a ser visto num campo de batalha.

Mahdist Jibba
Jibba Madista Geni (CC BY-SA)

A batalha teve lugar na vasta e plana planície de Kerrari, a poucos quilómetros da cidade. A primeira fase do confronto envolveu os barcos a vapor armados de Kitchener, que bombardearam Omdurman durante cerca de 50 minutos. Durante este bombardeamento, a impressionante cúpula de pedra sobre o túmulo do Mahdi foi destruída.

Os atiradores do exército britânico eram capazes de disparar 12 tiros por minuto.

O exército mahdista saiu da cidade, com todas as bandeiras desfraldadas, as trombetas a soar e os tambores a rufar, enquanto se aproximavam diretamente dos invasores. Os guerreiros abafavam inclusivamente este ruído com os seus gritos de La ilaha illa-llah («Não há outro deus senão Alá»), um coro inquietante que, à distância, soava como o rolar das ondas numa praia de seixos. Kitchener e o seu exército de alta tecnologia do final do século XIX esperaram pacientemente que o inimigo entrasse no alcance de tiro. A confiança era elevada, especialmente porque a retaguarda do acampamento estava protegida pelo Nilo, de onde as canhoneiras podiam somar o seu fogo de artilharia à batalha. À direita do acampamento, nas colinas próximas de Kerreri, as unidades de cavalaria aguardavam a oportunidade de expulsar o inimigo do campo. Kitchener estava confiante, mas também consciente de que a dimensão colossal do exército inimigo tornaria inevitável um elevado número de baixas. O general mandou preparar várias barcaças para servirem de hospitais, onde os feridos poderiam ser retirados do acampamento para a maior segurança do rio.

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G. W. Steevens, um jornalista que acompanhava o exército de Kitchener, descreve a primeira descarga de fogo contra a carga dos mahdistas:

Eles vinham muito depressa, vinham muito direitos e, de repente, não avançaram mais. Com um estrondo, as balas saltaram das espingardas britânicas… descargas de secção a 2 000 jardas… Os britânicos mantiveram-se de pé numa linha dupla atrás da sua zariba; os negros deitaram-se na sua trincheira de abrigo; ambos despejavam morte tão depressa quanto conseguiam carregar e premir o gatilho… E o inimigo? Nenhumas tropas brancas teriam enfrentado aquele torrente de morte por cinco minutos… Via-se uma linha rígida recompor-se e avançar uniformemente; depois, perante uma granada de metralha ou uma Maxim, a linha subitamente tremia e parava… Eles nunca conseguiam aproximar-se e recusavam-se a recuar. Por esta altura, o chão à nossa frente estava todo branco com as vestes dos mortos. As espingardas ficavam em brasa; os soldados agarravam-nas pelas bandoleiras e arrastavam-nas para a reserva para as trocar por outras frias. Não foi uma batalha, foi uma execução.

(Wilkinson-Latham, pág. 34)

Charge of the 21st Lancers at Omdurman
Carga dos 21.º Regimento de Lanceiros em Omdurman Edward Matthew Hale (Public Domain)

A artilharia britânica disparou granada após granada contra o inimigo nos primeiros minutos da batalha. Os atiradores do Exército Britânico juntaram-se então à ação, sendo capazes de efetuar 12 disparos por minuto. O destino do ataque da infantaria mahdista era inevitável; até mesmo os grupos de cavalaria mahdista foram ceifados antes de conseguirem aproximar-se dos homens de Kitchener. Atacar metralhadoras em carga era, efetivamente, um ato de suicídio.

Kitchener, em vez de permitir mais cargas contra as suas linhas (uma estratégia que poderia vir a sobrecarregá-las pelo simples peso numérico), ordenou que os seus homens lançassem um contra-ataque. A carga dos 21.º Regimento de Lanceiros, embora realizada de forma temerária, sem um plano e atravessando terreno desconhecido que poderia ter causado o caos entre os cavalos, garantiu que o inimigo não batesse em retirada para Omdurman. Os Lancers tiveram de superar um número de adversários superior ao esperado quando 3 000 dervixes se revelaram no interior de uma trincheira profunda, mas o contra-ataque foi bem-sucedido. Três Cruzes de Vitória, a mais alta condecoração militar da Grã-Bretanha, foram atribuídas aos Lancers. Ao meio-dia, a batalha estava terminada.

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Em Omdurman, pelo menos 11 000 mahdistas foram mortos, 6 000 ficaram feridos e 5 000 foram feitos prisioneiros. O total de baixas anglo-egípcio-sudanesas cifrou-se em 291. Como Kitchener afirmou com sobriedade: "Creio que o inimigo levou uma boa tareia" (Asher, pág. 401). A elite da nação sudanesa fora aniquilada. Omdurman foi então ocupada e saqueada. O túmulo do Mahdi foi totalmente destruído. No dia seguinte, Kitchener presidiu a uma cerimónia fúnebre em memória do General Gordon.

Ruined Mahdi's Tomb, Omdurman
Ruínas do Túmulo do Mahdi, Omdurman Marques Fiorillo - TIMEA (CC BY-SA)

O Rescaldo

A política de Kitchener de deixar os feridos inimigos sem assistência no campo de batalha não impediu que substituísse Gordon como o novo herói nacional militar britânico. Contudo, o governo britânico ficou bastante menos encantado com Kitchener devido aos relatos de brutalidade pós-batalha, execuções sem julgamento e à história de que ele exumara os ossos do Mahdi e os atirara ao Nilo (com exceção do crânio, que fora convertido num tinteiro). A desonra foi tal que um grupo de deputados no Parlamento Britânico recusou-se a apoiar o plano de pagar a Kitchener um prémio em dinheiro pelo seu sucesso na campanha sudanesa. No final, Kitchener recebeu o seu prémio de £30.000 e foi nomeado barão; o título por si escolhido foi Kitchener de Cartum. Kitchener fez uma doação ao novo Gordon Memorial College em Cartum.

O Califa 'Abdullah, no entanto, não foi capturado em Omdurman e, com os seus 10 000 seguidores restantes, continuou a rebelião a partir da província de Kordofan. A Guerra Mahdista chegou finalmente ao fim em novembro de 1899, quando o exército do Califa 'Abdullah foi derrotado na Batalha de Umm Diwaykarat (também conhecida como Um Debreikat).

Após afastar uma força expedicionária francesa rival em Fashoda (um episódio conhecido como o Incidente de Fashoda, que quase deu início a uma guerra entre as duas potências coloniais), Kitchener foi nomeado Governador Militar de todo o Sudão. Foi estabelecido um governo administrativo moderno e o Sudão foi governado como um protetorado britânico em tudo menos no nome. O Sudão não obteve a independência até 1956. A Batalha de Omdurman é o clímax do filme de 1939 de Zoltan Korda, As Quatro Penas (The Four Feathers), e das suas várias adaptações.

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Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Tradutora e autora, o gosto pelas letras é infindável – da sua concepção ao jogo de palavras, da sonoridade às inumeráveis possibilidades de expressão.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
O Mark é o Diretor Editorial da WHE e é mestre em Filosofia Política pela Universidade de York. Investigador a tempo inteiro, é também escritor, historiador e editor. Os seus interesses particulares incluem a arte, a arquitetura e a descoberta das ideias partilhadas por todas as civilizações.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Cartwright, M. (2026, abril 27). Batalha de Omdurman: A Vingança da Grã-Bretanha pela Morte do General Gordon. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2916/batalha-de-omdurman/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "Batalha de Omdurman: A Vingança da Grã-Bretanha pela Morte do General Gordon." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, abril 27, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2916/batalha-de-omdurman/.

Estilo MLA

Cartwright, Mark. "Batalha de Omdurman: A Vingança da Grã-Bretanha pela Morte do General Gordon." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 27 abr 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2916/batalha-de-omdurman/.

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